
O FANTASMA

Danielle Steel

Reviso e Formatao:
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Danielle Steel

Ttulo original: The ghoste
Traduo: Eduardo Francisco Alves



Reviso e Formatao:
Lcia Helena T.Telles























Para Tom,
como esperana e um novo princpio, com todo o meu amor,
D. S.

RESUMO DE CAPA:

A vida de Charles, um arquiteto de prestgio, desmorona por completo quando sua esposa, por quem est perdidamente apaixonado, deixa-o por outro homem. Desesperado 
abandona Londres e volta para Nova York, onde a situao tambm vai de mal a pior. Decide passar uma temporada em um pequeno povoado para refletir sobre sua existncia. 
No entanto, no imagina que uma simples histria de amor, ocorrida h muitos anos, o ajudar a reorganizar sua vida, dando-lhe um sentido que j acreditava haver 
perdido para sempre...


















1
CAPTULO 1

        SOB A CHUVA FUSTIGANTE de um dia de novembro, o txi de Londres at o aeroporto de Heathrow levou uma eternidade. Estava to escuro que parecia fim de tarde, 
e Charlie Waterston mal conseguia ver do outro lado do vidro, enquanto marcos familiares iam ficando para trs. Eram apenas dez horas da manh. E ao apoiar a cabea 
no banco e fechar os olhos, sentiu-se to sombrio quanto o tempo que o cercava. Era difcil acreditar que tudo havia chegado ao fim. 
        Dez anos em Londres estavam acabados, concludos, encerrados, subitamente tinham ficado para trs. Mesmo agora era difcil acreditar no que acontecera. Tudo 
tinha sido absolutamente perfeito quando comeou. 
Representara o incio de uma vida, de uma carreira, uma dcada de empolgao e felicidade para ele, em Londres. E agora, de repente, aos 42 anos, sentia-se como 
se os bons tempos tivessem chegado ao fim. 
        Dera incio  viagem longa e lenta de descida pelo outro lado da montanha. Durante o ltimo ano sentira como se sua vida estivesse se desfazendo, lenta e 
inexoravelmente. A realidade desse acontecimento ainda o espantava. E, quando o txi parou finalmente em frente ao aeroporto, o motorista virou-se e olhou para ele 
com uma sobrancelha erguida. 
        - Voltando aos Estados Unidos, no , senhor? 
        Charlie hesitou por uma frao de segundo e depois assentiu com a cabea. 
Sim, estava. Voltando aos Estados Unidos. Aps dez anos em Londres. Nove deles com Carole. Agora acabados. Tudo. Numa questo de momentos. 
        - Sim, estou - disse, no parecendo ser ele prprio, mas o motorista no tinha como saber. 
        Tudo que podia ver era um homem bem vestido num terno ingls de bom corte e uma capa de chuva Burberry. 
        Trazia consigo um guarda-chuva caro, uma pasta muito usada, na qual carregava contratos e documentos. Mas mesmo com todos os seus acessrios to bem escolhidos, 
no parecia ingls. Parecia exatamente o que era, um belo americano que vivera na Europa durante alguns anos. 
        L, sentia-se completamente em casa. E sentia-se agora aterrorizado pelo fato de estar partindo. No conseguia sequer imaginar viver em Nova York de novo. 
Mas havia sido forado a isso e a escolha do momento fora perfeita. 
        De qualquer maneira, no havia mais sentido em permanecer sem Carole. Ao pensar nela, sentiu como se uma pedra estivesse esmagando seu corao, enquanto 
saltava do txi e dava uma gorjeta ao carregador para levar sua bagagem. S trouxera duas pequenas malas. O resto estava sendo guardado para ele num depsito. 
        Foi at o balco para o controle de embarque e sentou-se em seguida na sala de espera da primeira classe, aliviado ao ver que no havia ali ningum que ele 
conhecesse. Era uma longa espera para entrar no avio, mas trouxera bastante trabalho e ocupou-se com isso at a chamada para o vo. Esperou como sempre fazia e 
foi o ltimo a subir a bordo. E quando as aeromoas o levaram at o lugar e pegaram seu casaco, seu cabelo castanho-escuro e olhos castanhos clidos no passaram 
despercebidos. Ele era alto, tinha membros longos e atlticos e era inegavelmente atraente. 
        Alm do mais, no usava aliana e a mulher do outro lado do corredor e a aeromoa que pegou o seu casaco no puderam deixar de notar. Mas ele no prestou 
a menor ateno em nenhuma delas, ao deixar-se cair na poltrona junto  janela. Ficou olhando para a chuva que caa sobre a pista. 
Era impossvel no pensar no que havia acontecido, impossvel no refazer tudo em sua mente, de forma incessante, como que buscando a fenda por onde o vazamento 
havia comeado, o lugar onde a alma de seu relacionamento havia comeado a escorrer sem que ele sequer percebesse. Tudo ainda lhe parecia incrvel. 
        Como pde ser to cego? Como pde ficar sem saber? Como pde ter acreditado que eram to perfeitamente felizes, enquanto ela escorregava por entre seus dedos? 
Ser que tudo havia mudado de repente, ou ser que nunca tinha sido aquilo de que ele sempre se sentira to seguro? Vivera absolutamente convencido de que eram totalmente 
felizes e ainda achava que haviam sido. at o fim. at o ano passado. at que ela lhe contou. at Simon. 
        Aquilo fazia Charlie se sentir idiota. Tinha sido to tolo, voando de Tquio para Milo, desenhando prdios de escritrio, enquanto Carole representava clientes 
para sua firma de advocacia por toda a Europa. Eles viviam ocupados, s isso, cada qual com sua prpria vida. Eram planetas em rbitas separadas. Mas nunca houve 
dvidas na cabea de ningum sobre como aquilo tudo era perfeito, como era exatamente o que eles queriam, sempre que estavam juntos. 
        At Carole parecia surpresa pelo que fizera, mas o pior a respeito de tudo aquilo era que ela no estava disposta a desfaz-lo; ela havia tentado, mas no 
final entendeu que no poderia. 
        Uma das aeromoas ofereceu-lhe uma bebida antes da decolagem, mas Charlie no aceitou. Ela entregou-lhe ento o cardpio, fones de ouvido e a lista de filmes. 
Nada daquilo o atraiu. S queria pensar, organizar tudo de novo na cabea, como se o resultado pudesse ser diferente, caso ele pensasse a esse respeito por bastante 
tempo e, desta vez, sair-se com as respostas certas. 
s vezes tinha vontade de gritar, bater com o punho numa parede, sacudir algum. Por que ela estava fazendo aquilo com ele? Por que aquele babaca havia aparecido 
e destrudo tudo que ele e Carole tinham desejado? E, no entanto, at mesmo Charlie sabia que no era culpa de Simon; sendo assim, no restava ningum para culpar, 
a no ser ele prprio e Carole. 
        Ele s vezes se perguntava por que era to importante atribuir culpa a algum. Tinha de ser culpa de algum e, ultimamente, ele tendia a culpar a si prprio. 
Devia ter feito alguma coisa para levar Carole a dar-se para outro. 
        Ela disse que havia acontecido mais de um ano antes enquanto trabalhavam juntos num caso, em Paris. Simon. St. James era scio snior de sua firma de advocacia. 
Gostava de trabalhar com ele, s vezes ria das coisas dele, contava como ele era inteligente e como era um escndalo com as mulheres. J tivera trs esposas e vrios 
filhos. Era afvel, arrojado, bonito e extremamente charmoso. 
        Tambm tinha 61 anos, e Carole, 39. Ela era apenas 2 anos mais nova do que Charlie, 22 anos mais moa do que Simon. no adiantava lembrar-lhe de que ele 
era velho o suficiente para ser seu pai. Ela sabia de tudo isso, era uma garota esperta, sabia que isso era uma coisa maluca - e o que havia feito a Charlie. Essa 
era a pior parte, no quis magoar ningum. Havia acontecido, s isso. Carole tinha 29 anos, era bela, extremamente brilhante e tinha  um emprego sensacional em uma 
firma de advocacia de Wall Street. 
        Vinham se encontrando h um ano, antes de Charlie ser transferido para dirigir o escritrio londrino de sua firma de arquitetura, a Whittak Jones, mas a 
coisa entre os dois nunca tinha sido sria. 
        Ele foi transferido de Nova York, onde havia trabalhado para eles durante dois anos e estava encantado. Ela foi a Londres s de farra, para v-lo, e no 
tinha a menor inteno de ficar. 
        Mas apaixonou-se por Londres e, depois, por ele. L era diferente, tudo era mais romntico. Ela comeou a ir para l de avio sempre que podia, para v-lo 
nos fins de semana. Era a vida perfeita para os dois. 
        Esquiavam em Davos, Gstaad e St. Moritz. Ela freqentara a escola na Sua, quando o pai trabalhara na Frana, e tinha amigos por toda a Europa. L, estava 
completamente  vontade. Falava alemo e francs com fluncia, entrosava-se perfeitamente na vida social londrina, e Charlie a adorava. 
        Aps seis meses para l e para c, ela conseguiu um emprego no escritrio londrino de uma firma de advocacia americana. 
        Eles compraram uma velha cocheira em Chelsea, para onde se mudou com ele, e pareciam duas pessoas loucas, vibrantes, felizes. Passavam quase que todas as 
noites danando no Arinabel's, a princpio, descobrindo todos aqueles pequenos e maravilhosos lugares que poucos conheciam, restaurantes, lojas de antiguidades e 
clubes noturnos em Londres. Era o paraso. As antigas cocheiras transformadas em casas eram um dos tipos de moradia mais sofisticados em Londres, mas a que eles 
compraram se encontrava em tal estado de abandono, que eles levaram quase um ano para restaur-la. 
        Mas depois de concluda, ficou espetacular, um trabalho de amor para ambos, e eles a encheram com todas as coisas bonitas e maravilhosas que haviam reunido. 
Iam de carro pelo campo, encontrando portas velhas e antiguidades notveis, e quando se cansaram de viajar pela Inglaterra comearam a passar fins de semana em Paris. 
Levavam uma vida sofisticada e, entre as vrias viagens a negcios, acabaram se casando e passaram a lua-de-mel no Marrocos, num palcio que Charlie alugara. Tudo 
que haviam feito fora elegante, agradvel e empolgante. 
        Eram o tipo de pessoas que todo mundo queria conhecer, ou em companhia dos quais todos queriam estar. Davam festas sensacionais, faziam coisas divertidas 
e conheciam todas as pessoas interessantes. Aonde quer que fossem, as pessoas adoravam estar perto. E Charlie adorava estar com ela, mais do que qualquer outra coisa. 
Era louco por ela. 
        Carole era alta, esguia e loura, membros perfeitos num corpo que parecia ter sido esculpido em mrmore branco; tinha um riso que soava como sinos, uma voz 
que ainda o deixava zonzo, sempre que a ouvia. 
        Essa voz de Carole era profunda, sensual, e s de ouvi-la dizer seu nome ele tremia por dentro, dez anos depois. Era o auge da vida de dois profissionais, 
duas pessoas influentes, inteligentes, interessantes, bem-sucedidas. A nica coisa que no tinham, nem queriam, nem precisavam eram filhos. Haviam conversado a esse 
respeito vrias vezes, mas nunca lhes parecia a hora certa. Carole tinha muitos clientes importantes e extremamente exigentes. 
        Para ela, esses eram seus filhos. E Charlie, na verdade, no se importava. Ele gostava da idia de ter uma garotinha que se parecesse com ela, mas na verdade 
estava louco demais por Carole para querer dividi-la. 
        O fato  que nunca tinham resolvido no ter filhos, eles simplesmente no os fizeram. E, nos ltimos cinco anos, foram conversando sobre isso cada vez menos. 
A nica coisa que o incomodava era que, agora que seus pais haviam morrido, Charlie no tinha qualquer outra famlia alm de Carole. Nem primos, nem avs, nem tios 
e tias, nem irmos. Ele s tinha Carole e a vida que partilhavam. Ela era tudo para ele e, agora percebia, alm da conta. 
        No havia nada em sua vida com ela que ele gostaria de ter mudado, durante esses anos. No que lhe dizia respeito, a vida que haviam construdo juntos era 
a perfeio. Nunca estava chateado com ela, nunca cansado dela, raramente discutiam. Nenhum dos dois parecia ligar para o fato de que o outro viajava em excesso. 
No mximo, isso tornava mais excitante a volta a Londres. 
        Ele adorava voltar de uma viagem e encontr-la deitada no sof da sala lendo um livro ou, melhor ainda, deitada em frente ao fogo, cochilando. O mais freqente 
era ela ainda estar no trabalho quando ele voltava de Bruxelas, Milo ou Tquio, ou onde quer que tenha estado. Mas quando ela estava em casa, era totalmente dele. 
Carole era boa nisso. 
        Nunca o deixava sentir que ele vinha depois do trabalho dela. Se ele ocasionalmente ficava em segundo plano, quando ela tinha um caso importante ou um cliente 
difcil, Carole tomava o cuidado de no deix-lo perceber. 
        Ela o fazia sentir como se o mundo girasse em torno dele. e girava. durante nove anos sensacionais, ento, de repente. no girava, e ele sentiu-se como se 
sua vida houvesse acabado. 
        Enquanto seguia inexoravelmente para Nova York, Charlie no podia evitar um retorno no tempo. A questo comeara exatamente quinze meses antes, em agosto. 
        Ela lhe dissera isso, quando finalmente contou-lhe tudo. Sempre fora honesta com ele. Honesta, sincera, leal. 
        Alm do fato de parecer ter deixado de am-lo, ele no tinha nada a reprovar nela. Ela e Simon vinham trabalhando juntos em Paris h seis semanas. Era um 
caso importante, repleto de tenso, e Charlie estava num estgio delicado de uma negociao importante com clientes novos de grande monta, em Hong Kong. Estava l 
praticamente todas as semanas, durante quase trs meses, e os problemas ligados ao caso quase o levaram  loucura. 
        Mal tinha um minuto para passar com ela, o que era raro para ele, e com toda certeza no era nenhuma desculpa para o que ela fizera, a prpria Carole concordava 
com isso. Mas no fora a sua ausncia que acabara com ele, ela explicou. foi apenas o tempo. o destino. e Simon. Ele era notvel e ela estava apaixonada. 
Ele a virara de cabea para baixo, e Carole sabia que aquilo era errado, mas insistia em que no pudera evitar. Tentara resistir a tudo que sentira por Simon, a 
princpio, mas acabou descobrindo que simplesmente no podia. Ela o admirava h tempo demais, gostava dele demais e, de certa forma, descobrira que tinham coisas 
demais em comum. 
        Era do jeito que tinha sido com Charlie muito tempo atrs, quando tudo ainda era empolgante e divertido, bem l no comeo. Mas quando foi que tudo mudou?, 
perguntara Charlie, queixoso, enquanto conversavam a respeito numa tarde chuvosa, caminhando pelo Soho. Ainda era divertido, ele insistiu com ela, desconsolado. 
Ainda era exatamente como fora antes. 
        Tentou convenc-la, mas Carole limitou-se a fit-lo e sacudir a cabea imperceptivelmente enquanto ouvia. 
        No era mais divertido, disse ela entre lgrimas, era diferente. Eles tinham vidas separadas, necessidades separadas, passavam tempo demais com outras pessoas. 
E, de certa forma, achava que nunca haviam evoludo. Mas Charlie no compreendia isso. 
        E, ao contrrio de estar sempre longe de Charlie, como vinha acontecendo h anos por causa de suas viagens, ela adorava estar com Simon dia aps dia e disse 
que ele cuidava dela de uma forma que Charlie no fazia. 
        Como ele lhe suplicara que explicasse, ela tentou faz-lo, s para descobrir que no podia. Era mais do que apenas o que Simon fazia, era o mundo complicado 
dos sonhos, das necessidades e dos sentimentos. Eram todas as pequenas e inexplicveis subtilezas que levam voc a amar algum, mesmo quando gostaria que no fosse 
assim. 
        Ela e Charlie haviam chorado quando ela disse isso. Disse a si mesma que o caso com Simon era s uma aventura, quando finalmente cedeu a ele. No seria mais 
do que uma imprudncia temporria, prometeu a si mesma, e tinha realmente essa inteno. 
        Era a primeira e nica vez que tinha um caso e no queria fazer nada que acabasse de vez com o casamento deles. Tentou romper com Simon quando foram para 
casa, e ele disse que entendia perfeitamente. Ele j tivera casos antes e admitira para ela que, durante seus prprios casamentos, freqentemente fora infiel. Lamentava 
isso, explicou, mas conhecia muito bem o terreno da traio e da imprudncia. 
        Estava solteiro na poca, mas compreendia perfeitamente os sentimentos de culpa de Carole e de obrigao para com o marido. 
        Mas aquilo com que nenhum dos dois havia contado era o quanto iriam sentir falta um do outro, assim que voltassem para suas casas, vivendo longe um do outro 
em Londres. Nenhum dos dois conseguia suportar mais a separao. 
Comearam a sair do escritrio juntos s tardes, para ir at o apartamento dele, s vezes s para conversar, para que ela pudesse expressar seus sentimentos, e Carole 
descobriu que o que mais apreciava nele era o modo como entendia tudo to bem, como era solcito com ela, o quanto a amava. 
        Dispunha-se a fazer qualquer coisa s para estar perto dela, ainda que isso significasse ser apenas amigos e no mais amantes. Ela tentou ficar longe dele, 
mas descobriu que no podia. Charlie se ausentava da cidade a maior parte do tempo, ela ficava sozinha e Simon estava presente, ansiando por ela, tal como ela ansiava 
por ele. 
        Nunca se dera conta antes de como se sentia sozinha, do quanto Charlie era ausente e do quanto significara para ela estar com Simon. O aspecto fsico no 
caso com Simon recomeou dois meses depois de terem tentado encerr-lo. E, depois disso, sua vida passou a ser um engano s, encontrando-se com ele depois do trabalho 
quase todas as noites e fingindo estar trabalhando juntos nos fins de semana. 
        Ele na verdade permanecia na cidade a maior parte do tempo, para estar com ela, e quando Charlie viajava iam at a casa dele em Berkshire, para passar o 
fim de semana. Ela sabia que era errado o que fazia, mas era como estar possuda. Descobriu que no conseguia parar com aquilo. 
        Por volta do Natal daquele ano, as coisas estavam perceptivelmente tensas entre Carole e Charlie. Ele enfrentava uma crise com a construo de um prdio 
em Milo, ao mesmo tempo em que um negcio em Tquio tinha dado errado, e com isso nunca estava presente. E quando estava se encontrava exausto, defasado com o fuso 
horrio, ou de mesmo pssimo humor. 
        E embora no tivesse a inteno, o mais freqente era descarregar em Carole quando a via, o que no era freqente. Estava constantemente voando para algum 
lugar, a fim de resolver um problema. Era o tipo de perodo que deixava ambos contentes por nunca ter tido filhos. 
        E fazia com que Carole percebesse mais uma vez como seus mundos eram separados. No sobrava tempo para conversar, para ficar juntos, ou para partilhar sentimentos. 
        Ele tinha o seu trabalho, Carole o dela, e tudo que restava no meio-tempo eram umas poucas noites por ms juntos na mesma cama, e uma srie de festas e jantares 
a que compareciam. 
        Ela de repente se perguntou o que eles haviam construdo, o que haviam feito, o que realmente partilhavam, se  que partilhavam alguma coisa. 
        Ou seria tudo apenas uma iluso vazia? J no sabia mais dizer com facilidade se o amava ou no. E, atravs de tudo isso, Charlie estava to envolvido com 
seu prprio trabalho e suas prprias preocupaes que no teve a menor desconfiana de que alguma coisa  incomum havia acontecido. No fazia ideia de que Carole 
vinha escorregando inexoravelmente por entre os seus dedos desde o vero anterior. 
        Passou a vspera de Ano-Novo sozinho em Hong Kong, enquanto Carole passou-a no Annabel's, com Simon. E Charlie estava to envolvido nos negcios que se esqueceu 
de telefonar para ela. 
        Tudo chegou ao auge em fevereiro, quando Charlie voltou de Roma inesperadamente e descobriu que ela estava passando o fim de semana fora. Carole no disse 
nada a ele desta vez, sequer alegou estar com amigos, e algo no jeito dela, quando voltou para a casa na noite de domingo, provocou-lhe um tremor um tanto desconfortvel. 
Ela parecia radiante, bonita e relaxada, do modo como costumava parecer quando ficavam na cama e faziam amor o fim de semana inteiro. Mas quem ainda tinha tempo 
para isso? Eram ambos pessoas ocupadas. Na verdade, ele fez um comentrio casual a esse respeito, naquela noite, mas no estava de fato preocupado. 
        Alguma coisa l no seu interior ficara alerta, mas o resto de sua mente ainda estava dormindo. Foi Carole quem desabafou, e acabou contando-lhe tudo. 
        Ela sabia que, num nvel subconsciente, algo mexera com ele, e no queria esperar que algo desagradvel acontecesse, por isso voltou para casa do trabalho 
tarde, certa noite, e contou-lhe. 
        Ele se limitou a ficar sentado, olhando para ela com lgrimas nos olhos, enquanto ouvia. Ela contou tudo, quando comeou, at onde tinha ido. 
        A essa altura j fazia cinco meses, com uma breve interrupo aps o regresso de Paris, ocasio em que ela tentou parar de ver Simon e descobriu que no 
podia. 
        - No sei mais o que dizer, Charlie, exceto que acho que voc deveria saber. No podemos continuar assim para sempre - disse ela, baixinho, a rouquido de 
sua voz fazendo-a soar mais sensual do que nunca. 
        - O que pensa fazer a esse respeito? - perguntou ele, tentando lembrar-se de ser civilizado, que coisas assim aconteciam s vezes, mas s o que ele sabia 
naquele momento era o quanto estava magoado e o quanto ainda a amava. No conseguia acreditar em como era aguda a dor de acabar de saber que ela estava dormindo 
com um outro homem. A verdadeira questo era: ela amava Simon ou estava apenas se divertindo? Charlie entendeu que tinha de perguntar isso a ela. - Est apaixonada 
por ele? - indagou, sentindo mundos colidirem em sua cabea, seu corao e seu estmago. O que, em nome de Deus, ele iria fazer, perguntou-se, se ela o deixasse? 
No conseguia sequer imaginar isso e, sabendo-o, seria capaz de perdoar-lhe qualquer coisa, e planeava faz-lo. A nica coisa que sabia era que no queria perd-la. 
        Mas ela hesitou por um longo tempo, antes de responder. 
        - Acho que sim - disse. 
Ela foi sempre to honesta com ele. Por esse motivo havia lhe contado. Mesmo agora, ela no queria perder isso. 
        - No sei. Quando estou com ele, tenho certeza. mas amo voc tambm. Sempre vou amar. 
        Nunca houvera outra pessoa em sua vida como Charlie. nem como Simon. Ela amava a ambos, a seu prprio modo. Mas ele sabia que ela teria de escolher agora. 
Poderiam ter continuado daquele jeito por um longo tempo, as pessoas faziam isso, ela sabia, mas tambm estava consciente de que no poderia. Havia acontecido, agora 
ela precisava enfrentar. E Charlie tambm. 
        Simon j dissera que queria se casar com ela, mas Carole sabia que no conseguiria sequer pensar a esse respeito enquanto no resolvesse as coisas com o 
marido. 
        E Simon disse que compreendia isso tambm, alegando estar disposto a esperar para sempre. 
        - Do jeito que voc fala, parece que vai me deixar. - Charlie havia chorado s de olhar para ela, e ento passou os braos em torno de seu corpo e ambos 
choraram. 
        - Como  que isto pde acontecer conosco? - perguntou-lhe, repetidas vezes.
        Parecia impossvel, impensvel, como  que ela podia ter feito aquilo? E no entanto ela o fizera, e algo no modo como olhava para ele disse-lhe que Carole 
no estava preparada para desistir de Simon. Ele tentou ser racional a esse respeito, mas teve de pedir a ela que parasse de v-lo. Queria ir a um conselheiro matrimonial 
com ela. Queria fazer qualquer coisa que fosse necessria para ajeitar tudo. 
Carole tentou tudo que pde para se acertar com ele. Concordou em buscar aconselhamento e at parou de ver Simon durante duas semanas inteiras. Mas, no final, viu-se 
enlouquecida e entendeu que no tinha como desistir por completo dele. 
        O que quer que tivesse dado errado entre Charlie e Carole de repente parecia muito pior, e estavam constantemente zangados um com o outro. 
        As brigas nunca ocorridas antes brotaram como rvores na primavera, e discutiam sempre que estavam juntos. Charlie estava furioso com o que ela fizera e 
tinha vontade de matar algum, preferivelmente Simon. 
        E ela admitia que ficara muito infeliz por ter sido deixada to sozinha, sentia-se como se eles no passassem de bons amigos e colegas de quarto compatveis. 
Charlie no cuidara dela do jeito que Simon cuidava. Disse que Charlie era imaturo e o acusou de ser egosta. Queixou-se de que quando ele voltava para casa de uma 
viagem, estava cansado demais para sequer pensar nela, ou mesmo para conversar, s vezes, at que fossem para a cama, quando queria fazer amor com ela. 
        Mas esse era o seu meio de estabelecer contato, ele explicou, isso dizia mais sobre seus sentimentos do que as palavras jamais diriam. 
        Mas na verdade isso dizia mais, mesmo, era sobre a diferena entre homens e mulheres. Suas queixas subitamente se tornaram profundas e entranhadas, e Carole 
o deixou pasmo ao dizer ao conselheiro matrimonial que achava que todo o casamento deles estava centrado em Charlie, e Simon tinha sido o primeiro homem que ela 
conhecera que se importava com os sentimentos dela. 
Charlie no conseguiu acreditar no que ouvia. A essa altura ela j estava dormindo com Simon de novo, mas mentia para Charlie a esse respeito e, em poucas semanas, 
tudo se transformara numa teia invivel de enganos, brigas e recriminaes. 
        Em maro, quando Charlie passou trs dias em Berlim, ela fez as malas e foi viver com Simon. Contou a Charlie pelo telefone, ao que ele caiu sentado em seu 
quarto de hotel e chorou. Mas ela lhe disse que no estava disposta a viver dessa maneira. Uma agonia para todos eles, e representava tenso demais. 
        - No quero que nos transformemos nisto - disse ela, quando lhe telefonou, chorando por sua vez. - Odeio aquilo em que me transformei com voc. Odeio tudo 
que sou, tudo que fao, tudo que digo. E estou comeando a odiar voc. Charlie. temos de desistir. Eu simplesmente no consigo continuar. 
        Para no mencionar o fato de que no conseguia exercer a advocacia de forma coerente, enquanto tentava driblar essa situao insana. 
        - Por que no? - ele gritou com ela. 
Uma fria sincera estava comeando a domin-lo, e at ela sabia que Charlie tinha o direito de ficar to zangado quanto estava agora. 
        - Outros casamentos sobrevivem quando uma das partes tem um caso, por que ns no podemos? - Era uma splica de misericrdia. 
        Houve um silncio longo, realmente longo, do outro lado. 
        - Charlie, no quero mais fazer isso - disse finalmente, e ele percebeu que ela falava srio. E foi assim que acabaram. Fosse qual fosse o motivo, para ela 
estava encerrado. Apaixonara-se por outro homem e deixara de am-lo. Talvez no houvesse nenhum motivo, afinal, talvez no houvesse culpa. 
        No fim das contas, eram apenas humanos, com emoes imprevisveis, caprichosas. No havia como dizer por que aquilo havia acontecido. 
Acontecera, simplesmente, e, quer Charlie gostasse ou no, Carole o deixara por Simon. 
        Nos meses que se seguiram, ele ficou ricocheteando entre o desespero e a fria. Mal conseguia se concentrar no trabalho. Parou de ver os amigos. s vezes 
ficava sentado em casa, sozinho, s pensando nela. Ficava sentado no escuro, faminto, cansado, ainda incapaz de acreditar no que havia acontecido. 
        Mantinha a esperana de que o caso com Simon iria terminar, que ela iria se cansar dele, que ia perceber que ele era velho demais para ela, adulador demais, 
talvez at que ele era um falastro pomposo. Rezava por tudo isso, mas nada aconteceu. Ela e Simon pareciam muito felizes. 
        Via fotografias deles nos jornais e revistas, de tempos em tempos, e detestava v-las. s vezes, achava que a agonia sentida pela falta dela seria esmagadora. 
A solido que sentia agora era desoladora. E quando no conseguiu mais suportar, telefonou para ela. 
        O pior de tudo  que ela sempre dava a impresso de ser a mesma. Ela sempre parecia to clida, to atraente, to sensual. s vezes, fingia para si mesmo 
que ela voltaria para casa, para ele, que estava viajando, que tinha sado para passar um fim de semana fora. Mas no era esse o caso. Ela fora embora. Possivelmente 
para sempre. A casa agora parecia descuidada e sem amor. Ela levara todos os seus pertences. E nada parecia exatamente igual. Nada era a mesma coisa. 
        Ele, por sua vez, sentia-se como se tudo que sempre desejara ou sonhara tivesse se rompido. No restara nada, a no ser cacos a seus ps, e ele no ficara 
com nada para cuidar ou acreditar. O pessoal do escritrio notou isso, ele parecia sombrio, cansado e magro. Andava irritado e discutia a respeito de tudo. J nem 
sequer telefonava mais para os amigos e recusava todos os convites que recebia. 
        Tinha certeza de que a esta altura todos j estavam completamente encantados com Simon. E, alm disso, no queria ouvir falar dele, no queria saber cada 
pequeno detalhe a respeito do que faziam, nem ter de responder a perguntas bem-intencionadas. Mesmo assim, no conseguia se impedir de ler a respeito deles nos jornais. 
As festas a que compareciam e os fins de semana que passavam no campo. Simon St. James era extremamente socivel. 
Carole sempre gostara de ir a festas, mas no como agora. Era uma parte importante de sua vida com Simon. Charlie tentou no pensar nisso o tempo todo, mas parecia 
impossvel pensar em muita coisa mais. O vero foi uma tortura para ele. 
        Sabia que Simon tinha uma vila no sul da Frana, porque o haviam visitado l, entre Beaulieu e St.-Jean-Cap-Ferrat. Tinha um iate de bom tamanho na baa 
e Charlie no parava de pensar nela dentro desse iate. 
        As vezes tinha pesadelos com isso, aterrorizado com a idia de que ela fosse se afogar, e em seguida sentia-se culpado, pois se perguntava se os pesadelos 
no significariam que ele gostaria que ela se afogasse. Voltou ao conselheiro matrimonial para falar sobre isso. Mas no restava mais nada para dizer. 
        Quando setembro chegou, Charlie Waterston parecia terrivelmente abatido, e sentia-se cada vez pior. Carole telefonara-lhe para dizer que ia entrar com o 
pedido de divrcio e Charlie odiou-se ao perguntar se ela estava vivendo com Simon. 
Antes de sequer fazer a pergunta, ele j sabia a resposta, e podia facilmente imaginar o rosto dela e a inclinao de sua cabea, ao responder:
        - Voc sabe que estou, Charlie - disse ela, com tristeza. Detestava mago-lo. Nunca quisera fazer isso com ele. Tinha acontecido, simplesmente. Era tudo. 
No pudera evitar. 
        Contudo, estava mais feliz com Simon do que nunca antes em sua vida. E a de agora era uma vida a que nunca aspirara, mas que descobriu amar. 
        Haviam passado o ms de agosto na vila dele, na Frana, e ficou surpresa ao descobrir que gostava de todos os seus amigos. E o prprio Simon estava fazendo 
absolutamente tudo que podia para satisfaz-la. Chamava-a de o amor de sua vida, de mulher de seus sonhos, e de sbito percebeu nele uma qualidade vulnervel e uma 
gentileza que nunca vira. Estava profundamente apaixonada por ele, mas no contou nada a Charlie. 
        Isso s a fazia perceber novamente como o relacionamento deles havia sido vazio. Tinham sido duas pessoas auto-centradas, caminhando lado a lado, mal se 
tocando e nunca se encontrando. E nenhum dos dois jamais se dera conta. Ela se dava conta agora, mas sabia que Charlie ainda no enxergava. 
        Tudo que ela desejava para ele era uma vida feliz, esperava que encontrasse algum, mas no parecia que ele estivesse sequer tentando. 
        - Voc vai se casar com ele? - Charlie sempre se sentia como se todo o ar tivesse sido espremido para fora de si quando fazia esse tipo de pergunta, e no 
entanto, por mais que se odiasse por isso, descobriu que tinha de faz-la. 
        - No sei, Charlie. No falamos a esse respeito. - Era mentira, Simon estava desesperado para se casar com ela, mas no momento isso no era da conta de Charlie. 
        - No  importante agora. Precisamos primeiro ajeitar as coisas entre ns. - Ela finalmente o forara a contratar um advogado, mas Charlie quase nunca telefonava 
para ele. 
        - Precisamos dividir as nossas coisas, quando voc tiver tempo. -A verdade  que ele sentia nuseas quando ela dizia isso. 
        - Por que voc no faz uma nova tentativa? - perguntou ele, detestando-se pela fraqueza que ouviu em sua prpria voz, mas adorava-a tanto que a idia de 
perd-la para sempre quase o aniquilava. 
        E por que tinham de "dividir suas coisas"? E ele l estava ligando para a loua, o sof, a roupa de cama? Era a ela que queria, queria tudo que haviam partilhado. 
Queria a vida deles de volta, tal como tinha sido. 
Ainda no conseguira entender nada das coisas que ela vivia dizendo. 
        - E se tivssemos um beb? - De alguma forma, ele presumia que Simon era velho demais para sequer pensar nisso. 
        Aos 61 anos, tendo tido trs esposas e vrios filhos, no havia possibilidade de ele ter um beb com ela.
        Era a nica coisa que Charlie poderia oferecer a ela e que Simon no podia. Novamente houve um longo silncio do lado dela, e Carole fechou os olhos ao tentar 
reunir coragem para responder. No queria ter um filho com ele. No queria ter um filho com ningum. Na verdade, nunca quisera. Tinha sua carreira. E agora tinha 
Simon. Um beb era a ltima coisa em sua mente. 
        Queria apenas um divrcio, para que pudessem seguir com suas respectivas vidas e parar de magoar um ao outro. No parecia que isso fosse pedir-lhe muito. 
        - Charlie,  tarde demais. No vamos falar nisso agora. Nenhum de ns dois jamais quis um beb.
        - Talvez estivssemos errados. Talvez as coisas fossem diferentes agora, se tivssemos. Talvez esse fosse o cimento que sempre faltou entre ns. 
        - S ia complicar as coisas. As crianas no mantm as pessoas juntas, s tornam tudo mais difcil. 
        - Voc vai ter um beb com ele? - Mais uma vez sua voz soava desesperada. 
        At ele odiava o modo como sua voz soava, quando falava com ela. 
        Sempre terminava como o suplicante, o palerma coitadinho pedindo de joelhos  bela princesa que voltasse para ele, e detestava-se por causa disso. No sabia, 
porm, o que mais dizer-lhe e teria feito qualquer coisa se ela apenas concordasse em desistir de Simon e voltar. Mas a voz dela saiu exasperada, quando respondeu. 
        - No, no vou ter um filho com ele. Estou tentando ter uma vida prpria, e com ele. E no quero estragar a sua vida mais do que j foi necessrio. Charlie, 
por que voc no desiste? Algo aconteceu conosco. No estou sequer segura do que foi. As coisas simplesmente funcionam dessa maneira, s vezes.  como quando algum 
morre. Voc no tem como discutir. No pode mudar. No pode fazer voltar o relgio ou ressuscitar as pessoas. Ns morremos. Ou, pelo menos, eu morri. Agora voc 
vai ter de continuar a viver sem mim. 
        - No posso. - Charlie quase se engasgou com as palavras e ela entendeu o quanto ele falava srio. 
        Havia encontrado com ele numa semana anterior e seu aspecto era terrvel. Tinha o ar cansado, plido, exausto, mas estranhamente percebeu que ainda o achava 
incrivelmente atraente. 
        Era um homem bonito e, mesmo na profunda infelicidade, era muito atraente. 
        - No posso viver sem voc, Carole. 
O pior  que ela sabia que ele acreditava nisso. 
        - Sim, pode, Charlie, tem de poder. 
        - Por qu? - No conseguia pensar num nico motivo, atualmente, para continuar vivendo. A mulher que amava tinha ido embora. Estava entediado com o trabalho. 
Queria ficar sozinho o tempo todo. 
        At a casa que um dia tanto amara parecia ter perdido a graa. Mas, apesar disso, no queria vend-la. Tinha lembranas demais de sua vida com ela, l dentro. 
Carole estava por demais entranhada em cada fibra de sua vida. No conseguia imaginar um dia estar livre dela, ou que sequer desejaria estar. Queria somente o que 
no podia ter, o que um dia tivera com ela. Tudo pertencia agora a Simon. O sacana. 
        - Charlie, voc  jovem demais para agir assim. Tem quarenta e dois anos de idade. Tem uma vida inteira pela frente. Tem uma carreira sensacional, um talento 
enorme. Vai encontrar uma outra pessoa, talvez tenha filhos. 
        Era uma conversa estranha, e ela sabia disso, mas no sabia como se soltar dele, embora compreendesse que falar com Charlie assim aborrecia Simon seriamente. 
Ele achava que deviam dividir o esplio, se divorciar e seguir em frente, nas palavras dele. Ambos eram jovens o suficiente para poder levar vidas timas com outras 
pessoas. Achava que Charlie estava sendo um sujeito incrivelmente desagradvel e fazendo uma presso imensa e desnecessria sobre Carole, e era muito claro quanto 
ao fato de que no gostava disso. 
        - Essas coisas acontecem com todos ns, em algum momento, ou com a maioria de ns, de qualquer forma. Minhas duas primeiras esposas me deixaram. No fiquei 
cado no cho tendo um ataque durante um ano, isso eu lhe garanto. Ele  muito mimado, se quer saber minha opinio - dissera Simon, irritado. 
        Ela tentou no conversar com Simon a respeito de Charlie, em nenhum momento. Tinha sua prpria culpa e seus prprios conflitos para enfrentar. No queria 
voltar para ele, mas tampouco queria deix-lo sangrando na beira da estrada. Sabia que o havia atropelado. 
        Mas no fazia idia de como ajeitar as coisas para ele, como fazer tudo ficar melhor do que estava, ou como soltar-se dele suavemente. 
        Ela tentara, quisera tornar tudo mais fcil para ele, mas Charlie recusava-se absolutamente a soltar-se dela, e todas as vezes em que conversava com ele 
tinha a sensao de que ele estava se afogando e, se ela deixasse, no seu desespero, ele iria arrast-la junto para o fundo. Precisava afastar-se dele de alguma 
forma, ainda que fosse para sua prpria sobrevivncia. No final de setembro, finalmente dividiram suas coisas. 
        Simon tinha assuntos de famlia a resolver no norte da Inglaterra e Carole passou um fim de semana desesperante liquidando com sua velha casa com Charlie. 
Ele queria discutir cada item, no porque estivesse tentando tirar alguma coisa, mas porque usava cada momento com ela como uma oportunidade para tentar convenc-la 
a deixar Simon. 
        Era um pesadelo para ambos e Carole detestava ouvir aquilo, tanto quanto Charlie se detestava por estar dizendo. Ele quase no conseguia acreditar. Mas simplesmente 
recusava-se a deix-la partir sem lanar gritos lamuriantes e fazer rudos odiosos, na esperana de que Carole mudasse de idia Mas ela estava longe disso. Na noite 
de domingo, ele pediu-lhe desculpas antes de ela ir embora. Sorriu-lhe tristemente, parado de p  porta. Seu aspecto era horrvel. E Carole parecia quase to mal 
quanto ele.
        - Lamento muito ter sido um chato durante todo o fim de semana. No sei o que acontece comigo. Sempre que vejo voc, ou converso com voc, fico meio maluco. 
- Era o mais normal que ele parecia desde que havia comeado o inventrio, na manh de sbado. 
        - Est bem, Charlie. Sei que no  fcil para voc.
        Mas no era fcil para ela, tampouco. 
        No estava bem certa de que ele entendia. E ele no entendia. No que lhe dizia respeito, ela o deixara. Tinha sido escolha dela. E tinha Simon. Jogara-se 
nos braos de outro homem e nunca mais estava sozinha, nem por um momento nunca estava sem companhia e consolo. 
Charlie no tinha nada. Havia perdido tudo que sempre desejara. 
        - Isto est tudo muito errado - disse ele, olhando-a nos olhos novamente. 
        - Para todo mundo. S espero que voc no venha se arrepender do que est fazendo. 
        - Eu tambm - disse ela, beijando-o no rosto e recomendando que se cuidasse. 
        Um instante depois,saa dirigindo o Jaguar de Simon Charlie ficou de p, vendo Carole se afastar, tentando forar-se a acreditar que estava tudo acabado, 
que ela nunca mais voltaria. 
        E, ao voltar para dentro de casa e ver as pilhas de coisas dela por toda a parte, loua empilhada sobre a mesa de jantar, no houve como fugir ao que havia 
acontecido. 
        Ele fechou a porta e limitou-se a ficar ali parado, olhando, sentando-se em seguida numa poltrona e chorando. No conseguia acreditar no quanto sentia falta 
dela. At mesmo passar o fim de semana com ela, dividindo suas coisas, parecia ser melhor do que nada. E quando finalmente parou de chorar, l fora j estava escuro 
e, estranhamente, ele se sentia melhor. No havia como negar mais a coisa. No havia como fugir. Carole tinha ido embora. E ele a estava deixando levar quase tudo. 
        Era s o que lhe restava para dar a ela. Mas no dia 10 de outubro tudo ficou pior para Charlie, o sujeito encarregado do escritrio nova-iorquino de sua 
firma de arquitetura tivera um ataque cardaco, um scio que poderia ter ficado no lugar dele anunciou que estava indo embora para abrir uma firma nova, s sua, 
em Los Angeles, e os dois scios seniores da firma, Bill Jones e Arthur Whittaker, tomaram um avio para Londres, a fim de pedir a Charlie que voltasse para Nova 
York e assumisse. 
        Era tudo que Charlie nunca desejara. A partir do momento em que se mudara para Londres, dez anos antes, entendera que nunca mais queria trabalhar em Nova 
York, e passara uma dcada empolgado por estar trabalhando na Europa. 
Charlie achava o design muito mais emocionante no exterior, especialmente na Itlia e na Frana, gostava tambm de suas incurses pela sia, e tinha toda a inteno 
de permanecer na Europa. 
        - No posso - disse ele, com uma cara totalmente refratria, quando lhe propuseram a idia. 
        Mas ambos os scios seniores estavam preparados para ser tenazes. Precisavam dele em Nova York para dirigir o escritrio. 
        - Por que no? - perguntaram-lhe com sinceridade. 
        Teve vontade de dizer-lhes simplesmente que no queria, mas no disse. Mesmo que voc acabe querendo voltar para c, no h motivo pelo qual no possa ir 
passar um ano ou dois em Nova York. H muitas coisas interessantes sendo desenvolvidas nos Estados Unidos, neste exato momento. Talvez descubra que na verdade prefere 
estar l. No queria explicar-lhes que no havia chance. Nem eles queriam salientar que, agora que a mulher dele havia ido embora, ele no tinha motivo para no 
pegar o servio. 
        Diferentemente dos outros homens em quem haviam pensado, ele no estava amarrado a ningum, e era livre para ir a qualquer lugar. No tinha mulher nem filhos, 
nem laos de famlia em lugar nenhum. No havia qualquer razo pela qual no pudesse alugar sua casa por um ano ou dois e ir para o escritrio de Nova York, para 
tocar o barco, ou pelo menos at que eles pudessem encontrar uma outra pessoa que o dirigisse para eles. Mas Charlie de forma alguma se sentia emocionado com a idia, 
ou inclinado a fazer o que lhe pediam. 
        -  muito, muito importante para ns. Charlie, no h mais ningum a quem possamos recorrer. - Ele sabia que era verdade. 
        Estavam numa posio difcil. O homem que cuidava do escritrio de Chicago no podia se mudar, a mulher havia passado o ltimo ano muito doente. Tinha cncer 
no seio e estava fazendo quimioterapia e isso no era poca de se pedir a algum que mudasse de cidade. E ningum mais na hierarquia no escritrio de Nova York era 
capaz de assumir. 
        Charlie era a escolha bvia, e ele sabia que isso provavelmente iria alterar sua situao profissional permanentemente, caso se recusasse a ir de forma categrica. 
        - Gostaramos realmente que pensasse a esse respeito - insistiram, e Charlie ficou atnito diante das realidades que isso acarretava. 
Sentia-se como se um trem-bala viesse em sua direo, a ponto de peg-lo. No conseguia acreditar no que estava acontecendo, e simplesmente no sabia o que dizer. 
Gostaria de telefonar a Carole, para discutir o assunto com ela, mas sabia que estava fora de questo. Era incrvel para ele que, em questo de meses, houvesse perdido 
a esposa e agora estivesse sendo forado a abrir mo da vida que amava na Europa. Tudo em torno dele parecia estar mudando, e foram duas semanas de agonia, enquanto 
ponderava sobre a deciso. 
        Aps dois dias, os scios seniores voltaram a Nova York, e ele disse que lhes daria uma resposta assim que repensasse. Mas, por mais que pensasse, no conseguia 
imaginar um meio de evitar dar a eles o que queriam. No podia sequer dizer-lhes que sua esposa no queria que ele fosse. Conforme eles sabiam muito bem, a deciso 
estava toda em seus ombros. E, l pela metade do ms, entendeu que no havia escolha. Tinha de ir. Nunca o perdoariam se no fosse. Tentou negociar uma estada de 
seis meses e disseram-lhe que tentariam encontrar outra pessoa para dirigir o escritrio de Nova York a essa altura, mas destacaram que isso poderia facilmente tomar-lhes 
um ano, ou at mais. 
        Arquitetos importantes, seguindo exatamente a trilha certa em suas carreiras, com certeza no eram fceis de aparecer. Iriam substituir Charlie em Londres 
pelo segundo homem do escritrio. Dick Barnes era um bom sujeito, e Charlie tinha certeza de que ele daria conta do servio. 
        Na verdade, isso era at motivo de preocupao para Charlie, porque Dick Barnes vinha desejando o posto dele h muito tempo e isso poderia muito bem ser 
uma oportunidade inesperada para que o conseguisse. 
        Era igualmente talentoso e quase com a mesma experincia, e Charlie temia que depois de Barnes ter dirigido o escritrio de Londres com sucesso por um ano, 
no permitiriam que Charlie voltasse e reassumisse. E a nica coisa que ele no queria era ficar preso em Nova York. No final, assinaram um contrato com ele, para 
ir a Nova York e passar um ano. 
        E, antes que o soubesse conscientemente, j sentia como se sua vida tivesse chegado ao fim e ele estivesse se preparando para mudar para Nova York. 
Insistiram em que ele estivesse l bem antes do dia de Ao de Graas. 
Carole telefonou-lhe um dia, quando soube da notcia por uma amiga de ambos, cujo marido trabalhava para Charlie. Ela o cumprimentou pelo novo cargo, embora tenha 
ficado surpresa ao saber que estava disposto a deixar Londres. 
        - No considero isso exatamente como um degrau a mais em minha carreira - disse ele com a voz ainda soturna, mas feliz por ela ter-lhe telefonado. 
Tinha sido um ano ruim para ele, e mal conseguia se lembrar dos dias tranqilos de felicidade e bom humor. Desde que ela partira, alguma coisa terrvel parecia acontecer 
todos os dias. 
        - A ltima coisa que eu queria fazer era voltar a trabalhar em Nova York - disse ele, com um suspiro. 
        Realmente, detestava sair de Londres, e ela sabia disso. Sabia muito bem o quanto a vida l significara para ele, e o quanto tinha sido feliz em Londres, 
motivo pelo qual lhe telefonara. Apesar de tudo, queria anim-lo, embora soubesse que Simon desaprovaria esse telefonema. Ele falava com pelo menos duas das ex-esposas 
com razovel regularidade, mas elas haviam se casado vrias vezes desde que o deixaram, e no estavam agarradas a ele tal como Charlie estava a Carole. 
- Talvez a mudana lhe faa bem por algum tempo - disse ela, com gentileza. - Um ano no  para sempre, Charlie. 
        - Mas  a impresso que d - replicou ele, olhando pela janela do escritrio, vendo-a absolutamente ntida com os olhos da mente. 
        Ela era muito bela e ainda muito desejvel para ele, embora ele estivesse comeando a desejar que no fosse. Seria to estranho ficar assim afastado dela. 
        No poderia mais pensar em topar com ela na rua. Ainda havia sempre a possibilidade de encontr-la num restaurante, ou encontr-la numa loja, ou saindo da 
Harrods. Mas no quando fosse embora de Londres. 
        - No sei como fui me meter nesta confuso - disse ele, pensando em Nova York. 
        - Parece que voc no teve muita escolha - explicou ela, de forma prtica. 
        - No tive. 
        Ele no tinha mais escolha a respeito de qualquer coisa, pelo menos no a respeito dela, ou de se mudar para Nova York. Nada disso era o que ele queria. 
Ento ela perguntou-lhe o que ele iria fazer com a casa. Legalmente, ainda possua a metade dela, mas no se importava por ele morar l. No precisava do dinheiro 
e com toda a certeza no planeava morar l com Simon. No havia motivo pelo qual no pudessem simplesmente mant-la, por enquanto. 
        - Pensei em alug-la - disse ele e ela concordou. 
        Mas voltou a telefonar dois dias depois. Havia pensado a esse respeito e discutira o assunto extensamente com Simon, embora no tivesse dito isso a Charlie. 
Uma coisa, no que lhe dizia respeito, era Charlie morar na casa, mas ela no queria inquilinos destruindo-a, ou desvalorizando a propriedade devido a danos causados. 
        Sob as circunstncias, ela preferia vend-la e pediu a Charlie que a pusesse  venda antes de deixar Londres. 
        Ele sentiu como se houvesse perdido mais um amigo querido quando Carole lhe disse isso. Ele havia amado aquela casa, ambos haviam. Mas no tinha energia 
para discutir com ela dessa vez, e estava comeando a compreender que no fazia sentido se segurar em nada daquilo. 
        O passado estava concludo e ele podia muito bem abrir mo da casa tambm. Pensou a esse respeito alguns dias e em seguida ps a casa  venda. E, para surpresa 
de ambos, ela foi vendida em dez dias, por um bom preo, mas isso para ele foi de pouco consolo. Quando entrou no avio, o negcio j tinha sido fechado, a casa 
tambm j se fora e tudo que ele possua tinha sido guardado. 
Carole passara por l na semana anterior, para v-lo pela ltima vez, para dizer adeus a ele e, previsivelmente, foi uma reunio dolorosa, cheia de dor da parte 
dele, de culpa da parte dela, e de recriminaes silenciosas que pareciam encher a sala, como se fossem pessoas. 
        Foi difcil saber o que dizer a ele, enquanto ela caminhava de aposento em aposento, lembrando-se de pequenas coisas, de momentos engraados, e finalmente 
ela ficou parada no quarto de dormir deles, com lgrimas rolando-lhe pelo rosto, olhando pela janela. 
        O jardim estava despojado, as rvores desfolhadas e ela no o viu entrar no quarto, atrs dela. Ele tambm ficou parado, olhando para ela, perdido em suas 
prprias lembranas e, quando ela se virou para sair, surpreendeu-se ao v-lo. 
        - Vou sentir saudades deste lugar - disse ela, enxugando as lgrimas, e ele assentiu com a cabea. 
        Ao menos desta vez, ele no chorava. J havia passado por dor demais, j havia perdido demais. Sentiu-se quase entorpecido, quando ela caminhou lentamente 
em sua direo. 
        - Vou sentir saudades de voc - disse ele sussurrando. Foi a declarao mais comedida de todos os tempos. 
        - Eu tambm - disse ela baixinho, e ento passou os braos em torno dele. 
        Durante longo tempo ele ficou parado, segurando-a, desejando que nada daquilo tivesse acontecido. No que dizia respeito a Charlie, se no fosse por Simon 
ainda podiam estar vivendo ali, ocupados e distrados, e seguindo seus prprios caminhos a maior parte do tempo, mas ainda assim felizes de voltar para casa, um 
para o outro. 
        E se ainda estivessem juntos, ele poderia ter se recusado a ir para Nova York, a pedido da firma. O trabalho dela na Europa era importante demais para que 
ela pudesse pedir uma transferncia. 
        - Sinto muito, Charlie - foi tudo que disse enquanto ele se perguntava como dez anos de sua vida haviam simplesmente desaparecido no ar. 
        Havia perdido tudo, a mulher, a casa e at sua residncia na Europa. Era como se o relgio tivesse sido invertido e ele fosse obrigado a recomear do princpio. 
Era como descer de escorrega na vida real. 
        Ele havia subido a escada at o topo, s para descer em queda livre e subir de novo. Havia algo de torturantemente surrealista nisso. Saram da casa de mos 
dadas e, alguns minutos depois, o carro dela deu a partida. Era sbado e ela prometera a Simon que iria at Berkshire para encontr-lo. Charlie nem se deu ao trabalho 
de perguntar desta vez se ela estava feliz. Era bvio que a vida dela estava completamente entrelaada com a de Simon. 
        Ele s levara nove meses para compreender isso. 
        E cada minuto desses meses tinha sido uma tortura para ambos. 
        O resto das coisas de Charlie tinha sido armazenado pouco depois disso, e ele mudou-se para o Claridge's, para l passar os ltimos dias de sua estada em 
Londres, por conta da firma. Houve um jantar muito bonito para ele no Savoy em comemorao da sua partida. Todos do escritrio compareceram, bem como vrios clientes 
importantes. Outros amigos tentaram convid-lo para jantar antes de ele partir, mas Charlie disse que estava ocupado demais acertando detalhes no escritrio. Mal 
tinha visto qualquer um deles, desde que Carole o abandonara. As explicaes obrigatrias eram dolorosas demais. Era mais fcil para ele no sair e deixar Londres 
em silncio. 
        E quando saiu do escritrio pela ltima vez, Dick Barnes fez um pequeno discurso muito polido sobre como estariam esperando voltar a v-lo, mas Charlie sabia 
que ele no estava. Era bvio e natural que estivesse esperando que Charlie ficasse em Nova York e o deixasse dirigindo o escritrio em Londres. E Charlie no o 
culpava. No culpava ningum, nem sequer Carole. 
        Ele telefonou para ela, para dizer adeus, na noite anterior  partida, mas ela havia sado. Charlie achou que assim era melhor. No restava nada a dizer 
agora, exceto o quanto ambos lamentavam, e tudo que ele sempre quis dela foi uma explicao de como aquilo havia acontecido. Ele ainda no compreendia. Carole era 
bem mais filosfica do que ele a esse respeito. Mas a, mais uma vez, ela tinha Simon. 
Charlie no tinha ningum em sua vida para consol-lo. Chovia a cntaros quando acordou no dia da partida. Ficou deitado na cama do hotel durante um longo tempo, 
pensando no que acontecera, para onde ia, e por que estava partindo. Sentia como se tivesse uma pedra no peito e, por um minuto, pensou em cancelar tudo, deixar 
a firma, tentar comprar a casa de volta e recusar-se a sair de Londres. 
        Era uma idia maluca, at mesmo para ele, e Charlie sabia que nunca faria isso. Mas, por um Instante, a idia foi muito atraente, ele ali deitado, ouvindo 
o som da chuva, tentando se forar a levantar e a entrar no chuveiro. Deveria estar no aeroporto s onze horas, para o vo de uma hora. A manh  sua frente parecia 
sem fim. 
        E enquanto estava deitado na cama, pensando sobre tudo isso, teve de se forar a no telefonar para Carole. 
        Tomou uma ducha longa, quente, vestiu um terno escuro, uma camisa branca e uma gravata Herms, e s dez horas em ponto Charlie estava  frente do hotel, 
esperando por um txi, aspirando o ar de Londres pela ltima vez, ouvindo rudos do trfego que passava, erguendo os olhos para os prdios familiares. 
        A sensao era quase como se estivesse saindo de casa pela primeira vez. Ainda no conseguia acreditar que estava de partida, e mantinha a esperana de que 
algum o interromperia antes que fosse tarde demais. Desejava v-la vir correndo pela rua e atirando os braos em torno dele, dizendo-lhe que tudo tinha sido um 
pesadelo, que havia acabado. 
        Mas o txi finalmente chegou e o porteiro olhou para ele, em expectativa, para que entrasse no veculo. Ento no restou mais nada a fazer seno tomar o 
txi e ir para o aeroporto. Ela no viria. No viria nunca mais. No iria voltar para ele, sabia disso agora. Ela era de Simon. 
        Foi com o corao pesado que ele atravessou a cidade, vendo as pessoas que iam e vinham, ocupadas com suas tarefas dirias, cumprindo obrigaes, e a chuva 
continuava caindo a cntaros. Era uma chuva glida de novembro. Um tempo invernal tipicamente ingls. E, em menos de uma hora, estava em Heathrow. 
J no havia mais como voltar. 
        - Gostaria de beber alguma coisa, Sr. Waterston? Um pouco de champanhe? Um copo de vinho? - perguntou a aeromoa, num tom agradvel, e ele saiu do devaneio 
em que estava  janela. J voavam h uma hora e finalmente parara de chover. 
        - No, obrigado, estou bem - disse ele, parecendo um pouco menos soturno do que ao embarcar. 
        Todos haviam observado que parecia desesperadamente infeliz. Recusou as bebidas e deixou os jornais largados sobre o assento a seu lado. Tornou a virar o 
rosto para a janela e, quando chegaram com o jantar, ele estava dormindo. 
        - O que ser que aconteceu com ele? - sussurrou uma das aeromoas para uma companheira na cozinha. 
        - Parece muito abatido. 
        - Talvez tenha passado a noite toda fora, enganando a esposa - sugeriu uma das mulheres, com um sorriso malicioso. 
        - O que a leva a pensar que ele  casado? - A aeromoa que oferecera champanhe a ele parecia decepcionada. 
        - Ele tem uma marca no dedo anelar da mo esquerda e no est usando aliana. 
 um evidente sinal de que andou pulando a cerca. 
        - Talvez seja vivo - disse uma delas animadamente. 
Suas duas companheiras reagiram a essa idia com pequenos gemidos. 
        -  apenas mais um executivo cansado, passando a mulher para trs. Podem acreditar. 
        A aeromoa mais velha arreganhou um sorriso e seguiu pelo corredor at a primeira classe, com frutas, queijo e sorvete. Parou para olhar Charlie mais uma 
vez. Ele estava mergulhado num sono profundo, nem sequer se mexia, e ela passou por ele lentamente. Sua colega no estava inteiramente errada. Charlie finalmente 
havia tirado a aliana na noite anterior  partida de Londres. Ele a retirara e ficara segurando-a na mo por longo tempo, apenas olhando para ela e lembrando-se 
do dia que a pusera no dedo. Fazia muito tempo. Dez anos em Londres, nove deles com Carole. 
        E agora, voando em direo a Nova York, at mesmo Charlie sabia que estava acabado. Mas ainda carregava a aliana no bolso. E, enquanto dormia, sonhou que 
estava com ela. Carole ria e conversava com ele, mas, quando tentou beij-la, ela virou-lhe as costas. No conseguiu compreender, mas ficou de braos estendidos, 
tentando alcan-la. E,  distncia, viu um homem que os observava... ela ia na direo dele... e quando Charlie ergueu os olhos, viu o homem acenando para ela e 
foi at ele. Ela escorregou por entre os dedos de Charlie, ele a viu caminhar at o homem... era Simon, e ele estava rindo.

CAPTULO 2

        POUSARAM NA PISTA do Aeroporto Kennedy com uma pancada, o que fez Charlie acordar num sobressalto. Estava dormindo h horas, exausto das atividades e emoes 
dos ltimos dias, ou semanas ou meses... No havia como negar que havia sido um inferno. 
        Passava pouco das trs da tarde, hora local, e quando a mais bonitinha das aeromoas entregou-lhe sua Burberry, ele sorriu e ela ficou novamente decepcionada 
por ele no ter acordado mais cedo, nem conversado com ela durante o voo. 
        - Vai voltar a Londres conosco, Sr. Waterston? - De alguma forma, s de olh-lo, ela tivera a impresso de que vivia na Europa. 
Tal como as outras aeromoas, ela estava baseada em Londres. 
        - Infelizmente, no. - Sorriu para ela, desejando muito estar voltando a Londres. - Estou me mudando para Nova York - disse como se ela se importasse. 
Porm, ningum mais se importava. Ela assentiu com a cabea e seguiu em frente, enquanto ele vestia a capa e pegava a pasta. 
        A fila de desembarque movia-se lentamente, mas ele acabou saltando pegando suas duas malas no setor de bagagem e a seguir tomou um txi para a cidade. 
        Ao entrar no carro, surpreendeu-se com o frio que fazia. Era apenas novembro, mas estava um gelo. A essa altura j eram quatro horas e ele dirigia-se ao 
estdio que havia sido alugado pela firma at que encontrasse seu prprio apartamento. Ficava numa das ruas 50 Leste, entre as avenidas Lexington e Terceira, e se 
no era grande, pelo menos era conveniente. 
        - De onde o senhor vem? - perguntou o motorista, mascando um charuto e disputando corrida com uma limusine e dois outros txis. Por pouco no bateu num caminho, 
para a seguir mergulhar de cabea no trfego da tarde de sexta-feira. Pelo menos, isso era familiar a Charlie. 
        - Londres - respondeu, olhando pela janela o Queens passar veloz. 
No havia um caminho bonito para se entrar em Nova York. 
        - Quanto tempo esteve l? - O motorista conversava amigavelmente, sem parar de costurar no trfego. Mas ao se aproximarem da cidade e o engarrafamento da 
hora do rush congestionar o caminho, e o esporte se tornou menos empolgante. 
        - Dez anos - disse Charlie, sem pensar, e o motorista olhou-o pelo retrovisor. 
        -  Muito tempo. Veio de visita? 
        - Estou voltando para c - explicou Charlie, sentindo-se subitamente exausto. 
        Eram nove e meia da noite para ele, e as vizinhanas por onde passavam eram to lgubres que ficou deprimido. O caminho de entrada em Londres no era mais 
simptico, mas pelo menos era seu lar. Isso aqui no era. 
        Ele residira em Nova York durante sete anos, aps se formar pela Faculdade de Arquitetura de Yale, mas havia crescido em Boston. 
        - No h lugar como isto aqui - proclamou o motorista do txi, arreganhando um sorriso e fazendo um aceno com o charuto para a viso  frente do pra-brisa. 
Estavam naquele momento atravessando a ponte, e a silhueta dos edifcios recortada contra o cu impressionava no crepsculo, mas nem mesmo ver o Empire State deixou 
Charlie animado. 
        Seguiu o resto do caminho para a cidade em silncio. Quando chegaram  54 com a Terceira, pagou a corrida e saltou, identIficando-se em seguida para o porteiro. 
Era esperado. O escrItrio deixara as chaves para ele, que deu graas a Deus por ter um lugar para ficar, mas ao ver o que lhe haviam alugado, levou um choque. Tudo 
naquele apartamento conjugado e compacto parecia ser de frmica ou de plstico. 
        Havia um balco branco e comprido com reflexos dourados, e dois banquinhos de bar cobertos com couro branco falso, um sof-cama, moblia barata com assentos 
de plstico, num tom horrvel de verde. Havia at mesmo plantas de plstico que chamaram-lhe a ateno logo que ele acendeu a luz. Lanando um olhar em torno, ficou 
parado diante da pura feira daquilo tudo. Ento, era a este ponto que tinha chegado. Sem mulher, sem casa, sem nada de seu. 
        O lugar parecia um quarto barato de hotel e a nica coisa em que conseguia pensar foi no que havia perdido no ltimo ano. Era impossvel lembrar de alguma 
coisa positiva que tivesse sado do torvelinho onde se metera. S conseguia pensar nas perdas. Pousou as malas e olhou em torno com um suspiro. Ento, tirou o casaco 
e largou-o em cima da nica mesa que havia no estdio. Isso com certeza lhe daria bastante incentivo para encontrar bem depressa um apartamento. 
        Serviu-se de uma cerveja que havia na geladeira, sentou-se no sof, pensando no Claridge's e na sua casa em Londres E, por um breve momento de loucura, quis 
telefonar para ela. "Voc no acreditaria em como este lugar  feio." Por que ele sempre pensava em contar a ela as coisas que eram engraadas, tristes ou chocantes? 
No sabia muito bem o que isto seria, provavelmente todas as trs coisas, mas no se deu sequer ao trabalho de estender a mo para o telefone. 
        Limitou-se a ficar sentado, sentindo-se exaurido, tentando no ver o vazio do apartamento. Havia psteres na parede, representando crepsculos e um panda, 
e quando foi olhar o banheiro, era do tamanho de um armrio embutido. Mas estava cansado demais para sequer tirar as roupas e tomar um banho. Ficou sentado no sof, 
olhando para o vazio. Finalmente deitou-se e fechou os olhos, tentando no pensar em nada, nem mesmo lembrar de onde tinha vindo. Ficou deitado por longo tempo e 
acabou abrindo o sof-cama, e s nove horas j estava dormindo. Nem sequer pensou em jantar. 
        Quando acordou, no dia seguinte, o sol entrava pela janela. Eram dez horas, mas seu relgio dizia trs. Ainda estava no horrio de Londres. Bocejou e se 
levantou da cama. O apartamento parecia uma baguna, com a cama desfeita bem no meio. Era como morar numa caixa de sapatos. 
        E quando foi at a geladeira, havia refrigerantes, caf e cerveja, mas nada para comer. Por isso tomou uma ducha, vestiu um par de jeans e um suter pesado 
e, ao meio-dia, aventurou-se a sair para a rua. Era um dia de sol lindo e absolutamente gelado. Comeu um sanduche numa delicatessen na Terceira Avenida e a seguir 
caminhou lentamente para a parte mais nobre da cidade, olhando as lojas, notando como as pessoas pareciam diferentes das de Londres. 
        No havia como confundir Nova York com qualquer outra cidade do mundo, e lembrou-se com facilidade de que houve um tempo em que gostou dela. Foi l que ele 
e Carole haviam se conhecido, onde ele iniciara sua carreira, onde havia desfrutado seus primeiros sucessos em arquitetura, mas mesmo assim no tinha nenhuma vontade 
de voltar para l. 
        Gostava de visit-la, mas no podia sequer imaginar morar ali de novo. Mas era o que estava fazendo, para o que desse e viesse, e no fim da tarde comprou 
o New York Times e foi dar uma olhada em dois apartamentos. Eram ambos feios e caros, e menores do que ele queria. Mas onde estava morando era pior. 
E isso lhe foi imediatamente lembrado quando voltou ao estdio, s seis horas. 
        Ficar sentado num nico aposento minsculo era insuportavelmente depressivo. Detestava estar ali, mas ainda estava meio defasado com o fuso horrio e cansado, 
e no se incomodou em sair para jantar. Em vez disso, passou a noite trabalhando numa papelada que lhe haviam enviado, sobre projetos atuais em Nova York. 
        E no dia seguinte caminhou at o escritrio, embora fosse domingo. O estdio pequeno e feio ficava a apenas quatro quarteires e meio do escritrio, motivo 
pelo qual provavelmente o alugaram. Haviam lhe oferecido um hotel, mas ele disse que preferia um apartamento. O escritrio era um espao bonito no 50.o andar do 
prdio de esquina da rua 51 com a Park Avenue, e quando entrou na rea de recepo ficou olhando a vista por algum tempo, caminhando ento, a passos lentos, em torno 
das maquetes. Seria interessante voltar a trabalhar ali. 
        De repente, aps todos esses anos, tudo parecia ser muito diferente. Mas nada preparou seu esprito para o quo diferente tudo realmente se mostraria, na 
manh de segunda-feira. 
        Ele acordou s quatro e ficou horas esperando, trabalhando em cima de uma papelada imensa. Ainda estava no fuso horrio de Londres, e tambm ansioso para 
comear. Mas quando chegou ao escritrio no levou muito tempo para sentir que havia uma aura palpvel de tenso. 
        No conseguia especificar o que era, mas os funcionrios pareciam estar constantemente disputando posio. 
Contaram-lhe pequenos segredos a respeito do trabalho uns dos outros quando ele os chamou, um a um, e uma coisa ficou bvia, ali no havia senso de equipe. 
        Era um grupo de indivduos talentosos, fazendo tudo que podiam para progredir e montar nas costas uns dos outros... porm, o que mais o surpreendeu foi o 
tipo de trabalho que faziam. Eram supostamente talentosos, e ele teve a impresso de que trabalhavam com afinco, mas os designs em que estavam trabalhando pareciam 
bem menos avanados do que aqueles produzidos pela mesma firma na Europa. 
        Deu-se conta de que era algo que nunca havia notado em suas rpidas viagens pela cidade no passado, pois sempre estava concentrado no trabalho pelo qual 
era responsvel em Londres. Este parecia muito diferente e bem menos empolgante. 
        Os dois scios seniores, Bill Jones e Arthur Whittaker, estavam presentes e o apresentaram a todos. A equipe pareceu cautelosa, mas satisfeita; todos haviam 
sido informados a respeito dele e Charlie era esperado. Havia at trabalhado com dois dos arquitetos mais antigos, dez anos antes, quando estava em Nova York, mas 
o que o surpreendeu acerca deles foi que no pareciam ter progredido muito. 
        Estavam felizes fazendo o mesmo tipo de trabalho de que se lembrava. Era um verdadeiro choque para ele agora, quando foi de mesa em mesa, de um arquiteto 
a outro, e os novos estagirios e aprendizes pareciam ainda mais contidos do que as pessoas para quem trabalhavam. 
        - O que est acontecendo aqui? - perguntou Charlie casualmente, enquanto almoava com dois dos estagirios. 
Eles haviam trazido comida para viagem e Charlie os convidara para o seu escritrio, uma ampla sala de canto, com paredes amareladas de madeira e uma vista espetacular 
do Easte River. 
        - Tenho a sensao de que todos aqui sentem um pouco de medo. Os designs parecem surpreendentemente conservadores. Como explicam isso? - Os dois funcionrios 
trocaram um olhar longo, lento, e ficaram sem conseguir responder. - Vamos, rapazes, vamos ser bem diretos. Eu j vi um design bem mais emocionante aqui, quinze 
anos atrs. Este escritrio parece que est andando para trs. 
        Um deles riu, como resposta, enquanto o outro pareceu seriamente preocupado. 
        Mas pelo menos um deles, Bem Chow, teve coragem suficiente para dar uma resposta honesta. Era o que Charlie queria. 
Se iria dirigir o escritrio com eficincia, precisava de informao. 
- A gente trabalha com rdea bem curta - explicou Chow. - Isto aqui no  a Europa. Os figures esto aqui, e ficam soprando bafo no nosso pescoo o tempo todo. 
So ultraconservadores, voc sabe, e odeiam correr riscos. Acham que os mtodos antigos so os melhores. E no acredito que eles realmente se importem com o que 
algum esteja fazendo na Europa. Eles querem o mesmo tipo de trabalho que sempre fizeram. Alegam que  por isso que somos conhecidos. Pensam na Europa como um tipo 
de posto avanado meio excntrico, um mal necessrio neste tipo de negcio. 
        Mas foi essa crena que havia permitido a Charlie toda a liberdade de que desfrutara durante seus dez anos em Londres. Isto aqui ia ser bem diferente. 
        - Est falando srio? - Charlie parecia um tanto atnito, enquanto Chow assentia com a cabea para ele, e seu colega dava mostras de estar extremamente nervoso. 
        Se algum tivesse ouvido o que acabara de ser dito, haveria srias repercusses. 
        -  por isso que nenhum dos estagirios fica aqui muito tempo - continuou Ben. - Eles seguram as pontas por uns tempos e depois vo embora, para os escritrios 
de I. M. Pei ou KPF, Richard Meyer, ou um dos escritrios que lhes permitem mostrar suas aptides. 
        -  simplesmente impossvel inovar aqui - queixou-se Chow, enquanto Charlie ouvia com interesse. - Voc ver, a no ser que lhe permitam mudar as coisas 
de uma forma radical. Eles provavelmente vo apertar voc tambm, se acharem que voc pode fazer isso. - Mas, ao ouvir isso Charlie arreganhou-lhes um sorriso. 
        No tinha chegado at este ponto, e no tinha trabalhado tanto tempo e com tanto empenho para comear a fazer prdios feitos, frmas de cortar biscoitos, 
ou endoss-lo. Ningum iria obrig-lo a fazer isso. Mas Charlie no demorou a descobrir que era exatamente isso que esperavam dele. Deixaram-lhe isso claro desde 
o incio. 
        Haviam-no trazido para Nova York a fim de ser um administrador, no para mudar o mundo, e no tinham absolutamente nenhum interesse no tipo de projetos que 
ele desenvolvera na Europa. Estava bastante consciente desses projetos, mas alegavam que se tratava de um mercado inteiramente diferente. 
        As pessoas do escritrio de Nova York faziam o que se esperava delas e aquilo pelo que eram conhecidas. Charlie ficou em estado de choque ao ouvir tudo aquilo 
e duas semanas aps sua chegada j estava comeando a ficar biruta. Sentia-se completamente violentado, totalmente enganado e completamente desperdiado. No tinha 
sido para isso que viera para Nova York. 
        Era exibido em toda parte a todos os clientes mais importantes, mas era apenas uma espcie de testa-de-ferro. Queriam seu conhecimento e experincia para 
vender projetos, mas esses nunca eram nada do que pudesse se orgulhar, e nenhum dos projetos eram idias que ele conseguiria sentir-se  vontade em representar. 
        Tentou efetuar mudanas, mas sempre que fazia isso ou alterava um design, ainda que superficialmente, um ou ambos os scios entravam em seu escritrio a 
fim de lhe explicar o "clima do mercado de Nova York". 
        - Preciso ser honesto com voc - disse ele finalmente, durante um almoo no University Club com Arthur Whittaker -, o "clima' de que vocs esto sempre falando 
est comeando a me fazer suar frio. 
        - Eu compreendo - disse Arthur, com o ar de quem compreendia completamente o problema de Charlie. 
        No tinham o menor desejo de deix-lo perturbado. Precisavam dele em Nova York, no tinham nenhuma outra pessoa no momento. 
        - Mas, Charlie, voc precisa ser paciente. 
Este  o nosso mercado mais importante. 
        No era, e eles todos sabiam disso. 
        Mas era onde o negcio havia comeado. 
        Era onde viviam, e estava bvio que queriam dirigi-lo  sua maneira. 
        - No estou bem certo se concordo com voc - retrucou Charlie, com a maior educao que pde. - A Europa tem proporcionado a parte do leo nos lucros da 
firma h anos. junto com o Japo. Acontece apenas que os projetos no so to grandes ou conhecidos quanto os que vocs fazem aqui. Mas, de muitas maneiras, so 
no apenas mais lucrativos, como tambm mais empolgantes. Gostaria de ver se podemos trazer da Europa para c um pouco desse esprito. 
Charlie pde ver, s de olhar para ele, que o scio snior estava procurando uma resposta diplomtica, porque gostava do que Charlie estava dizendo. 
        O nico mistrio para ele era por que estavam to determinados a manter o escritrio de Nova York to tedioso. 
Tinham parado completamente no tempo. 
        - Vale realmente a pena pensar sobre isso, Charlie - comeou a dizer Whittaker, e ento embarcou num longo discurso sobre como Charlie teria perdido contato 
com o mercado americano, mas iriam providenciar para que ele fosse atualizado o mais rpido possvel. 
        Na verdade, j tinham providenciado uma breve excurso Por alguns de seus principais projetos em andamento. Havia uma meia dzia de empreendimentos imensos 
em algumas cidades do pas, e na semana seguinte Charlie fez o circuito completo no jato da companhia para v-los. 
        Mas nessas visitas, viu apenas os mesmos designs cansados, e as idias que tinham sido to inovadoras quinze anos antes estavam hoje inteiramente superadas. 
Ele no conseguia acreditar. 
        Enquanto estivera ocupado em Taip, Milo e Hong Kong, fazendo coisas realmente espantosas para a firma, eles haviam parado no tempo em Nova York e resistiam 
a todos os seus esforos para despert-los e mudar as coisas. 
        Na verdade, deixaram tudo muito bvio para ele quando retornou e, tendo ouvido o que ele tinha a dizer, mudana era a ltima coisa que queriam. 
        E, depois que falaram com ele, Charlie sentiu-se profundamente confuso quanto ao que fazer com o servio para o qual ele viera. A nica coisa que pareciam 
querer dele era que calasse a boca e dirigisse o escritrio. Sentiu-se como um inspetor no recreio, e tudo que os empregados faziam era brigar porque estavam muito 
entediados e frustrados com seus projetos. 
        Parecia uma situao irremedivel, e  medida que o dia de Ao de Graas ia se aproximando, o nimo de Charlie,ia afundando. 
        Detestava seu trabalho, e andara to envolvido com os problemas que vinha enfrentando ali que no fizera qualquer plano para o feriado, no tinha ningum 
com quem estar. 
        Na verdade, ambos os scios seniores o convidaram para passar a festa com eles, mas sentia-se to pouco  vontade diante da perspectiva de estar com qualquer 
um dos dois que mentira, dizendo que j fizera planos com uns primos em Boston. 
        E, no final, ficou sentado em seu estdio, assistindo a futebol na TV, e pediu uma pizza, que comeu no balco de frmica. Foi to horrvel que, de certa 
forma, foi engraado. Ele e Carole sempre preparavam um peru e convidavam amigos, mas isso, para seus amigos ingleses, parecia mais uma coisa excntrica, e acabara 
sendo sempre uma desculpa para um jantar festivo. 
        Mas Charlie ainda no conseguia se impedir de pensar se Carole teria comemorado o dia de Ao de Graas este ano com Simon. Tentou afastar o pensamento e 
passou no escritrio o resto do fim de semana. Continuou examinando fotografias, arquivos e plantas, e lendo as histrias de inmeros projetos. Mas a impresso era 
sempre a mesma. 
        Na verdade, s vezes ele quase se perguntava se no teriam usado as mesmas plantas. 
        E, ao trmino do fim de semana, tinha certeza daquilo que antes apenas temera, ou seja, odiava tudo que estavam fazendo. E no fazia a menor idia do que 
lhes dizer. 
        Na segunda-feira, quando voltou ao trabalho, deu-se conta de que esquecera de olhar apartamentos no fim de semana. Olhando em torno para os colegas que ainda 
pareciam to constrangidos com ele, quase perguntou se aquilo no seria um augrio. 
        Ainda era visto com suspeita por metade deles, os outros pareciam encar-lo como excntrico. E os scios seniores passavam a maior parte de seu tempo tentando 
desacredit-lo ou control-lo. 
        - Ento, o que voc acha? - perguntou Bem Chow mais tarde, naquela mesma semana, dando uma passada na sala de Charlie. 
Era um sujeito de trinta anos, esperto e talentoso. Tinha cursado Harvard e Charlie gostava no apenas de seu trabalho, mas de sua sinceridade. 
        - Honestamente? - Charlie fitou-o bem nos olhos e entendeu que Bem nunca o trairia. 
Era um alvio poder ser honesto com ele, aps todo o jogo de esquivas que parecia ser a regra do escritrio. 
        - Acho que ainda no decifrei bem este lugar. Estou confuso com a uniformidade do design.  como se aqui todo mundo tivesse medo de apresentar um projeto 
original, ou sequer pensar independentemente. Existe algo de assustadoramente negligente nisso. At suas atitudes me deixam constrangido. Particularmente o modo 
como ficam delatando um ao outro. Na maior parte das vezes, no fao a menor idia do que dizer. Definitivamente, este no  um escritrio construtivo, feliz.
        Bem Chow riu diante dessa descrio e reclinou-se na poltrona em frente  mesa de Charlie. 
        - Acho que voc captou a coisa, meu amigo. Estamos apenas reciclando designs velhos, provavelmente dos dias em que voc ainda estava aqui. - Era mais verdadeiro 
do que qualquer um dos dois sabia. 
        No haviam feito nada de original em uma dcada inteira, praticamente desde que Charlie partira para Londres. O espantoso era que ningum na Europa jamais 
percebera. 
        - Mas por qu? Do que  que tm tanto medo? 
        - Do progresso, acho. Da mudana. Esto usando frmulas que funcionaram para eles durante anos. Querem ficar seguros. Ganharam um monte de prmios quinze 
anos atrs e, em algum momento, quando ningum estava olhando, a empresa perdeu a garra. Agora, ningum mais aqui tem garra. Todo o nosso trabalho realmente empolgante 
est sendo feito na Europa. 
        Fez ento um gesto de cumprimento a Charlie e os dois sorriram. Era um alvio para ambos poder conversar. Bem Chow detestava o que fazia ali tanto quanto 
Charlie detestava ser responsvel por isso. 
        - Mas por que no deixam uma pessoa fazer o mesmo aqui? - perguntou Charlie, ainda confuso. 
        - Porque isto aqui  o feudo deles - disse Bem com absoluta certeza e, ouvindo-o, Charlie entendeu que ele tinha razo. 
        Aqueles sujeitos que eram donos da firma no iam deixar que sasse dali nada que no fosse exatamente o que queriam. 
E, no que lhes dizia respeito, o que Charlie fazia era uma aberrao que s funcionava no estremo Oriente ou na Europa. 
        - Por que voc fica? - perguntou-lhe Charlie, parecendo curioso. 
        - Isto aqui no pode ser agradvel para voc e, nesse ritmo, tambm no vai ajudar em nada o seu currculo. 
        - Sei disso. Mas eles ainda tm um nome que atrai a ateno das pessoas. A maioria delas ainda no percebeu aquilo que ns sabemos!  provvel que ainda 
levem mais uns cinco anos, e a estar tudo acabado. Quero voltar para Hong Kong no ano que vem, mas primeiro ainda quero passar mais um ano aqui. 
Pareceu sensato a Charlie e ele assentiu com a cabea. 
        - E quanto a voc? - Bem j dissera a vrios amigos que no achava que Charlie fosse durar seis meses ali. 
        Ele era avanado demais e criativo demais para desperdiar seu tempo reciclando lixo. 
        - Eles concordaram em me mandar de volta para Londres daqui a um ano. 
        - Mas ele j estava preocupado com Dick Bames, que pode no estar disposto a desistir de dirigir o escritrio londrino, e isso poderia vir a ser um srio 
problema. 
        - Eu no apostaria nisso - disse Bem com um ar de quem sabe das coisas. 
        - Se gostarem do seu estilo, vo tentar mant-lo aqui para sempre. 
        - Creio que eu no conseguiria suportar - disse Charlie, quase num sussurro. 
        Estava longe, longe demais daquilo que fizera na Europa. Mas poderia dar-lhes um ano. Havia prometido isso a eles e estava pronto para cumprir sua obrigao. 
        Porm, na manh de segunda-feira, envolveu-se numa discusso enorme com Bill e Arthur a respeito de uma construo complicada que estavam realizando em Chicago. 
        Transformou-se numa briga que durou a semana inteira, um debate ideolgico que por fim ps em xeque a integridade e a tica de todo mundo. E Charlie no 
estava absolutamente disposto a recuar. 
        S que todo mundo foi arrastado para os debates e isso dividiu o escritrio inteiro em faces. L pelo final da semana, todo mundo j estava finalmente 
apaziguado, os nimos haviam serenado, e a maioria dos participantes recuado para posies conciliatrias, embora as questes principais no tivessem sido inteiramente 
resolvidas  total feio de Charlie. E, em poucos dias, uma discusso semelhante irrompeu a respeito de um projeto em Phoenix. 
Tudo era sempre sobre design e sobre ter a coragem de avanar, em vez de vender os mesmos e velhos conceitos surrados a clientes incautos. 
        Mas estavam apenas fazendo em Phoenix a mesma coisa que fizeram antes e o prdio era praticamente idntico ao que haviam construdo em Houston, s que o 
cliente no sabia. 
        - Afinal, o que est se passando aqui? - disse Charlie, em tom bombstico a ambos os scios, numa reunio fechada em seu escritrio, uma semana antes do 
Natal. 
        Havia nevado a semana inteira e trs de seus arquitetos no tinham conseguido chegar da periferia, o que tornou a presso sobre eles um pouco maior. 
        A batalha de Phoenix vinha grassando desde o incio da manh. 
        - O que, exatamente, estamos fazendo? No estamos vendendo nada original. No estamos sequer vendendo design. Estamos nos transformando em empreiteiros, 
isso  o que ns todos somos. Ser que no entendem? - Os dois que estavam sentados na sala com ele se encresparam diante das acusaes e lembraram-lhe que aquela 
era uma das firmas arquitetnicas mais respeitadas do pas. 
        - Nesse caso, por que no agimos como tal e comeamos a vender design de novo, e no esta merda que poderia ser feita por qualquer retardado? Realmente no 
posso permitir que faam isso. - disse ele, e os dois scios se entreolharam, mas Charlie estava de costas para eles, olhando a neve pela janela. Estava completamente 
frustrado pelo que eles andavam fazendo e humilhado pelo que vendiam. Tinha sido realmente um desastre para ele e, quando se virou de novo para os dois scios, ficou 
surpreso ao ouvi-los lembrar isso a ele... j haviam discutido a questo vrias horas antes e estavam tentando salvar uma situao muito delicada. 
        - Sabemos que voc passou por tempos difceis... Ouvimos falar a respeito de sua esposa - disseram, cautelosamente. - Deve ter sido muito estressante para 
voc, Charlie. E voltar da Europa depois de tantos anos tambm no deve ser fcil. Talvez tenhamos errado em pedir-lhe que simplesmente mergulhasse no servio em 
questo de dias, sem sequer parar para respirar entre Nova York e Londres. Talvez precise algum tempo para se ajustar. Que tal umas pequenas frias? Tem um projeto 
em Palm Beach que poderia ir supervisionar para ns.  verdade, no h nenhum motivo para que no fique l por algum tempo. Poderia facilmente passar um ms l. 
        Quando o disseram, alternando-se nas frases, ambos assumiram um ar um tanto encabulado. 
        - Um ms? Na Flrida? Isso  alguma maneira educada de livrar de mim? Por que simplesmente no me despedem? 
        Na verdade, haviam discutido isso tambm, mas dado o seu imenso sucesso no exterior, e o contrato que havia assinado, ambos achavam mais do que um pouco 
constrangedor despedi-lo, e potencialmente muito caro, o fato de ele no conseguir funcionar em Nova York refletiria sobre ele tambm e, estavam ansiosos para evitar 
qualquer possibilidade de processos legais ou escndalo. Charlie era altamente conceituado no ramo. Despedi-lo, com tudo que acarretava, causaria comentrios e controvrsias, 
o que acabaria por atingi-los. 
        Perguntaram-se se larg-lo na Flrida por algum tempo o faria refrescar a cabea, dando a eles uma oportunidade de repensar suas opes. Precisavam de tempo 
para discutir o assunto com os advogados. 
        - Despedir voc? - Soltaram gargalhadas diante dessa idia. - Charlie!  claro que no! 
        Mas, s de olhar para eles, Charlie no se deixava enganar. Sabia que mand-lo para a Flrida era apenas uma manobra estratgica para que largasse do p 
deles. E sabia tambm que no apenas estava infeliz em Nova York, mas tambm os estava deixando muito nervosos. Profissionalmente, pelo menos, em seus anos no exterior, 
passara a representar tudo que eles odiavam. 
        Era vanguardista demais para o escritrio de Nova York, e, em sua pressa de preencher o cargo, eles de alguma forma deixaram passar esse detalhe. 
        - Por que simplesmente no me mandam de volta para Londres? - perguntou ele, cheio de esperanas. 
        Mas a verdade era que no podiam. Tinham acabado de assinar um contrato com Dick Bames, garantindo o antigo emprego de Charlie por pelo menos cinco anos. 
Dick os procurara com um advogado incrivelmente ladino. Mas o contrato havia sido firmado no mais completo sigilo e Charlie no sabia nada a respeito. 
        - Eu seria muito mais feliz se estivesse l, e vocs tambm, pelo que deduzo. - Sorriu para aqueles dois homens que eram os seus patres. 
        No eram homens maus, apenas no tinham o menor senso de empolgao artstica e, ultimamente, parecia estar lhes faltando coragem. Estavam cansados de tudo 
que faziam e governavam um Estado policial, a fim de manter tudo do jeito que queriam. 
        - Precisamos de voc aqui, Charlie - explicaram, mais do que nunca parecendo-lhe dois irmos siameses. 
        - Vamos ter de conseguir tirar o melhor de uma situao difcil. 
        Mas no pareciam mais felizes do que ele prprio, e buscavam desesperadamente uma soluo. 
        - Por qu? Por que fazer algo que no queremos fazer? - disse Charlie subitamente, sentindo um estranho mpeto de liberdade. 
        Ele j perdera tudo aquilo que lhe era importante quando Carole foi embora. No tinha esposa, no tinha laos, no tinha famlia, no tinha lar em lugar 
nenhum e todos os seus pertences estavam guardados. Tudo que tinha agora era seu emprego, e odiava-o mais do que jamais odiara qualquer coisa que j tivesse feito. 
Por que ficar? De repente, no conseguia pensar num nico motivo para estar ali, alm do seu contrato. Mas talvez um bom advogado pudesse revog-lo. Um pensamento 
acabara de lhe ocorrer, enquanto estavam conversando, e ele ficou verdadeiramente subjugado por um sbito senso de libertao. Ele no tinha de estar ali. Na verdade, 
se tirasse uma licena, podiam at se sentir aliviados por no ter de pagar-lhe. 
        - Talvez eu devesse simplesmente ir embora - disse ele, tentando ser prtico, parecendo completamente no-emocional a esse respeito. 
        Mas os scios seniores estavam muito mais preocupados em perd-lo do que ele em ir embora. Alm de tudo, no tinham mais ningum para dirigir o escritrio, 
e nenhum dos dois queria fazer isso. 
        - Talvez uma licena remunerada - disseram cautelosamente, observando para ver a sua reao. Mas ele parecia mais feliz do que em todas aquelas sete semanas 
desde que chegara ali. Era precisamente nisso que estava pensando. Havia percebido tudo que precisava saber agora. 
        No eram donos dele. Poderia ir embora no momento em que quisesse. E de repente ele j no ligava para o que acontecesse. Eventualmente, sempre poderia voltar 
a Londres, ainda que os deixasse. 
        - Creio que uma licena remunerada seja uma grande idia - disse Charlie, sorrindo para eles, sentindo-se quase tonto de tanta empolgao. 
        Era como fazer queda livre, como flutuar livre no ar, completamente solto, sem amarras. 
        - No me importo se quiserem me despedir - disse ele quase de forma atrevida, e ambos deram de ombros como resposta. 
        Dado o contrato que haviam assinado, se o despedissem teriam, de qualquer maneira, de continuar pagando a ele durante dois anos, ou Charlie poderia virar-se 
contra eles e process-los. 
        - Por que no tirar apenas uns poucos meses de licena. remunerada,  claro. - Estavam dispostos a pagar quase que qualquer coisa, nesse momento, para evitar 
as batalhas constantes com ele. J os estava deixando malucos. 
        - D-se algum tempo para decidir para onde quer ir. Voc pode at concluir que afinal no estamos to errados assim, depois que considerar a questo com 
um pouco mais de cuidado. - Se ao menos ele concordasse em jogar de acordo com as regras deles, poderiam conviver. Mas, por enquanto, para Charlie, de qualquer forma, 
isso parecia fora de questo. 
        - Voc pode tirar at seis meses, Charlie, se precisar. Voltaremos a discutir tudo quando estiver pronto. 
        Afinal de contas, era um bom arquiteto e precisavam dele, mas no se estava disposto a remar contra a mar e contestar cada deciso que tomassem a respeito 
de cada prdio. 
        Mas, no obstante, tinha a sensao de que guardavam algum trunfo na manga e que no estavam sendo totalmente honestos com ele, e no conseguia evitar o 
pensamento de que em algum momento planejaram mand-lo de volta a Londres. 
        Podia sempre voltar por conta prpria,  claro. Mas agora que estava ali, achou que podia passar um ms ou dois viajando por outras cidades, talvez Filadlfia 
e Boston. 
E, depois disso, queria voltar  Inglaterra. 
        - Gostaria de voltar a Londres - disse Charlie, honestamente. 
        - No creio que o escritrio de Nova York venha a funcionar para mim, nem em seis meses, nem aps um longo perodo de frias. - No queria engan-los. - 
A atmosfera aqui  muito diferente. Posso fazer isso por algum tempo, se precisarem de mim. Mas acho que ficar comigo aqui  contraproducente. 
        - Pensamos nisso tambm, de qualquer maneira, aps esta conversa - disseram eles, parecendo aliviados. No que lhes dizia respeito em seus anos no exterior, 
Charlie se tornara um renegado e um desajustado. Havia trabalhado independente durante muito tempo e se imbura de idias europias demais para poder reajustar seu 
pensamento mesmo agora que voltara de l. 
        O prprio Charlie se dava conta de que sempre restava a possibilidade de acabar podendo entrar em acordo com eles, ao menos por algum tempo. E talvez, aps 
seis meses de ausncia, se sentisse pronto para voltar a encarar Nova York, mas duvidava. 
        Era desconfortvel demais para ele, e no conseguiria fazer nenhum trabalho do tipo pelo qual se tornara conhecido. Mas seis meses lhe dariam tempo suficiente 
para pensar e decidir o seu destino. No pde evitar de imaginar, tambm, se eles no estariam certos em outro sentido. Haviam deixado implcito que ele estava esgotado, 
exausto, aps seus problemas com Carole. 
        E talvez precisasse de tempo para se recobrar. Deixar o trabalho e tirar um perodo de folga era a coisa mais desvairada para ele. Nunca fizera nada semelhante 
antes. Mal utilizava seu perodo de frias anual e no tivera nenhum tempo significativo de folga desde a universidade, nem nunca desejara. Mas na situao em que 
se encontrava, de sbito parecia muito atraente. Tinha um contrato com a firma, mas sabia que precisava se afastar do escritrio de Nova York, antes que aquilo o 
levasse  total loucura. 
        - Para onde vai, daqui? - perguntaram, com preocupao. Por mais decepcionante que sua volta tivesse sido para eles, sempre tinham gostado de Charlie. 
        - No fao a menor idia - disse ele com honestidade, tentando saborear a incerteza de sua situao, em vez de se deixar atemorizar por ela. No havia nada 
para ele, ali. Mas no havia nada para ele em Londres, tampouco. E no queria arriscar a possibilidade de topar com Simon e Carole. 
        Era mais fcil ficar nos Estados Unidos por mais algum tempo. 
        - Talvez eu v a Boston - disse vagamente. 
        Havia crescido l, porm no tinha mais parentes naquela cidade. Seus pais haviam morrido h muito e a maioria das pessoas que conhecia eram do seu tempo 
de infncia, pessoas que ele no procurava h eras e que realmente no desejava procurar. Particularmente agora, precariamente instalado, quase desempregado e com 
uma histria triste para contar a respeito de Carole. 
        Pensou em esquiar em Vermont por uma ou duas semanas, viajando por algum tempo, e depois pegar um avio de volta a Londres, antes de tomar qualquer deciso 
permanente. No tinha planos para as frias e estava completamente livre. 
        Ainda lhe restava um bom dinheiro no banco aps o divrcio, e com seu salrio poderia se permitir ficar  toa por enquanto. Podia at ir esquiar na Sua 
ou na Frana, aps regressar a Londres. Mas tambm se dava conta de que no tinha mais um lar naquela cidade. No tinha lar em lugar nenhum, e seus pertences estavam 
num navio, em algum ponto do Atlntico, a caminho para ficarem armazenados. O que quer que ele decidisse fazer no final, sabia que seria muito mais atraente do que 
sentir que estava morrendo esmagado naquele escritrio de Nova York. 
        - Mantenha contato conosco - disseram, quando contornou a mesa para trocar apertos de mos com eles. Estavam imensamente aliviados pelo tom e pelo resultado 
da reunio. Por um breve momento, temeram que ele fosse lhes causar muitos problemas, e poderia ter feito isso. De acordo com o seu contrato, poderia ter insistido 
em ficar l, e percebiam agora que as batalhas com ele teriam sido incessantes. 
        - Manteremos contato com voc a respeito do que vamos fazer quando a licena se encerrar. 
        Tinham concordado em seis meses e, embora ele ainda no soubesse o que fazer com esse tempo, estava determinado a us-lo e a desfrut-lo. Mas se perguntava 
seriamente se algum dia seria capaz de voltar a trabalhar para eles. No em Nova York, de qualquer forma, e sentiu que, apesar de terem concordado com ele em mand-lo 
de volta aps um ano, havia algum tipo de pedra no caminho de Londres. Sentiu como se eles estivessem apenas sendo indulgentes com ele, e no estava muito errado, 
embora no o soubesse. 
        Dick Barnes agora tinha o seu antigo emprego, com um ttulo levemente diferente, e os scios seniores da firma gostavam autenticamente dele. Era de longe 
muito mais tratvel e fcil de lidar do que Charlie. No conseguiu evitar o pensamento, enquanto guardava as poucas coisas de sua mesa, de se algum dia retornaria 
 Whittaker & Jones, em qualquer cargo, em qualquer cidade. Estava comeando seriamente a se questionar. Despediu-se de todos no fim da tarde. 
        Tudo que levava consigo estava em sua maleta. J devolvera a todos as suas pastas. No tinha nada em que trabalhar, nada que levar, nada para ler, nenhum 
prazo, nenhum projeto, nenhuma planta. 
        Agora, estava livre. 
        E o nico que ele lamentava deixar era Bem Chow, que olhou para ele com um sorriso amplo, imediatamente antes de Charlie deixar o escritrio. 
        - Como  que voc deu essa sorte? - Ele perguntou, baixinho, e ambos riram. 
Charlie sentia-se quase eufrico ao agradecer aos dois scios e ir embora, ainda no inteiramente seguro se acabaria se demitindo, sendo demitido, ou se estaria 
realmente em longo perodo de frias. 
        Mas o que quer que resultasse, pela primeira vez na vida ele no estava sequer preocupado. Sabia que o teriam destrudo artisticamente se ficasse ali. 
        - E agora? - perguntou a si mesmo, enquanto voltava a seu apartamento. 
        Dissera-lhes que desocuparia o estdio pela manh. 
        O ar frio e a neve em seus olhos o deixaram mais sbrio. O que ele iria fazer? Para onde iria? Ser que queria realmente ir esquiar, como dissera, ou simplesmente 
voltaria a Londres? E, se o fizesse, o que faria ento? Em uma semana seria Natal e ele sabia que estar em Londres nas festas s iria deix-lo infeliz, pensando 
em Carole. Ia querer encontr-la ou no mnimo telefonar-lhe. Ia querer-comprar-lhe um presente e depois v-la para poder d-lo. 
        Podia sentir o carrossel inteiro de agonia comeando a girar novamente, s ao colocar essas questes. Em certo sentido, seria mais fcil no estar l. Era 
difcil no se lembrar de que seria o primeiro Natal deles separados, em dez anos. Ela chegara at a tomar um avio para Londres, s para estar com ele no primeiro 
ano em que ele morou l, antes de se casarem. Mas no este ano. Este ano ela estaria com Simon. 
        A idia de esquiar lhe parecia boa e ele telefonou a fim de alugar um carro para o dia seguinte, assim que chegou ao apartamento. Ficou surpreso de encontrar 
um carro ainda disponvel, pois todo mundo queria carros para as festas, para visitar parentes e levar presentes. 
        Alugou-o por uma semana e pediu mapas de Vermont, New Hampshire e Massachusetts, calculando que poderia alugar equipamento de esqui quando chegasse l. Sentiu-se 
como um menino fugindo de casa ao sentar-se no sof, pensando no que havia feito. Uma carreira respeitvel acabava de saltar pela janela e ele no tinha nem certeza 
de que isso era importante. Aquilo era uma total e completa loucura. 
        Perguntou-se se no estaria finalmente ficando biruta aps o estresse do ano anterior, e pensou em telefonar para amigos em Londres s para sentir a reao 
deles, mas havia perdido contato com praticamente todo mundo. No quis partilhar sua dor com ningum e ficara exausto com as perguntas, as sondagens e as fofocas. 
At mesmo a solidariedade deles havia sido exaustiva. No final, tinha sido mais fcil ficar sozinho. E tambm calculara que a maioria deles estaria vendo muito Carole 
e Simon, e no queria tampouco ouvir falar disso. 
        Por isso, ficou apenas sentado, sozinho, imaginando o que Carole diria se soubesse que ele acabara de deixar a firma por vrios meses, se no para sempre. 
Provavelmente ficaria muito espanta, pensou, mas por outro lado a beleza inerente quela situao era que ele no devia mais explicaes a ningum. 
        Fez suas malas naquela noite, arrumou tudo, jogou fora algumas coisas da geladeira e estava pronto s oito horas da manh seguinte. Tomou um txi para o 
centro da cidade a fim de pegar o carro, e ao passar pelas lojas de departamentos, viu as vitrines de Natal profuso e difcil, diabos, no faz-lo. Tinha sido to 
bom, e por tanto tempo, que ele ainda se perguntava qual teria sido a sua falha que no lhe permitiu ver o que estava acontecendo, quando comeou a perd-la. Se 
tivesse percebido, na poca, talvez pudesse ter feito a coisa parar. Era como se torturar por uma vida que voc no foi capaz de salvar. 
        A vida que havia perdido era a sua prpria, a vtima tinha sido seu casamento. E ele se perguntava se um dia voltaria a sentir a mesma coisa com relao 
a algum. Perguntava-se como ela pde se sentir to segura indo embora com Simon. No conseguia imaginar a possibilidade de confiar tanto em algum. Na verdade, 
tinha certeza de que tal no aconteceria. Levou muito tempo para dormir e, quando isso aconteceu, o fogo j estava agonizando. 
        Os carves lanavam uma luminosidade suave no quarto e a neve havia parado de cair. 
        De manh, ao acordar, a dona da pousada estava batendo  sua porta, com muffins de uva-do-monte quentinhos e um bule de caf fumegante. 
        - Achei que ia gostar, Sr. Waterston. 
        Sorriu para Charlie, quando ele abriu-lhe a porta usando apenas uma toalha enrolada na cintura. Havia mandado todos os seus pijamas junto com a roupa para 
ser armazenada, e no se lembrou de comprar novos. Mas ela no fazia qualquer objeo a ver seu corpo longilneo, enxuto, musculoso. S a fez ter vontade de ser 
vinte anos mais moa. 
        - Muito obrigado - disse ele, sorrindo para ela, parecendo ainda sonolento e com os cabelos um pouco desgrenhados. 
        E quando abriu as cortinas, ficou olhando para o dia, que estava to bonito. A neve se acumulava em montinhos graciosos e o marido dela estava l fora, limpando 
a entrada de carros com a p. 
        - Vai ter de tomar cuidado ao dirigir, hoje - preveniu ela. 
        - H camadas de gelo? - perguntou, s para manter uma conversa, mas no parecia preocupado. 
        - Ainda no. Porm mais tarde vai haver. Dizem que vai voltar a nevar esta tarde. H uma tempestade vinda da fronteira canadense. 
        Mas ele no se incomodava. Tinha todo o tempo do mundo e podia dirigir pela Nova Inglaterra de trinta em trinta quilmetros, se fosse necessrio. No tinha 
pressa para fazer nada, nem mesmo para esquiar, embora estivesse aguardando a oportunidade de faz-lo. No esquiava nos Estados Unidos desde o tempo em que morara 
ali. 
        Ele e Carole tinham ido a Sugarbush, nos velhos tempos, quando ele residia em Nova York Mas j resolvera ir a algum lugar diferente. No precisava de mais 
peregrinaes a lugares que guardavam lembranas dela. E muito menos no Natal. 
Charlie deixou a pousada uma hora depois, de banho tomado, vestindo calas de esqui e uma parca, levando a garrafa trmica de caf. Pegou a Interestadual sem dificuldade 
e dirigiu-se para Massashusetts. Dirigiu sem parar por um longo tempo e ficou surpreso ao ver como a estrada estava livre. 
        A neve no o atrasou em nada, e em nenhum momento ele precisou sequer colocar as correntes que a locadora havia providenciado. Estava fcil de dirigir, at 
que chegou a Whately, quando ento comeou a nevar levemente, e ele ficou observando os flocos de neve se acumularem no pra-brisa. A essa altura estava cansado 
e ficou surpreso ao ver como chegara longe. Estava dirigindo h horas, e se encontrava bem nas cercanias de Deerfield. 
        No tinha qualquer destino particular em mente, mas decidiu tentar continuar por algum tempo, s para que no tivesse de dirigir muito at Vermont, na manh 
seguinte. Mas, quando passou por Deerfield, estava nevando de verdade. A Deerfield histrica era maravilhosamente pitoresca, e ele sentiu-se tentado a parar e dar 
uma olhada. Tinha ido l com os pais, quando criana, e lembrava-se do fascnio que sentira ao ver as casas de trezentos anos que haviam sido preservadas. Desde 
criana que j sentia fascnio por tudo que era arquitetnico, e a visita ao local causou-lhe forte impresso. Mas achou que era tarde demais para parar agora e 
quis continuar. 
        Com sorte, poderia at chegar  fronteira de Vermont. No tinha nenhuma rota ou plano particular em mente, queria apenas seguir em frente e estava constantemente 
pasmo com a beleza do lugar, com o encanto da cidade. Atravessou pontes cobertas e cidades histricas, sabendo que havia uma cachoeira nas proximidades. Se fosse 
vero, teria parado e caminhado, talvez at ido nadar. A Nova Inglaterra era onde havia crescido. 
        Esse era o seu lar e ele subitamente deu-se conta de que no tinha sido por acidente que fora at ali. Chegara l para curar-se. Para pisar em cho familiar. 
Talvez j fosse hora de finalmente acabar com aquele luto e se recuperar. 
        Seis meses antes, no poderia sequer imagin-lo, mas agora sentia-se como se o processo de cura houvesse comeado, s porque havia chegado ali. Passou pelo 
Forte Deerfield e lembrou-se de seu fascnio de novo por esse marco histrico, mas limitou-se a sorrir, passando de carro lembrando-se do pai. Ele contara a Charlie 
histrias maravilhosas sobre os ndios ao longo da Trilha Mohawk, na qual ficava Deerfield, bem como sobre os iroqueses e os algonquinos. Charlie adorara ouvi-las, 
o pai sempre teve um reservatrio notvel de conhecimentos. Tinha sido professor de histria norte-americana em Harvard, e viagens como essa sempre foram um legado 
especial de pai para filho, tal como as histrias que ele lhe contava. Isso fez Charlie pensar nele de repente, mais uma vez, e sentiu vontade de ter-lhe contado 
sobre Carole. 
        Pensar a respeito dos dois trouxe-lhe lgrimas aos olhos, mas ele tinha de parar de sonhar e se concentrar novamente na estrada, j que a neve comeava a 
cair mais forte. S progredira menos de vinte quilmetros a meia hora, desde Deerfield. Mas agora estava comeando a ficar difcil enxergar. Passou por uma placa 
no caminho para uma cidade pequena, viu que estava em Shelburne Falls. Pelo melhor que podia calcular percorrera uns dezesseis quilmetros para noroeste de Deerfield, 
e rio gelado correndo prximo era o rio Deerfield. Era uma cidadezinha pequena, de aspecto graciosamente antiquado, aninhada na encosta da colina, dando para o vale. 
E, como a neve o cercava num torvelinho cada vez mais furioso, Charlie abandonou qualquer idia de continuar dirigindo at Vermont. 
        No parecia prudente ir mais alm e imaginou se conseguiria encontrar uma pousada, ou um pequeno hotel. Tudo que podia ver em torno eram casas pequenas, 
muito bem arrumadas, enquanto dirigia. E agora estava quase impossvel dirigir. Parou o carro por um minuto, inseguro a respeito de que caminho tomar, e ento baixou 
o vidro da janela. Conseguiu ver uma rua saindo para algum lugar  esquerda e virou o carro lentamente, decidindo tentar esse caminho. 
        Teve medo de que o carro viesse a derrapar na neve recm-cada, mas os pneus para neve seguraram firme e ele seguiu lentamente pela rua que corria paralela 
ao rio Deerfield, e no momento em que estava comeando a se sentir perdido e achar que o melhor seria retornar, viu uma casa muito bem arrumada, com cobertura de 
tabuinhas de madeira, um mirante no alto e uma cerca de pequenas estacas de madeira branca em torno. E a placa pendendo para fora da cerca dizia simplesmente PALMER 
QUARTOS COM CAF DA MANH. 
        Era exatamente o que ele queria. Estacionou cuidadosamente no caminho de carros. Havia uma caixa de correio do lado de fora que parecia uma casa de passarinhos, 
e uma cadela setter irlandesa veio saltitando pela neve, abanando o rabo ao v-lo. Parou e fez-lhe carinho, mantendo o queixo bem para baixo, pois a neve rodopiava 
em torno dele, e seguiu at  porta da frente, batendo na aldrava de lato bem polido. 
        Mas, por um longo tempo, ningum atendeu e Charlie comeou a pensar que no tinha ningum em casa. 
        Havia luzes no interior, mas nenhum som, e a setter sentou-se ao lado dele, olhando-o em expectativa, enquanto ele aguardava. Acabara desistindo e comeara 
a descer os degraus da frente, quando a porta se abriu cautelosamente e uma mulher pequena, de cabelos brancos, olhou para ele como se estivesse se perguntando por 
que fora at l. 
        Estava muito bem-vestida com uma saia cinza e um suter azul-claro, tinha um cordo de prolas em torno do pescoo, e o cabelo, branco como a prpria neve, 
estava puxado para trs num coque, seus olhos azuis brilhantes parecendo examinar cada polegada dele, que parou subitamente. 
        Tinha o aspecto de algumas das mulheres mais velhas que conhecera em Boston quando criana, e parecia uma candidata improvvel a gerente de uma pousada. 
Mas tambm no fez qualquer movimento para abrir mais a porta. 
        - Sim? - Ela abriu a porta s um pouquinho, para permitir que a cachorra entrasse, e olhou para Charlie com curiosidade, mas em sinal de boas-vindas. - Em 
que posso ajud-lo?
        - Vi a placa. Pensei... esto fechados para o inverno? - Talvez ela s funcionasse no vero, pensou. 
        Algumas das pousadas procediam assim. 
        - No estava esperando ningum para as festas - disse ela cautelosa. - H um motel na estrada para Boston. Fica logo depois de Deerfield. 
        - Obrigado. desculpe. eu... 
        Sentiu-se constrangido por ter bancado o intruso. Ela parecia to senhorial e to educada que se sentiu como uma espcie de vagabundo, irrompendo em cena 
sem qualquer aviso ou convite. Mas, enquanto se desculpava, ela sorriu-lhe e ele ficou espantado em ver como seus olhos eram vivazes. 
        Eram quase eltricos, cheios de energia e de vida e no entanto podia dizer, s de olh-la, que devia estar perto dos setenta anos e que, no fazia muito 
tempo, ainda tinha sido muito bonita. Era delicada e gentil e surpreendeu-o ao recuar um passo e abrir a porta o suficiente para que ele entrasse. 
        - No se desculpe - ela sorriu. - Eu apenas fiquei surpresa No esperava ningum. Acho que esqueci os bons modos. Gostaria de entrar para tomar alguma coisa 
quente? Na verdade, no estou preparada para visitantes neste exato momento. S costumo receber hspedes no tempo quente. - Ele hesitou  porta, olhando para ela, 
perguntando-se se deveria continuar a dirigir enquanto ainda podia e achar o motel que ela havia recomendado. Mas era muito tentador entrar e visit-la. Podia ver 
da porta como a sala era bonita. 
        Era uma casa antiga magnificamente construda, possivelmente at dos tempos da Revoluo, com travas de madeira macia no teto, assoalho cuidadosamente assentado. 
E deu para ver que o aposento estava cheio de antiguidades encantadoras e pinturas inglesas e americanas antigas. 
        - Entre. Glynnis e eu vamos nos comportar, prometo. - Apontou para a cachorra ao dizer-lhe o nome e a selter grandalhona sacudiu o rabo furiosamente, como 
que endossando a promessa. - No pretendi ser to pouco hospitaleira. S fiquei um pouco assustada. 
        Enquanto ela falava, Charlie viu-se incapaz de resistir ao convite e entrou na sala clida, aconchegante, que parecia absorv-lo como se fosse mgica. 
        Era ainda mais encantadora do que ele suspeitara da porta. 
        Havia um fogo aceso na lareira e um piano antigo espantosamente bonito no canto. 
        - Desculpe-me por me intrometer assim. Estava dirigindo para o norte at Vermont, mas a neve ficou pesada demais para que eu pudesse continuar. 
        Olhou para ela com admirao, pensando em como ainda era bonita e graciosa, enquanto ela seguia para a cozinha e ele ia atrs. Ps no fogo uma chaleira grande 
de cobre e ele no pde deixar de notar que tudo era imaculado. 
        - Que bela casa a senhora tem...  a Sra. Palmer? - lembrou-se do nome na placa e ela sorriu em resposta. 
        - Sim. Obrigada. E o senhor ...? - Olhou para ele como uma professora esperando uma resposta e, desta vez, ele sorriu. No sabia quem ela era ou por que 
tinha ido at ali, mas no mesmo instante entendeu que havia adorado. 
        - Charles Waterston - disse ele, estendendo-lhe educadamente a mo, que ela tomou e apertou. As mos dela eram muito macias e jovens para a idade, as unhas 
muito bem tratadas, e havia uma aliana de ouro liso. Isso e mais as prolas que usava eram suas nicas jias. Todo o dinheiro disponvel que ela sempre tivera fora 
aplicado nas antiguidades e pinturas que ele via por toda a parte. 
        Mas sua qualidade no passou despercebida a Charlie, que vira muitas coisas boas... na infncia e em Londres para ignor-las. 
        - E de onde vem, Sr. Waterston? - perguntou a Sra. Palmer, enquanto preparava a bandeja de ch. 
        Ele no fazia idia se estava ou no convidado para o ch, ou se teria permisso para passar a noite ali, e nem ousou perguntar. 
        Se ela no ia deix-lo ficar, sabia que devia apressar-se antes que a nevasca piorasse e as estradas ficassem escorregadias demais. Mas no disse nada a 
esse respeito e viu-a colocar um bule de ch de prata sobre um pano de linho bordado que era muito mais velho do que ela. 
        - Essa  uma pergunta interessante - disse ele com um sorriso enquanto ela acenava-lhe para sentar-se a uma poltrona de couro muito confortvel, diante do 
fogo, em sua cozinha. Havia uma mesa de centro George III diante dela, sobre a qual ela gostava de servir o ch. - Morei em Londres nos ltimos dez anos e vou voltar 
depois das frias Mas acabei de chegar de Nova York, na verdade, ontem. Passei l os ltimos dois meses e estava planeando passar o ano inteiro, mas agora parece 
que posso voltar a Londres. 
        Foi a explicao mais simples que pde dar, sem ter de entrar em todos os detalhes. E ela sorriu suavemente, enquanto o encarava, como se compreendesse muito 
mais do que ele havia contado. 
        - Uma mudana de planos?
        - Pode-se dizer assim - respondeu ele, enquanto dava tapinhas carinhosos na cachorra. 
        Em seguida, ergueu novamente os olhos para sua anfitri. Esta colocou um prato de biscoitos de canela sobre a mesa e era como se tivesse estado esperando 
ele chegar. 
        - No deixe a Glynnis com-los - preveniu ela, ao que ele riu e ento ocorreu-lhe perguntar se no estaria incomodando. 
        J estava quase na hora do jantar e no havia motivo para ela estar lhe servindo ch, particularmente considerando que no recebia hspedes durante o inverno. 
Mas ela parecia estar gostando da visita. 
        - A Glynnis gosta particularmente de canela, embora ela tambm seja muito chegada aveia. - A Sra. Palmer explicou essas particularidades da cachorra enquanto 
Charlie sorria-lhe, imaginando se ela teria morado ali a vida inteira. 
        Era difcil olhar para a Sra. Palmer e no ficar tentando imaginar sua histria. 
        Ela parecia surpreendentemente elegante e muito frgil. 
        - Vai retornar a Nova York, Sr. Waterston, antes de voltar a Londres? 
        - Acho que no. Vou agora esquiar em Vermont e achei que poderia tomar um avio via Boston. Temo que Nova York no seja minha cidade preferida, embora eu 
tenha morado l por um longo tempo. Acho que a vida na Europa me estragou um pouco. 
        Ela deu-lhe ento um sorriso extremamente gentil, sentando-se diante dele do outro lado da mesinha requintada. 
        - Meu marido era ingls. Costumvamos visitar a Inglaterra de vez em quando, para ver os parentes dele, mas ele sentia-se feliz aqui e, depois que os parentes 
morreram, nunca mais voltamos. Ele dizia que tinha tudo que queria aqui mesmo, em Shelburne Falls. 
        Ela sorriu para o seu hspede, e havia algo em seus olhos que no foi expresso em palavras. Charlie no pde deixar de ficar imaginando o que seria, talvez 
dor, ou apenas lembrana, ou amor por um homem com quem ela havia partilhado a vida. 
        Ficou imaginando se, na idade dela, ainda teria esse aspecto, quando falasse de Carole. 
        - E a senhora, de onde ? - perguntou ele, tomando um gole do ch delicioso que ela lhe preparara. 
        Era Earl Grey, e ele era um grande bebedor de ch, mas nunca provara um to bem-feito. Ela tinha alguma qualidade realmente mgica. 
        - Sou daqui mesmo - disse ela com um sorriso, pousando a xcara. 
        A porcelana era Wedgwood, to delicada quanto ela. O cenrio inteiro fez Charlie se lembrar de muitos lugares e pessoas que conhecera em suas viagens pela 
Inglaterra. 
        -Vivi em Shelburne Falls a vida inteira. Nesta casa, para falar a verdade, que pertencia a meus pais. E meu filho freqentou a escola em Deerfield. - Ele 
achou difcil acreditar, olhando para ela, pois ela parecia muito mais cosmopolita do que se poderia esperar de uma mulher que passara a vida inteira na Nova Inglaterra, 
e sentiu que devia haver muito mais coisas do que ela estava dizendo. 
        - Achei um lugar muito animado, e foi onde conheci meu marido. Ele era bolsista visitante em Harvard. E ao nos casarmos mudamos para c, isso cinqenta anos 
atrs, completados este ano mesmo. No prximo vero fao setenta anos. 
        Ela sorriu para ele e Charlie teve vontade de inclinar-se e dar-lhe um beijo. Contou a ela sobre a carreira de professor do pai e que ele lecionara histria 
norte-americana em Harvard. Ficou imaginando se ele e o Sr. Palmer algum dia teriam se conhecido, e em seguida contou-lhe sobre as viagens a Deerfield na infncia 
e sua paixo pelas casas locais, bem como seu fascnio pelos caldeires da era glacial nos penedos enormes situados no leito do rio Deerfield. 
        - Ainda me lembro deles - explicou. 
        Ela serviu-lhe mais uma xcara de ch, comeou a azafamar-se pela cozinha e em seguida virou-se para ele com um sorriso caloroso. Sentia-se completamente 
segura com ele. Charlie parecia inteiramente confivel e era obviamente muito bem-comportado e tinha timas maneiras. Ficou se perguntando por que estaria viajando 
sozinho durante as festas, surpresa por ele no ter nenhuma famlia com quem estar, mas nada comentou quando olhou para ele com uma pergunta. 
        - Gostaria de ficar aqui, Sr. Waterston? Para mim no  problema. Posso abrir com facilidade um dos quartos de hspedes. 
Ao dizer isso, voltou a olhar l para fora. A neve caa furiosamente e ela teria achado muito rude mand-lo de novo para a estrada. Alm disso, gostara dele e de 
sua companhia. Esperava que aceitasse o convite. 
        - Tem certeza de que isso no iria lhe causar problemas? - Ele tambm vira a tempestade l fora e no estava nada ansioso para continuar a viagem. Tambm 
gostara dela particularmente. 
        Era como uma viso do passado e ao mesmo tempo parecia ter mo firme sobre o presente, e ele sentia-se aquecido no calor de sua companhia, enquanto ela assentia 
com a cabea. 
        - No quero ser chato. Se a senhora tinha outros planos, no precisa me dar nenhuma ateno. Mas gostaria muito de ficar, se no se importa. 
        Foi um agradvel minueto entre eles, e pouco depois ela o levava para o andar de cima, mostrando-lhe a casa. 
        Esta era toda construda com grande beleza, e ele estava mais curioso em saber como havia sido erguida do que em ver as acomodaes, mas quando ela lhe mostrou 
o quarto que escolhera para ele, ficou parado  porta e sorriu por um longo momento. Era como voltar para casa quando criana. A cama era enorme, os tecidos antigos, 
mas tudo magnificamente bem-feito. O quarto era decorado com chintz azul e branco e havia um conjunto maravilhoso de porcelana antiga sobre a cornija da lareira, 
um modelo de navio na parede e vrias pinturas antigas e excelentes de Moran, retratando navios em mares calmos e em tempestades. Era um quarto no qual ele adoraria 
passar um ano. 
        E, tal com os outros quartos da casa que vira at aquele momento, tinha uma lareira enorme, com achas de lenha empilhadas ao lado, prontas para uso. Tudo 
na casa parecia preciso e bem conservado, como se ela estivesse esperando seus parentes preferidos, ou contasse com uma casa cheia de hspedes a qualquer momento. 
        - Isso  simplesmente adorvel - disse ele, encantado, lanando-lhe um olhar caloroso. 
        Tinha sido muita gentileza dela aceit-lo, e ele era grato tanto por sua hospitalidade quanto por seu esforo. E ela parecia feliz em ver o quanto ele gostara. 
Adorava dividir a casa com pessoas que sabiam apreciar coisas boas e compreendiam o que ela estava compartilhando com eles. A maioria das pessoas que se hospedavam 
com ela vinha atravs de recomendaes. Ela no publicava anncios e fazia somente um ano que pusera uma tabuleta. 
        Durante sete anos, aceitar hspedes a tinha ajudado financeiramente, e as pessoas que ficavam com ela faziam-lhe companhia, evitando que se sentisse muito 
sozinha. Vinha encarando com temor as festas, e a apario de Charlie  sua porta havia sido um presente de Deus. 
        - Fico feliz de que goste da casa, Sr. Waterston. 
        Ele estava examinando as pinturas de seu quarto quando ela falou, e virou-se para ela com um olhar de prazer. 
        - No posso imaginar que algum no adore isto aqui - disse ele, reverentemente, e ela riu, pensando em seu filho. 
        Houve uma expresso melanclica em seus olhos quando ela falou dele, mas tambm uma inequvoca centelha de humor. 
        - Eu posso. Meu filho odiava tudo nesta cidade, e todas as minhas coisas antigas. Ele adorava tudo que era moderno. Era piloto. Voou no Vietn e, quando 
voltou para casa, permaneceu na Marinha. Era piloto de testes em todos os seus caas de mais alta tecnologia. Adorava voar. - Houve algo no modo como ela falou que 
fez com que ele tivesse medo de perguntar, e uma expresso nos olhos dela, a qual dizia que o assunto era muito doloroso. 
        Mas, no obstante, ela continuou. A maneira como se movia e olhava para ele disse-lhe que se havia uma coisa que no faltava a Gladys Palmer era coragem. 
        -Tanto ele quanto a esposa voavam. Compraram um pequeno avio depois que a menininha nasceu. - Percebeu lgrimas aflorando em seus olhos azuis brilhantes, 
enquanto o encarava, mas ela no vacilou. - Achei que no era uma boa idia, mas a gente tende a deixar os filhos fazerem o que tm vontade. Se eu tivesse tentado 
impedi-los, no me teriam dado ateno. Sofreram uma coliso perto de Deerfield, catorze anos atrs, quando vinham para c fazer uma visita. Estavam os trs no avio 
e morreram no momento do impacto. 
Charlie sentiu um n na garganta. Instintivamente, estendeu uma das mos para ela, e tocou-lhe o brao, querendo interromper-lhe as palavras e a dor. No podia imaginar 
nada pior, nem mesmo o que ele havia passado com Carole. Esta mulher havia passado por muito mais coisas, e no pde deixar de imaginar se ela no teria mais filhos. 
        - Sinto muitssimo - ele sussurrou. 
        Ainda tinha a mo em seu brao, mas nenhum dos dois o notou, quando seus olhos o encontraram. Ele sentiu-se como se a conhecesse desde sempre. 
        - Eu tambm sinto. Ele era um homem maravilhoso. Tinha trinta e seis anos quando morreu, e sua garotinha, apenas cinco. Foi uma perda terrvel. - Ela suspirou 
e enxugou os olhos. 
        Ele teve vontade de poder passar os braos em torno dela. E ento ela ergueu o olhar para ele e o que Charlie viu o fez prender a respirao. Havia uma enorme 
abertura, uma enorme coragem, uma enorme disposio de entrar em contato com ele, apesar da dor que j havia sofrido. 
        - Creio que aprendemos alguma coisa com o sofrimento. No estou bem certa do qu, e levei muito tempo para isso. Dez anos tiveram de se passar antes que 
eu conseguisse conversar a esse respeito. Meu marido jamais conseguiu. Na verdade, ele nunca esteve bem, depois disso. Tinha problemas no corao, mesmo quando era 
moo. Morreu trs anos depois. 
        Ela havia sofrido perdas bem maiores do que ele, as cicatrizes ainda eram claramente visveis, e no entanto ainda estava l, de p, segura e firme, sem nenhuma 
disposio de se deixar abater pelos golpes violentos que a vida lhe infligira. 
        E ento ele ficou se perguntando se os seus caminhos no teriam se cruzado por algum motivo. Era muito estranho que ele tivesse de ir justamente at ali. 
        - A senhora tem outros... outros parentes? - Estava sem graa de perguntar-lhe se ela tinha outros filhos, como se o filho perdido pudesse ser facilmente 
substitudo pelos irmos, embora ambos soubessem que no podia. 
        - Nenhum. - Ela sorriu para ele e o que voltou a impression-lo foi como ela transmitia vigor. No havia nela nada de amargo, triste ou deprimido. 
        - Agora vivo totalmente sozinha. Vivo assim h onze anos. Foi por isso que comecei a receber hspedes durante o vero. Se no, acho que ia acabar me sentindo 
muito solitria. - Mas era difcil imaginar isso. Ela parecia viva demais para fenecer, ou trancar-se em casa e ficar se lamentando por aqueles que havia perdido. 
Havia em torno dela toda uma aura de energia e vida. 
        - Eu teria odiado desperdiar esta casa, tambm. Ela  to maravilhosa, que parecia uma pena imensa no dividi-la. Meu filho James. Jimmy e Kathleen nunca 
iam quer-la. Suponho que em algum momento, ainda que ele tivesse vivido, eu teria sido obrigada a vend-la. - Parecia realmente um desperdcio enorme, s falar 
nisso, e ela no tinha ningum agora para deixar seus tesouros. 
        Ele viria a se achar no mesmo barco, um dia, se no fizesse algo a respeito de sua prpria vida, se no voltasse a se casar, se no tivesse filhos. 
        Mas nada disso lhe era atraente, nem por um minuto. 
        No tinha nenhuma vontade de voltar a se casar, ou de viver com outra mulher. 
        - E o senhor? - Olhou para ele, antes de sair do quarto. - Tem alguma famlia, Sr. Waterston? - Ele estava com a idade certa para ser casado e ter vrios 
filhos. Ela o havia calculado um pouco mais jovem do que realmente era. Achou que ele deveria ter mais ou menos a idade de Jimmy. Mas, aos 42 anos, ele com toda 
a certeza deveria estar bem estabelecido. 
        - No, no tenho - disse Charlie, baixinho. - Tal como a senhora, no tenho ningum. Meus pais morreram h muito tempo atrs. E nunca tive filhos. 
        Ela pareceu surpresa e ficou se perguntando se existiria alguma coisa em sua sexualidade que lhe houvesse escapado, mas no achava que tivesse deixado passar 
isso. 
        - Nunca foi casado? - Isso na verdade a surpreendeu. 
        Ele parecia atraente demais, caloroso demais, para ter evitado um relacionamento permanente, mas quando o fitou de novo nos olhos entendeu que havia mais 
coisas nessa histria. 
        - J fui. Estou me divorciando. Ficamos casados por dez anos, mas nunca tivemos filhos. 
        - Lamento muito saber - disse ela com gentileza, soando para ele quase como uma me, e Charlie sentiu seus olhos se encherem de lgrimas quando ela o disse. 
- O divrcio deve ser uma coisa terrvel, esse rompimento entre duas pessoas que um dia se amaram, e que perderam o rumo. Deve ser insuportavelmente doloroso. 
        - E  - disse ele, assentindo com a cabea, pensativo. - Tem sido muito difcil. Nunca havia perdido ningum a quem eu amasse, alm de meus pais,  claro. 
Mas as duas experincias devem ser bem semelhantes. Sinto como se tivesse passado o ltimo ano num transe. Ela partiu h nove meses atrs. A coisa inacreditavelmente 
idiota  que sempre achei que ramos radiantemente felizes antes disso. Parece que eu sou extraordinariamente ignorante a respeito dos sentimentos dos outros. Isso 
no me recomenda muito - disse ele, com um sorriso triste, e ela lanou-lhe um olhar caloroso. 
        Sentiam-se como velhos amigos, embora s se conhecessem h poucas horas. Ele poderia simplesmente sentar-se e conversar com ela pelo resto dos tempos. 
        - Acho que est sendo duro consigo mesmo. Voc no  o primeiro homem a achar que tudo estava bem e ento descobrir que no estava. Mas, mesmo assim, deve 
ser um golpe horrvel, no somente para o corao... mas para o ego. - Ela havia tocado no mago da questo. Ele no estava apenas sentindo a perda e a dor, mas 
sua dignidade e seu orgulho tambm tinham ficado mortalmente feridos. - Parece cruel lhe dizer isso, mas voc vai superar. Na sua idade, no tem outra escolha. No 
pode ficar nutrindo um corao partido pelo resto da vida. Isso no seria certo. Vai precisar de tempo, tenho certeza, mas no final vai acabar saindo da casca. At 
eu tive de fazer isso. Poderia ter fechado a minha porta e ficar sentada nesta casa o resto da vida, esperando morrer, quando Jimmy, Kathleen e Peggy morreram. E, 
mais uma vez, depois que Roland morreu. Mas de que teria servido? No fazia sentido desperdiar os anos que me restavam. Lembro-me deles,  claro. Ainda choro, s 
vezes. No existe um dia, nem uma hora, nem um momento, em que eu no pense em um deles, e s vezes sinto tanto a falta deles que acho que no vou conseguir suportar... 
mas continuo aqui. Tenho de continuar. Tenho de retribuir alguma coisa, fazer com que o meu tempo aqui valha alguma coisa. Se no, os dias que me foram dados aqui 
teriam sido um desperdcio total. E no creio que tenhamos o direito de fazer isso. Acho que s temos direito ao tempo necessrio para o nosso luto interior.
        Ela tinha razo,  claro, e ouvi-la dizer isso o atingiu em cheio. Era exatamente o que ele precisava ouvir, naquele exato momento. 
        E, enquanto pensava a esse respeito, ela ergueu os olhos e voltou a sorrir. 
        - Gostaria de me fazer companhia no jantar, Sr. Waterston? Eu ia fazer costeletas de carneiro e uma salada. Eu no como muito, e talvez no seja to apetitoso 
quanto o senhor gostaria, suspeito, mas daqui at o restaurante mais prximo h uma certa distncia, alm do que est nevando muito forte.
Sua voz foi se apagando, enquanto ela olhava para ele, bastante cnscia de quanto era bonito e, de uma forma estranha e sutil, ele recordava o seu Jimmy. 
        - Eu gostaria muito. Posso ajud-la a cozinhar? Eu at que sou jeitoso com costeletas de carneiro. 
        - Seria muito agradvel. - Deu-lhe um sorriso e Glynnis abanava o rabo, como se compreendesse o que estavam dizendo. 
        - Eu costumo jantar s sete. Desa quando quiser. - disse ela, formalmente, e seus olhares se cruzaram por um longo momento. 
        Haviam trocado ddivas valiosas naquela tarde e estavam ambos perfeitamente cnscios disso. De uma forma que nenhum dos dois compreendia inteiramente, sabiam 
que precisavam um do outro. Charlie acendeu o fogo na lareira de seu quarto e ficou sentado na cama, olhando para as chamas, por bastante tempo, pensando nela e 
no que dissera, no que havia vivenciado quando o filho morreu, e sentiu-se emocionado at o fundo da alma, cheio de admirao pela Sra. Palmer. Que mulher notvel 
era ela, e que bno tinha sido conhec-la. 
Sentia-se perdido na beleza daquele pequeno mundo, envolvido pelo calor e pela gentileza que havia encontrado ali. Tomou um banho rpido, barbeou-se e trocou de 
roupa, antes de descer. Sentiu-se tentado a vestir um terno para ela, mas isso pareceu muito exagerado. Decidiu-se por calas de flanela cinza, um suter de gola 
alta azul-escuro e um blazer. 
        Mas, como sempre acontecia, ficou com um ar impecvel, dentro de roupas perfeitamente bem cortadas e com um cabelo recm-aparado. Era um homem bonito e Gladys 
Palmer sorriu no momento em que o viu. Era raro para ela enganar-se a respeito das pessoas que recebia, e j sabia que no se equivocara com este. H muito, muito 
tempo que no conhecia algum de quem gostasse tanto e, como ele, sentiu que havia um propsito mais profundo nesse encontro. 
        Era como se ela tivesse muito que oferecer a ele, o calor de seu lar, numa poca difcil do ano, pelo menos, e ele trazia de volta para ela a lembrana do 
filho e da famlia que ela amava tanto e que havia perdido anos atrs. O perodo mais difcil do ano para ela era sempre o Natal. Ele preparou as costeletas de carneiro, 
enquanto ela fazia a salada e pur de batatas, que estavam ambos deliciosos, e na sobremesa comeram pudim de po. Era o tipo de refeio que sua prpria me teria 
feito para ele, e no era diferente de algumas das refeies que ele e Carole haviam comido na Inglaterra. 
        Enquanto ouvia a Sra. Palmer contar suas histrias, desejou que Carole pudesse estar l e precisou lembrar a si mesmo que era perda de tempo pensar nisso. 
Em algum momento, tinha de parar de querer inclu-la em tudo. Ela no fazia mais parte de sua vida. Pertencia apenas a Simon. Mas continuava sendo doloroso lembrar, 
e ele comeara a suspeitar que sempre seria. Olhando para a Sra. Palmer, ficou imaginando como ela teria sobrevivido  perda do filho, da nora e da nica neta. 
        A dor devia ter sido brutal. Mas, mesmo assim, ela continuara. Podia perceber com facilidade que ela ainda sentia a dor, como se fosse um membro h muito 
perdido, mas ainda lembrado. E entendeu claramente, nesse momento, que tinha simplesmente de continuar, qualquer que fosse o custo. A Sra. Palmer voltou a fazer 
ch e ficaram conversando durante horas, sobre a histria local, histrias do Forte Deerfield e de algumas das pessoas que l viveram. 
        Tal como o pai dele, anos antes, ela era incrivelmente versada nas lendas e nas figuras histricas da regio. Falou a respeito dos ndios que ali viveram, 
e ouvi-la fez com que lembrasse algumas das histrias que havia muito esquecera, contadas pelo pai. Era quase meia-noite quando ambos se deram conta de como era 
tarde. Mas ambos vinham sentindo uma falta imensa de um pouco de calor e contato humanos. 
        Ele contara sobre seu fiasco em Nova York e ela foi espantosamente sensata em sua anlise da situao. Sugeriu que ele seguisse com sua vida, utilizasse 
bem o tempo e visse se queria voltar para a firma ao final de seis meses. Achou que podia ser uma grande oportunidade para explorar novos meios de expressar seu 
talento, talvez at abrir seu prprio escritrio. Falaram sobre sua paixo pelos castelos gticos e medievais e pelo trabalho extraordinrio que eles representavam, 
do ponto de vista dele, bem como sua paixo por casas antigas, como aquela. 
        - H muitas coisas que voc pode fazer com seu talento arquitetnico, Charles. Voc no precisa restringi-lo a prdios de escritrios ou superestruturas. 
- Ele tambm lhe contara que sempre sentira vontade de construir um aeroporto, mas para isso precisaria continuar associado a uma firma importante. Quanto s outras 
coisas de que gostava, poderia facilmente t-las feito trabalhando por conta prpria. 
        - Parece que voc vai precisar pensar muito a srio nos prximos seis meses. e se divertir um pouco, tambm. Acho que ultimamente no andou se divertindo 
muito, andou? - perguntou ela, com uma piscadela de olho. 
        Tudo que ele descreveu sobre Nova York, e at sobre os meses anteriores, parecia terrvel. 
        -Acho que esquiar em Vermont parece uma tima idia. Talvez voc tenha at tempo para alguma travessura. 
Ele enrubesceu diante do modo como ela disse isso, e ambos riram. 
        - No consigo imaginar tal coisa, depois de todos estes anos. Nem sequer olhei para outra mulher, desde o dia em que conheci Carole. 
        - Ento, talvez agora j esteja em tempo - disse ela, com firmeza. 
        Ele lavou os pratos para ela, que guardou os talheres e as louas assim que ele terminou. E Glynnis ficou dormindo em frente ao fogo, enquanto conversavam. 
Era uma cena aconchegante e, quando ele finalmente deu boa-noite  Sra. Palmer e subiu as escadas, mal teve tempo de escovar os dentes e se despir, antes de cair 
no sono naquela cama enorme e acolhedora. 
        E, pela primeira vez em meses, dormiu feito criana. Passava de dez horas da manh quando ele despertou, no dia seguinte, levemente constrangido por ter 
dormido tanto. Mas no tinha lugar nenhum para onde ir, nenhum dever, nenhuma obrigao. Nenhum motivo para saltar da cama ao amanhecer e sair correndo para o escritrio. 
Enquanto se vestia, olhou pela janela. 
        Havia pelo menos um metro de neve amais sobre o cho do que na noite anterior, e ficou surpreso ao ver que ainda estava nevando. A idia de dirigir at Vermont 
no o atraa muito, mas tambm no queria abusar da acolhida. Achou que seria melhor continuar a viagem, ainda que isso significasse parar numa outra pousada, ou 
na penso, em Deerfield. 
        Mas, quando desceu, encontrou a Sra. Palmer toda ocupada. A cozinha estava imaculada, Glynnis mais uma vez dormia em frente ao fogo e ele sentiu o cheiro 
de biscoitos no forno. 
        - Aveia? - perguntou, farejando os cheirinhos extravagantemente deliciosos que emanavam do forno. 
        - Exatamente. 
        Ela sorriu para ele e serviu-lhe uma xcara de caf. 
        - Est uma tempestade e tanto l fora - disse ele, olhando para a neve que rodopiava em frente  janela. 
        Ela assentiu com a cabea. Esquiar ia ser fantstico, se conseguisse chegar l. 
        - Est com pressa de chegar a Vermont? - perguntou ela, parecendo preocupada. 
        Ela no achava que ele fosse encontrar ningum, pelo que ele lhe dissera, ou talvez no lhe tivesse contado. Talvez houvesse uma jovem que ele tenha sido 
discreto demais para mencionar, mas ela esperava que no houvesse. Tinha a expectativa de que ele pudesse ficar um pouco mais. 
        - Na verdade no estou com pressa - explicou -, mas tenho certeza de que a senhora tem outras coisas para fazer. Estava pensando em seguir at Deerfield. 
- Mas, quando ele disse isso, ela mal conseguiu esconder a decepo. 
        - Estou certo de que a senhora tem coisas para fazer antes do Natal. - disse ele, educadamente, mas ela sacudiu a cabea, tentando ocultar sua desolao. 
        Na verdade, era uma tolice, lembrou a si prpria, ela mal o conhecia, e ele acabaria tendo de ir embora. Ela no podia mant-lo prisioneiro em Shelburne 
Falls para sempre, embora isso a houvesse agradado bastante. 
        - No quero interromper os seus planos - replicou ela, tentando no parecer desesperada, porque no estava. Mas vinha vivendo sozinha por tanto tempo que 
agradecia a Deus por aquela companhia. Conversar com ele tinha sido um verdadeiro presente dos cus. - Mas eu ficaria mais do que feliz se voc permanecesse aqui 
- disse ela, educadamente. - No  nenhum incmodo. Na verdade. - Ela de repente pareceu muito vulnervel e estranhamente jovem. Ele pde imaginar com facilidade 
como teria sido o seu aspecto quando jovem e entendeu claramente que ela tinha sido linda. -  uma companhia boa para mim, Charles. E realmente adorei o nosso jantar, 
embora imagine que voc teria se divertido mais com amigos um pouco mais jovens. Mas  mais do que bem-vindo, se quiser ficar. no tenho absolutamente nenhum plano. 
- Somente sobreviver ao Natal, - seu corao sussurrou.
        - Tem certeza? Eu no estava nem um pouco ansioso para continuar dirigindo, mas no quero incomodar. 
        Era dia 21 de dezembro, faltavam quatro dias para o Natal, uma data que ambos temiam muito, embora nenhum dos dois o dissesse. 
        - Voc no deveria ir a lugar nenhum com esta tempestade - disse ela com firmeza, vendo que ele j estava convencido e imensamente aliviada por no perd-lo. 
        Gostaria que ele pudesse ficar para sempre, mas mesmo alguns poucos dias eram uma interrupo muito bem-vinda. Ela no se sentia feliz assim h anos e havia 
coisas naquela regio que adoraria poder mostrar a ele, casas que sabia iriam parecer-lhe interessantes, uma ponte antiga, um forte remoto, bem menos conhecido do 
que o de Deerfield. 
        Havia monumentos indgenas que ela sabia que poderiam interess-lo, pelo que ele dissera na noite anterior, mas era impossvel mostr-los a ele agora, com 
aquele tempo horrvel. 
        Talvez, com sorte, ele pudesse voltar para visit-la novamente, no vero. 
        Mas, nesse meio-tempo, havia muita coisa que fazer e ela abriu um sorriso radiante para ele ao servir-lhe o caf da manh e ele sentiu-se constrangido por 
deix-la fazer esse servio. Ela parecia muito mais do que uma dona de pousada. Estar com ela parecia muito mais a visita a uma amiga de sua me, e era quase como 
se ele tivesse sido um amigo de Jimmy que viera v-la. Ela estava falando sobre as casas da regio e ele lhe fazia perguntas, depois de atiar o fogo na cozinha 
para ela, e ento ela voltou-se para ele com uma expresso que o deixou intrigado. Havia uma luz em seus olhos que ele ainda no vira, uma coisa feliz e jovial, 
como se ela estivesse guardando um segredo. 
        - A senhora est com um olhar extremamente malicioso - disse ele, com um sorriso. 
        Estava para vestir o casaco e sair, a fim de pegar mais lenha para ela. Geralmente, ela esperava at que um dos filhos dos vizinhos se oferecesse para faz-lo. 
        Mas, como Charlie estava l, ele queria fazer tudo que podia para ajud-la. Ela merecia. E, enquanto ele ainda a olhava, ela sorria para ele, e Charlie ficou 
imaginando o que ela estaria a pensar.
        - A senhora est igual ao gato que engoliu o canrio. 
        -  que acabei de pensar em algo... algo que gostaria de lhe mostrar. No vou l h muito tempo, mas trata-se de algo que me  muito caro. 
         uma casa que minha av deixou para mim, e que o av dela comprou em 1850. Roland e eu moramos l por um ano ou dois, mas ele nunca amou aquela casa tal 
como eu. Achava que era longe demais e muito pouco prtica. Ele preferia morar na cidade, por isso compramos esta casa, quase h cinqenta anos atrs, mas jamais 
consegui chegar a vender a outra. Eu a conservei como uma jia que guardo escondida, sem oportunidade de usar. Limito-me a peg-la ocasionalmente, lustr-la e olhar 
para ela. Existe algo nela de muito especial. - Parecia quase tmida ao dizer isso. -Adoraria que voc a visse. 
        Ela falou da casa como se fosse um objeto, ou uma obra de arte, possivelmente at um quadro ou mesmo uma jia. E Charlie agora mal podia esperar para v-la. 
A Sra. Palmer disse que ficava nas colinas e ele ficou imaginando se, com a neve, conseguiriam chegar l, mas ela queria tentar. Parecia muito segura de que iria 
gostar muito e ele estava mais do que disposto a ir at l. No tinha mais nada a fazer naquele dia, e se significava tanto para ela, ele queria ver. Casas antigas 
sempre lhe aguaram a curiosidade. 
        Ela disse que esta havia sido construda em torno de 1790 por um francs muito conhecido na regio. Era conde, um primo de Lafayette, que tinha vindo para 
o Novo Mundo em 1777, com o prprio Lafayette, porm disse muito pouca coisa mais a respeito dele, a no ser que havia construdo a casa para uma dama. Saram finalmente 
depois do almoo e ele pegou seu prprio carro, porque era maior do que o da Sra. Palmer e ela ficou mais satisfeita por ser ele a dirigir. Destacou vrios marcos 
no caminho, que o fascinaram, e contou-lhe ainda mais histrias sobre lendas locais, mas disse muito pouco a respeito da casa para onde se dirigiam. Ficava a uns 
oito quilmetros de onde ela morava, nas colinas, como ela dissera, e dava para o rio Deerfield. Conforme foram se aproximando, ela lhe contou como ia l, quando 
era garota, e como amava aquele lugar. Ningum de sua famlia, na verdade, havia morado na casa, antes de ela herd-la, mas j a possuam h quase 150 anos. 
        - Deve ser absolutamente notvel. Por que ser que nenhum de vocs jamais morou l? - Ele se perguntou se no seria apenas por ser pouco prtico, ou se haveria 
alguma coisa a mais, e o modo como ela falou a respeito da casa o deixou intrigado. 
        -  uma casa notvel. Tem a sua prpria alma, transmite uma sensao incrvel.  como se voc ainda pudesse sentir a presena da mulher para a qual foi construda. 
Tentei fazer com que Jimmy e Kathleen a usassem como casa de vero anos atrs, e eles fizeram isso uma vez. Mas Kathleen simplesmente detestou o lugar. Jimmy contou 
a ela um monte de bobagens a respeito de fantasmas que a deixaram aterrorizada, e ela nunca mais quis ficar l.  uma pena, pois  o lugar mais romntico em que 
j estive. 
        Ele sorriu para ela ao ouvir isso, mas passou a maior parte do tempo lutando contra a neve, enquanto dirigia. A tempestade havia engrossado e o vento impelia 
a neve, formando montes altos em torno deles. Avanaram o mais que puderam na estrada, e a Sra. Palmer disse-lhe onde podia deixar o carro. Ele no podia ver nada, 
a no ser rvores por toda a parte, e preocupou-se com a possibilidade de estarem perdidos. Mas ela limitou-se a sorrir, apertou mais o casaco contra o corpo e fez-lhe 
um sinal para que a seguisse. Sabia exatamente para onde estava indo. 
        - Sinto-me como Joo e Maria na floresta - comentou ele e ambos riram. - Devia ter me dito para trazer migalhas de po - continuou ele, com a cabea abaixada, 
segurando-a para que ela no casse. 
        Apoiava-a com mo firme sob o cotovelo, mas ela era forte, gil e estava acostumada a ir at l em todos os tipos de clima, embora atualmente muito pouco 
o fizesse. Mas o simples fato de estar l a fazia sorrir, e ela olhou-o como se estivesse para dar-lhe um presente. 
        - Quem era a mulher para a qual ela foi construda? - perguntou ele, enquanto seguiam caminhando, as cabeas abaixadas contra o vento. Lembrou-se de que 
ela dissera que um francs havia construdo a casa para uma mulher. 
        - O nome dela era Sarah Ferguson - disse a Sra. Palmer, segurando-o para no tropear, e ele continuou caminhando bem junto dela. Pareciam me e filho, e 
ele estava levemente preocupado com ela. 
        A tempestade havia piorado nos ltimos minutos e Charlie preocupava-se seriamente com a possibilidade de se perderem na floresta. 
        E se estavam seguindo por um caminho j traado, no conseguia nem sentir isso, mas ela sabia. No hesitou por um momento. E ento comeou a contar-lhe a 
histria de Sarah. 
        - Foi uma mulher notvel. Veio sozinha da Inglaterra. As histrias a seu respeito so muito misteriosas e romnticas. Ela fugiu de um marido terrvel... 
o conde de Balfour... - S o som dessas palavras j pareceu extico a Charlie. - Quando ela chegou aqui, em 1789, era a condessa de Balfour. 
        - Como foi que ela conheceu o francs? - perguntou Charlie, a essa altura curioso. 
        Havia algo no modo como ela contava a histria, com pequenas dicas, e apenas os mais tnues vislumbres do que poderia se seguir  que inevitavelmente o prenderam. 
        - Essa  uma longa, longa histria. Ela sempre me fascinou - disse Gladys Palmer, olhando para ele mas apertando os olhos contra a tempestade. - Era uma 
mulher de imensa fora e coragem. 
        Mas, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, as rvores abriram-se subitamente e viram-se numa pequena clareira. Mesmo na neve, ela sabia exatamente 
o caminho em que se encontrava e Charlie subitamente estava olhando para um pequeno chteau, maravilhosamente bem construdo, perfeitamente bem-proporcionado, logo 
 frente deles. Ficava junto a um pequeno lago, que Gladys Palmer disse ter sido uma vez o lar de um bando de cisnes, mas estes j haviam desaparecido h muito e, 
mesmo  distncia, meio cegos pela neve, Charlie estava perfeitamente consciente da beleza extraordinria do local. Nunca vira nada parecido. Dava a impresso de 
uma jia, de uma pequena jia muito sofisticada, engastada ali, e quando se aproximaram dela, quase que com reverncia, ele mal podia esperar para entrar. Gladys 
sorria quando subiram os degraus da frente, e ele ficou espantado de ver que eram de mrmore. E quando ela tirou a velha chave de bronze e enfiou na fechadura, olhou 
para Charlie por sobre o ombro. 
        - Uma das coisas mais notveis deste lugar  que Franois de Pellerim o construiu inteiramente com a ajuda dos indgenas e artesos locais. Mostrou-lhes 
tudo e ensinou-lhes como fazer o trabalho. Tudo d a impresso de ter sido feito por mestres artesos trazidos da Europa. 
        Ao entrarem, viram-se instantaneamente em outro mundo. Os tetos eram altos, os assoalhos eram marchetados e lindos, havia portas francesas altas e graciosas 
em todos os aposentos, lareiras de mrmore, e as propores de cada cmodo eram perfeitas. 
        Era to bonita que Charlie pde facilmente imagin-la cheia de gente graciosa, elegante, do brilho da luz do sol, de flores extravagantes e de msica requintada. 
Era como uma viagem na histria, e mesmo assim o carter acolhedor e a beleza do lugar faziam a pessoa ter vontade de sentar-se calada e ficar ali. Charlie nunca 
se sentira dessa maneira em. 
lugar nenhum e s o que conseguiu fazer foi olhar em torno, de olhos esbugalhados. 
        At mesmo as cores das paredes eram perfeitas, havia cremes clidos, amarelos amanteigados e cinzas plidos, um azul da cor de cu do vero na sala de jantar 
e um pssego pastel no que parecia ter sido o boudoir de Sarah. Era a casa mais bonita que j vira na vida e s podia imagin-la cheia de riso, amor e gente feliz. 
        - Quem era ela? - sussurrou respeitosamente enquanto caminhavam de um aposento para o outro. 
        Ento ergueu os olhos em surpresa, ao perceber murais e um folheado de ouro nas Bancas em torno dos tetos. Tudo era de um gosto refinado, cada detalhe tinha 
sido cuidado e executado com extrema perfeio. Charlie tentou imagin-la quando pararam no que havia sido seu quarto de dormir. Teria sido bonita, jovem, velha? 
O que levara o conde francs a construir este palcio minsculo e perfeito para ela? O que ela havia sido, que o levou a am-la de forma to extravagante? Charlie 
sabia apenas que ele tinha sido conde e ela condessa, mas ali havia muito mais. 
        Alguma coisa na beleza e no esprito da casa diziam-lhe, sem na verdade falar nada, que haviam sido pessoas de verdade. E, de repente, viu-se vido de informaes 
a respeito deles, mas Gladys foi muito econmica no que lhe contou. 
        - Sarah Ferguson era muito bonita, me disseram. S vi um desenho dela e uma miniatura que guardam no museu, em Deerfield. Ela foi muito conhecida por aqui. 
Comprou uma fazenda quando chegou, e ficou morando sozinha, o que aparentemente criou um grande falatrio. e quando ele construiu esta casa para ela, moraram juntos 
antes de se casarem, o que, para os habitantes da poca, foi considerado profundamente chocante. 
        Ele sorriu diante do que ela estava dizendo, desejando poder t-la visto. Sentiu vontade de ir diretamente para a sociedade histrica local e ler tudo que 
pudesse a seu respeito. Mas o conde que havia construdo a casa fascinava-o tanto quanto ela. 
        - O que acabou acontecendo com eles? Voltaram para a Europa ou ficaram? 
        - Ele morreu e ela morou nesta casa longos anos depois disso. No a abandonou nunca. Na verdade, morreu aqui. - Estava enterrada no muito longe da casa, 
numa pequena clareira. - Existe uma cachoeira perto daqui, que os ndios dizem ser sagrada e onde eles eram vistos passeando quase todos os dias. Ele tinha um grande 
envolvimento com os ndios e era muito respeitado por todas as tribos locais. Foi casado com uma ndia iroquesa muito tempo antes de ter se casado com Sarah. 
        S de ouvi-la, Charlie j sentia a mente cheia de perguntas. 
        - O que os reuniu, ento, se eram ambos casados com outras pessoas? - Estava fascinado, confuso e queria saber tudo a esse respeito, mas nem mesmo Gladys 
conhecia todos os detalhes. 
        - A paixo os reuniu, suponho. No creio que tenham ficado juntos por muitos anos, mas foi evidentemente um amor profundo o que eles tiveram. Devem ter sido 
ambos pessoas bastante notveis. Jimmy jura que a viu aqui no vero que passaram na casa, mas no creio que a tenha visto realmente. Acho que provavelmente fui eu 
que lhe contei histrias demais. s vezes, isso pode criar uma iluso. 
        Era uma iluso que Charlie teria adorado vivenciar. Havia algo na casa e no local, bem como nas sensaes, que quase o subjugava, e isso o fez desejar saber 
tudo a respeito de Sarah Ferguson. Era quase como se ela fosse uma mulher num sonho, e ele subitamente se visse desesperado para encontr-la. 
        -  a casa mais bonita que j vi - disse Charlie, quando voltava a caminhar de aposento em aposento. 
        No se sentia capaz de afastar-se e, quando voltaram a descer, ficou sentado nos degraus, simplesmente absorvendo aquilo tudo e pensando. 
        - Fico contente por ter gostado, Charles. 
        Gladys Palmer parecia bastante satisfeita. A casa significava muito para ela, sempre havia significado. Nem mesmo seu marido havia compreendido bem aquilo, 
e o filho sempre fizera troa dela. Mas sentia algo ali que era impossvel de explicar, ou de partilhar, a no ser que a outra pessoa tambm sentisse. E era bvio 
que Charles sentia. 
        Ele ficou to emocionado que mal conseguiu falar, enquanto Gladys o observava. Era como se estivesse entrando em comunho com sua prpria alma naquele lugar. 
Sentiu uma espcie de paz que h anos lhe havia fugido e, pela primeira vez em meses, teve a sensao de que havia voltado para casa, para um lugar que vinha procurando. 
        S de estar sentado ali, olhando para a neve e para o vale bem l embaixo, o fez sentir algo que nunca sentira antes. A nica coisa que sabia  que no queria 
deixar aquele lugar. Seus olhos estavam cheios de algo muito profundo ao fit-la, e ela entendeu exatamente o que ele sentia. 
        - Eu entendo - disse ela, baixinho, e pegou-lhe a mo. -  por isso que nunca a vendi. 
        Ela amava aquela casa mais do que qualquer outra em que havia morado. Sua casa na cidade era linda, e confortvel ao seu prprio jeito, mas no tinha nem 
um pouco do charme, ou da graa, ou da alma que emanava desta. Esta casa tinha o seu prprio esprito e permanecia cheia do calor e da beleza da mulher notvel que 
havia morado ali, e Gladys sabia que seria sempre assim. Ela deixara uma marca indelvel em tudo que havia tocado naquele lugar, e o amor de Franois por ela havia 
banhado tudo de luz e magia. 
        Era um lugar extraordinrio e Gladys ficou surpresa com as palavras seguintes de Charlie, mas no inteiramente. Perguntou-se se fora por isso que havia se 
sentido impelida a ir at l com ele. 
        - Quer alugar a casa para mim? - perguntou ele com um ar de splica nos olhos. 
        Nunca desejara nada tanto quanto desejava morar ali. Acreditava que as casas tinham almas e destinos, bem como seus prprios coraes, e conseguia sentir 
esta casa estendendo a mo para ele, como nenhuma outra jamais fizera antes, nem mesmo a casa que ele amara tanto em Londres. Esta era muito diferente. O que ele 
sentiu foi uma ligao imediata, por motivos que no compreendia, quase como se tivesse conhecido as pessoas que ali moraram. 
        - Nunca senti nada to forte - tentou explicar-lhe, e ela ficou olhando pensativa, enquanto o observava. Jamais sentira vontade de alug-la a ningum. 
        Ela prpria residira l por pouco mais de um ano, quase h cinqenta anos atrs, e Jimmy havia ficado l com sua famlia por uns poucos meses. Mas, a no 
ser isso, estava literalmente desabitada desde que a prpria Sarah Ferguson ali morara. Ningum da famlia de Gladys vivera realmente no pequeno chteau. Tinham 
sido simplesmente seus donos, como uma coisa esquisita e um investimento. Haviam at falado em transform-la num museu, mas ningum jamais chegara a faz-lo. E, 
tudo considerado, era absolutamente notvel que ainda estivesse em to boas condies, mas isso se devia a Gladys. Ela sempre fizera um esforo considervel para 
mant-la e visitava-a com freqncia. 
        - Sei que isso parece maluquice - explicou Charlie, esperando convenc-la daquilo pelo que ele ansiava de forma to desesperada -, mas sinto como se tivesse 
sido por isso que vim, por isso que nos conhecemos. como se houvesse um desgnio de que fosse assim. Sinto como se eu tivesse voltado para casa - continuou, parecendo 
pasmo e, ao olh-la, entendeu que ela o compreendia, e Gladys assentiu com a cabea. 
        Havia um motivo pelo qual seus caminhos haviam se cruzado, um motivo pelo qual ele havia sido levado at l. Suas vidas eram muito separadas, com anos de 
distncia, e no entanto eles tinham muito que dar um ao outro. Ela havia perdido muito, e muitos, e ele perdera Carole. Estavam ambos sozinhos, mas suas vidas tinham 
convergido para que um trouxesse ao outro algo precioso e raro. Era uma fora do destino que nenhum dos dois compreendia inteiramente e, no entanto, sentiam essa 
fora enquanto estavam ali, na casa. Ele viera de Londres, e depois de Nova York, e era como se ela estivesse esperando por ele. Ele foi para ela um presente de 
Natal e agora Gladys queria dar-lhe alguma coisa, e compreendeu que, se o fizesse, ele ficaria por perto. 
        Pelo menos por algum tempo, tempo suficiente para que ela desfrutasse de sua companhia por alguns meses. um ano... talvez mais. Era tudo que ela queria. 
Ele no era o filho que ela havia perdido, mas significava uma ddiva especial. Viera para ela de forma totalmente inesperada e agora ela no poderia dizer-lhe no. 
Compreendeu que ele cuidaria da casa. Era bvio, olhando para Charlie, que ele j amava o lugar. Ningum em sua famlia jamais se sentira, sequer remotamente, como 
ele estava se sentindo. Somente ela. 
        - Muito bem - disse ela, baixinho, sentindo o corao tremer um pouco. 
        Era um ato de f alugar a casa para ele, mas ela entendeu que ele percebia a enormidade do presente e j amava a casa. E, sem lhe dizer mais uma palavra, 
caminhou em direo a ela, passou-lhe os braos em torno num abrao apertado e beijou-a tal como teria beijado a prpria me. Os olhos de Gladys estavam cheios de 
lgrimas quando se afastou dele, mas sorrindo. 
        E ele sorria radiante. 
        - Obrigado - disse Charlie, fitando-a com uma expresso empolgada sem disfarces. 
        - Obrigado, prometo a voc, vou tomar conta dela direitinho... 
        Estava quase sem palavras, de tanta satisfao, os dois juntos naquele lindo salo, olhando pela janela para a neve que tombava silenciosamente no vale.

CAPTULO 3

        NO DIA SEGUINTE, Charles foi a todas as lojas de Shelburne Falls, e depois s de Greenfield, em busca do que no pde encontrar nas primeiras. A Sra. Palmer 
tinha uma cama antiga para ele, no quarto de depsito em cima da garagem, e umas poucas peas modestas de moblia, uma cmoda, uma escrivaninha, algumas cadeiras 
e uma velha mesa de jantar, um pouco castigada. Ele insistiu em afirmar que s precisava daquilo. Tinha alugado a casa dela por um ano e, quer acabasse voltando 
ou no para Londres ou Nova York, no havia motivo pelo qual no pudesse ficar em Shelburne Falls durante os prximos meses. 
        Estava fascinado com tudo que dizia respeito ao lugar. E se um dia voltasse  Whittaker & Jones, poderia vir de Nova York nos fins de semana. E, no importa 
o que fizesse, sabia que se seus planos mudassem a Sra. Palmer no o prenderia ao acordo. Mas tambm sabia que, se quisesse, seria bem-vindo ali durante pelo menos 
um ano. Ela parecia to feliz com esse acordo quanto ele. 
        Na verdade, os dois pareciam crianas felizes quando voltaram para a casa dela, e ele conversava animadamente sobre tudo de que precisaria. Levou-a para 
jantar fora em comemorao, e j eram trs dias antes do Natal quando ele foi a Deerfield concluir suas compras. Parou tambm numa pequena joalheria e comprou um 
par de brincos de prola muito bonitos, para a Sra. Palmer. 
        Mudou-se no dia 23 de dezembro e, parado junto  janela admirando a vista, mal conseguia acreditar na prpria sorte. Nunca estivera em nenhum lugar que fosse 
to surpreendentemente bonito e sossegado. E passou a noite explorando cada cantinho, cada pequeno vo. Passou metade da noite acordado, desembrulhando suas coisas 
e se ajeitando, embora ainda trouxesse muito pouco consigo. 
        Ainda no tinha nem um telefone, e sentiu-se feliz por no ter. Sabia que, se o tivesse, teria se sentido tentado a telefonar para Carole, especialmente 
sendo antevspera de Natal. Na manh da vspera de Natal, ainda em seu quarto, sentiu-se melanclico ao lembrar-se de outros Natais. Apenas um ano antes, recordou-se, 
passara o Natal com ela. E suspirou ao afastar-se da janela, em frente  qual estivera parado olhando para o vale. 
        Mas sua primeira noite na casa nova tinha corrido muito tranqila. No houvera problemas, nenhum som estranho. E sorriu ao lembrar das histrias de fantasma 
com as quais, a Sra. Palmer lhe havia contado, o filho dela teria assustado a todos com sua alegao de ter visto efetivamente Sarah. Charlie estava fascinado por 
ela e queria saber tudo que pudesse a seu respeito. J havia se prometido ir  biblioteca local, e  sociedade histrica, logo aps o Natal. Queria ler tudo que 
pudesse sobre Sarah e Franois, estava ansioso para saber tudo que existisse registrado sobre eles. 
        E embora Shelburne Falls fosse obviamente um lugarzinho sossegado, havia muito o que fazer ali. Ele comprara um bloco de desenho e algumas canetas e pastis, 
e estava louco para sair e desenhar um pouco. J fizera esboos da casa vrias vezes, s jogando com algumas idias, e j a havia desenhado rapidamente, vista de 
vrios ngulos. Era espantoso, at mesmo para ele, ver o quanto amava aquele lugar. 
        E Gladys Palmer vibrou ao saber disso, quando ele pegou o seu carro e foi visit-la. Ao chegar  casa dela, para o jantar da vspera de Natal, encontrou 
trs amigos visitando-a e, quando eles foram embora, s o que ele conseguiu fazer foi falar sobre a casa. 
        J havia descoberto vrios armrios ocultos e o que achava ser um armrio de loua secreto, e estava morto de vontade de chegar ao sto. Ele falava com 
ela parecendo um menino; ela riu, enquanto ele continuava matraqueando, e ficou ouvindo. 
        - O que acha que vai encontrar l? - Ela o provocou. - Um fantasma? As jias dela? Uma carta dela para Franois? Ou talvez uma carta para voc? Ora, isso 
seria sensacional! - No conseguia resistir ao impulso de brincar com ele. Sentia-se feliz por poder dividir seu amor pela casa com algum. Durante toda sua vida 
ela fora at l para olhar, pensar e sonhar. Sempre fora o lugar para o qual ela se dirigira a fim de encontrar consolo. E, aps a morte de Jimmy, passara l muitas 
tardes silenciosas. E fez o mesmo outra vez, depois que perdeu Roland. Ir at l sempre a havia ajudado. Era como se a presena benevolente de Sarah aliviasse seu 
esprito angustiado. 
        - Quem dera eu conseguisse encontrar um desenho do rosto de Sarah em algum lugar. Adoraria saber como era. Voc disse que viu um esboo de retrato dela certa 
vez. - lembrou a sua nova amiga. 
        Ela lhe havia concedido a maior de todas as ddivas, sua confiana junto com uma jia de chteau que havia sido construda por Franois para Sarah. 
        - Onde foi? - Ela pensou a esse respeito por um bom tempo, enquanto passava-lhe a calda de amoras. 
        Havia preparado um jantar de peru, muito adequado para comer com ele no Natal, e Charlie lhe trouxera uma garrafa de vinho. Estaria dormindo novamente no 
chteau, naquela noite, mas planeava voltar no dia seguinte para dar a Gladys os brincos de prola. Mas, enquanto o fitava, ela finalmente se lembrou. 
        - Tenho quase certeza de que a sociedade histrica tem um livro a respeito dela. Acho que foi l que vi o desenho. No tenho certeza, mas estou quase segura. 
        - Vou dar uma espiada, depois do Natal. 
        - E tambm vou dar uma olhada nos livros que tenho - prometeu ela a Charlie. - Talvez eu tenha um ou dois livros sobre ele. 
Franois de Pellerim foi uma pessoa bastante importante nesta parte do mundo, na ltima metade do sculo XVIII. Todos os ndios o consideravam como um deles, e ele 
foi o nico francs por aqui de quem tanto os colonizadores quanto os ndios gostavam autenticamente. Acho que era bastante respeitado at pelos ingleses, o que 
deve ter sido um verdadeiro feito para um francs. 
        - Por que veio para c? - voltou a perguntar-lhe Charlie, que adorava ouvir tudo que ela conhecia a esse respeito.
- Suponho que a Guerra Revolucionria foi o que inicialmente o trouxe aqui. Mas deve ter havido um outro motivo pelo qual ele ficou. 
        - Talvez tenha sido s por causa de sua esposa iroquesa. ou talvez por causa de Sarah. No me lembro de todos os detalhes. Sempre me senti mais curiosa a 
respeito dela, embora adorasse ficar sabendo a respeito de ambos, quando ouvia as histrias pela primeira vez. Minha av gostava muito de falar a esse respeito. 
s vezes, eu pensava que ela era quase que apaixonada pelo que conhecia de Franois. O av dela na verdade o conheceu. Ele morreu muito, muito tempo antes de Sarah. 
        - Como deve ter sido triste para ela - comentou Charlie, baixinho. 
        Eram extremamente reais para ele, mas ele tambm estivera pensando na Sra. Palmer, pensando em como ela deve ter sido solitria, desde que o marido morrera. 
Mas pelo menos ela agora tinha Charlie para distra-la. Tinha amigos em Shelburne Falls, um monte. Mas Charlie era uma pessoa nova, e muito especial. 
        - Diga-me, ainda vai esquiar, Charles? - perguntou ela, enquanto comiam torta de ma com sorvete caseiro de baunilha. 
        Dessa vez, ele no havia cozinhado para ela, andara muito ocupado arrumando coisas na casa a tarde inteira, e tudo j estava pronto quando ele chegou, usando 
um terno escuro e gravata. 
        A Sra. Palmer estava usando um vestido de seda preta que o marido comprara para ela vinte anos atrs, em Boston, e as prolas que ganhara de presente em 
seu casamento. E Charlie achou que ela estava linda. Deu graas a Deus por estar em sua companhia. 
        Esse Natal juntos proporcionou-lhe a famlia que ele j no tinha mais, e ele estava fazendo o mesmo por ela. Os dois combinavam muito bem e sentiam-se felizes 
em estar juntos. E, na empolgao da mudana, ele percebeu que se esquecera completamente de ir esquiar. 
        - Talvez depois do Ano-Novo - disse vagamente, e ela sorriu-lhe. 
        Ele parecia muito mais feliz e muito mais  vontade do que quando havia chegado. Agora, parecia at mais jovem e um pouco mais leve. Havia perdido um pouco 
da expresso angustiada, torturada, que carregara durante todo aquele ano, embora ela no pudesse saber disso. 
        -Acho uma pena sair agora - disse ele, parecendo distrado. 
Vermont ficava bem longe de Shelburne Falls, e ir at l parecia agora bem menos atraente. Ele ainda no queria deixar sua nova amiga, ou sua nova casa. 
        - Por que no vai a Charlemont? Fica a apenas vinte minutos daqui. No sei se esquiar l  to bom quanto em Vermont, mas voc pode tentar. E sempre pode 
ir at Vermont um pouco mais tarde. - Quando a empolgao com a casa acabasse e ele se sentisse menos impelido a ficar. 
        Ela compreendia inteiramente. 
        -  uma grande idia - concordou ele. - Talvez eu v daqui a alguns dias. 
        Era muito conveniente. Ele dispunha at de uma estao de esqui a vinte minutos de sua porta. Havia realmente encontrado o lugar perfeito. Durante aquela 
noite, conversaram por um longo tempo. Era uma poca difcil para ambos e nenhum dos dois queria se despedir e ficar sozinho com suas tristezas e seus demnios particulares. 
Havia muita coisa a lamentar nas vidas de ambos, particularmente na dela, para que qualquer um deles quisesse passar uma vspera de Natal sozinho. 
        E Charlie s foi embora quando teve certeza de que ela j estava pronta para ir se deitar. Beijou-a gentilmente no rosto, agradeceu-lhe pelo jantar e em 
seguida saiu, enquanto Glynnis sacudia o rabo e ficava observando. 
        Caminhou com os sapatos rangendo sobre a neve recm-cada. Chegava  altura do joelho, mesmo na estrada, e acima de sua cabea em alguns dos montes formados 
ao longo do caminho para Deerfield. Estava ainda mais alta em lugares prximos ao seu chteau. Mas ele adorava v-la. O mundo parecia muito puro e muito idlico, 
com tudo coberto por um lenol liso de algodo branco. E, enquanto dirigia de volta, viu lebres que passavam chispando pela neve e uma cora observando-o,  beira 
da estrada. Era como se todas as pessoas houvessem desaparecido e s o que restassem fossem os animais, as estrelas e os anjos. 
        Chegou com facilidade ao caminho para seu chteau e deixou o carro no local de onde sabia que ainda poderia tir-lo no dia seguinte, seguindo a p o resto 
do caminho, tal como fizera com todos os seus suprimentos, e tambm como haviam feito os homens que contratara para carregar as poucas peas de mobilirio que Gladys 
lhe havia emprestado. 
        Mas ele no se incomodava com essa inconvenincia. Fazia com que a casa parecesse ainda mais longnqua e o lugar se tornasse ainda mais especial. Seguiu 
pela noite, cantarolando, e sentiu uma paz que no experimentava h muito tempo. Era curioso como o destino, a vida ou Deus haviam cuidado das coisas para ele, encontrando 
um lugar onde poderia sarar, pensar e ser. 
        Charlie entendeu, sem um momento de dvida, que aquela casa era exatamente o que ele precisava. 
        E, ao girar a chave de bronze na fechadura e entrar, sentiu a mesma felicidade e alvio que aquele lugar lhe transmitia desde o incio. 
        Era como se tivesse havido tanta alegria l dentro que durara dois sculos e ele ainda pudesse vivenci-la. 
        No havia nada de lgubre, nem de estranho, nem sequer remotamente fantasmagrico na casa. Mesmo tarde da noite ela parecia cheia de luz, de amor e de sol. 
E ele o percebeu com certeza total que no se resumia s cores nas paredes, ou ao tamanho dos aposentos, ou  vista, mas sim  aura que sentia ali. Se l houvesse 
espritos, eram obviamente espritos muito felizes, pensou, enquanto subia lentamente os degraus, pensando na Sra. Palmer. Ele j gostava incrivelmente dela e gostaria 
de poder fazer por ela algo especial. Estava pensando em fazer um quadro, talvez do vale, visto da janela de seu quarto. 
        E, enquanto pensava a esse respeito, entrou justamente neste quarto e acendeu a luz. E, ao faz-lo, tomou um susto imenso. Havia uma mulher ali parada, olhando 
para ele. Usava um vestido branco, tinha uma das mos estendida para ele e estava sorrindo. Parecia que estava para dizer-lhe alguma coisa e ento afastou-se e desapareceu 
por trs das cortinas. Tinha cabelos compridos, pretos como azeviche, e a pele to branca que parecia marfim, e ele observara que seus olhos eram claramente azuis. 
Havia reparado em cada detalhe e no havia nenhuma dvida em sua mente a respeito de quem seria, ou de como teria chegado ali. Aquilo no era um fantasma. 
        Era uma mulher que havia entrado na casa, provavelmente para fazer algum tipo de gozao com ele, e agora queria saber para onde tinha ido e de onde viera. 
        - Ol! - Projetou a voz claramente pelo quarto, esperando que ela sasse de trs da cortina onde acabara de v-la. 
        Mas como ela no saiu, achou que estaria constrangida de faz-lo. E era para estar mesmo. Era uma brincadeira muito besta de se fazer, particularmente no 
Natal. 
        - Ol! - disse mais alto desta vez. - Quem  voc? - E, com isso, atravessou o quarto e puxou a cortina com um movimento amplo e rpido. Mas no havia ningum 
ali. No havia um nico som. 
        E a janela estava aberta. Tinha certeza de t-la deixado fechada, para o caso de voltar a nevar enquanto estivesse fora, mas tambm pensava que poderia ter 
se equivocado e se esquecido de fech-la. Seguiu ento para a cortina ao lado. 
        Havia algo muito estranho no que estava acontecendo. Sabia que ela devia estar em algum lugar no quarto, e tinha uma vaga conscincia de como era bonita. 
Mas essa no era a questo agora. No queria ver os moradores da cidade fazendo troa com ele, ou entrando pela casa, pelas portas francesas. S conseguia imaginar 
que tinha sido assim que ela entrara. 
        As janelas eram muito antigas e, apesar das fechaduras de duzentos anos, se algum empurrasse com fora suficiente, elas se abririam. 
        Tudo na casa era original, todos os acessrios, todas as ferragens, at mesmo o vidro nas janelas era artesanal, e neles se podiam ver as irregularidades 
e as marcas fluidas. As nicas coisas que haviam sido mudadas nos dois ltimos sculos foram a eletricidade e os encanamentos, e nem mesmo isso era muito recente. 
Gladys tomara providncias a esse respeito no incio dos anos 50. E Charlie j lhe prometera mandar examinar tudo para ela. 
        O que menos queriam era um incndio eltrico, que destruiria a casa aps todos os cuidados dela e dos ancestrais para preserv-la. Mas isso agora no lhe 
passava pela mente. A nica coisa em que ele estava interessado era na mulher que vira no seu quarto. 
        Examinou ento todas as cortinas, bem como o banheiro e os armrios, mas no a viu em parte alguma. No entanto, enquanto caminhava em torno do quarto, podia 
sentir que no estava sozinho. Era quase como se ela o estivesse observando. Ele sabia que ela estava l, s que no conseguia encontrar o lugar onde se escondia. 
        - O que est fazendo aqui? - perguntou com voz aborrecida, e ento ouviu um farfalhar de seda logo atrs dele. 
        Virou-se rapidamente, pronto para confront-la, mas no viu nada. Ento sentiu-se dominado por estranha sensao de paz, como se ela se houvesse introduzido 
nele, ou o tivesse reconhecido. 
        De repente, entendeu com exatido quem havia visto naquele quarto e j no acreditava mais que ela houvesse entrado pelas portas francesas. 
        - Sarah? - disse ele num sussurro, sentindo-se de repente muito tolo. 
        E se no fosse ela? Se houvesse um autntico ser humano vivo observando-o, esperando para contar aos amigos que tolo ele tinha sido; mesmo assim no acreditava 
mais nisso. Podia senti-la. E ficou parado, silencioso, seus olhos perscrutando o quarto, mas no viu nada. Ficou de p ali, por um longo tempo, imvel, e no entanto 
nunca teve a sensao de que ela o havia deixado. Ainda podia senti-la parada junto dele. Mas no havia som, nem movimento, e a mulher de vestido branco sumira. 
        Mesmo assim, ele a vira com bastante clareza. Ela o fitara bem nos olhos e sorrira para ele, como se lhe dando as boas-vindas ao seu quarto. E ele j sabia 
que Gladys escolhera instintivamente o quarto que ela dividira com Franois, que era o quarto no qual dormira com ele e o quarto onde Gladys dera  luz seu filho. 
Teve vontade de repetir o nome, mas no ousou. E teve quase a sensao de que ela sabia o que ele estava pensando. 
        No sentia ali nenhuma presena hostil e nem teve medo dela. Queria apenas que ela voltasse a aparecer, para que pudesse v-la com mais clareza. Mas o que 
vira j estava gravado em sua memria e entendeu que jamais a esqueceria. Foi finalmente para o banheiro e se despiu. Tinha comprado pijamas novos, pois fazia frio 
na casa  noite, e saiu vestido com eles. 
        O sistema de aquecimento funcionava bem e havia lareiras por toda a parte, mas no queria estar usando-os sempre. E tinha a esperana de que ao voltar ao 
quarto tornasse a v-la, mas isso no aconteceu. E, aps alguns minutos olhando em torno, apagou cuidadosamente a luz e enfiou-se na cama. 
        No se dera ao trabalho de fechar as cortinas porque a luz da manh nunca o incomodava, e, enquanto ficava deitado na cama, o quarto se enchia com o claro 
da lua. E, por mais que parecesse loucura, e ele teria odiado explicar isso a quem quer que fosse, ainda conseguia senti-la a seu lado. 
        No tinha conscincia de qualquer outra presena no quarto, somente a dela, mas estava certo de que era Sarah. 
        Sarah Ferguson de Pellerin. O nome soava extremamente nobre e elegante, tal como ela havia parecido quando a viu. Era uma mulher de rara beleza. 
        E ento, deitado na cama pensando nela, riu de si prprio, e o som encheu o aposento, enquanto ele quase que gargalhava. Sua vida certamente mudara muito 
no ano que se passara. Havia passado a vspera de Natal com uma mulher que ia completar setenta anos e o resto da noite com o fantasma de uma mulher que morrera 
havia 160 anos e conhecera a primavera de sua vida dois sculos antes. Era certamente uma grande mudana, dos tempos em que passava o Natal com a esposa em Londres. 
E entendeu logo que, se contasse a algum, qualquer um ficaria completamente seguro de que ele havia perdido o juzo. E nem mesmo estava certo disso no ter acontecido. 
    Enquanto estava deitado, pensando nela, lembrando-se do que acabara de ver e daqueles olhos que o haviam mirado de forma to patente, voltou a sussurrar seu 
nome na escurido, mas no houve resposta enquanto ficou prestando ateno. No sabia bem o que esperava dela, algum som, algum sinal. Nunca ouvira falar de espritos 
conversando com ningum, e no entanto ela dera-lhe a impresso de estar a ponto de dizer algo. Parecia estar lhe dando as boas-vindas, e havia sorrido. E desta vez 
ele falou claramente na escurido. 
-        Feliz Natal - disse, no quarto silencioso que um dia havia sido dela e de Franois. Mas no houve resposta, somente a sensao suave de sua presena. E, 
em pouco tempo, Charlie j havia adormecido profundamente,  luz do luar.
        
CAPTULO 4

        QUANDO CHARLIE ACORDOU, no dia de Natal, a viso de Sarah que tivera na noite anterior pareceu-lhe mais do que nunca um sonho, e ele tomou a deciso imediata 
de que no iria contar a ningum sobre isso. No mnimo, ele seria acusado de andar bebendo. 
        E no entanto, ele sabia como aquilo parecera real, como tinha certeza de que ela estivera no quarto com ele. Sua presena tinha sido para ele bastante evidente, 
e ele a vira de forma absolutamente ntida. Tanto que a princpio se convencera de que seria alguma vizinha, mas evidentemente no era. Ele at saiu para examinar 
a neve em torno da casa, mas no havia outras pegadas alm das suas prprias, entrando e saindo. 
        A no ser que ela tivesse vindo voando, de helicptero, e descido pela chamin, feito Papai Noel, ele no tivera nenhum visitante na noite anterior. Quem 
quer - e o que quer - que tivesse visto no quarto na noite de Natal, definitivamente no havia sido humano. E no entanto, em sua vida inteira, ele nunca acreditara 
em espritos. Para ele era um srio dilema. No sabia o que pensar;  luz clara do dia, aquilo tudo pareceu mais do que um pouco biruta. Nem sequer pensou em querer 
contar a Gladys. 
        Na verdade, quando j estava vestido e pronto para visit-la, tinha certeza de que no iria dizer nada a esse respeito. E ao atravessar a p a neve recm-cada, 
ficou de olho novamente na possibilidade de pegadas, mas havia somente as suas, e quando ele entrou no carro sentiu o estojo com os brincos de prola enfiado em 
segurana no seu bolso. E quando chegou  casa de Gladys, ela havia acabado de voltar da igreja e Charlie chegara mesmo a pensar em ir com ela, mas no final decidira 
que no.
        Dissera-lhe na noite anterior que no esperasse por ele e, depois que ela lhe deu um caloroso abrao, censurou-o por no ter ido. 
        - Sou to ateu que iria provavelmente afugentar os anjos todos. 
        - Duvido. Acho que Deus deve estar acostumado com os ateus. Se fssemos todos anjos, ia ser muito chato. 
        Charlie sorriu para ela e, alguns minutos depois, entregou-lhe o presente. Gladys o abriu com muito cuidado, alisando a fita com as mos e, em seguida, desdobrou 
o papel o mais delicadamente possvel, para no destru-lo. Ele sempre se perguntara por que as pessoas faziam isso. O que planeavam fazer com todas aquelas fitas 
e papis guardados? No precisam us-los jamais. 
        Mas ela separou tudo, tal como sua av fazia quando ele era criana, e abriu o estojo com muita cautela, como se pudesse haver um leo l dentro, ou um camundongo, 
e deu um gritinho quando os viu. Adorou os brincos de prola que ele lhe comprara, e seus olhos ficaram cheios de lgrimas quando agradeceu. Disse-lhe que Roland 
lhe havia comprado um par muito parecido com aquele, h muito tempo atrs, e sentira o corao afundar no peito, cinco anos antes, quando os perdeu. Estes eram quase 
idnticos, s que eram um pouquinho mais bonitos. 
        - Que menino to querido voc , Charles - disse ela, com profundo sentimento. - No mereo voc. Voc  realmente o meu presente de Natal, no  mesmo? 
-Agora, no queria sequer pensar em como iria ficar solitria no ano seguinte, sem ele. No conseguia imagin-lo ficando para sempre em Shelburne Falls. Mas agradecia 
a Deus por sua presena em sua vida nesse momento, sua sbita apario, sua chegada inesperada. Ele fora como que uma resposta s suas preces. - Vou us-los todos 
os dias, para sempre. Prometo. - Charles achava que eles no valiam tanto alvoroo, mas ficou satisfeito por ela ter gostado. 
        E ento ela o surpreendeu, dando-lhe um livro de poesia que pertencera ao marido. Deu-lhe isso e um cachecol bem quente que comprara para ele em Deerfield. 
Havia notado que ele no trouxera cachecol, e Charlie sentiu-se tocado por ambos os presentes, particularmente pelo livro de poesias. E nele ainda havia uma dedicatria 
para ela, de Roland, datada do Natal de 1957. 
        Parecia muito tempo, pensando bem, mas nem de perto tanto quanto o tempo em que Sarah havia vivido, ento pensou em contar-lhe o que vira na noite anterior, 
mas estava quase receoso de faz-lo. E, enquanto Gladys o olhava por sobre a xcara de ch que tinha preparado, ela pressentiu alguma coisa. 
        - Est tudo bem? Na casa, quero dizer? 
        Era como se ela soubesse, ou esperasse que ele a visse. Seus olhos fitavam profundamente os dele, e Charlie tentava parecer natural, ao pousar a xcara, 
mas suas mos tremiam. 
        - Est tudo timo. A casa  confortvel e quentinha, tudo funciona, at o aquecimento e os encanamentos. Hoje de manh, tive um monte de gua quente para 
usar - disse ele, ainda pensando na noite anterior, mas sem dizer uma palavra, enquanto ela o olhava atentamente. 
        E, ento, ela o surpreendeu com a pergunta seguinte. 
        - Voc a viu, no foi? - Ela o observava com olhos intensos e penetrantes, e Charlie sentiu um leve tremor. 
        - Vi, quem? - Ele parecia vago e serviu-se de um biscoito de aveia, enquanto Glynnis o observava com inveja, ao que ele lhe deu um pequeno pedao. - No 
vi ningum. - disse ele, com ar inocente, mas Gladys entendeu instintivamente que ele estava mentindo e sorriu, sacudindo o dedo para ele. 
        - Ah, sim, voc viu. Eu sabia que veria. Mas no queria assust-lo. Ela  bonita, no ? - Ele estava a ponto de voltar a negar, mas no conseguiu, ao fit-la. 
        Dava muito valor  amizade deles, e queria saber muito mais sobre Sarah. 
        - Com que ento, voc a viu, no? - Ele parecia pasmo, e foi na verdade um alvio poder conversar com ela a tal respeito.
        Era como se fosse um segredo obscuro entre eles, exceto que no havia nada de obscuro com relao a Sarah. Ela era toda feita de ar, luz e primavera. 
        - S a vi uma vez - admitiu Gladys para ele, recostando-se na poltrona com um olhar melanclico. - Eu tinha catorze anos e nunca esqueci. Foi a mulher mais 
bonita que j vi e ela ficou olhando para mim por um tempo enorme, no salo, mas depois sorriu e desapareceu rumo ao jardim. Corri l para fora, procurando por ela, 
mas no consegui encontr-la. Eu tambm nunca contei a ningum, exceto para Jimmy, e no creio que ele tenha acreditado. Ele pensou apenas que era uma histria de 
fantasmas, at que Kathleen a viu no quarto deles. Mas isso a aterrorizou, e no quis mais ficar na casa.  estranho, como ela aparece para as pessoas l, como se 
quisesse nos dar as boas-vindas ao seu lar. O realmente estranho  que, por mais jovem que... eu fosse quando isso aconteceu, nunca senti medo. S o que eu queria 
era voltar a v-la, e fiquei arrasada quando vi que isso no ia mais acontecer. 
        Ele sabia exatamente como ela se sentira, e assentiu com a cabea. Aps o choque inicial de v-la, s o que ele queria era que ela voltasse, que aparecesse 
de novo para ele. Havia esperado por ela at adormecer. 
        - Pensei que fosse uma vizinha fazendo algum tipo de brincadeira comigo. Tinha certeza disso, e fiquei girando pelo quarto, procurando atrs de todas as 
cortinas. Era onde ela estava, quando desapareceu. Cheguei at a sair pela neve. Hoje de manh, procurei pelas pegadas de algum, mas no encontrei nada. Ento percebi 
o que havia acontecido. Eu no ia nem lhe contar a esse respeito, e provavelmente no teria contado se no tivesse me pressionado. No acredito nessas coisas - disse 
ele com sobriedade, mas no havia outro modo de explicar aquilo. 
        - Tive a sensao de que ela apareceria para voc, porque  muito receptivo a ela e muito interessado sobre sua histria. E, para dizer a verdade, tampouco 
acredito realmente nestas coisas. H muitas histrias por aqui a respeito de duendes, de fantasmas e de pessoas que praticavam a bruxaria. Sempre me senti absolutamente 
segura de que isso era tudo besteira, mas no Sarah. De certa forma, tinha a forte sensao de que ela era diferente. Pareceu-me to real quando a vi... Ainda me 
lembro disso como se fosse ontem. 
        Parecia pensativa, ao dizer esta ltima frase. 
        - Ela me pareceu real, tambm - disse ele, com um olhar meditativo. - Tive certeza de que era uma mulher de verdade. No tive sequer medo de ver algum na 
minha casa, fiquei s aborrecido por tentarem fazer uma coisa dessas. Realmente achei que fosse algum tipo de brincadeira. Gostaria de ter compreendido quem era 
ela, desde o incio. - E ento olhou para Gladys Palmer com reprovao. - Voc deveria ter me prevenido. 
        Mas ela limitou-se a rir para ele e sacudir a cabea, usando os novos brincos de prola de que sentia tanto orgulho. 
        - No seja tolo. Voc ia mandar me trancar, convencido de que eu estava senil. Ser que teria me prevenido, se a situao fosse ao contrrio? Creio que no. 
Ele sorriu ao que ela disse, entendendo que era verdade. Se ela o houvesse prevenido, ele nunca teria acreditado. 
        - Creio que tem razo. E agora, o que acontece? - perguntou ele, com interesse. 
        - Acredita que ela vai voltar? - No era provvel, se a prpria Gladys s a vira uma vez, em setenta anos, e ele sentiu-se triste ao pensar que nunca mais 
teria uma oportunidade de v-la. 
        - No fao idia. No entendo de verdade sobre isso. Eu lhe disse, no acredito nisso. 
        - E nem eu. 
        Mas ele estava louco de vontade de v-la e no queria admitir isso, nem mesmo para Gladys. O fato de ter ficado subitamente fascinado pelo fantasma de uma 
mulher que vivera no sculo XVIII deixou-o um pouco agastado. No era um testemunho muito eloqente sobre sua vida amorosa. E pelo resto da tarde conversaram sobre 
Sarah e Franois. Gladys tentou se lembrar de tudo que j soubera sobre eles.
        Exatamente, s quatro horas, Charlie despediu-se dela e dirigiu lentamente de volta ao chteau, pensando em Sarah. E, ao atravessar a cidade, pensou em telefonar 
para Carole, por isso parou junto a um telefone pblico. 
Parecia to estranho, ter passado um Natal inteiro sem ela, e no havia sequer pensado em telefonar-lhe at aquela manh. 
        No saberia dizer exatamente sequer onde ela estava, mas achou que valia a pena tentar ligar para o nmero de Simon. Tinha quase certeza de que ela estaria 
l, a no ser que tivessem ido passar o fim de semana no campo. Para eles, seriam nove horas da noite, e mesmo que houvessem sado com amigos, era certo que j teriam 
voltado para casa a essa altura, caso permanecessem em Londres durante o Natal. 
        Ficou parado junto ao telefone e pensou a respeito por um longo tempo, mas finalmente discou o nmero. Estava quase desistindo quando ela atendeu ao quinto 
toque, falando um pouco sem flego, como se tivesse corrido escadas acima, ou vindo de um outro aposento. Era Carole, mas ele estava parado de p, na neve, na tarde 
do dia de Natal, congelando junto ao telefone de rua, e por um instante no conseguiu sequer responder. 
        - Al? -voltou ela a dizer, perguntando-se quem seria. 
        Estava ouvindo o sorriso metlico longnquo de um telefonema internacional. Talvez, devido ao telefone que ele estava usando, a ligao parecia no estar 
muito boa. 
        - Oi, sou eu... S queria lhe desejar feliz Natal. - E lhe pedir para voltar, perguntar se ainda me ama. Teve de se forar para no lhe dizer quanto sentia 
a falta dela, e entendeu de repente que telefonar para Carole no tinha sido uma grande idia. S o fato de voltar a ouvi-la dava-lhe a sensao de ter levado um 
soco no estmago. No falava com ela desde que deixara Londres. - Como vai voc? -Tentou parecer descontrado, mas fracassou de forma total. E pior ainda, sabia 
que ela podia ouvir isso com clareza em sua voz. 
        - Estou tima. E voc, como vai? Como est Nova York? - Ela parecia feliz, agitada e cheia de vida. E ele estava caando fantasmas pela Nova Inglaterra. 
Ouvi-la fez com que ele quisesse ter a sua antiga vida de volta. 
        - Nova York est tima, eu acho. - Houve uma longa pausa, ento ele resolveu contar-lhe. - Sa de l na semana passada. 
        - Para esquiar? - Ela pareceu aliviada, pelo menos isso soava normal. 
        A princpio, ela pensara que ele estava com uma voz deprimida e nervosa. 
        - Com certeza. Na verdade, tirei uma licena de seis meses. 
        - Voc o qu? - Combinava to pouco com ele que ela mal conseguiu acreditar. 
        - O que aconteceu? - Mesmo tendo-o trocado por outra pessoa, ela ainda se preocupava com ele. 
        -  uma longa histria, mas o escritrio foi um pesadelo. Eles esto desovando desenhos de vinte anos atrs e vendendo a clientes de trilhes de dlares 
plantas antigas, cansadas e retocadas. No sei como conseguiram permanecer no mercado por todo este tempo. E o escritrio  um poo de serpentes. L s se trata 
de poltica e de entregar o seu melhor amigo. No sei como a Europa conseguiu ser to diferente, ou como ns nunca percebemos no que eles se haviam transformado. 
Mas no consigo trabalhar assim. E, por minha vez, eu os estava levando  loucura. No parava de fazer perguntas. Perguntas demais. No sei nem se vou voltar. Eles 
me disseram para tirar seis meses de licena, e calculo que l por volta de abril vou tentar chegar a uma concluso sobre o que fazer. S no consigo me imaginar 
lidando com aquele tipo de babaquice. 
        - Voc vai voltar para Londres? - Ela parecia chocada com o que ouvira, e triste por ele. Sabia o quanto Charlie gostava da firma e o quanto tinha sido leal. 
Deve ter sido um verdadeiro golpe para ele deix-los, ainda que numa licena especial. 
        - Ainda no sei. Preciso resolver algumas coisas, como por exemplo o que fazer com o resto da minha vida. Acabei de alugar uma casa na Nova Inglaterra por 
um ano. Foi uma espcie de negcio especial. Posso ficar por algum tempo, em seguida voltar para Londres e procurar um apartamento. 
        - Onde voc est? - Ela parecia confusa. No compreendia o que ele estava fazendo, mas o problema era que Charlie tampouco compreendia.
        - Estou em Massachusetts, numa cidadezinha chamada Shelburne Falls, perto de Deerfield. - Ela fazia apenas uma vaga idia de onde isto ficava. Havia crescido 
na Costa Oeste, em San Francisco. 
        -  realmente lindo e aqui conheci uma mulher absolutamente surpreendente. 
        Ele estava falando de Gladys, no de Sarah, e do outro lado do oceano, Carole pareceu imensamente aliviada. Ela vinha esperando que isto acontecesse. Tiraria 
grande parte da carga de seus ombros e mudaria a atitude dele tanto em relao a ela quanto a Simon. Subitamente, ficou satisfeitssima por ele ter telefonado. 
- Oh, Charlie, estou to contente. Fico feliz por voc. Voc precisa disso. Todos ns precisamos. 
        Mas, ao ouvi-la, ele deu um sorriso melanclico. 
        - , eu sei. Mas no fique muito empolgada. Ela tem setenta anos,  a minha senhoria.  dona de um pequeno chteau, o mais bonito que existe. Foi construdo 
em 1790 por um conde francs para sua amante. 
        - Parece muito extico - disse ela, um pouco confusa com o que ouvia. Ficou imaginando se ele no estaria tendo um colapso nervoso. O que pretendia, alugando 
um chteau na Nova Inglaterra e deixando o trabalho por seis meses? Que diabos ele estava fazendo? - Voc est bem, Charlie? Quero dizer, realmente.
        - Acho que sim. H momentos em que no tenho muita certeza. Mas a, em outros momentos, acho que vou conseguir. Eu conto a voc tudo que acontecer. - E a 
ele no conseguiu se segurar. Tinha de saber. Havia sempre uma nfima chance de que ela houvesse dado o fora em Simon depois que Charlie sara de Londres. - Como 
vo as coisas com vocs? Como vai o Simon? - J se cansou dele? Est odiando Simon? Ele se mandou com alguma outra? Algum de vocs dois est traindo o outro? Ele 
no estava ligando a mnima para o que Simon houvesse feito. Charlie queria era a mulher de volta. 
        - Ele est timo - disse Carole baixinho. - E ns estamos timos, tambm. 
         Ela sabia exatamente o que Charlie estava perguntando. 
        - Lamento muito saber disso - disse ele, feito um garoto, e ela riu. 
        Conhecia a exata expresso que ele estava fazendo e a seu prprio modo ainda o amava, mas no o suficiente para querer voltar a estar casada com ele. 
Estava muito apaixonada por Simon. E ainda no tinha certeza do que lhes havia acontecido, mas sabia que, em algum ponto ao longo do caminho, deixara de estar apaixonada 
pelo marido. E, apesar de tudo de diferente em que ele queria acreditar, Charlie tambm sabia disso. Era apenas uma questo de aprender a viver com isso durante 
os prximos quarenta ou cinqenta anos. 
        Mas, pelo menos agora, disse a si mesmo com um sorriso triste, ele tinha Gladys. e Sarah. Mas teria trocado ambas por Carole, naquele mesmo minuto. Tentou 
no pensar nela, em seu aspecto, naquelas pernas longas e graciosas e na cintura estreita que sempre o deixara tonto, enquanto continuavam falando. Ela acabara de 
lhe contar que iam para St. Moritz no Ano-Novo. 
        - Eu estava a caminho de Vermont, quando parei aqui - explicou a ela. - J faz cinco dias, e ento conheci a mulher que  dona do chteau e, eu lhe conto 
tudo algum dia. 
        Era uma saga muito longa para explicar agora, num telefone pblico em Shelburne Falls, Massachusetts. E, enquanto ele conversava com ela, comeara a nevar. 
        - Diga-me onde voc est - pediu ela, e ele franziu o cenho assim que ouviu. 
        - Por qu? Que diferena faz? 
        - S quero saber se voc est bem, s isso. 
        Lamentou imediatamente ter dito isso. 
        - Semana que vem estou recebendo um telefone e um fax. Telefono para voc quando tiver os nmeros. 
        Pelo menos era uma desculpa para telefonar-lhe, mas ela j estava comeando a sentir-se constrangida com a conversa. E Simon havia acabado de entrar, procurando-a. 
Tinham convidados para o jantar e ela estava levando uma eternidade. 
        - Basta passar por fax para o meu escritrio - disse ela - que eu recebo. 
         Mas ele soube imediatamente que ela no estava mais sozinha, o que lhe pareceu irnico. Um ano antes, ela o vinha enganando com Simon, e agora tinha medo 
de estar vivendo com ele e ficar conversando com o marido. 
        No que tivesse medo de Simon, s que no queria fazer aquilo, e Charlie sabia. 
        - Eu lhe telefono uma hora dessas, cuide-se. - disse ele, sentindo como se ela estivesse sumindo aos poucos. E estava. Dava para ouvir outras pessoas no 
aposento, agora. 
        Os convidados haviam todos entrado enquanto ela estava falando. Era uma reunio informal e eles tinham ido para o escritrio de Simon, depois do jantar, 
para tomar caf. 
        - Voc tambm - ela parecia triste ao dizer adeus. Ento, como que se lembrando de repente, gritou ainda: - Feliz Natal. - Amo voc, quis acrescentar, mas 
sabia que no podia. 
        E mesmo que Simon no estivesse presente, sabia que no podia mais dizer isso a Charlie, ele no teria compreendido, como ela poderia amar a ambos mas s 
querer viver com Simon. Charlie era agora como seu mais caro e antigo amigo. Mas ela sabia que teria sido uma grande sujeira deix-lo confuso. 
        E aps desligar, ele ficou olhando para o aparelho por mais algum tempo, com minsculos flocos de neve girando lentamente em torno de seu corpo. Queria dar 
um soco em alguma coisa, ou chorar, ou perguntar-lhe novamente por que aquilo havia acontecido. O que ela estava fazendo l, na casa de Simon, com os amigos dele, 
fazendo de conta que era casada com Simon? Ainda era sua esposa, pelo amor de Deus, o divrcio ainda no havia acontecido. Mas acabaria acontecendo, e ele achava 
que sabia o que iria suceder. S no conseguia suportar pensar a esse respeito. 
        Voltou para sua camionete com um suspiro e dirigiu-a lentamente colina acima, pensando em Carole. Ainda estava pensando nela quando chegou  clareira onde 
costumava deixar o carro e caminhou atravs da neve at a casa pela qual havia se apaixonado. Estava escuro, no havia sinal de vida e ele se perguntou se a mesma 
mulher que vira estaria esperando por ele. Precisava de alguma coisa, de algum, algum a quem pudesse amar e com quem pudesse falar. Mas s o que queria, enquanto 
abria a porta, era Carole. E no havia ningum na casa desta vez. Nada se mexeu, no houve um rudo, nenhuma apario, nenhuma sensao. 
        A casa estava vazia e ele ficou sentado numa das poucas cadeiras que tinha, no escuro, olhando pela janela para a escurido. Nem sequer se dera ao trabalho 
de acender as luzes. S queria ficar sentado e pensar a respeito dela por algum tempo. a mulher que ele havia amado e perdido. e, depois, a mulher que ele havia 
vislumbrado na noite anterior e s podia sonhar.

CAPTULO 5

        CHARLIE LEVANTOU CEDO e sentindo-se cheio de energia um dia aps o Natal. 
        Ia  cidade, com uma lista de coisas de que precisava para encerar os assoalhos e limpar os degraus e as lareiras de mrmore. E, antes de sair para fazer 
compras, pegou uma escada e subiu ao sto. Era um espao amplo, bem iluminado, com quatro janelas grandes e redondas, e no teve problemas em orientar-se ali. 
        Havia algumas caixas com roupas velhas e coisas que Gladys lhe contara ter guardado, e ento, com tristeza, encontrou algumas das coisas de Jimmy, seus uniformes 
da Marinha, alguns brinquedos de sua infncia e algumas das coisas de Peggy. 
        V-las cortou o corao de Charlie. E ele suspeitou que Gladys as guardava ali para no ter de estar topando com elas o tempo todo. Levou uma hora para examinar 
tudo, havia cerca de uma dzia de pequenos bas e caixas de papelo. Mas no encontrou nada de particularmente interessante, nada daquilo parecia ter pertencido 
a Sarah, e quando desceu de volta, estava bastante decepcionado. No tinha certeza do que havia esperado encontrar, mas de alguma forma acalentara a esperana de 
que, ao longo dos anos, algumas de suas coisas tivessem sido deixadas l. 
        Mas Gladys era caprichosa e organizada demais para passar por cima de algo to importante quanto uma caixa com pertences de Sarah. No estava certo sequer 
do que teria feito com eles, mas sentia que somente ver alguma coisa assim poderia t-lo aproximado um pouco mais dela. 
        - Lembrou-se de que aquela mulher havia morrido h quase dois sculos e, se no tomasse cuidado, ela poderia se transformar numa obsesso para ele. 
        J tinha problemas reais suficientes em sua vida, sem estar acreditando num fantasma, e muito menos se apaixonando por ele. Como  que ele poderia explicar 
isso a Carole? Mas a verdade  que ele no tinha de faz-lo. No encontrou nenhuma de suas coisas e tinha certeza, pelo que Gladys dissera, que Sarah provavelmente 
no voltaria a aparecer-lhe. 
        Na verdade,  luz clara do dia, dois dias depois, quase se perguntou se o que vira no fora produto de sua imaginao, um sinal da presso incrvel sob a 
qual estivera, primeiro com o divrcio e tudo que o causara, em seguida com o escritrio, quando tivera de sair. Talvez tal mulher nunca tenha existido. Talvez ele 
houvesse adormecido e apenas sonhado com ela. 
        Mas naquela tarde, quando parou na loja de ferragens em Shelburne Falls, no conseguiu resistir a dar um pulo na sociedade histrica, que ficava logo ao 
lado. 
        Era uma casa estreita, coberta de telhas de madeira, que havia sido doada  prefeitura anos antes, e abrigava uma extensa biblioteca sobre a histria local, 
alm de um pequeno museu. 
        Charlie queria ver se havia algum livro disponvel falando de Franois ou de Sarah. Mas, ao entrar, no estava de forma alguma preparado para a recepo 
que teve. A mulher na recepo estava de costas e, quando virou-se e olhou para ele, apesar de um rosto que parecia um camafeu, tinha os olhos cheios de tristeza 
e dio. E sua resposta ao seu boa-tarde foi curta e seca, beirando a grosseria. Dava a impresso de que estava furiosa com ele meramente por ter entrado, e era bvio 
que no queria que ele a perturbasse. 
        - Sinto muito - ele se desculpou com um sorriso caloroso, mas nada em seus olhos ou em seu rosto demonstrou qualquer reao. 
        Ficou imaginando que talvez ela tivesse tido um Natal horrvel, ou sua vida fosse horrvel, mas na verdade, concluiu, enquanto olhava para ela, talvez fosse 
apenas uma pessoa horrvel. Era uma garota muito bonita. Tinha olhos verdes e grandes, um cabelo castanho-avermelhado, e uma pele cremosa que combinava muito bem. 
Era alta, magra, de traos muito delicados, e ele viu, quando ela ps as mos sobre a escrivaninha  sua frente, que tinha dedos longos e graciosos. Mas tudo nela 
lhe dizia para no se aproximar. 
         Eu estava procurando algum livro sobre Sarah Ferguson e Franois de Pellerin, caso vocs tenham alguma coisa. No estou muito certo sobre as datas, mas 
acho que eles viveram aqui no final do sculo XVIII, e ela deve ter continuado ainda por mais tempo. Acho que o que quero gira em torno de 1790. Est familiarizada 
com eles? - perguntou, inocentemente, e ela o surpreendeu novamente quando, quase rosnando para ele, anotou os nomes de dois livros num pedao de papel, que lhe 
passou. 
        - Vai encontr-los ali. - Apontou friamente para uma estante de livros do outro lado da sala, logo atrs dele. - Neste exato momento estou muito ocupada. 
Se no conseguir encontr-los, diga-me. 
        Ele ficou aborrecido de verdade com essa atitude, em especial porque era surpreendentemente diversa de qualquer outra pessoa que havia conhecido tanto em 
Shelburne Falls quanto em Deerfield. Todos os demais pareceram ansiosos para faz-lo sentir-se em casa e ficaram empolgados ao saber que ele havia alugado o chteau. 
Mas no esta mulher. Ela era que nem o tipo de pessoas que ele podia encontrar no metr de Nova York, nas raras ocasies em que o havia tomado, mas at mesmo estas 
haviam sido mais agradveis. 
- Est havendo algum problema? - No conseguiu resistir a lhe perguntar. Parecia-lhe impossvel que ela fosse to desagradvel sem haver um motivo. 
        - Porqu? - Ela o fitou com olhos que pareciam gelo verde. 
        Na verdade, eram somente uma nuana mais amarela do que esmeraldas, e ele ficou imaginando como ela seria, se estivesse sorrindo. 
        - Voc parece aborrecida - disse ele com gentileza, seus prprios olhos clidos, castanhos feito chocolate derretido, presos aos olhos frios dela. 
        - No, no estou. S estou ocupada. 
voltou-lhe as costas de novo e Charlie afastou-se, encontrando ento os dois livros e folheando. Planeava lev-los para casa e estava curioso para saber se havia 
algum desenho de um dos dois, mas quase perdeu o flego quando, ao folhear o segundo livro, encontrou um retrato. No havia dvidas quanto a quem havia visto. A 
semelhana era extraordinria, at a expresso nos olhos, a forma dos lbios, o modo como ela parecia a ponto de sorrir, ou de falar ou de rir para ele. Era a mesma 
jovem com os longos cabelos negros e os imensos olhos azuis. Era a mesmssima mulher que ele havia visto... era Sarah. 
        E quando se virou para tornar a olh-lo, a jovem atendente da biblioteca viu sua expresso de espanto. 
        - Ela foi alguma parenta? - perguntou, intrigada por sua bvia fascinao. 
        E sentiu-se apenas um pouquinho culpada por ser to seca com ele. Mas era incomum que algum aparecesse, exceto de vez em quando, na temporada turstica. 
        Na maior parte do tempo, a sociedade histrica era usada apenas como uma biblioteca de referncia, e Francesca Vironnete assumira a funo de curadora e 
bibliotecria porque sabia que teria muito pouco contato com pessoas e disporia de muito tempo para si mesma, para trabalhar em sua tese. Ela se formara em Histria 
da Arte na Frana, anos antes, e mais uma vez na Itlia, e poderia estar ensinando, mas em tempos recentes havia optado com facilidade pelos livros, em vez das pessoas. 
        Tinha orgulho da sociedade histrica, mantinha muito bem organizados os livros do acervo, restaurava-os quando necessrio e guardava com zelo as antiguidades 
que ficavam no segundo andar, nas salas destinadas ao museu. Era realmente apenas no vero que as pessoas vinham visit-las. 
        Pareceu aborrecida, quando ergueu os olhos e viu que Charlie a observava com interesse. No se sentia  vontade sob o seu exame, e ele estava surpreso por 
ela ter se dado ao trabalho de fazer-lhe uma pergunta. Ela parecia qualquer coisa, menos amigvel. 
- No. Soube a respeito de Sarah e Franois por amigos - explicou ele. - Devem ter sido pessoas interessantes. 
        Ele fingiu no notar a expresso distante que ela assumiu. 
        - Existem muitos mitos e lendas a respeito deles - disse ela cautelosamente, tentando no parecer intrigada por ele. Parecia ser inteligente e sofisticado, 
como os europeus que ela conhecia, mas resistiu a qualquer impulso de chegar a conhec-lo. - Suspeito que a maioria delas no seja verdadeira. Elas parecem ter sido 
muito exageradas nos dois ltimos sculos. Eles eram provavelmente muito comuns, embora no haja como prov-lo. - Para ele pareceu uma perspectiva deprimente, e 
detestou a idia de reduzi-los novamente s propores de meros mortais. 
        Preferia imensamente a grande paixo a que Gladys se havia referido, a tocante histria de amor e a coragem de enfrentar os costumes da poca, pelo amor 
de um por outro. Ficou imaginando o que teria acontecido a esta jovem para torn-la to zangada e desagradvel. Mas, paradoxalmente, apesar de seu rosto azedo e 
olhos furiosos, ela era quase uma beleza. 
        - Mais alguma coisa? - Ela perguntou ento a Charlie, como se ele fosse uma chatice. 
        Era bvio que estava ansiosa para que ele fosse embora e aquela conversa terminasse. E ento lhe disse que estava fechando cedo. 
        - Tem mais alguma coisa a respeito deles? At mesmo alguns livros antigos onde eles sejam mencionados? - perguntou teimosamente, pois no ia se deixar ser 
escorraado s porque ela detestava gente. 
        Ele a decifrara corretamente. Ela amava os livros, a moblia e os artigos pelo qual era responsvel, e sua histria. Mas livros e moblia jamais a magoariam. 
        - Vou ter que dar uma espiada - disse ela, friamente. - Tem um telefone de contato?
        Mas ele sacudiu a cabea em resposta a essa pergunta. 
        - Ainda no. S vou ter telefone na semana que vem. Eu lhe telefono e vejo o que voc descobriu. 
        Ento, como que desejando aquec-la, embora no soubesse a razo, exceto que de alguma forma a frieza daquela jovem o desafiava, contou-lhe que acabara de 
alugar a casa onde Franois e Sarah um dia haviam morado. 
        - Est se referindo ao chteau na colina? - perguntou ela, realmente intrigada desta vez, e seus olhos se aqueceram levemente, mas apenas por um instante. 
        - Sim, essa mesma - confirmou, ainda observando-a. Era como se em algum lugar uma porta houvesse se aberto apenas um pouquinho, mas com a mesma rapidez ela 
a havia batido. 
        - J viu algum fantasma? - perguntou ela com sarcasmo, divertida pelo fato de ele estar to interessado em Sarah Ferguson e Franois de Pellerin. 
        Era uma histria encantadora, mas ela nunca lhe dera muita ateno. 
        - Existe um fantasma? - disse ele como quem no quer nada. - Ningum me falou a esse respeito. 
        - No sei. S presumi que houvesse. Creio que no existe uma casa nesta parte do mundo que no alegue ter pelo menos um. Talvez voc venha a ver os amantes 
se beijando, alguma noite dessas,  meia-noite. 
        Ela riu a esse pensamento, relaxando pela mera frao de um instante, e ele sorriu, mas ela afastou o olhar ao perceber isso. 
        Parecia assustada por v-lo sorrir. 
        - Eu lhe telefono e lhe informo, se vir alguma coisa. - Mas ela parecia ter perdido o interesse. 
        A porta estava no apenas fechada, mas trancada e aferrolhada com bastante firmeza. 
        -  preciso assinar alguma coisa para levar os livros? - perguntou ele, num tom bastante formal. 
        Ela assentiu com a cabea e deslizou em direo a ele uma folha de papel, lembrando-lhe de que dispunha de uma semana para devolv-los. 
- Obrigado - disse Charlie mal se despedindo, o que no era do seu feitio. Mas... ela era to fria, to fechada, que ele quase lamentava por ela. 
        Era difcil dizer, mas ele ficou se perguntando se alguma coisa realmente horrvel lhe teria acontecido. 
        Era difcil imaginar algum to duro e to frio assim, na idade dela. 
        Calculou que ela tivesse uns vinte e nove ou trinta anos. No pde deixar de lembrar-se de Carole na mesma idade, quando ela era toda calor e risos, e muito 
sensual. Esta mulher era como um raio de sol invernal, esqulido e fragmentado. No conseguia imagin-la aquecendo qualquer coisa, muito menos o corao de um homem. 
De qualquer forma, no o dele. 
        Era uma jovem bonita, mas era feita de gelo. E ao voltar para seu carro e dirigir para o chteau, esqueceu-a por completo. Mal podia esperar para ler os 
livros que havia pegado na sociedade histrica. Queria saber tudo que pudesse sobre Sarah e Franois. 
        E quando Gladys veio visit-lo no dia seguinte, mostrou-lhe os livros e contou-lhe tudo a esse respeito. J havia terminado um deles e comeado o segundo, 
naquela manh, bem cedo. 
        - Voc voltou a v-la? - perguntou ela com um ar conspirador, e ele no conseguiu evitar o riso. 
        -  claro que no - disse baixinho. J havia comeado a duvidar de t-la visto da primeira vez. 
        - Fico me perguntando se voc voltar a ver - divagou ela, percebendo as poucas coisas que ele fizera desde que l chegara. 
Tudo estava limpo e bem arrumado, em absoluta ordem, e at mesmo o pouco que ele havia acrescentado possua muito estilo. Sentiu o corao satisfeito por saber que 
ele estava morando no pequeno chteau que ela sempre tinha amado. Parecera-lhe sempre muito triste v-lo vazio. Ficara infeliz quando sua nora se recusara a l permanecer. 
        - Voc nunca voltou a v-la - relembrou-lhe Charlie, e ela riu por ele lembrar-lhe aquilo que ela lhe havia recordado. 
        - Talvez eu no fosse bastante pura ou bastante sbia, ou no tivesse um esprito forte o suficiente - disse ela, brincando um pouco com ele, ao que ele 
respondeu, sorrindo:
        - Se os critrios fossem estes, pode ficar tranqila que eu nunca a teria visto tampouco. - E ento contou-lhe que havia falado com a ex-esposa dois dias 
antes, e dissera a Carole tudo sobre ela. 
        - Ela pensou que voc ia ser a minha prxima esposa. Acho que a princpio ficou muito satisfeita, mas eu disse a ela que no achava que tivesse essa sorte 
toda. 
        Ele adorava provoc-la, e ela adorava brincar com ele. Gladys Palmer agradecia  sorte todos os dias, pela tarde em que ele entrara em sua vida, recm-sado 
da estrada. Ambos achavam que aquilo havia sido obra do destino. 
        - Como foi quando voc falou com ela? - perguntou-lhe gentilmente Gladys Palmer. 
        Ele j havia admitido a ela a dor em que vivera durante o ltimo ano e, mesmo sem conhec-lo bem, ela se preocupava com ele. 
        - Difcil. Ele estava l. Estavam recebendo convidados.  to estranho imagin-la tendo uma vida com outra pessoa. E me pergunto se algum dia vou me acostumar 
com isso e parar de me sentir zangado sempre que o vejo. 
        - Ah, vai. Um dia. Pode levar algum tempo. Acho que podemos nos acostumar com qualquer coisa, se tivermos de fazer isso. 
        Embora agradecesse muito por nada desse tipo jamais ter-lhe acontecido, tinha certeza de que morreria se Roland algum dia a tivesse deixado. J era suficientemente 
ruim perd-lo para a doena e para a idade, mas perd-lo para uma outra pessoa, ainda no comeo de seu casamento, teria sido uma dor e uma humilhao em que no 
conseguia nem pensar. 
        E sentia um grande respeito por Charlie por ter sobrevivido a tudo que havia passado. Mais ainda, ele no lhe parecia amargo. Parecia decente, gentil e ntegro, 
e ainda tinha um senso de humor saudvel. 
        Ela podia sentir as cicatrizes, aqui e ali, e s vezes havia um toque de tristeza em seus olhos, mas ele no tinha nada de minimamente desagradvel ou pouco 
gentil. 
        - Achei que devia telefonar a ela para desejar-lhe feliz Natal. Acho que foi um erro. creio que no ano que vem no vou cair nessa - explicou a Gladys. 
        - Talvez no ano que vem voc esteja com outra pessoa - disse ela, esperanosa, embora ele no conseguisse imaginar isso. 
        No conseguia sequer sonhar em viver com alguma outra pessoa, a no ser Carole. 
        - Duvido - disse ele, com um sorriso triste -, a no ser que eu consiga atrair Sarah. 
- Ora, essa  uma idia! - Gladys Palmer riu com ele e, antes de ir embora, Charlie lhe disse que no dia seguinte iria esquiar. 
        Ia para Charlemont, conforme ela lhe sugerira, e tinha alugado um quarto para passar quatro dias, de forma que pudesse esquiar durante o Ano-Novo. Perguntou-lhe 
se ela estaria bem na vspera do Ano-Novo, ou se gostaria que ele voltasse para fazer-lhe companhia. Ela ficou bastante comovida com esse oferecimento. 
        Parecia tpico do pouco que conhecia dele. 
        Estava sempre se oferecendo para fazer coisas por ela, cortar lenha para a lareira, ir aqui e ali, ou comprar coisas no armazm, ou preparar-lhe uma refeio. 
Charlie era como o filho que no via h catorze anos e de quem sentia tanta falta. Era uma bno que a vida lhe concedera, e sorriu calorosa ao responder-lhe. 
        - Voc  um amor por perguntar - ela aplaudiu sua gentileza -, mas h anos que no comemoro a vspera de Ano Novo. Roland e eu nunca saamos. Ficvamos em 
casa e amos dormir s dez horas da noite, enquanto todo mundo ficava na rua e se embebedava, batia com os carros, fazia papel de tolo. Nunca foi uma noite que me 
atrasse muito. No,  muito gentil da sua parte se oferecer, mas no vai me fazer falta. Fique em Charlemonte e v esquiar. 
        Ele prometeu deixar com ela o nome do hotel, caso viesse a precisar dele, e ela o beijou com enorme afeto quando partiu, desejando-lhe muita diverso com 
os esquis. 
        - No v se quebrar todo! - preveniu ela, enquanto ele abria a porta para ela entrar em seu carro. - Sarah no ia gostar disso! - concluiu provocando-o, 
e ele riu. Adorava a expresso nos olhos dela quando falava de Sarah e Franois. 
        - Eu tambm no ia gostar, pode crer! A ltima coisa que eu ia querer era um brao ou uma perna quebrados - disse ele, com sentimento. Um corao partido 
j fora o bastante no ltimo ano, e membros quebrados teriam sido uma inconvenincia gigante. 
        Acenou, enquanto ela saiu dirigindo para visitar uma amiga na cidade, e caminhou de volta at a casa, terminando de ler o segundo livro sobre Sarah e Franois. 
Achou-o fascinante, e este falava principal mente do trabalho de Franois junto ao Exrcito, tentando negociar tratados com os ndios. Ele fora o principal porta-voz 
dos ndios com todas as seis naes nesta parte do mundo. Sarah no voltou naquela noite. Na verdade, ele no sentiu nada enquanto vagava pela casa. L, sentia-se 
simplesmente confortvel e  vontade. E, antes de se deitar, arrumou suas coisas para ir esquiar. Botou o despertador para as sete da manh seguinte. E, no momento 
em que adormecia, pensou ter ouvido as cortinas se mexendo, mas estava cansado demais para voltar a abrir os olhos, enquanto, mergulhado no sono, teve certeza de 
que a sentiu perto dele.

CAPTULO 6

        Aterrar em CHARLEMONT foi surpreendentemente agradvel para Charlie, que estava mal acostumado pelas muitas frias que ele e Carole haviam tirado para esquiar 
na Europa. Gostavam particularmente de Vald'Iserre e de Courchvelles, embora Charlie gostasse de St. Moritz e tivesse se divertido muito em Cortina. 
        Charlemonte era razoavelmente sem graa, comparado com tudo isso, mas as trilhas eram boas, as pistas para veteranos um agradvel desafio, e era uma sensao 
maravilhosa estar novamente nas colinas, ao ar livre, fazendo algo em que ele era bom. Era exatamente do que precisava. 
        No esquiava h um ano e, por volta do meio-dia, sentia-se um novo homem, ao subir o telefrico para uma ltima descida, antes de entrar para almoar e tomar 
uma xcara fumegante de caf. 
        O tempo estava revigorante, e fazia frio quando ele sara de casa, mas agora sentia calor ao sol, e sorriu ao sentar-se na cadeira do telefrico com uma 
menininha que tinha metade do seu tamanho. Ficou impressionado por ela estar esquiando sozinha, e subindo a montanha. Havia pistas para veteranos, e ele ficou surpreso 
pelos pais dela no se preocuparem. Mas, quando a barra de segurana desceu, ela virou-se para ele com um largo sorriso, e Charlie perguntou-lhe se costumava vir 
ali. 
        - No muito. Sempre que mame tem tempo. Ela est escrevendo uma histria - disse, informativa, enquanto olhava atentamente para Charlie. 
        Tinha grandes olhos azuis e cachos louros entremeados de cor de cobre, e ele no estava bem certo quanto  sua idade. Achou que devia ser alguma coisa entre 
sete e dez anos, o que era um leque amplo, mas ele no sabia muita coisa sobre crianas. Era uma menininha bonita e parecia completamente feliz da vida enquanto 
subiam a montanha. 
        Cantarolava uma cano e ento voltou a olhar para ele com seu sorriso travesso e os olhos cheios de perguntas. 
        - Voc tem filhos? - perguntou ela, e ele respondeu sorrindo. 
        - No, no tenho. 
        Sentiu quase como se tivesse que se desculpar, ou no mnimo explicar, mas ela assentiu com a cabea, como se entendesse. Estava s tentando determinar quem 
e o que ele era, durante aquela breve subida, e parecia interessada nele, j que continuou a fit-lo. Usava calas pretas e uma parca verde-escura. Estava usando 
por baixo uma pea nica de um azul luminoso, quase da mesma cor dos seus olhos, e trazia na cabea um chapu vermelho que combinava certinho com seus trajes. 
        Lembrava-lhe as crianas que ele vira sempre que havia ido esquiar com Carole na Frana. Havia algo de muito europeu nela, o pequeno rosto de querubim, os 
olhos brilhantes, os cachos, e ela parecia feliz, inocente e saudvel. 
Embora desse a impresso de estar completamente  vontade com ele, no era rude nem precoce. 
        No havia nada de muito sofisticado naquela criana, ela parecia apenas muito esperta e muito feliz, e agradou-lhe estar sentado ao lado dela, sentindo que 
no conseguia resistir a seu sorriso contagiante. 
        - Voc  casado? - perguntou-lhe, ao que ele riu. 
        Talvez ela fosse mais sofisticada do que ele achara a princpio. Sua me a havia prevenido para no falar muito com pessoas que conhecesse no telefrico, 
mas ela adorava conversar e fizera um monte de amigos ali. 
        - Sim, sou - disse ele quase por reflexo, mas em seguida pensou melhor. No havia motivo para mentir a uma criana. - Na verdade,  meio complicado de explicar, 
mas no sou no. Estou casado, mas no vou continuar casado por muito tempo. 
        Sentiu-se exausto, depois desse esforo de explicao, mas desta vez ela fez um ar srio e assentiu com a cabea. 
        - Voc  divorciado - disse ela, solenemente - e eu tambm. - O modo como ela disse aquilo o fez sorrir de novo. 
        Ela era uma bruxinha irresistvel. 
        - Lamento saber - disse ele, tentando parecer srio enquanto chegavam lentamente ao topo. - Durante quanto tempo esteve casada?
        - A minha vida inteira. 
        Assumiu um ar trgico ao falar isso, e ento ele se deu conta do que ela queria dizer. 
        No estava brincando com ele. Estava falando dos pais. Eles obviamente haviam se divorciado, e ela achava que estava divorciada tambm. 
        - Sinto muito, de verdade - disse ele, e desta vez falava srio. 
        - Que idade voc tinha, quando se divorciaram? 
        - Quase sete. Agora estou com oito. A gente costumava morar na Frana. 
        - Oh - disse ele com um interesse renovado. - Eu costumava morar em Londres. Quando era casado. Voc mora aqui agora, ou est s de visita? 
        - A gente mora bem pertinho - disse ela, num tom muito prosaico. 
Ento voltou-se novamente para ele, feliz por fornecer mais informaes, tivesse ele ou no pedido. 
        - Meu pai  francs. A gente costumava esquiar em Courchevelles. 
        - Eu tambm - disse ele, como se fossem velhos amigos, agora. - Voc deve esquiar muito bem, para seus pais a deixarem vir sozinha at o alto da montanha. 
        - Aprendi a esquiar com papai - disse ela, orgulhosa. - Mame esquia devagar demais para mim, por isso ela me deixa esquiar sozinha. Ela s me diz para no 
arranjar problemas, no ir a lugar nenhum com ningum e no falar demais. 
Charlie sentiu-se feliz por ela no ter aprendido muito bem a lio. Na verdade, estava gostando de sua companhia. Era uma criaturinha encantadora. 
        - Onde voc morava, na Frana? - J eram velhos amigos quando chegaram ao topo e tiveram de saltar. Ao fazerem-no, ele lhe deu a mo. 
        Mas pde ver, do modo como ela pulou da cadeirinha, que era uma boa esquiadora e estava inteiramente  vontade, enquanto se dirigiam para uma trilha de veteranos 
que teria assustado muitos adultos. 
        - A gente morava em Paris - respondeu ela, ajeitando os culos de neve. - Na rue de Bac... no Septime. papai mora na antiga casa. 
Sentiu vontade de perguntar-lhe por que ela fora at l. A me dela era norte-americana. Charlie presumiu que fosse, uma vez que a criana falava ingls de forma 
perfeitamente natural. Quis perguntar-lhe um monte de coisas, mas achou que no devia e, enquanto a observava, ela deu a partida. Movimentava-se com a velocidade 
de um coelhinho da neve, descendo a montanha quase que em linha reta, e fazendo curvas suaves e perfeitas. Charlie a seguia com facilidade, poucos metros atrs. 
Ela ento olhou para cima, viu-o esquiando perto dela e seu sorriso largo disse-lhe que estava feliz com isso. 
        - Voc esquia tal como meu pai - disse ela, com um tom de admirao, mas era Charlie quem estava espantado com ela. 
        Era uma pequena esquiadora notvel, uma garotinha adorvel, e ele se sentia como se tivesse feito uma nova amizade na montanha. E teve de rir consigo mesmo, 
enquanto esquiava rapidamente atrs dela. Sua vida estava com certeza muito diferente hoje em dia. Passava todo o seu tempo com uma mulher de setenta anos, fantasmas 
e crianas. Era muitssimo diferente de sua vida ocupada, bem estabelecida e previsvel, em Londres, dirigindo uma firma de arquitetura. 
        Agora, no tinha emprego, nem amigos, nem mulher, nem planos. S o que tinha era o branco brilhante da neve embaixo dos esquis e a luz do sol sobre as montanhas, 
enquanto seguia a pequena esquiadora pista abaixo. Ela finalmente parou e ele fez uma parada vistosa ao lado dela, que comentou sobre o seu estilo. 
        - Voc esquia de maneira sensacional. Tal como meu pai. Ele era corredor. Esteve nas Olimpadas, pela Frana. Isso foi h muito tempo. Ele agora acha que 
est velho, Tem trinta e cinco anos. 
        - E eu sou mais velho ainda do que isso. Nunca estive nas Olimpadas, mas obrigado. - Ento pensou em algo e virou-se para fazer-lhe uma pergunta, enquanto 
ela mantinha os olhos voltados para ele, e puxava os cabelos para trs. - Como voc se chama?
        - Monique Vironnete - disse ela, com simplicidade, com um sotaque francs perfeito, e ele percebeu que ela provavelmente falava um francs impecvel. 
        - O nome de papai  Pierre. Voc alguma vez o viu correr? 
        - Provavelmente. Mas no me lembro do nome. 
        - Ele ganhou uma medalha de bronze - disse ela, enquanto ele notava que seus olhos iam ficando tristes. 
        - Voc deve sentir muita falta dele - comentou Charlie, gentilmente, enquanto olhavam as vertentes onduladas l embaixo. 
        Nenhum dos dois parecia com vontade de terminar a corrida e descer. 
        A ele agradava bater papo com ela, e ela parecia estar gostando muito de sua companhia. Presumiu que ela sentia falta do pai, pois falava muito dele. 
        - Eu o visito nas frias - explicou ela. - Mas mame no gosta que eu v at l. Ela diz que no  bom para mim estar em Paris. Quando morvamos l, ela 
chorava o tempo todo. 
        Ele assentiu com a cabea. Conhecia aquela sensao. Havia chorado muito em Londres, no ano que havia passado. O final de qualquer casamento  muito doloroso. 
        Ficou imaginando ento como seria a me dela, se seria bonita e cheia de vivacidade como a garotinha. Tinha de ser, pois tudo naquela criana era cheio de 
sol e calor. Isso no acontecia por si s. No caso de crianas, em geral vinha da luz refletida pelos pais. 
        - Vamos descer? - perguntou Charlie finalmente. 
        Estavam h muito tempo na montanha, e j era mais tarde do que tinha imaginado. 
        Passava bem da uma hora. E ele estava morto de fome. Ao segui-la pelo lado da montanha abaixo, viu que esquiavam em perfeita combinao, e no final da corrida 
estavam ambos radiantes. 
        - Foi fantstico, Monique. 
        - Obrigado! - A essa altura ele j lhe dissera que seu nome era Charlie e ela olhou para ele com seu sorriso mais brilhante. 
        - Voc esquia de uma maneira sensacional! Igual ao papai. 
        Vindo dela, era o maior de todos os elogios e Charlie percebeu isso. 
        - Obrigado. Voc tambm no  nada ruim. - E a, ele j no sabia o que fazer com ela. 
        No queria simplesmente tirar os esquis e se afastar dela, mas tambm no achava que devia lev-la com ele. 
        - Voc vai se encontrar com sua me em algum lugar? - Ele s estava um pouquinho preocupado. 
        A estao de Charlemonte parecia bastante correta e segura. Mas, ainda assim, ela era apenas uma criana e ele no queria deix-la por sua prpria conta, 
agora que j haviam sado da montanha. Monique assentiu com a cabea para ele. 
        - Mame disse que me encontrava no almoo. 
        - Acompanho voc at l dentro - disse ele, sentindo-se muito possessivo com relao a ela, e com vontade de proteg-la. 
        Era raro para ele conhecer crianas, e estava surpreso ao ver como se sentia  vontade com ela e o quanto ela lhe agradava. 
        - Obrigada - disse ela, enquanto caminhavam at o dique do restaurante e abriam caminho por entre a multido, mas ela disse a Charlie que no estava vendo 
a me em lugar nenhum. 
        - Talvez ela tenha subido de volta. Ela no come muito. 
        Ele teve vises de uma Edith Piaf moderna, minscula e delicada, embora Monique em minuto algum tivesse dito que a me era francesa, s o pai. Perguntou-lhe 
o que ela gostaria de comer, e ela pediu um cachorro-quente, um milkshake de chocolate e batatas fritas. 
        - Papai faz com que eu coma comida boa na Frana. Argh. - Ela fez uma cara feia e ele riu, enquanto comprava o almoo dela e pedia para si um hambrguer 
e uma Coca-Cola. Aps esquiar com ela a plena velocidade, no estava sequer com frio. E tinha se divertido muito. 
        Pegaram uma mesa pequena e estavam na metade do almoo quando Monique deu um gritinho, pulou e comeou a acenar para algum  distncia. E Charlie virou-se 
para ver quem ela encontrara na multido. Havia montes de gente por toda a parte, pessoas acenando, conversando, gritando, caminhando ruidosamente com suas botas 
pesadas, empolgadas com as corridas matinais e ansiosas para voltar  montanha. No sabia dizer quem ela vira e ento, subitamente, l estava ela, ao lado deles. 
Uma mulher alta e magra, numa parca bege orlada de pele, muito elegante. Estava usando calas de lycra bege e um suter da mesma cor. Tirou os culos escuros e olhou 
de cenho franzido para a garotinha. 
Charlie teve a sensao de j t-la visto em algum lugar, mas no conseguiu se lembrar onde. Talvez fosse uma modelo, ou seus caminhos tivessem se cruzado em algum 
lugar na Europa. Havia alguma coisa de muito elegante nela. 
        Estava usando um bonito chapu de pele. Mas parecia tudo menos satisfeita, olhando dele para a filha. 
        - Onde esteve? Procurei por voc em toda a parte. Disse-lhe que me encontrasse no restaurante ao meio-dia. 
        Monique pareceu ficar mais tranqila ao erguer os olhos para a me, mas o que surpreendeu Charlie foi que a mulher mostrou-se fria como gelo para com ela, 
enquanto a criana era to calorosa. Mas aquela mulher jovem e elegante estava tambm zangada, porque tinha estado preocupada, e ele no podia culp-la por completo. 
- Sinto muitssimo - desculpou-se ele. - Foi provavelmente minha culpa. Ns subimos juntos no telefrico e a descemos esquiando e demoramos muito. Comeamos a conversar. 
        Ela pareceu ainda mais enfurecida com isso. 
        - Ela  uma criana de oito anos de idade. - Lanou-lhe um olhar feroz e em algum ponto da mente dele luziu um sinal de reconhecimento, mas no fazia idia 
do que era. Ela lhe parecia to familiar mas ele continuava no imaginando por qu. 
        Mas, ao olhar para Monique, viu que ela estava a ponto de chorar. 
        - Monique - a me olhou para a menina sem que a sua raiva se apaziguasse -, quem pagou o seu almoo? 
        - Fui eu - explicou Charlie, lamentando pela menina, diante daquela invectiva da me. 
        - O que aconteceu com o dinheiro que lhe dei hoje de manh? - A mulher parecia frustrada e muito zangada ao tirar o chapu e revelar longos cabelos de um 
avermelhado escuro. E Charlie j havia notado que tinha olhos azuis profundos. 
        No se parecia nada com a filha. 
        - Eu perdi - disse Monique, enquanto duas lgrimas finalmente lhe saltavam dos olhos rasos. - Desculpe, mame... 
        Escondeu o rosto nas mos, para que Charlie no a visse chorar. 
        - Francamente, isso no  nada. - Charlie tentou apaziguar as duas. 
        Sentia-se muito mal pelos problemas que estava causando, primeiro fazendo a menina se atrasar e em seguida pagando o seu cachorro-quente. No era como se 
estivesse tentando conquist-la. Estava perfeitamente cnscio de que se tratava de uma criana. 
        Mas a expresso nos olhos da me ainda era feroz e, aps agradecer a ele furiosa, pegou Monique pelo brao e levou-a sem sequer deix-la terminar de comer. 
S de olh-las juntas, Charlie ficou furioso. No houvera motivo para fazer uma cena daquelas e constranger a criana. Ela estava certa em no deix-la andar por 
a com estranhos, mas ele, evidentemente, no parecia uma pessoa perigosa. 
        Ela poderia ter tido um pouco de bom humor e ter sido bem mais agradvel a esse respeito, mas no foi. E, enquanto terminava seu hambrguer, pensou a respeito 
delas, da menininha com quem gostara tanto de conversar e da me to zangada e paranica. e ento, subitamente, se lembrou. 
        Sabia exatamente onde a havia visto antes e quem ela era. Era aquela mulher desagradvel da sociedade histrica em Shelbume. Antipatizara com ela daquela 
vez e agora tudo se repetia. Ela parecia muito amarga e temerosa. Ento se lembrou do que Monique dissera, de que em Paris a me chorava o tempo todo. Isso o levou 
a ficar imaginando mais coisas ainda a respeito delas. 
        Do que estaria ela fugindo? O que estaria escondendo? Ou ser que era to desagradvel quanto parecia? Talvez, na verdade, no houvesse mesmo ningum em 
seu interior. 
        Ainda estava pensando nas duas quando tomou o telefrico, sozinho desta vez, e topou com Monique l no alto. Ela ainda parecia constrangida e parecia mais 
hesitante em conversar com ele desta vez. Mas tivera a esperana de encontr-lo. Detestava quando a me agia assim. Hoje em dia, ela fazia muito isso. E foi mais 
ou menos o que disse a Charlie, enquanto erguia para ele aqueles olhos enormes. 
        - Desculpe por mame ter ficado zangada com voc. Ela hoje em dia se zanga um bocado. Acho que  porque fica cansada. Ela trabalha duro de verdade. Fica 
acordada at tarde, mesmo de noite, escrevendo. - Continuava no sendo desculpa para o modo como ela havia se comportado, at a menina sabia disso, e ela lamentava 
realmente que a me tivesse sido to desagradvel com Charlie. Parecia no haver nenhum meio de consertar isso agora. 
        - Quer esquiar comigo de novo? - perguntou, triste. Parecia muito solitria e ele suspeitou, pelo modo como ela o olhava, que sentia falta do pai. Com uma 
me daquelas, no era de se espantar. E ele esperava, pelo bem da criana, que o pai fosse mais caloroso do que aquela mulher com uma lngua afiada e uma expresso 
alquebrada nos olhos. 
        - Tem certeza de que sua me no vai se incomodar? - No queria que ela pensasse que ele era algum tipo de pervertido, algum pedfilo maluco correndo atrs 
da sua garotinha. 
        Mas eles estavam a cu aberto, na montanha, no se podia concluir muita coisa errada a partir disso. E ele no teve coragem de rejeitar a criana. Ela parecia 
vida por companhia. 
        - Mame no liga para com quem eu esquio. S no posso ir l para dentro com ningum, ou para a casa das pessoas, ou para seus carros - explicou ela, sensatamente. 
- E ela ficou zangada de verdade, porque deixei voc pagar meu almoo. Ela disse que podemos cuidar de ns prprias sozinhas. - Ergueu novamente para ele olhos enormes, 
desculpando-se por sua extravagncia. - Custou muito caro? - perguntou, parecendo preocupada, e ele riu da inocncia da pergunta. 
        -  claro que no. Acho que ela s estava preocupada com voc, e por isso ficou zangada. As mes fazem isso, s vezes - disse ele, tambm sensatamente, tentando 
aliviar suas preocupaes -, e os pais tambm. s vezes, os pais tm medo de que alguma coisa ruim tenha acontecido, quando no conseguem encontrar os filhos e a 
quando encontram ficam muito nervosos. Tenho certeza que, hoje de noite, ela j vai estar bem. 
        Mas Monique no tinha tanta certeza, pois conhecia a me muito melhor do que Charlie. Sua me vinha se mostrando melanclica e infeliz h tanto tempo, que 
Monique j no conseguia mais se lembrar de uma pessoa diferente, embora achasse que a me fosse mais feliz quando ela era pequena. Mas sua vida era diferente ento, 
suas iluses ainda no haviam sido destrudas, ainda havia esperana, f e amor. 
        Agora, na vida delas, s havia amargura, raiva e um silncio infeliz. 
        - Em Paris, mame costumava chorar o tempo todo. Aqui, fica zangada. - Mas ela era uma criana sempre risonha, e Charlie no pde evitar de sentir pena dela. 
Era to injusto por parte da me descarregar sua infelicidade na filha. 
        - Acho que ela no  muito feliz. Talvez no goste muito do trabalho que faz. 
        Ele assentiu com a cabea, suspeitando com facilidade que era mais do que isso, mas no ia tentar explicar uma coisa dessas a uma menina de oito anos. 
        - Talvez ela sinta falta do seu pai. 
        - No - disse Monique, com firmeza, enquanto faziam uma curva brusca, lado a lado. - Ela diz que o odeia. 
        - Essa era boa. 
        Que atmosfera maravilhosa para uma criana crescer, pensou Charlie, ficando ainda mais aborrecido com a me. 
        - No acho que ela o odeie de verdade - continuou Monique com um ar esperanoso, mas seus olhos estavam tristes. - Talvez a gente volte, um dia - disse, 
melanclica. - Mas papai agora est com Marie-Louise. - Parecia uma situao complicada, e tudo indicava que custara um preo muito caro  criana. 
        Isso lembrou-lhe um pouco seu problema com Carole, mas pelo menos no havia filhos para serem prejudicados. E Monique parecia estar sobrevivendo, apesar 
da me. 
        -  o que sua me diz? - perguntou ele com pouco interesse, no devido a qualquer preocupao com a me, mas porque havia se afeioado  criana. - Que vocs 
vo voltar? 
        - Na verdade, no, de qualquer forma ainda no. Ela diz que agora temos de ficar aqui. - Ele sabia de destinos piores. Ficou imaginando se no morariam em 
Shelburne Falls, e durante a descida perguntou isso a ela, ao que Monique assentiu com a cabea. Ele sabia que a me dela trabalhava l, mas no sabia se moravam 
em algum lugar fora da cidade, ou em Deerfield. 
        - Como  que voc sabia? - perguntou, interessada. 
        - Porque j vi a sua me. Eu tambm moro l. Acabei de mudar para l de Nova York, no Natal. 
        - Fui uma vez a Nova York, quando voltamos de Paris. Minha av me levou a F. A. O. Schwartz. 
        -  uma grande loja de brinquedos - disse ele, com o que ela concordou entusiasticamente. 
        Ento chegaram ao final da pista e desta vez desceram juntos no telefrico. Ele havia resolvido que valia at a pena se arriscar  ira daquela me s para 
poder voltar a curtir o papo de Monique. Ele gostava dela de verdade, podia sentir um entusiasmo incontido, alm de calor e energia, naquela garotinha, apesar do 
problema que tinha com os pais. Era brilhante, cheia de vida, adorvel, obviamente passara por muito sofrimento, e no entanto nada havia nela de depressivo. Ao contrrio 
da me, que obviamente havia entrado pelo cano sem nunca conseguir sair do outro lado. Ou, se tinha conseguido, tudo que ela um dia tivesse possudo de vida, esperana 
e felicidade havia se alterado. 
        Era quase como se houvesse morrido e uma alma amarga, cansada e derrubada houvesse tomado o seu lugar. De certa forma, Charlie lamentou por ela. Monique 
iria sobreviver. A me, obviamente, no havia sobrevivido. Desta vez, durante a descida conversaram sobre a Europa. E Charlie adorou ficar falando com ela. Monique 
via tudo atravs dos olhos viosos, divertidos e sempre bem-humorados de uma criana. E ela lhe contou sobre tudo que gostava na Frana. Havia muitas coisas. Ela 
achava que um dia iria voltar, quando crescesse o suficiente para morar onde escolhesse, e iria ficar com o pai. Passava dois meses de vero com ele agora, e gostava 
muito. Eles iam durante um ms para o sul da Frana. Disse que o pai era locutor de esportes na TV, muito famoso. 
        - Voc se parece com ele? - perguntou Charlie meio ao acaso, admirando os cachos dourados macios e os grandes olhos azuis, como vinha fazendo desde que haviam 
se encontrado de manh. 
        - Mame diz que pareo. 
        Mas ele suspeitava que isso tambm deixava a me de Monique infeliz. Se ele era um campeo olmpico de esqui e locutor de desporto, e tinha uma namorada 
chamada Marie-Louise, existia sempre a possibilidade de que a me de Monique tivesse levado um pontap, ou talvez no. Mas se ela costumava chorar o tempo todo, 
isso no depunha exatamente muito bem a favor do marido. 
        E ele viu-se refletindo, durante a descida, enquanto Monique continuava falando, sobre a confuso que a maioria das pessoas fazia com as suas vidas. 
Enganando uns aos outros, mentindo, casando-se com o homem ou a mulher errados, perdendo o respeito, perdendo a esperana, perdendo o entusiasmo. 
        Parecia-lhe um milagre agora que algum conseguisse fazer a coisa funcionar e permanecesse casado. Ele com toda certeza no conseguira. Achara que era o 
homem mais feliz do mundo at descobrir que a sua esposa estava loucamente apaixonada por outro. Era to clssico que chegava a ser constrangedor, e viu-se tentando 
imaginar, novamente, o que teria acontecido entre os pais de Monique. 
        Talvez houvesse um motivo para o ar soturno que a me assumia, com os lbios em forma de corao fechados numa linha dura e firme. Talvez ela fosse uma outra 
pessoa, antes de Pierre Vironnete t-la transformado numa mulher amarga. 
        Porm, mais uma vez, havia a possibilidade de ser uma megera e ele ter ficado feliz por se livrar dela. Quem podia saber? E, no final, quem estava ligando? 
Charlie, no era. Ele s estava ligando para a criana. Monique desta vez foi ao encontro da me sem atrasos. 
        Charlie lhe perguntara se tinham algum encontro marcado e, s trs da tarde em ponto, mandou-a embora e subiu sozinho para uma ltima corrida. Mas descobriu 
que sem a criana no esquiava nem melhor, nem mais rpido, nem mais bravamente do que havia esquiado com a sua jovem amiga. Ela podia acompanh-lo com facilidade, 
e dava para ver que o pai lhe ensinara tudo muito bem. 
        E, enquanto descia a montanha, sozinho desta vez, no pde deixar de pensar na menininha que havia morado em Paris. Conhec-la quase o fizera desejar que 
ele e Carole tivessem tido filhos. 
        Isso teria complicado as coisas, e eles provavelmente estariam agora na mesma confuso, mas pelo menos alguma coisa teria resultado de seus dez anos juntos. 
Agora, s o que tinham eram algumas antiguidades, umas poucas pinturas boas e metade da loua e da roupa de cama e mesa. Parecia ter restado muito pouco para marcar 
dez anos juntos. Aps uma dcada, deviam ter conseguido mais. Charlie ainda estava matutando sobre tudo isso quando voltou ao hotel. 
        Mas, no dia seguinte, quando foi esquiar de novo, no viu Monique, nem a me, e ficou imaginando se teriam ido embora. No lhe perguntara se estavam planejando 
ficar, e calculou que no tinham ficado. Esquiou sozinho durante os dois dias seguintes e, embora tenha visto algumas mulheres bonitas aqui e ali, nenhuma delas 
parecia valer a pena. 
        Hoje em dia, sentia-se como se no tivesse nada a dizer, nada a oferecer a ningum, nenhuma ajuda, nenhum apoio, nenhum caso divertido para contar. Sua fonte 
havia secado. A nica pessoa que o havia tirado do casulo com algum sucesso fora uma menina de oito anos. Era um testemunho lamentvel do seu psiquismo e de sua 
perspectiva da vida. 
        E ele ficou surpreso quando, no dia da vspera de Ano Novo, voltou a topar com Monique. 
        - Onde voc esteve? - perguntou, encantado, quando se encontraram, colocando os esquis na base da montanha. 
        Notou que a me dela no estava  vista em parte alguma. Mais uma vez ficou se perguntando sobre algum que se mostrava to preocupada com relao a quem 
havia comprado um cachorro-quente com batatas fritas para a criana, mas que a deixava esquiar sozinha. Ela com toda a certeza no andava muito com Monique. Mas 
sabia que, em Charlemont, Monique estava segura. Elas tinham ido para l quase que todos os fins de semana, durante o ltimo ano, desde que se mudaram para a cidade. 
E, apesar do sabor amargo que Pierre havia lanado sobre praticamente tudo que haviam feito na Frana, esquiar ainda era importante para elas, embora a me descesse 
ladeiras mais suaves do que Monique. 
        - Voltamos porque a mame tinha de trabalhar - explicou ela a Charlie, enquanto sorria radiante para ele. Era como um encontro de velhos amigos. 
        - Mas vamos ficar aqui esta noite, voltando para a casa amanh. 
        - E eu tambm. - Ele j estava l h trs dias e s iria voltar na noite do dia primeiro. 
        -Vai ficar acordada esta noite, para o revellion? 
        - Provavelmente - disse ela. - Papai me deixa beber champanhe. Mame diz que isso vai destruir o meu crebro. 
        -  possvel - disse ele com um ar divertido, pensando em todo o champanhe que havia tomado nos ltimos trinta anos, embora fosse discutvel o efeito que 
isso fizera. -Acho que uns poucos goles no vo lhe fazer mal. 
- Mame no me deixa tomar nem isso. - E ento, numa nota mais alegre: - Fomos ao cinema ontem. Foi muito legal. 
        Ela parecia satisfeita e seguiu  frente dele por algum tempo. E, desta vez, ao meio-dia em ponto, mandou-a descer para encontrar a me. Mas voltaram a se 
encontrar naquela tarde, e Monique trouxe um amigo. Era um menino que conhecia da escola. Ele gostava de se exibir nas ladeiras, fazendo manobras e piruetas, observou 
Charlie, mas Monique sussurrou-lhe, com um ar srio, que Tommy era um pssimo esquiador. E Charlie sorriu quando as crianas saram voando  frente dele. Charlie 
mostrou-se um pouco mais cauteloso do que eles na descida e, ao final do dia, estava cansado. 
        Monique a essa altura j deixara as colinas e ele surpreendeu-se ao topar com elas em seu hotel, naquela noite, aps o jantar. Estavam sentadas no salo 
amplo do chal, e Francesca esticara as pernas compridas na frente do fogo. Quando ela disse algo a Monique, Charlie conseguiu v-la sorrir. E detestou ter de admitir, 
mas ela parecia linda. 
        Era uma mulher bonita, apesar da expresso glida e lamentosa nos olhos. Hesitou a princpio, mas finalmente resolveu ir at l e dizer-lhes al. Havia passado 
tanto tempo com Monique, a essa altura, que achava grosseria no cumprimentar a me. 
        Ela estava usando o cabelo num longo rabo de cavalo e, quando ele se aproximou no pde deixar de notar os olhos amendoados enormes e a cor fulva intensa 
profunda de seus cabelos,  luz do fogo. Havia nela algo de misterioso e extico quando sorria. Mas, no momento em que o reconheceu, tudo se fechou novamente, feito 
persianas de janela. Charlie nunca vira nada igual. Ela estava obviamente determinada a se esconder. 
        - Al, novamente - disse ele, tentando parecer mais descontrado do que se sentia. Ele j no era mais bom nisso. E nem queria ser. Sentiu-se feito um tolo, 
parado ali, de p, com Francesca lanando-lhe um olhar iracundo. 
        - Uma neve tima hoje, no foi mesmo? - disse casualmente e a viu assentir com a cabea. 
        Os olhos ergueram-se um pouco trmulos para ele, uma vez, voltando logo em seguida a fitar o fogo, sem interesse. Mas ela se forou finalmente a olh-lo 
e a responder  pergunta. 
        - Foi uma neve formidvel - concordou ela, mas ele notou que parecia causar-lhe uma dor considervel o simples ato de falar com ele. - Monique me disse que 
voltou a v-lo - acrescentou, parecendo quase expansiva, mas ele no queria que essa mulher achasse qualquer coisa de clandestino em seu trato com a criana. Eram 
apenas companheiros de esqui e ela estava obviamente vida por companhia masculina, pois sentia muita falta do pai. - Voc foi muito gentil com ela - disse baixinho 
Francesca Vironnet, enquanto Monique foi conversar com outra criana, mas no o convidou a sentar-se a seu lado. - Tem filhos? - Ela presumia que ele tivesse. 
        Monique no lhe contara muita coisa sobre suas conversas. E particularmente no lhe contara que havia falado a Charlie sobre o pai. 
        - No, no tenho filhos - explicou Charlie. - Gosto dela - acrescentou, fazendo elogios profusos a Monique. 
        Mas no pde deixar de notar mais uma vez como a mulher era retrada. Parecia um animal ferido, no fundo de um buraco. S o que dava para ver eram os olhos 
rebrilhando, na escurido,  luz do fogo. 
        No estava bem certo do motivo, mas mesmo que fosse apenas por curiosidade, gostaria de traz-los para fora. Esse era o tipo de desafio que ele havia adorado 
anos antes, mas que aprendera a evitar, mesmo antes de estar casado. O mais freqente era que desafios como esses no valessem a pena o sofrimento, ou o tempo. E 
no entanto, alguma coisa nos olhos dela sussurravam intensamente a sua dor. 
        -  muita sorte sua ter a Monique - disse ele baixinho, e desta vez ela o fitou bem no fundo dos olhos e, finalmente, ele viu um pequenino bruxuleio de alguma 
coisa calorosa por trs da geleira em que ela se escondia. 
        - Sim, tenho sorte. - admitiu ela, mas sua voz no parecia querer dizer exatamente o que as palavras transmitiam. 
        - E  tambm uma grande esquiadora - ele sorriu. - Ela me ultrapassou inmeras vezes. 
        - Ela me ultrapassa tambm. - Francesca quase riu, mas controlou-se. No queria conhecer este homem. -  por isso que a deixo esquiar sozinha. Ela  rpida 
demais para mim. No consigo acompanh-la. 
        Ela sorriu para ele e pareceu quase bonita, mas no exatamente, Teria sido necessrio muito mais fogo para fazer a diferena. 
        - Ela me contou que aprendeu a esquiar na Frana - disse ele, muito casualmente, e com essas palavras ele viu tudo no rosto de Francesca se trancar por completo. 
Era como observar a porta de um cofre que se fechava eletronicamente. 
        Trancada, travada, hermeticamente fechada, e nada menos que dinamite a poderia abrir antes da hora marcada. Ele obviamente havia recordado de algo em que 
ela no conseguia pensar. E ela havia travado a porta e corrido para longe, bem longe dele. Ainda estava com um ar de pasma agonia quando Monique voltou, ao que 
Francesca levantou-se e disse-lhe que estava na hora de ir dormir. 
        Monique pareceu arrasada. Estava se divertindo muito. Queria ficar acordada at  meia-noite. E Charlie sabia que, em parte, essa sada era sua culpa. Francesca 
agora precisava fugir dele, ficar em segurana, e tinha de levar a filha consigo. Teve vontade de dizer-lhe que no lhe desejava mal algum, que tinha suas prprias 
feridas. Ele no era ameaa a ningum. 
        Os dois eram como animais feridos, bebendo no mesmo riacho, no havia nenhuma necessidade de maltratarem um ao outro, no novamente, nem de fugir, nem de 
se esconder. Mas no havia como dizer a ela aquilo que ele sentia. No queria absolutamente nada dela, nem amizade, nem intimidade, no queria arrancar nada dela. 
Estava apenas parado, tranqilo, em seu caminho. 
        Mas mesmo esta plida ameaa, esta sugesto de uma presena humana em sua vida, mesmo por uns poucos momentos, era demais para ela. Ficou se perguntando 
sobre o que estaria escrevendo, mas no ousou perguntar-lhe isso. Tentou fazer um ltimo apelo em favor da jovem amiga. 
        - Est meio cedo demais para subir, na vspera de Ano-Novo, no acha? Que tal um refrigerante para Monique e um copo de vinho para ns? 
        Mas isso era ainda mais ameaador, e Francesca sacudiu a cabea, agradeceu-lhe e, em dois minutos, ambas j haviam sumido e ele lamentou quando elas se foram. 
Mas nunca havia conhecido uma mulher to gravemente machucada quanto ela e no conseguia imaginar o que o locutor esportivo fizera para deix-la to ferida. O que 
quer que fosse, Charlie suspeitava que devia ter sido bem feio. Ou pelo menos ela achava que tinha sido, o que bastava. 
        Mas apesar da armadura que ela usava com tanta eficcia, ele pressentia agora que em algum ponto, l no seu interior, ela era provavelmente uma pessoa decente. 
Ele foi para o bar e l ficou at s dez e meia, quando finalmente subiu para seu quarto. No fazia sentido ficar l embaixo, olhando todo mundo rir, gritar e se 
embebedar. Como Gladys Palmer, a vspera de Ano-Novo era uma noite que ele nunca apreciara especialmente. E,  meia-noite, quando as cornetas soaram, os sinos tocaram 
e os casais se beijaram, prometendo que naquele ano tudo seria diferente, Charlie estava em sono profundo em sua cama, trancado no quarto. 
        Acordou cedo e bem-disposto na manh seguinte, e viu que estava nevando, com fraqussima visibilidade. Um vento forte havia chegado, estava fazendo muito 
frio e ele resolveu voltar. 
        Charlemonte ficava to perto de onde ele estava que podia retornar a qualquer momento que quisesse, no precisava esquiar com tempo ruim nem se forar a 
ficar, quando preferia estar em casa fazendo suas coisas. Trs dias esquiando haviam sido suficientes para ele. Deixou o hotel s dez e meia e, em vinte minutos, 
estava de volta ao seu chteau. A neve voltava a se acumular em montes, e havia um silncio intenso cobrindo tudo. Ele adorava ficar olhando aquilo, e permaneceu 
sentado durante horas em seu pequeno gabinete, que havia sido o boudoir de Sarah, lendo e erguendo os olhos de tempos em tempos para ver a neve que caa l fora. 
        Pensou na menininha que havia conhecido em Charlemonte e em sua vida com aquela me que era ao mesmo tempo zangada e to triste. Gostaria de voltar a ver 
a criana, mas estava bvio que ele e a me no se destinavam a ser amigos ntimos. E, ao pensar nela, lembrou-se dos dois livros que deveria devolver  sociedade 
histrica. Emprestara um deles a Gladys Palmer e, como queria mesmo v-la, tomou uma nota mental para passar na casa dela no dia seguinte e peg-lo. 
Podia devolver os dois livros  sociedade histrica depois de v-la. 
        Mas, enquanto pensava nelas, ouviu um estranho barulho, como se fossem ps se arrastando, no sto sobre sua cabea e, contra a prpria vontade, levantou-se 
de um salto, e ento riu. Sentiu-se extremamente tolo. Afinal, numa casa com uma histria daquelas, tudo era atribudo ao sobrenatural. Nunca ocorrera a ningum 
que poderia perfeitamente haver algum tipo de esquilo no sto, ou mesmo um rato. 
        Decidiu no dar ateno quilo, mas enquanto lia alguns dos novos peridicos arquitetnicos que havia comprado, voltou a ouvir o mesmo som. Parecia um animal 
arrastando alguma coisa e, em certos momentos, soava quase como se fosse um ser humano. Ento, houve um som semelhante ao de alguma coisa sendo roda, o que lhe 
transmitiu exatamente a sensao que sentira antes. Era um roedor. 
        Ao menos dessa vez, nem sequer comeara a suspeitar que fosse o fantasma de Sarah, aps o que Gladys dissera a respeito de s t-la visto uma vez na vida, 
e estava certo de que a viso no voltaria pela segunda vez. Ainda no conseguia explicar-se exatamente o que tinha sido aquilo, mas fosse o que fosse, j tinha 
ido embora e a casa estava vazia. Exceto pelo rato no sto. 
        Ficou incomodado com aquilo a tarde inteira e, ao crepsculo, como a neve ainda caa, puxou a escada e resolveu subir para examinar a coisa. Se fosse um 
rato, no queria que a fiao fosse destruda. A casa j era suficientemente velha sem precisar de roedores para devorar o que havia restado e provocar um incndio. 
        Prometera repetidamente a Gladys que seria cuidadoso quanto a isso. 
        Mas, quando abriu a porta do alapo que levava ao sto e ergueu-se para seu interior, encontrou tudo silencioso e nenhum sinal de algo faltando. Sabia 
que no havia imaginado os barulhos e esperava que os roedores no houvessem descoberto um meio de se enfiar entre as paredes. Mas tinha certeza de que os sons que 
ouvira haviam ocorrido diretamente sobre ele. Trouxera uma lanterna e olhara em toda a parte. 
        Havia todas as mesmas caixas que vira antes, os uniformes, os brinquedos, um velho espelho apoiado contra uma parede, mas a, na outra extremidade, avistou 
algo que no vira em sua primeira expedio. Era um velho bero, entalhado  mo, e ele passou gentilmente a mo sobre ele, imaginando se teria pertencido a Gladys 
ou a Sarah, mas em qualquer dos casos havia nele agora uma tristeza, um vazio que o comoveu. Os bebs da vida de ambas haviam ido embora e, pior do que isso, estavam 
agora todos mortos. Afastou-se dele e da sensao ao mesmo tempo doce e amarga que ele lhe trazia e lanou um facho de luz nos cantos mais distantes, s para ter 
certeza de que nenhuma criaturinha peluda havia construdo um ninho ali. Sabia que alguns tipos de esquilos faziam isso, s vezes. 
        Ele poderia at ter vivido ali por um longo tempo e, enquanto caminhava lentamente de volta  escada, notou uma pequena alcova embaixo de uma das grandes 
janelas redondas, e enfiado nela havia um velho ba surrado. No acreditava t-lo visto ali antes, embora pelo seu aspecto e pela nuvem de poeira que se levantou 
quando o tocou, era bvio que estava l desde sempre. 
        Teria sido fcil no not-lo; sua cobertura de couro desgastado parecia se misturar com a parede. E Charlie tentou abri-lo, descobriu que estava trancado. 
O fato de no poder ver o que havia dentro o deixou muito curioso. No havia marcas de identificao no ba, nenhuma inicial, nenhum nome, nenhum braso. 
        Como ambas as pessoas que viveram naquela casa antes dele haviam sido europias e portadoras de ttulos de nobreza, ele no se surpreenderia de ver um braso 
em algum ponto do ba, mas no viu. E, enquanto mexia de leve na fechadura, um pouco daquele couro muito antigo se desprendeu em pequenas escamas. Essa cobertura 
parecia extremamente frgil, mas o ba em si mesmo, no. 
        E, quando Charlie tentou ergu-lo, dava a impresso de estar cheio de pedras. Mas era pequeno o suficiente para ser carregado com apenas algum esforo, e 
Charlie conseguiu traz-lo at  escada, deixando-se ento descer lentamente, equilibrando-o sobre o ombro, tomando muito cuidado para no deix-lo cair. 
        Quando chegou novamente ao corredor do andar de baixo, o ba foi ao cho com uma pancada. E, depois que ele puxou a porta do sto, convencido de que no 
havia nenhum roedor visvel l em cima, carregou o ba at a cozinha e pegou algumas ferramentas para tentar abrir a fechadura. Sentia-se um pouco esquisito, imaginando 
se Gladys Palmer teria escondido algum pequeno tesouro pessoal ali, ou alguns documentos que ela no queria que ningum visse. Quase telefonou-lhe, antes de comear 
a tentar for-lo. Parecia uma espcie de violao, mas, ao mesmo tempo, o ba dava a impresso de ser muito velho, e algo nele o hipnotizava. No conseguiu interromper 
o que estava fazendo. No podia deixar aquilo de lado e, cedendo a seu esforo, a fechadura subitamente soltou-se e caiu. O couro era seco e frgil, havia nele taches 
de lato e era fcil acreditar que aquilo estava ali h tanto tempo quanto a casa. 
        E, quando Charlie tocou a tampa, sentiu-se estranhamente sem flego. No fazia idia do que esperava encontrar: dinheiro, jias, tesouro, documentos, mapas, 
um crnio, alguma bugiganga ou algum trofu, horrvel ou maravilhoso, de um outro sculo, mas seu corao batia forte quando ergueu a tampa, e quase acreditou ter 
ouvido um farfalhar ao seu lado quando o fez. Riu no silncio da velha cozinha, sabendo que havia imaginado aquilo. Tratava-se apenas de uma coisa, um objeto, uma 
caixa antiga, e, quando ela se abriu, sentiu-se tomado por uma pequena onda de decepo. Estava cheio de pequenos livros encadernados em couro, pareciam quase livros 
de orao ou hinrios. 
        Estavam cuidadosamente atados e tinham longos marcadores de seda. Havia mais de uma dzia, e eram todos iguais. Suspeitava que o couro devesse ter sido um 
dia vermelho, mas agora era de um castanho opaco, desbotado. Pegou um dos livros, abriu, imaginando se no teriam vindo de alguma igreja, ou de algum lugar, ou a 
quem teriam pertencido. No havia marcas neles, nem ttulos, mas tinham o ar de algo reverente, e ento, ao olhar o que havia dentro, para a primeirssima pgina, 
sentiu um calafrio ao ver o nome dela em sua prpria caligrafia. As letras eram pequenas, elegantes e ntidas. A tinta j secara sobre a pgina h mais de duzentos 
anos e, no canto, ela escrevera: "Sarah Ferguson, 1789". 
        S de ver o que ela havia escrito e de ver o seu nome ele ficou cheio de ansiedade. h quanto tempo tinha sido... como ela tinha sido? Se fechasse os olhos, 
conseguiria imagin-la, sentada ali mesmo, escrevendo. E, com a mais profunda delicadeza e precauo, temeroso que ele se desintegrasse ao seu mero toque, virou 
a pgina seguinte, e ento entendeu o que tinha em mos. Aquilo no era nenhum hinrio. Eram dirios. Os dirios de Sarah. 
        Seus olhos se arregalaram quando comeou a ler. Era como uma carta dela para todos eles. Ela estava lhes contando o que lhe acontecera, onde estivera, quem 
a havia visto, o que lhe havia sido caro, como conhecera Franois. como chegara at ali, e vinda de onde. E, quando Charlie comeou a ler as palavras que haviam 
sobrevivido por dois sculos, uma lgrima rolou pelo seu rosto e tombou sobre sua mo. Mal conseguia acreditar na sorte, e sentiu um tremor de empolgao percorrer 
seu corpo quando comeou a ler.

CAPTULO 7

        SARAH FERGUSON ESTAVA em p junto  janela, olhando a charneca ao longe, como vinha fazendo durante os ltimos dois dias. Embora fosse agosto, a nvoa pairava 
baixa desde a manh, o cu estava escuro e era fcil perceber que no demoraria muito a cair uma tempestade. Tudo em torno tinha um ar sombrio, soturno, mas muito 
adequado ao modo como ela se sentia, enquanto esperava. 
        Seu marido, Edward, conde de Balfour, estava ausente h quatro dias. Ele dissera que ia sair para caar quatro dias antes, e levara consigo cinco dos seus 
criados. Tinha dito a Sarah que ia encontrar amigos. E ela nunca fazia perguntas. No era tola. 
        Ela dissera aos homens que o buscavam que fossem procurar por ele na taverna, ou na cidadezinha prxima, ou mesmo entre as criadas em suas fazendas, ou em 
suas propriedades. Conhecia bem Edward, conhecia-o h muito tempo. Conhecia sua crueldade, sua infidelidade, sabia como ele era rude, como sua lngua era impiedosa, 
e conhecia a violncia das costas de sua mo. Ela falhara com ele, gravemente, e com freqncia. O sexto filho que ela lhe gerara, morto ao nascer, desta vez, havia 
sido enterrado apenas trs meses antes. 
        A nica coisa que Edward sempre quisera dela fora um herdeiro e, aps anos com ela, ele ainda no tinha nenhum. Todos os filhos que ela gerara haviam sido 
abortados ou natimortos, ou tinham morrido horas depois de nascer. Sua prpria me morrera de parto, da segunda filha, e Sarah vivera sozinha com o pai desde menininha. 
        Ele j era velho quando Sarah nasceu e, com a morte da me de Sarah, nunca voltou a se casar. Sarah tinha sido muito bonita, muito engraadinha, uma alegria 
enorme para ele, que a adorava. Ao ficar mais velho e tornar-se cada vez mais frgil, Sarah cuidara dele com devoo e o mantivera vivo por muitos anos alm daquilo 
que ele poderia ter vivido sem ela. E, quando ela estava com quinze anos, ficara bvio at para ele prprio que no poderia durar muito mais. Sabia que no tinha 
mais escolha, no poderia atrasar uma deciso que tinha de ser tomada. Precisava encontrar-lhe um marido, antes de morrer. 
        Havia inmeras possibilidades no prprio condado, um duque, um conde, um visconde, alguns deles homens importantes. Mas Balfour foi o que se mostrou mais 
ansioso, o que a queria mais desesperadamente e aquele cujas terras eram adjacentes s do pai dela. 
Isso formaria uma propriedade notvel, ele destacara o fato ao pai de Sarah, uma das maiores e mais importantes da Inglaterra. O pai de Sarah acrescentara lotes 
enormes de terra s suas prprias, ao longo dos anos, e ela com isso tinha um dote digno de um monarca. No final, foi Balfour quem levou a palma. Ele era astuto 
demais, seu interesse forte demais e seus argumentos convincentes demais para ser ignorados. 
        Houvera um outro homem, mais jovem, que ela preferia a ele, mas Edward havia garantido ao pai dela que, tendo vivido com um velho durante tanto tempo, ela 
jamais seria feliz com um menino muito prximo de sua prpria idade. Precisava de algum mais parecido com o pai. E Sarah conhecia muito pouco de Edward, no o suficiente 
para pedir piedade, para suplicar que fosse poupada. Foi negociada por terras e tornou-se a condessa de Balfour aos dezesseis anos. As bodas foram discretas, a propriedade 
imensa e as penalidades infinitas. Seu pai morreu cinco semanas depois do casamento. Depois disso, Edward batia nela regularmente, at que Sarah ficou grvida. 
        A partir de ento, ele s a ameaava e tratava mal, esbofeteando-a sempre que lhe dava vontade e dizendo que a mataria se no conseguisse proporcionar-lhe 
um herdeiro. A maior parte do tempo, estava longe de casa, viajando por suas propriedades, caindo bbado pelas tavernas, correndo atrs das criadas ou hospedado 
na casa de amigos, por toda a Inglaterra. Era sempre um dia sombrio quando ele voltava. Porm, o mais sombrio de todos foi quando seu primeiro filho morreu horas 
depois do nascimento. 
        Havia sido o nico raio de esperana em sua vida. Edward ficou bem menos desolado do que ela, pois era apenas uma menina. Os trs seguintes haviam sido filhos, 
dois natimortos, um nascido prematuro demais, e os dois ltimos meninas novamente. Ela segurara a ltima junto a seu peito durante horas, sem vida, envolta em faixas, 
tal como havia preparado todos os outros. 
        Ficara meio fora de si, de tanto sofrimento e dor, e tiveram de arrancar-lhe o beb para poder enterr-lo. Edward, desde ento, mal lhe dirigia a palavra. 
Embora Edward tivesse o cuidado de esconder a sua crueldade para com ela, Sarah sabia, como todas as pessoas do condado, que ele tinha inmeros bastardos, sete deles 
filhos, mas no era a mesma coisa. 
        Ele j a havia prevenido: se ela no lhe desse um herdeiro, ele acabaria por reconhecer um deles, qualquer coisa, menos passar o ttulo e suas propriedades 
para o irmo, Haversham, a quem odiava. 
        - No vou lhe deixar nada - lanara-lhe ele ao rosto. - Mato-a, antes de permitir-lhe viver na face da Terra sem mim, caso no me d um herdeiro. 
        Aos 24 anos, estava casada com ele fazia oito, e uma parte dela j havia sido morta por ele h muito tempo atrs. 
        Havia uma expresso apagada em seus olhos que ela prpria s vezes via no espelho. E, particularmente desde que a ltima criana morrera, Sarah j no ligava 
mais se iria viver ou morrer. Seu pai teria dado cambalhotas no tmulo se soubesse do destino ao qual a havia condenado. Ela no tinha vida, no tinha esperana, 
no tinha sonhos. 
        Era surrada, maltratada, detestada, desprezada por um homem a quem tinha horror e com o qual fora forada a dormir durante os ltimos oito anos, tentando 
constantemente dar-lhe filhos, acima de tudo um herdeiro. 
        Aos 54 anos de idade, ele ainda era um homem bonito, tinha uma boa figura aristocrtica, e as jovens das fazendas e das tavernas, que no sabiam como ele 
era, ainda o achavam bonito e charmoso, mas em pouco tempo seriam usadas, postas de lado e pisadas por ele, e se mais tarde da surgisse uma criana, Edward no 
tinha qualquer interesse pela menina ou menino. No ligava para nada, era alimentado pelo cime e dio de seu irmo caula e pela ambio que o levava a devorar 
cada pedao de terra sobre o qual conseguisse deitar as mos, incluindo as terras do pai dela, que se tornaram suas quando o velho morreu. 
Edward h muito tempo que tinha gastado todo o dinheiro dela, vendido a maioria das jias de sua me e tomado at aquilo que o pai lhe havia deixado. 
        Edward a usara em todos os sentidos possveis, e o que quer que tivesse sobrado no era de interesse para ele. 
        Ainda assim, mesmo agora, aps tantas decepes, tantas tragdias em sua jovem vida, tudo que ele queria dela era um herdeiro, e ela sabia que no final, 
com ou sem criana, ele a mataria na tentativa. Ela j nem ligava mais. S esperava que o fim chegasse logo. Algum acidente, algum ato traioeiro, alguma surra impiedosa, 
um beb em seu ventre, que nunca viesse a nascer e com o qual ela pudesse mergulhar em um outro mundo. No queria nada dele, somente a morte e a liberdade que da 
adviria. 
        E agora, enquanto esperava que ele voltasse, tinha certeza de que chegaria montado em seu cavalo manhoso, recm-vindo de alguma aventura infame. No conseguia 
imaginar nada acontecendo com ele. Tinha a certeza de que estava cado, bbado, em algum lugar, com uma vagabunda nos braos. E em algum momento ele acabaria voltando 
para casa, a fim de maltrat-la. 
        Dava graas a Deus pela ausncia dele, embora desta vez todos estivessem preocupados, exceto Sarah - sabia que ele era ruim demais para morrer, ardiloso 
demais para desaparecer por muito tempo. Saiu finalmente da janela e tornou a olhar para o relgio sobre a lareira. Tinha acabado de dar quatro horas. 
        Ficou imaginando se no deveria mandar chamar Haversham, se deveria pedir-lhe que fosse procurar por Edward. 
        Ele era meio-irmo de Edward, e teria vindo, se ela pedisse. Mas parecia tolice preocup-lo, e se Edward o encontrasse l quando voltasse, ficaria lvido 
e iria descontar nela. Resolveu esperar mais um dia, antes de chamar Haversham. Voltou caminhando lentamente para o seu quarto e vestido amplo de cetim verde reluzindo 
como uma jia, com um corpete de veludo verde-escuro que modelava sua figura esguia to justo que ela parecia novamente uma garotinha. E o tecido difano, de um 
tom cremoso, da sua blusa, por baixo do vestido, parecia quase da mesma cor da pele. 
        Ela tinha algo de muito delicado e de enganosamente frgil em sua figura, porm era mais resistente do que parecia, ou no teria sobrevivido s surras. O 
marfim de sua pele formava um marcante contraste com os cabelos negros lustrosos. Usava-os numa trana longa enrolada vrias vezes para formar um coque grande sobre 
a nuca. 
        Sarah sempre fora elegante, sem se preocupar com os ditames da moda. Havia uma dignidade clssica em seu porte que desmentia o desespero dos olhos. Sempre 
tinha uma palavra gentil para os criados, sempre ia at as fazendas para ajud-los com os filhos doentes e levar-lhes alimentos. Estava sempre presente para ajud-los. 
        Tinha uma paixo profunda por literatura e arte, tendo viajado com o pai, quando menina,  Itlia e  Frana, mas desde ento no fora mais a lugar nenhum. 
Edward a mantinha trancada e a tratava como uma pea da moblia. Sua beleza excepcional era algo que ele nem notava mais, para ele no tinha qualquer conseqncia. 
Tratava seus cavalos melhor do que a Sarah. 
        Foi Haversham quem sempre a notou, sempre se interessou por ela, que sempre viu a tristeza em seus olhos e ficava angustiado sempre que sabia que ela estava 
sofrendo. Durante anos ficou consternado pelo modo como o irmo a tratava, mas havia muito pouco que ele pudesse fazer para tornar a vida de Sarah menos infernal 
do que j era nas mos de Edward. 
        Tinha 21 anos quando o irmo se casou com ela, e, quando Sarah ficou grvida do primeiro filho, Haversham j lhe dedicava um profundo amor. Levou mais dois 
anos para dizer-lhe, mas quando o fez ela ficou aterrorizada com o que aconteceria se retribusse seus sentimentos. Edward mataria a ambos. Obrigou Haversham a jurar 
que jamais voltaria a falar disso. No entanto, no havia como negar o que ambos sentiam. H anos que ela tambm estava apaixonada por ele. 
        Mas guardava isso em segredo. No lhe diria nunca, jamais, pois faz-lo teria sido colocar em risco a vida dele, o que agora parecia-lhe muito mais importante 
do que a sua prpria. Ambos sabiam que nunca haveria qualquer esperana de ficarem juntos. E, quatro anos antes, ele finalmente se casara com uma de suas primas, 
uma menina boba mas bem-intencionada, de dezessete anos, chamada Alice. 
        Ela crescera na Cornualha e era, em vrios sentidos, simples demais para seu marido; mas economicamente era um bom casamento, as famlias haviam ficado satisfeitas, 
e nesses quatro anos ela lhe dera quatro menininhas adorveis. Mas, alm do prprio Haversham, continuava no havendo herdeiro, e as filhas de Haversham no resolviam 
o problema, uma vez que mulheres no podiam herdar nem terras nem ttulos. 
        Quando a luz comeou a morrer e Sarah silenciosamente acendeu as velas, ouviu uma agitao no ptio. 
        Fechou os olhos, tremendo, rezando para que ele ainda no tivesse voltado. Por mais que soubesse como era ruim pensar nisso, sua vida seria para sempre abenoada 
se de fato alguma coisa lhe houvesse acontecido e ele jamais retornasse. No conseguia suportar a idia de passar o resto da vida ao lado dele. Por mais curta que 
fosse essa vida, seria muito, muito longa ao lado de Edward. 
        Pousando a vela, foi rapidamente at  janela e ento viu a cena: o cavalo dele, sem cavaleiro, chegava precedido de seis de seus homens. E, atrs dele, 
viu o seu corpo deitado sobre a prpria capa, numa carroa de fazenda. Dava a impresso de estar morto. 
Seu corao bateu como o de um pssaro assustado, enquanto ela esperava. Se estivesse morto, eles se mostrariam solenes, e algum viria dizer-lhe. Porm, mal entraram 
no ptio e j estavam correndo e gritando, pedindo ajuda. Mandaram algum ir buscar o mdico e quatro dos criados o puseram sobre uma prancha e comearam a transport-lo 
para dentro de casa. 
        Ela no fazia idia do que lhe havia acontecido, mas sentiu o corao afundar no peito ao perceber que ainda estava vivo e que tinham a esperana de salv-lo. 
        - Deus me perdoe. - sussurrou, quando uma porta abriu-se estrepitosamente no outro extremo do enorme salo onde ela se encontrava e seus homens trouxeram-no 
para dentro. Ele dava a impresso de morto, mas ela sabia que no estava. 
        -  sua senhoria, ele sofreu uma queda - disseram com vozes carregadas de urgncia, mas Edward no se movia. 
        Ela fez um gesto para que a seguissem at o andar de cima, ao quarto dele, e ficou observando silenciosa enquanto o colocavam na cama. Ainda usava as roupas 
que trajava ao partir e ela viu que sua camisa estava rasgada e suja. Tinha o rosto cinzento e a barba cheia de palha. Ele iniciara a viagem com uma mulher, numa 
fazenda prxima, e enviara seus homens  frente, at uma taverna, para que o aguardassem. E pacientemente eles esperaram l, durante trs dias. 
        No era incomum que ele passasse tanto tempo na farra, e enquanto esperavam, apenas riam e faziam piadas, alm de beber gales de cerveja e usque. Ento, 
foram finalmente procur-lo, s para descobrir, quando ele no apareceu, que havia deixado a mulher na fazenda trs dias antes. Chamaram o xerife do condado e comearam 
a procurar por ele, e foi somente naquela manh que o encontraram. Edward cara do cavalo e jazera em delrio durante dias. 
        A princpio, acharam que tinha quebrado o pescoo, mas no. Ele s recobrara os sentidos uma vez, por um instante, no caminho de volta, tombando de novo 
inconsciente, e agora, deitado, parecia morto. A Sarah disseram apenas que ele sofrera uma queda feia e, suspeitavam, batera muito forte com a cabea. 
        - Quando foi que isso aconteceu? - perguntou ela baixinho, e no acreditou quando lhe disseram que havia sido naquela manh. 
        Ele estava todo sujo de sangue e vmito coagulados, parecendo de vrios dias. Mal sabia o que dizer ao mdico quando este chegou, mas os homens o chamaram 
 parte e disseram-lhe em voz baixa o que acontecera. O mdico estava familiarizado com essas coisas. A esposa de sua senhoria no precisava saber onde ele estivera 
nem o que andara fazendo. 
        O que ele precisava agora era de uma sangria, alm de algumas ventosas, e teriam de esperar pelo resultado. Era um homem saudvel, cheio de vitalidade, de 
forte constituio, e mesmo em sua idade o mdico achava possvel, embora no fosse certo, que pudesse sobreviver ao acidente. 
        Sarah ficou zelosamente ao lado dele enquanto o sangravam, mas em momento nenhum ele se mexeu. O que ela mais detestava eram as ventosas, e quando o mdico 
finalmente foi embora, ela deixou o quarto parecendo quase to mal quanto o marido. Foi at  sua mesa e escreveu um bilhete a Haversham. 
        Ele precisava saber o que havia acontecido, e se houvesse algum perigo de que Edward morresse durante a noite, deveria estar presente. Selou a missiva e 
enviou-a por um de seus portadores. 
        Era uma hora a cavalo at onde Haversham morava e ela sabia que ele viria de imediato, naquela mesma noite. Voltou ento para sentar-se  cabeceira de Edward. 
Ficou em silncio na poltrona, olhando para ele, tentando compreender o que estava sentindo. No era nem raiva, nem dio, era indiferena, medo e desprezo. Agora, 
no conseguia sequer se lembrar da poca em que o havia amado. 
        Tinha sido to breve, to baseado em mentiras e h tanto tempo, a ponto de ter sumido quase por completo de sua mente. 
        No sentia absolutamente nada por ele. E havia uma parte dela que ficou ali, sentada, naquela noite, silenciosa, forte, tenaz, sem censuras, rezando para 
que ele morresse antes do amanhecer. Houve horas em que achou que no poderia mais viver com ele um nico momento. No conseguia suportar a idia de sobreviver a 
seu toque, ou de permitir que ele a segurasse. Preferia morrer a gerar-lhe mais filhos, mas mesmo assim sabia que, se ele vivesse, era s uma questo de tempo at 
que voltasse a peg-la e a forasse. 
        Margaret, sua empregada pessoal, veio procur-la logo antes da meia-noite para perguntar se havia alguma coisa que pudesse trazer-lhe. Era uma jovem muito 
meiga, com a mesma idade que Sarah tinha quando chegou a Balfour, apenas dezesseis anos. E Sarah ficou surpresa ao descobrir que ainda estava acordada e mandou-a 
para a cama. Margarete tinha uma devoo apaixonada por ela, estivera a seu lado quando o ltimo beb morrera, e achava que Sarah era a mulher mais extraordinria 
que j conhecera. Faria qualquer coisa que ela lhe pedisse. 
        Haversham s chegou s duas da manh. Sua esposa estava doente, tendo contrado sarampo de duas das meninas, e estava mal, tal como as filhas, todas cheias 
de manchas, com coceiras insuportveis e tossindo. Ele detestara ter de deix-las, mas quando recebeu o bilhete de Sarah, entendeu que precisava vir. 
        - Como est ele? - Era to alto, moreno e bonito quanto Edward tinha sido na juventude. Haversham estava com apenas 29 anos e Sarah sentiu seu corao palpitar, 
como sempre fazia, quando ele atravessou o aposento, pegou-lhe as mos e segurou-as. 
        - Eles o sangraram horas atrs, e lhe aplicaram ventosas, mas ele no se mexeu, nem fez um som. No sei. Haversham. Acho, o mdico pensou que ele estivesse 
sangrando em algum ponto no interior do corpo. Mas no h sinal disso, no h nada quebrado. porm ele d a impresso de que talvez no possa sobreviver. - Enquanto 
ela dizia isso, ele no conseguia ler nada em seus olhos. - Achei que voc deveria estar aqui. 
        - Queria estar com voc. - Ela ergueu os olhos para ele, grata, e caminharam lentamente at o quarto de Edward. No houvera mudana. 
        Foi s quando voltaram a sair e o mordomo trouxe a Haversham um copo de conhaque, na sala, que ele olhou para a cunhada e admitiu que Edward j parecia morto. 
No conseguia imagin-lo sobrevivendo quilo. 
        - Quando foi que isto aconteceu? - perguntou, parecendo perturbado. 
        Se Edward morresse, uma enorme responsabilidade cairia sobre seus ombros. Ele nunca realmente pensara que isso iria acontecer. 
        Sempre presumira que, em determinado ponto, ela e Edward teriam um filho, embora ele prprio no o houvesse conseguido, apesar de quatro crias. Mas como 
ela tivera trs filhos que morreram, no conseguia imaginar que no tivesse outro e esperava que o prximo sobrevivesse ao nascimento. 
        - Esto me dizendo que aconteceu hoje de manh - disse ela, baixinho. 
        Ao olhar para ela, ele percebeu, como sempre acontecia, como ela era forte. Era de longe mais forte e mais corajosa do que a maioria dos homens, e com toda 
a certeza mais do que ele era. 
        - Esto mentindo - continuou, calmamente. Haversham ficou se perguntando como ela poderia saber disso. Cruzou as pernas enquanto a observava, tentando desesperadamente 
reprimir o impulso de tom-la nos braos. - Algo bem mais complicado deve ter acontecido, mas talvez no seja importante. O que quer que tenha realmente ocorrido, 
onde quer que o tenham encontrado, no muda o estado em que ele se encontra agora. 
        Ele parecia a ambos estar mortalmente ferido. 
        - O mdico se mostrou esperanoso? - perguntou Haversham, ainda parecendo ansioso, e ento, como ela mantivesse um ar absolutamente neutro, ele pousou o 
copo e voltou a tomar-lhe a mo. - Sarah, se alguma coisa acontecer a Edward, o que voc far, ento? 
Ela estaria finalmente livre dele, e somente Haversham e um pequeno grupo de criados sabiam o quanto ele havia sido brutal. 
        - No sei. Voltar a viver, suponho - ela reclinou-se na poltrona com um suspiro, e sorriu. - Respirar, ser, simplesmente. Terminar minha vida quieta, em 
algum lugar. 
        Talvez, se ele lhe deixasse alguma coisa, ela alugasse uma pequena casa, ou at uma fazenda, podendo viver em paz. No queria nada alm disso. Ele matara 
todos os seus sonhos. Tudo que queria era fugir dele. 
        - Voc iria embora comigo? - Ela pareceu chocada diante da pergunta. 
        H anos no falavam dessas coisas e ela o proibira de falar-lhe de amor, desde o seu casamento com Alice. 
        - No seja ridculo - disse ela baixinho, tentando parecer que falava srio. - Voc tem esposa e quatro filhas aqui. No pode simplesmente abandon-las e 
fugir comigo. - Mas era exatamente o que ele queria fazer com ela, e sempre quisera. Sua esposa no significava nada para ele. S se casara com ela porque sabia 
que nunca poderia ter Sarah. Mas agora. se Edward morresse... no iria suportar perd-la novamente. 
        - Nem pense nisso - disse ela, com firmeza. Sarah era, acima de tudo, uma mulher honrada. E havia ocasies em que, por mais que o amasse, o que fazia cerca 
de um tero da sua vida, Haversham agia como um colegial. 
        Nunca tendo carregado o peso do ttulo, no fora forado a crescer e a assumir as responsabilidades que o acompanhavam. 
        Mas, sem o ttulo, ele tambm no tinha um tosto, exceto o dote da esposa. 
        - E se ele viver? - sussurrou ele,  luz das velas bruxuleantes. 
- Nesse caso, vou morrer aqui - disse ela com tristeza, esperando que, se fosse assim, ento que acontecesse logo. 
        - No posso deix-la fazer isso. No posso suportar mais, Sarah. No agento v-lo matando voc dia aps dia, ano aps ano. Ah, meu Deus, se voc soubesse 
como o odeio. - Ele tinha menos motivo para isso do que ela, embora Edward tivesse feito o possvel para complicar a vida de Haversham, desde que ele nascera. Haversham 
tinha sido filho da segunda esposa do pai deles, enquanto Edward era filho do primeiro casamento. Haversham era 25 anos mais moo do que o irmo. 
        - Venha embora comigo - insistiu. 
        O conhaque lhe havia subido  cabea, mas s um pouquinho. Havia anos que vinha tentando tramar um plano para fugir com ela, mas nunca antes reunira coragem 
para cham-la. Sabia como ela era sensvel ao casamento dele, bem mais do que ele prprio. Alice era uma moa muito doce e ele gostava dela, mas nunca a amara. 
        - Iremos para a Amrica - continuou, agora apertando-lhe as mos. 
        - Vamos ficar livres de tudo isto. Sarah, voc tem de faz-lo. 
        Estava falando com ela, num tom de grande urgncia, naquele aposento escuro e frio, e se ela tivesse sido honesta com ele teria lhe dito que no havia nada 
que lhe agradasse mais. Mas sabia que no podia faz-lo. Nem com ele, nem com a esposa dele. E se Edward ainda estivesse vivo, ela sabia com absoluta certeza que 
ele os encontraria, e os mataria. 
        - No deve falar bobagens - disse ela, com firmeza. - Estaria arriscando a sua vida por nada. 
        O que ela mais queria agora era acalm-lo.
        - Estar com voc pelo resto das nossas vidas no  "nada" - disse Haversham, com mpeto. 
- Valeria a pena morrer por isso... de verdade... estou falando srio. - Aproximou-se mais dela, e Sarah sentiu-se sem flego por estar to perto dele, mas no podia 
deix-lo perceber. 
        - Sei que est, criatura querida. - Ela ficou sentada, segurando-lhe as mos e sorrindo para ele, desejando muito que suas vidas houvessem sido diferentes, 
mas no ia fazer nada que o pusesse em risco. Amava-o demais. Mas, olhando para ela, ele sentiu o amor que ela lhe dedicava e no conseguiu mais se conter. Estendeu 
os braos, puxou-a para si e beijou-a. 
        - No. - sussurrou ela quando ele parou, sentindo vontade de ficar com raiva dele, de mand-lo para longe, nem que fosse para salv-lo. 
        Mas a verdade  que ansiava por isso h muito tempo e percebeu que no poderia parar. Ele voltou a beij-la e ela no resistiu, mas por fim conseguiu se 
afastar e sacudiu a cabea, triste. 
        - No devemos fazer isto, Haversham.  impossvel. - E muito, muito perigoso, se algum os visse. 
        - Nada  impossvel, e voc sabe disso. Vamos encontrar um navio em Falmouth e zarpar para o Novo Mundo, fazer uma vida juntos. Ningum pode nos parar. 
        Ela sorriu ao ver como ele era ingnuo, como era inocente e como conhecia pouco o irmo. 
        Para no mencionar o fato de que nenhum dos dois tinha dinheiro. 
        - Voc faz tudo parecer to simples. E iramos levar uma vida infame, coberta de vergonha. Pense no que suas filhas vo ficar sabendo a seu respeito, quando 
tiverem idade suficiente para que lhes contem. E a pobre Alice. 
        - Ela  uma criana. Vai encontrar outra pessoa. Ela tampouco me ama. 
        - Amar, no devido tempo. Vocs vo acabar se acostumando um com o outro. - Queria que ele fosse feliz onde estava, no importa o quanto ela o amasse. 
        De uma forma estranha, ele era mais menino do que homem. No entendia realmente os perigos que vinha cortejando, e estava zangado por ela no concordar em 
fugir com ele, ao que ficou sentado por algum tempo, parecendo emburrado. 
        Mas em seguida subiram, de mos dadas, para ver como ia indo Edward. A essa altura j era quase o amanhecer e no havia ningum acordado na casa, exceto 
o criado sentado  cabeceira do amo. 
        - Como est ele? - perguntou ela, baixinho. 
        - No houve mudana, senhora. Acredito que o mdico deva voltar pela manh, para sangr-lo de novo. 
        Ela assentiu com a cabea, era o que j lhe haviam dito. Mas Edward no dava a impresso de que iria viver o suficiente para isso. E, quando voltaram a sair 
do quarto, Haversham parecia esperanoso. 
        - Miservel, quando penso no que vem fazendo a voc durante todos esses anos. Isso fazia seu sangue ferver. 
        - No pense nisso - disse ela baixinho e ento sugeriu que ele fosse dormir em um dos quartos de hspedes. 
        Haversham estava planeando ficar at que Edward acordasse ou morresse, e trouxera consigo seus prprios criados. Eles haviam sido mandados para a cama no 
trreo, quando ele chegou, mas Haversham ficou feliz com a ideia de ir para a cama, assim que ela o sugeriu, e surpreendeu-se por ela no pretender ir dormir tambm. 
Parecia continuar sem parar, incansvel como sempre. 
        Quando Haversham foi dormir, ela voltou para o quarto do marido e ofereceu-se para ficar sentada  cabeceira dele por algum tempo, a fim de render o empregado. 
        Poderia cochilar na poltrona, ao lado dele, e ao faz-lo comeou a sonhar com o cunhado. O que ele dissera era extraordinrio. A ideia de ir para a Amrica 
era espantosa. Porm, por mais atraente que fosse, ela sabia que no havia a mais remota possibilidade de que pudessem realiz-lo. 
        No mnimo, no importa o quo irresponsvel Haversham fosse, ela jamais faria isso com Alice ou com as filhas dele, embora pudesse fugir feliz, ainda que 
isso representasse a sua morte. Sua cabea ficou tombada sobre o peito por algum tempo, e estava em sono profundo quando o sol nasceu e os galos cantaram. 
        No havia ningum no quarto com eles e, de sbito, enquanto dormia, ela sentiu um torniquete prender-lhe o brao e sacudi-la. Parecia parte de um sonho e 
imaginou que algum tipo de animal lhe havia cravado os dentes no brao, at ela achar que iria ser-lhe arrancado do corpo. Acordou com um susto e um pequeno murmrio 
de dor e medo, e ento ficou mais espantada ainda ao ver que era Edward, agarrando-a pelo brao e apertando at que ela teve de fazer fora para no gritar de angstia. 
        - Edward!. - Ele havia despertado, perverso como sempre. - Voc est bem? Passou dias muito doente, eu acho. Trouxeram-no para casa numa carroa e o mdico 
teve de sangr-lo. 
        - Voc deve estar lamentando por eu ter vivido - disse ele friamente, seus olhos fitando-a com um dio bvio. 
        Ainda a estava segurando pelo brao e divertiu-se ao perceber que, mesmo naquele estado de fraqueza, ainda era capaz de machuc-la. 
        - Voc mandou chamar o idiota do meu irmo? - Seus olhos flamejavam enquanto soltava-lhe o brao to subitamente quanto o havia agarrado. 
        - Tive de faz-lo, Edward, eles achavam que voc ia morrer - explicou, olhando para ele com o cuidado que se tomaria com uma serpente venenosa, porque ele 
era realmente isso. 
        - Como os dois devem estar decepcionados... a viva chorosa e o novo conde de Balfour. Mas ainda no, minha querida. Voc no vai ter essa sorte to depressa 
- disse, apertando-lhe o rosto com fora, usando os dedos. 
        Era espantoso como ainda tivesse aquela fora, aps ter ficado inconsciente por tanto tempo. Ela imaginou que a maldade devia ser o seu combustvel. 
        - Ningum lhe deseja qualquer mal, Edward - disse ela, baixando os olhos enquanto ele a soltava. 
        Ento foi lentamente at a porta, a pretexto de trazer-lhe algum mingau para quebrar o jejum. 
        - Minhas foras no vo voltar com essa porcaria - ele se queixou, mas pelo que ela pde ver, e acabara de sentir, ele j havia recuperado fora suficiente, 
pelo menos para ela. 
        - Vou ver se podemos lhe preparar alguma coisa melhor - disse ela, calmamente. 
        - Faa isso. - Olhou para ela de uma forma maldosa e ento ela viu os olhos dele lampejarem de raiva para ela. 
        Era um olhar que ela conhecia bem, e que a havia aterrorizado quando mais jovem. Mas agora ela limitou-se a forar-se a no pensar, a ficar acima disso. 
Era o nico modo de sobreviver a ele. 
        - Sei como meu irmo pensa - disse ele, num tom meditativo - e como ele  fraco. Ele no vai salv-la de mim, minha cara, se  isso que voc acha. E, caso 
ele tente, qualquer que seja o plano, aonde quer que v, aonde quer que vocs dois possam ir, fique segura de que vou encontr-los e mat-lo, ou matar a ambos. Lembre-se 
disso, Sarah... Estou falando srio... 
        - Tenho certeza de que est, Edward - disse ela, suavemente. -Voc no tem nada a temer de nenhum de ns. Ficamos todos muito preocupados com voc - concluiu, 
e deixou rapidamente o quarto, sentindo os joelhos trmulos. 
        Era como se ele soubesse, como se ele os tivesse ouvido na noite anterior, quando Haversham tentou convenc-la a partir para a Amrica com ele. Como Haversham 
era tolo em pensar que poderia fugir dele. E ela acreditava realmente que Edward o mataria com prazer. 
        No poderia jamais colocar Haversham nessa posio, ainda que quisesse. No poderia jamais permitir que ele a tocasse, no importa o quanto ambos se amassem. 
Na verdade, ela ficou imaginando agora se no deveria fugir sozinha, pelo bem dele. A, no haveria mais acusaes. Foi para a cozinha preparar ela prpria uma bandeja 
para o marido, com a cabea cheia de idias tumultuadas. Quando voltou, com Margarete carregando a bandeja para ela, um de seus criados j o havia barbeado. 
        Ele parecia notavelmente civilizado e era quase que ele prprio de novo, quando terminou a pequena refeio. 
        Ela lhe trouxera peixe, ovos e bolinhos que haviam acabado de ser feitos. Mas ele no lhe agradeceu por nada daquilo. Estava dando ordens a todos e, embora 
estivesse muito plido e ela suspeitasse de que ele ainda se sentisse bastante mal, o mdico no conseguiu acreditar na recuperao notvel de sua senhoria, ao voltar 
para sangr-lo. Ainda queria faz-lo, na verdade, mas Edward no admitiu e ameaou bot-lo literalmente para fora, caso tentasse. 
        O pobre velho saiu do quarto tremendo e Sarah pediu desculpas, como sempre fazia, pelo marido. 
        - Ele no deve se levantar muito depressa - preveniu o mdico - e no deve fazer ainda refeies to substanciosas. - Ele vira os restos do desjejum que 
ela lhe preparara, e a cozinheira acabara de mandar para ele uma galinha assada. - Vai voltar a ficar inconsciente, se for insensato agora - concluiu o mdico, nervosamente. 
Era o mesmo mdico que a atendera em seus partos e vira seus bebs morrendo, enquanto ela os segurava, ou virem ao mundo imveis, azulados, mortos antes de terem 
nascido. 
        Conhecia-a bem, e a admirava. E sentia verdadeiro pavor de Edward. Ele na verdade se recusara a transmitir as notcias sobre os ltimos trs natimortos. 
Da primeira vez, Edward o golpeara, como o portador da m notcia. Ele o havia acusado at de mentir. 
        - Vamos cuidar dele, doutor - disse Sarah, enquanto o acompanhava at o ptio. 
        E ficou ali parada por um longo momento, depois que ele se foi, sentindo o sol sobre o rosto, imaginando o que iria fazer agora. Houvera um pequeno raio 
de esperana na noite passada, mas agora no restava nada. E quando ela voltou para ver novamente Edward, Haversham estava com ele. Ficara bastante surpreso, como 
todo mundo, ao ver a recuperao de Edward, e foi menos filosfico do que Sarah. 
        Quando se encontrou com ela no vestbulo, naquela tarde, trazendo sopa para o marido, depois de ele haver atirado o primeiro prato em cima dela e com isso 
queimado o seu brao, Haversham lanou-lhe um olhar de angstia. 
        - Voc precisa me ouvir, Sarah, voc agora no tem escolha, no pode ficar aqui. Ele est pior do que nunca. Acho que est ficando louco - disse ele, furioso. 
        Edward prevenira Haversham, naquela manh, de que devia se afastar dela, e prometeu que o mataria se no o fizesse. Dissera que ainda no havia acabado com 
ela. Ainda ia arrancar um herdeiro de dentro dela, mesmo que isso a matasse, o que para ele no importava, desde que lhe deixasse um filho. 
        - Ele no  louco,  s perverso - disse ela, calmamente. Nada disso era novidade para Sarah, embora ele agora parecesse menos disposto a escond-lo. Estava 
disposto a permitir que todos o vissem maltrat-la. Na verdade, parecia estar gostando disso. 
        - Vou descobrir um navio - disse Haversham, com urgncia, mas ela olhou para ele furiosa desta vez e recuou quando ele lhe tocou o brao, onde Edward produzira 
a queimadura. 
        - No vai fazer isso. Ele mata voc. Ele fala srio - preveniu Sarah. - Fique longe de mim, Haversham. No vou a lugar nenhum com voc. Fique onde est e 
me esquea. 
        - Nunca, nunca farei isso - replicou ele, exaltado, e ela parecia desesperada. 
        -  preciso. 
Ela como que cuspiu essas palavras sobre ele, olhando com o ar mais feroz de que foi capaz, e voltou para o quarto de Edward. E, ao cair da noite, disseram-lhe que 
Haversham partira de volta para sua esposa e suas filhas. 
        Com Edward no caminho da recuperao, no havia mais nenhum motivo para que ficasse l. Mas ela estava preocupada com o que ele poderia fazer a respeito 
do navio. Ele era tolo e romntico o suficiente para tentar seguir esse plano, mas no permitiria que arriscasse a vida ou abandonasse sua famlia porque achava 
que a amava. Ambos deviam aceitar o fato de que no tinham nenhum futuro juntos. Naquela noite, ela voltou para seu prprio quarto e dormiu sobressaltada, acordando 
pela manh, quando o galo cantou, e viu-se pensando. No havia motivo pelo qual o plano de Haversham no pudesse funcionar para ela, nenhum motivo pelo qual tivesse 
de ir com ele. Era a idia mais louca que ela j tivera, mas, enquanto meditava, entendeu que era possvel, caso esboasse seus planos cuidadosamente e no contasse 
nada a ningum. Ela ainda tinha algumas das jias da me, que sobraram depois de Edward haver levado a maioria delas. 
        Suspeitara que as tivesse dado a prostitutas e amigas, e chegara a ouvir algum comentar que ele as havia vendido. Mas ainda restara o suficiente para que 
pudesse construir uma vida. Jamais voltaria a viver com luxo, mas no tinha nenhum desejo disso. Queria apenas escapar e viver em segurana e liberdade. E, mesmo 
que se afogasse no caminho para o Novo Mundo, pelo menos no iria estar morrendo no terror e na servido, maltratada por um homem que odiava e que, por sua vez, 
a odiava. Estava disposta a correr o risco. Levantou-se, vestiu-se e ficou pensando nisso a manh inteira. De repente, havia um novo propsito em sua vida. 
        Edward estava virulento, aborrecido, e esbofeteou dois de seus homens enquanto tentavam levant-lo e vesti-lo. Percebia que ele ainda no estava se sentindo 
bem, mas ele jamais o admitiria. Ao meio-dia, j estava vestido, no salo, parecendo mortalmente plido e um tanto sinistro, mas no seu humor desagradvel de costume. 
Bebeu um pouco de vinho com o almoo e, depois disso, pareceu sentir-se melhor. 
        Mas no foi nem um pouco mais gentil com ela. A coisa mais gentil que ele conseguia fazer por ela era ignor-la. 
        E, enquanto cochilava na cadeira, depois do almoo, ela esgueirou-se silenciosamente da sala e voltou a seu quarto. 
        Tinha muito em que pensar, muito que planejar, e abriu a caixa onde guardava o que restara das jias de sua me. Queria certificar-se de que ainda estava 
tudo l, de que Edward no as havia tirado e vendido. Mas ainda restavam algumas peas antigas excelentes, e s de olh-las lembrou-se do pai. Envolveu-as num pano 
e enfiou-as no bolso do casaco, pendurando-o cuidadosamente em seu guarda-roupa, e ento voltou a trancar a caixa. Havia um monte de coisas que precisava fazer agora, 
e naquela noite falou com Margaret, num sussurro. Perguntou-lhe se o que ela sempre lhe dissera era verdade, que faria qualquer coisa por ela, se fosse preciso. 
        - Ora, sim, minha senhora - disse ela, fazendo uma pequena reverncia.
        - Iria a algum lugar comigo, se eu lhe pedisse? 
        -  claro. 
        Ela ficou sorrindo, enquanto sussurravam. Comeou a imaginar uma viagem secreta a Londres, talvez para encontrar-se com Haversham, pensou. Era fcil ver 
o quanto ele a amava. 
        - E se fosse bem distante? - Margarete ficou imaginando se isso no queria dizer a Frana. Sabia que estava havendo problemas por l, mas por Sarah, ela 
os enfrentaria. 
        - Iria a qualquer lugar com a senhora - disse Margaret, com bravura, e Sarah lhe agradeceu, insistindo com ela para tomar o cuidado de no dizer nada a ningum 
sobre essa conversa. E a jovem prometeu, obediente. Mas a noite seguinte foi mais difcil. Sarah ps um vestido pesado e seu casaco de l e esgueirou-se silenciosamente 
at os estbulos,  meia-noite, tendo certeza de que ningum a vira. 
        Selou sua prpria gua, rezou para que no houvesse muito barulho, e ento veio puxando Nellie o mais silenciosamente que pde. 
        S montou quando j estava longe, bem adiantada no caminho. A pulou rapidamente em seu dorso e cavalgou o mais rpido que pde, sentada de lado, como uma 
amazona, at Falmouth. Levou pouco mais de duas horas, e s duas e meia da manh estava l. No fazia idia se havia algum desperto, mas esperava ver algum, e 
descobrir o que pudesse. 
        Mas teve sorte, havia um grupo de marinheiros trabalhando num pequeno navio, preparando-se para zarpar com a mar, s quatro horas da manh. Falaram-lhe 
de um navio que regressaria da Frana nos prximos dias. Deixaram implcito que havia sido usado para o transporte de canhes e que partiria para o Novo Mundo em 
setembro. 
        Conheciam a maioria dos homens a bordo, disseram que era um bom navio e que ela estaria segura nele, embora prevenissem que haveria muito pouco conforto. 
Mas ela lhes garantiu que isso no importava. Ficaram curiosos em saber quem seria ela, mas no perguntaram. Disseram-lhe com quem deveria falar no porto, para marcar 
a sua passagem. E, depois que ela se foi, todos concordaram que havia nela algo de muito misterioso. Era muito bonita, mesmo com o rosto semi-escondido pelo casaco. 
E ela efetivamente foi at l e acordou o homem com quem deveria falar. 
        Ele ficou bastante chocado ao ver-se despertado por uma mulher desconhecida. Ainda mais quando ela disse que no tinha dinheiro para pagar, oferecendo em 
vez disso um bracelete de rubi em troca de sua passagem para Boston. 
        - E o que vou fazer com isso? - disse ele, segurando-o em gancho com um dos dedos e com um olhar de espanto. 
        - Venda-o. 
        Ele provavelmente valia mais do que o navio do qual aquele homem era o agente. Mas no havia como voltar agora. Faria tudo que era preciso para estar dentro 
daquele navio quando ele partisse. 
        -  perigoso navegar at a Amrica - avisou o homem, ainda de camisola e gorro. - Tem gente que s vezes morre a bordo. 
        Mas ela ainda assim no parecia assustada. 
        - Vou morrer  se eu ficar aqui - disse ela, e a expresso que fez ao diz-lo o levou a acreditar. 
        - No est tendo problemas com a lei, est? - Subitamente ocorreu-lhe que o bracelete poderia ser roubado, embora ele j tivesse transportado criminosos 
para o Novo Mundo. 
        Esta no seria a primeira vez. Mas ela sacudiu a cabea em resposta. E, mesmo para ele, parecia honesta. 
        - Para onde devemos mandar sua passagem? 
        - Guarde-a aqui. Vou peg-la quando vier. Quando  que partem? 
        - No dia 5 de setembro, com a lua cheia. Se no estiver aqui, vamos embora sem voc. 
        - Estarei. 
        - Zarpamos com a mar, de manh bem cedo. No haver parada entre este porto e Boston. 
        Ela ficou satisfeita em ouvir isso, tambm. Nada daquilo tudo que ele dissera a assustava, no estava nem um pouco amedrontada. Fazia uma idia de como seria 
duro, ou achava que fazia. Mas agora no es tava se importando. Deixou o bracelete com ele e assinou o nome num pedao de papel. Escreveu apenas Sarah Ferguson, 
esperando que no soubessem quem era e que no a relacionassem com o conde de Balfour. 
        O navio zarparia dali a trs semanas, e j eram quatro da manh quando ela deixou Falmouth. 
        Foi uma cavalgada difcil para casa, e seu cavalo tropeou uma vez, quase atirando-a ao cho, mas chegou exatamente quando o galo cantava no ptio. 
        E, erguendo os olhos para a janela do quarto onde Edward dormia, sorriu pela primeira vez em anos. 
        Dali a trs semanas estaria tudo acabado e suas torturas nas mos de Edward finalmente iriam terminar.

CAPTULO 8

        As trs ltimas semanas que Sarah passou com ele pareciam interminveis. 
        Os minutos pareciam decorrer como dias. 
        Ela no fizera confidncias a ningum, e apenas Margarete sabia que iriam sair em viagem. 
        Mesmo assim ela fora obrigada a prometer no contar sequer a seus prprios pais. 
        A essa altura, Sarah havia costurado o resto de suas jias dentro do forro de seu casaco, e a nica coisa que ele tinha de suspeito era ter se tornado muito 
pesado. Mas Sarah passava todo o seu tempo bordando e costurando, e tentando evitar Edward. 
        Ele se havia recuperado do acidente em menos de uma semana e sara novamente para caar. 
        No final de agosto, voltou para casa com um grupo de amigos que passavam o tempo todo com ele, comendo e bebendo no salo principal. 
        Era um grupo desordeiro, exigente, de pssimo comportamento, e foi um alvio quando partiram. 
        Quando Edward trazia seus grupos de amigos, Sarah sempre temia pelas criadas, mas afora manter as mais jovens e bonitas completamente distantes, o que s 
vezes fazia, havia muito pouco que pudesse fazer para proteg-las. 
        No voltara a ver Haversham desde sua visita, quando Edward esteve doente. 
        Soube que o resto das crianas tambm havia pegado sarampo e que Alice ainda estava doente, com a famlia comeando a temer a pneumonia. 
        Era fcil imaginar que ele estava ocupadssimo, mas ela lamentava que ele no pudesse vir fazer uma visita. Gostaria de v-lo uma ltima vez, s para pousar 
os olhos nele, s para dizer algo, mas ento, no final, decidiu que era melhor no poder. Ele poderia adivinhar alguma coisa, ou perceber algo de diferente nela. 
Conhecia-a bem melhor do que Edward. No havia nada que revelasse seu plano. Ela seguia a mesma rotina diria de sempre. Apenas parecia um pouco mais feliz nesses 
dias e s vezes cantava consigo mesma, enquanto fazia seu trabalho no extremo do castelo. Vinha remendando tapearias h meses, tentando preserv-las. Na verdade, 
foi l que Edward a encontrou. 
        Ela estava sozinha e no o ouviu atravessar o corredor comprido e cheio de correntes de vento, onde estava trabalhando. Planeava voltar a seu quarto, uma 
vez que a luz estava decaindo. E levou um pequeno susto ao v-lo. 
        - Onde esteve a tarde toda? No consegui encontr-la.
Ela no conseguia imaginar por que ele desejaria encontr-la. Nunca se dava ao trabalho de procur-la. 
        Ficou subitamente aterrorizada, imaginando se algum do porto a haveria localizado, a respeito da passagem. Mas isso no era possvel, lembrou a si mesma. 
No faziam idia de onde ela morava e no havia motivo para que viessem procur-la. 
        - H algum problema?
        Seu rosto estava calmo, mas os olhos ainda estavam preocupados. 
        - Queria falar com voc. 
        - Sobre o qu? - Ela o fitou firmemente nos olhos ao pousar o trabalho, e ento se deu conta de que ele andara bebendo. 
        Ele passara o vero inteiro bbado, mas isso no fazia para ela muita diferena. s vezes, tornava-se mais violento, mas ela tentava ser cautelosa e no 
provoc-lo. 
        E ele no fizera nenhuma tentativa de dormir com ela, desde a morte do ltimo beb. 
        Isso j fazia mais de trs meses. 
        - Por que est se escondendo aqui?
        - Estou consertando algumas das tapearias de seu pai. Acho que os ratos andaram mordiscando-as. Esperava poder preserv-las - disse ela, calmamente. 
        -  aqui que se encontra com meu irmo? - perguntou-lhe com um ar maldoso, e ela surpreendeu-se com a pergunta. 
        - No me encontro com seu irmo em lugar nenhum - replicou ela, asperamente. 
        -  claro que se encontra. - Ele est apaixonado por voc. No venha me dizer que ele no lhe pede para ir encontr-lo em segredo. Eu o conheo.  um garoto 
sonso e idiota, e esse  exatamente o tipo de coisa que faria. 
        - Haversham jamais faria isso, Edward. Nem eu. 
        - Isso  sensato de sua parte. Pois voc sabe o que eu faria com voc, caso isso acontecesse, no sabe? - Ela baixou os olhos quando ele avanou sobre ela 
com uma expresso cruel nos olhos, pois no queria mostrar-lhe que estava amedrontada. 
        A essa altura estava parado bem diante dela e agarrou-a pelos cabelos, puxando-os para trs, de forma que seu rosto ficou voltado diretamente para o dele. 
        Seus olhos se ergueram devagar para encontrar o olhar de Edward. 
        - Ser que devo lhe mostrar o que eu faria, minha cara? - Ela no respondeu. 
        Sabia que qualquer coisa que dissesse s iria piorar a situao. 
        No havia nada a fazer, a no ser esperar que se cansasse de tortur-la. 
        Rezou para que aquilo terminasse depressa. 
        - Por que no est me respondendo? Est tentando proteg-lo? Achou que eu ia morrer, h algumas semanas atrs, no foi? O que ia fazer com ele, ento? Diga-me. 
O que foi que voc fez, enquanto estive doente? - Ele rosnou essas palavras bem em seu rosto, recuando ento o brao e esbofeteando-a no rosto com toda a fora. 
        Ela teria recuado, batendo na parede, mas ele ainda a segurava pelos cabelos firmemente, e rasgou-lhe o lbio com o anel, ao atingi-la. 
        - Edward, por favor. Ns no fizemos nada. - disse ela, tentando no transformar a voz em lamria, enquanto o sangue pingava em seu vestido. 
        Estava usando algodo branco e o sangue se destacava, ntido e chocante, tal como as aes dele. 
        - Voc  uma mentirosa e uma vagabunda - gritou ele, e desta vez atingiu-a com o punho. 
        O soco pegou-a no molar e ela achou t-lo sentido se partir. Estava tonta quando olhou para ele, que voltou a dar-lhe um soco. Ento, para sua extrema surpresa, 
prendeu-a em seus braos e beijou-a. Seu sangue ficou se misturando com a saliva dele e ela sentiu um mpeto avassalador de mord-lo, mas sabia que, caso se defendesse 
de alguma forma, ele a machucaria ainda mais. Aprendera essa lio da forma mais difcil. 
        Em vez disso, sentiu-se caindo para trs e dando uma pancada dura com a cabea no cho, enquanto ele caa por cima dela e, com uma das mos, rasgava-lhe 
a saia e levantava-a, puxando ento as calas compridas que usava por baixo. 
        - Edward, voc no precisa fazer isto. - sussurrou, engasgando com o prprio sangue. Eles eram casados. Ele no precisava humilh-la e espanc-la. No precisava 
violent-la no cho de pedra do velho castelo, mas era ali que ele a queria, e era dessa forma que queria faz-lo. E, o que quer que sua senhoria quisesse, era isso 
que ela deveria proporcionar. Havia vivido um inferno com ele durante os ltimos oito anos, mas logo estaria livre. 
        - Edward, no, por favor.
        Ainda estava murmurando quando ele forou-se dentro dela e comeou a bat-la contra o cho, enquanto ela sentia medo de que algum os ouvisse naquela situao. 
        Era humilhante demais, todo mundo ficar sabendo o que ele fazia com ela, e sabia que, se fizesse um rudo, ele iria machuc-la ainda mais. Por isso, deixou-o 
agir. Pensou sentir algo com areia solta dentro da cabea, enquanto ele batia repetidamente sua cabea contra o cho, e dava-lhe estocadas entre as ancas. Ento, 
finalmente, ele conseguiu o que queria e soltou-a. Ficou cado sobre ela por um longo momento, arrancando-lhe o ar do peito com seu peso. Ento levantou-se e baixou 
os olhos sobre ela, como se fosse lixo a seus ps. 
        - Agora voc vai me dar um filho, no vai? Ou ento, vai morrer tentando - disse ele, virando-se ento e afastando-se, deixando-a deitada no cho. 
        Ele j tinha ido embora h muito quando ela conseguiu recuperar o flego, subiu as calas, alisou a saia e comeou a soluar. No conseguia sequer imaginar 
o horror de ter mais um de seus bebs. Tudo que queria agora era ir-se silenciosamente e morrer em' algum lugar. ainda que fosse no Concord, a caminho de Boston. 
E se dessa vez houvesse uma criana, e os dois vivessem, ela jurou nunca dizer nada a Edward a tal respeito. Preferia realmente morrer a permitir-lhe tirar um beb 
dela, ou jamais voltar a fazer alguma coisa com ela. Estava tudo acabado. 
        E, enquanto caminhava lentamente de volta a seu quarto, coberta de sangue por toda parte, os cabelos desalinhados, o lbio rasgado e inchado, a bochecha 
ferida, a cabea latejando, entendeu que o odiava verdadeiramente, como jamais odiara qualquer pessoa antes dele. Ele era o mais baixo dos animais, o mais cruel 
de todas as bestas e, quando a viu no salo mais tarde, depois de ela ter feito uma tentativa de limpar os estragos feitos por ele, sorriu-lhe maldosamente e fez 
uma reverncia solcita, com uma expresso de divertimento cruel. 
        - Sofreu um acidente, minha cara? Que falta de sorte. Deve ter mais cuidado com essas quedas - disse ele e passou rpido por ela. 
        Mas ela no fez qualquer expresso nesse momento. No tinha nada a lhe dizer, nem a ningum, e entendeu neste momento que jamais voltaria a haver um homem 
em sua vida. Nada de amante, nem de marido e, agora esperava, nem filho, nada de filhos. Ela no queria mais nada da vida, a no ser libertar-se dele. Depois disso, 
Edward a deixou em paz. J conseguira aquilo que viera buscar, ou assim pensava. No passado, um nico ato, por brutal que fosse, sempre fora suficiente para deix-la 
grvida, e ele presumiu que seria o mesmo desta vez. E s o que ela desejava agora era descobrir que no tinha sido. Mas s o descobriria quando j estivesse no 
Atlntico. Os ltimos dias finalmente se arrastaram, sem qualquer acontecimento nem qualquer outro desastre, e a noite de sua fuga finalmente chegou, com a lua cheia 
alta no cu e as estrelas brilhando, luminosas. 
        Ela queria sentir alguma coisa, algum alvio, alguma tristeza ao partir, talvez at alguma nostalgia, mas ao se esgueirar para os estbulos, com Margarete 
e suas duas pequenas malas, no sentiu nada. 
        Gostaria de deixar uma carta para Haversham, mas sabia que no era possvel. Escreveria para ele do Novo Mundo. E no deixou nenhum bilhete para Edward, 
pois ele poderia ach-lo antes que ela chegasse em segurana a Falmouth. E ele havia sado para caar no dia anterior, no tendo ainda retornado. Isso fez com que 
sua fuga  meia-noite fosse um pouco menos frentica. E, enquanto cavalgavam para Falmouth, as duas estavam animadssimas. Margarete especialmente, pois pensava 
que ia ser uma maravilhosa aventura. E, tal como j acontecera antes, levaram duas horas para chegar l. Foi uma cavalgada fcil desta vez, e ningum as incomodou 
no caminho. Sarah sentira um leve temor, mas no dissera nada a Margarete a respeito de estar preocupada com ladres e bandoleiros. 
        A jovem, nesse caso, no iria com ela de jeito nenhum. De qualquer forma, bandidos no iriam conseguir nada delas, pois Sarah tinha costurado suas jias 
e o pouco dinheiro que possua dentro de todos os seus forros de roupas. Ao seguirem para Falmouth, Sarah deixou os cavalos reduzirem a velocidade at uma andadura 
de marcha e seguiram at o porto em silncio. Ento, assim que chegaram, Sarah viu o navio. O Concord era bem menor do que ela havia esperado. Tinha dois mastros, 
vela arredondada, e o pequeno navio mal parecia forte o suficiente para atravessar o canal, porm agora no havia como voltar, e Sara no estava ligando, caso se 
afogassem. Ela iria. 
        Mas Margarete fez uma expresso intrigada quando viu o navio, uma vez que Sarah ainda no lhe contara para onde estavam indo, embora houvesse prevenido a 
jovem de que no veria os pais por muito, muito tempo, mas a jovem insistiu em dizer que no se importava. 
        Presumiu agora que seu palpite fora correto e que estavam indo para a Itlia, ou talvez at  Frana, apesar da confuso que havia por l. Em qualquer caso, 
estava louca para conhecer um pas estrangeiro. E apenas ficou ouvindo casualmente enquanto Sarah conversava baixinho com o capito, que parecia estar passando a 
ela um bocado de dinheiro. Era um homem honesto e estava lhe devolvendo a diferena entre as duas passagens e o que ele conseguira pelo bracelete de rubis. Na verdade, 
pudera vend-lo a um conhecido joalheiro de Londres, que lhe pagara um resgate de rei pela pea. Sarah estava agradecendo a ele quando Margarete chegou-se. 
        - Quanto tempo vai levar a viagem? - perguntou a jovem, toda alegre, ao que Sarah e o capito trocaram um olhar. 
        E ele respondeu. 
        - Seis semanas, se tivermos sorte, dois meses, se enfrentarmos tempestades. De qualquer forma, devemos estar em Boston em outubro. 
Ele assentiu com a cabea e Sarah silenciosamente esperou que a travessia corresse bem, embora estivesse fazendo a viagem de qualquer maneira. Agora, no tinha nada 
a perder. Mas Margarete parecia horrorizada com o que acabara de ouvir do capito MacCormack. 
        - Boston? Achei que amos para Paris! - disse ela, com um ar de terror. 
        - Oh, no posso ir para Boston, minha senhora. no posso faz-lo. no posso. eu morreria. eu morreria, sei disso, num navio pequeno assim. Oh, no, por favor 
- ela comeou a soluar e a agarrar as mos de Sarah. - No me obrigue a fazer isso. por favor, mande-me de volta. 
        Sarah passou os braos em torno dela, enquanto a jovem suspirava. Temera que algo desse tipo acontecesse, e seria esquisito para ela viajar sozinha, mas 
no teve coragem de forar a moa a ir com ela. Estava assustada demais e, aps alguns minutos, Sarah disse-lhe que se acalmasse, segurando suas mos.
        - No vou for-la a ir a lugar algum, se no quiser - disse ela baixinho, tentando fazer com que a jovem no continuasse histrica, mas era uma tarefa e 
tanto. - Quero que me jure que no vai contar para ningum para onde fui, no importa o que o amo faa, ou o que qualquer pessoa diga, ou at o Sr. Haversham. Tem 
de me prometer que no vai contar a ningum onde estou. Se no, se acha que pode vir a contar, vai ter que me acompanhar - disse ela, com gravidade, e Margarete 
assentiu freneticamente com a cabea, enquanto chorava. Sarah agora no tinha a menor inteno de lev-la a lugar nenhum, mas era melhor assust-la um pouco, para 
que a jovem no voltasse at Edward e a pusesse em perigo. - Deve jurar, agora. 
Ergueu-lhe o queixo com um dedo e a moa agarrou-se a ela feito uma criana. 
        - Eu juro, mas, minha senhora, por favor, no v nesse navio. a senhora vai se afogar. 
        - Prefiro me afogar do que viver como estou vivendo agora - disse calmamente. Ainda sentia o machucado no rosto e o lbio inchado levara dias para desinchar. 
E, aps seu mais recente estupro, no sabia se estava grvida. Mas, antes de tolerar sua brutalidade, ela preferia dar dez vezes a volta ao mundo no menor barco 
que tivessem. - Eu vou, Margaret. - E, uma vez que a jovem ia voltar, Sarah disse-lhe que levasse os cavalos com ela. Havia planejado originalmente abandon-los 
em Falmouth, dissera ao homem dos estbulos que os vendesse pelo que conseguisse, mas agora no havia motivo para faz-lo. 
        - Voc precisa ser muito forte quando lhe perguntarem a meu respeito. Diga-lhes apenas que a deixei e que tomei a estrada para Londres, a p. Isso os manter 
ocupados por algum tempo. 
        Pobre Haversham. Sarah tinha certeza de que Edward acusaria o irmo sem piedade, mas, no final, sua inocncia, bastante real, seria sua melhor defesa. E, 
uma vez que ela estivesse no Novo Mundo, no havia nada que Edward pudesse fazer para traz-la de volta. Afinal de contas, ela no era um bem mvel, no era uma 
escrava que ele houvesse comprado embora pensasse assim. Era apenas sua esposa. Tudo que podia fazer seria repudi-la e recusar-se a pagar qualquer dvida sua. Mas 
ela no queria nada mais do conde de Balfour. Ia vender as jias que possua e, depois disso, sair-se da melhor maneira que pudesse. Na pior das hipteses, poderia 
tornar-se uma governanta ou a companheira de uma dama fina, se fosse preciso. Nunca havia tentado isso, mas no tinha medo do trabalho. S tinha medo de morrer nas 
mos de Edward. Ou, pior, de no morrer rpido o suficiente, e viver o bastante para ser torturada por ele at a morte. E, mesmo aos 54 anos, ele ainda poderia viver 
por um longo tempo. Longo demais para Sarah. 
        Sarah e Margarete trocaram um adeus cheio de lgrimas no porto, a jovem agarrando-se a ela, chorando piedosamente, aterrorizada pela idia de que a sua senhora 
estava para morrer. Mas, quando Sarah subiu a bordo do pequeno brigue, sozinha, no parecia estar com medo. Havia meia dzia de outros passageiros no dique e queriam 
partir antes da primeira luz. Ela ainda estava na amurada, acenando, quando o navio zarpou, e Margarete conseguiu ver, atravs das lgrimas, a nave deixar o porto. 
        - Boa sorte! - Ela gritou na brisa da manh, mas a essa altura Sarah j no podia mais ouvi-la. 
        Estava com um sorriso amplo no rosto, sentindo-se feliz, livre e viva pela primeira vez. E, quando o navio girou lentamente e deixou a costa inglesa, Sarah 
fechou os olhos e agradeceu a Deus por dar-lhe uma nova vida. Charlie ficou sentado em silncio total por longo tempo, aps fechar o livro. Eram quatro da manh, 
e ele estava lendo h horas. Que ser humano extraordinrio ela tinha sido. Que coisa incrvel de se fazer, ter a audcia de deixar o marido, naquela poca, e zarpar 
para Boston, num navio minsculo, sem uma companheira ou amiga para ir com ela. E, pelo que pde depreender daquilo que ela havia escrito, Sarah no conhecia absolutamente 
ningum no Novo Mundo. No podia sequer imaginar a coragem que ela teve, ou a vida da qual havia fugido. As histrias que contara sobre Edward lhe deram calafrios 
e ele gostaria de ter podido estender-lhe a mo, ou de estar presente para ajudar. Teria adorado conhec-la e ser seu amigo, at estar a bordo do brigue com ela, 
deixando Falmouth em direo ao Novo Mundo. 

        Fechou o dirio cuidadosamente, encarando-o como a coisa preciosa que era. Sentiu-se como se estivesse dividindo um segredo notvel e, ao subir para seu 
quarto, sentiu vontade de v-la. Agora, j sabia muito a respeito dela, j sabia quem tinha sido, onde estivera. Mas podia apenas imaginar o que a viagem naquele 
navio havia sido. Sentiu-se tentado a continuar desperto e ler a esse respeito, mas sabia que precisava dormir um pouco, antes da manh. Ficou deitado, naquela noite, 
pensando nela, querendo poder ouvi-la, e pensando na boa sorte inacreditvel que o levara at o pequeno ba. E ser que fora isso mesmo? Talvez nunca tenha havido 
um roedor, algum rato, talvez ela quisesse que ele encontrasse os dirios. 
        Talvez o tivesse levado at eles, mas a, ao pensar a respeito, voltou a sorrir, sabendo que isso era impossvel. Mesmo para ele, a idia de que ela o havia 
levado at os dirios era simplesmente fantasiosa demais para que acreditasse. Mas, no importa como houvesse chegado a eles, estava infinitamente contente por ter 
acontecido. E tudo que queria fazer agora era voltar a l-los.

CAPTULO 9

        QUANDO CHARLIE ACORDOU, na manh seguinte, ficou se perguntando seno teria sido tudo um sonho. Estava frio l fora, e ainda nevava. Queria mandar algumas 
mensagens por fax para o seu advogado em Londres, e precisava dar um ou dois telefonemas para Nova York. Mas s o que teve vontade de fazer depois que se levantou, 
tomou uma ducha e se vestiu foi pegar uma xcara de caf e ler os dirios de Sarah por todo o resto da manh. Eles eram quase hipnticos, no ritmo em que ela os 
escrevera, e ele queria poder se sentar em um lugar quieto, at t-los terminado todos, pelo menos aquele que comeara a ler. Mas finalmente, depois de cumprir suas 
poucas tarefas, permitiu-se sentar numa poltrona confortvel que havia comprado e comear a leitura sobre a sua travessia do oceano. Sentia-se como um menino com 
um segredo enorme. Ia acabar partilhando os dirios com Gladys, mas ainda no. Primeiro, os queria s para si. No havia um nico rudo na casa, quando pegou o dirio 
que havia pousado na noite anterior e recomeou a leitura. 

        O Concord era um pequeno brigue construdo cinco anos antes; tinha dois mastros e uma popa reta. Havia um pequeno setor embaixo, entre os conveses, com quatro 
cabines, para um total de doze pessoas em viagem ao Novo Mundo. E, ao zarparem lentamente de Falmouth, Sarah finalmente desceu para dar uma olhada na cabine que 
ela e Margarete iriam dividir. Porm no a haviam preparado para o que viu. A cabine em si tinha cerca de 1,80 x 1,20m, e dois colches torturantemente apertados, 
pousados sobre duas prateleiras de madeira aterrorizantemente estreitas, que seriam as suas camas. No dava nem para pensar no que teriam feito se uma das duas fosse 
gorda. As prateleiras teriam cado. E, logo acima das camas, havia duas cordas que poderiam ser usadas para prend-las aos leitos, no caso de tempestades no Atlntico. 
Os demais foram todos informados de que teriam de dividir suas cabines, mas, como uma das duas nicas mulheres a bordo, Sarah,  claro, estava desobrigada. A outra 
mulher viajava com o marido e a filhinha de cinco anos. O nome da criana era Hannah, e Sarah j a vira no convs. Eram americanos, do territrio do noroeste, na 
regio do Ohio, como lhe contaram, e o homem da famlia era Jordan. Tinham passado os ltimos meses em visita  famlia da Sra. Jordan, e agora estavam voltando 
para casa. At mesmo para Sarah, pareceu muito corajoso da parte deles terem vindo. Os demais passageiros do navio eram todos homens. Havia quatro mercadores e um 
farmacutico que poderia vir a ser til, um ministro indo trabalhar com os ateus no Ocidente e um jornalista francs que falava muito sobre o diplomata e inventor 
norte-americano Bem Franklin, que dizia ter conhecido cinco anos antes, em Paris. Quando chegaram os primeiros vagalhes, quase todos os passageiros estavam se sentindo 
enjoados e j mal conseguiam enxergar a costa da Inglaterra. 
        Sarah, porm, estava surpresa ao ver como se sentia viva. Estava de p no convs quando o sol se levantou, respirando o ar, curtindo o seu primeiro gostinho 
de liberdade. Tinha a impresso de que poderia sair voando, de to empolgada que estava. E quando finalmente voltou a descer, esbarrou em Martha Jordan, que saa 
de sua cabine com Hannah. Ficou imaginando como os trs conseguiam dormir ali. 
        - Boa tarde, senhorita - disse Martha Jordan, muito dignamente, baixando os olhos. 
        Ela e o marido haviam comentado como era estranho que Sarah estivesse viajando sem acompanhante. E s o modo como a encarou levou Sarah a perceber que teria 
de inventar uma explicao para isso. No contar com Margarete a seu lado ia tornar as coisas muito incmodas, particularmente em Boston. Sabia que at mesmo l 
seria considerado algo muito imprprio uma mulher viajar sozinha. 
        - Ol, Hannah - disse Sarah suavemente, sorrindo para a menininha. Ela era simples, mas um amor, muito parecida com a me, e estavam ambas um pouco plidas. 
Sarah ficou imaginando se no estavam ambas com enjo martimo. 
        - Vocs esto bem? 
        - No muito - disse a menina mesmo a contragosto, ao que ambas fizeram uma mesura. 
        - Eu me sentiria muito feliz de ficar com ela a qualquer hora que a senhora e seu marido quiserem um tempinho juntos - disse Sarah gentilmente. - Tenho mais 
uma cama em minha cabine. No tenho meus prprios filhos, infelizmente, mas meu falecido marido e eu sempre tivemos a esperana de vir a t-los. - Ela no mencionou 
os seis que haviam morrido ao nascer e durante a gravidez. Mas o que ela disse havia captado imediatamente a ateno de Martha Jordan, o que era exatamente a sua 
inteno. 
        - Com que ento,  viva? - disse Martha Jordan, com visvel aprovao. Isso, ento, explicava tudo. Ainda assim, deveria estar com uma criada ou uma parenta 
a seu lado. Mas se era viva, tudo ficava bem menos chocante e podia ser explicado. 
        - Sou. S recentemente. - Sarah baixou os olhos pudicamente, desejando que isso fosse verdade, porm no era. - Minha sobrinha deveria ter feito a viagem 
comigo. - disse ela, presumindo que Martha deveria ter visto Margarete soluando no cais, quando se separaram - mas estava amedrontada demais. Teria ficado histrica 
o tempo todo, at Boston. Eu simplesmente no tive coragem de for-la, embora tenha prometido a meus pais que a levaria comigo. Mas pareceu-me muito cruel obrig-la 
a cumprir o acordo, embora isso tenha me deixado numa situao delicadssima - esclareceu Sarah, parecendo mortificada. 
        E Martha Jordan sentiu-se instantaneamente solidria. 
        - Oh, meu bem, que coisa terrvel para voc, particularmente sendo viva recente. - E a coitadinha sequer tinha filhos. No fazia idia da idade que tinha, 
mas achou-a muito bonita, e calculou corretamente que ela deveria estar em meados da casa dos vinte anos. - Se pudermos ajud-la de alguma forma, por favor, informe-nos 
imediatamente. Talvez gostasse de nos visitar no Ohio. - Mas Sarah achava que no. Estava determinada a chegar a Boston. 
        -  muito gentil - disse Sarah, agradecendo-lhe, e ento entrou em sua cabine. 
        Usava um enorme chapu de seda preta, amarrado com um lao sob o queixo, e um vestido de l preta, que corroboravam sua histria, embora no parecesse algum 
que houvesse pranteado muito. Seus olhos literalmente danavam quando atingiram o mar alto e a Inglaterra desapareceu no horizonte. Durante os primeiros dias, a 
viagem foi bastante pacfica. Haviam levado alguns porcos e ovelhas para matar e comer durante a viagem, e o cozinheiro parecia estar se esforando com suas refeies. 
Mas Sarah notou que a tripulao era bastante barulhenta  noite. Jordan disse-lhe que todas as noites eles bebiam rum e ficavam completamente bbados. Sugeriu com 
muita firmeza que ela e sua prpria esposa deveriam ficar nas cabines aps a ceia. A maioria dos mercadores ficava no convs, batendo papo, e apesar de um pequeno 
enjo ocasional, pareciam estar todos de bom humor. 
        O capito MacCormack conversava regularmente com cada um deles. 
        Contara a Sarah que era do Pas de Gales, mas no disse que estava fascinado com sua beleza. Tinha mulher e dez filhos na Ilha de Wight, mas admitiu melancolicamente 
que era raro v-los. H dois anos que no botava os ps em casa. E s vezes achava difcil se concentrar, sempre que Sarah ficava parada no convs, fitando a imensido 
do mar, ou mesmo quando ficava sentada em silncio, em algum lugar, escrevendo em seu dirio. 
        Tinha aquele tipo de aspecto raro que levava os homens a se inflamar quando a olhavam, e a cada hora que se passava, eles ardiam mais. 
        O capito tinha certeza de que ela no fazia idia do efeito que causava em todos. Havia nela uma fora tranqila e uma humildade que s a tornavam mais 
atraente. Estavam h quase uma semana no mar quando foram atingidos pela primeira tempestade, e foi uma beleza. Sarah estava dormindo em seu beliche quando ela chegou, 
e um dos marinheiros entrou em sua cabine, dizendo que tinha de amarr-la  parede com as cordas que l estavam penduradas para esse fim. E Sarah ficou olhando para 
ele, pois estava muito amedrontada. Ele a havia despertado de um sono profundo e fedia a rum, mas suas mos foram gentis e seguras ao dar os ns, aps o que correu 
de volta ao convs para reencontrar os demais. E ela, prestando ateno, conseguia ouvir cada centmetro do pequeno navio gemendo e se distendendo debaixo deles. 
        Foi uma noite longa para todos, e todos os passageiros estavam extremamente enjoados do constante subir e descer do navio, e ela fechava os olhos e rezava 
cada vez que a nave se sacudia e tombava. Durante dois dias, ningum saiu da cabine, alguns por consideravelmente mais tempo, e uma semana aps a tempestade, Martha 
Jordan ainda no havia aparecido, e Sarah perguntou ao marido dela como Martha estava passando. 
        - Ela nunca foi muito resistente. Teve uma gripe que quase a matou, no ano passado. Tem estado muito enjoada, desde a tempestade - ele explicou, parecendo 
vago e um tanto preocupado. Tinha as mos ocupadas com Hannah. 
        Naquela tarde, Sarah bateu  porta da cabine e foi visitar-lhe a esposa. 
        Ela estava deitada no beliche, mortalmente plida, e havia um balde para vmito logo embaixo da cama. No era uma bela viso, e assim que Sarah ultrapassou 
a porta, a pobre mulher comeou a ter nsias. 
        - Oh, minha cara, permita-me ajud-la - disse Sarah, autenticamente preocupada, e era bvio que a pobrezinha sentia-se como se estivesse morrendo. 
        Sarah segurou-lhe a cabea, e quando Martha Jordan conseguiu voltar a falar, ficou sabendo que ela no estava s enjoada, estava grvida. Mas a notcia mais 
feliz para Sarah foi ela ter descoberto, justo no dia anterior, que no estava. Ficou imensamente aliviada ao se dar conta de que nunca mais voltaria a ter qualquer 
lao com Edward. Agora estava livre de verdade. E se ele quisesse um herdeiro, ia ter de encontrar uma outra mulher. Mas, ao olhar para a pobrezinha, tentando vomitar, 
segura em seus braos, Sarah entendeu que sua situao era inteiramente diversa. 
        - Podamos ter ficado na Inglaterra com a minha famlia at o beb nascer - disse Martha, tristonha, o corpo inclinado contra o de Sarah, os olhos fechados. 
- Mas Seth achou que devamos voltar a Ohio. - E ento comeou a chorar. - Vamos levar semanas para chegar at l, depois que atingirmos Boston. - E mesmo isso seria 
dali a dois meses, dois meses subindo, descendo e balanando no navio. 
        Sarah no conseguia imaginar nada pior nesse estgio de sua gravidez e dava mais graas do que nunca por no ter de enfrentar isso ela prpria. S o fato 
de saber que trazia dentro de si um filho de Edward a teria levado  loucura. Mas, ao baixar os olhos para Martha em sua aflio, voltou a mente para o que poderia 
fazer a fim de ajud-la. Primeiro, foi at sua cabine pegar um pouco de gua de lavanda que havia trazido e um pano limpo. E ficou banhando-lhe a fronte com aquela 
gua fresca e perfumada. Mas at mesmo um leve perfume a deixava nauseada. Tentou ento lavar o rosto da mulher e puxar-lhe o cabelo para trs. Despejou o balde 
de dejetos numa caamba vazia e prometeu voltar trazendo-lhe uma xcara de ch, se conseguisse convencer algum na cozinha a prepar-la. 
        - Obrigada - disse a pobre mulher -, voc no pode imaginar como . Fiquei enjoada o tempo todo em que esperei Hannah... - Mas Sarah conhecia isso muito 
bem, pois lhe acontecera com enorme freqncia, o que a tornou ainda mais solidria com aquela mulher. 
        E felizmente, aps uma xcara de ch e alguns biscoitos que o cozinheiro lhe forneceu, por volta do fim da tarde, sentiu-se efetivamente melhor e as nsias 
de vmito cessaram. Seth Jordan disse que Sarah era um anjo de piedade e fez-lhe agradecimentos profusos, ao que ela em seguida saiu, levando Hannah e brincando 
algum tempo com ela. Era um amor de criana, que s queria estar com a me. Sarah levou-a de volta para a me aps um pouquinho, mas Martha estava passando mal demais 
para poder cuidar da criana, estava vomitando novamente, e Hannah precisou voltar para o convs com o pai. Este estava conversando com alguns dos homens e fumavam 
charutos que um deles trouxera das ndias Ocidentais. Eram dos bons, e o odor era to pungente, mesmo ao ar marinho, que Sarah sentiu-se tentada a experimentar um, 
mas sabia que os homens iam consider-la uma vagabunda.
        Contou a Seth Jordan, o mais delicadamente possvel, como a mulher dele piorara, e este agradeceu-lhe por estar fazendo o possvel para ajud-la. Depois 
disso, tiveram mais alguns dias calmos e foram ento atingidos por outra tempestade, aps o que s voltariam a ver bom tempo duas semanas depois. Tambm nem viram 
muitos dos passageiros fora de suas cabines. Estavam a bordo h trs semanas e meia, e o capito calculava que j haviam cumprido metade da viagem. Desde que no 
fossem atingidos por nenhuma tempestade realmente feia, iriam levar um total de sete semanas para chegar a Boston. Apesar do mau tempo, Sarah s vezes passeava pelo 
convs, erguendo os olhos para as velas e observando o trabalho da tripulao. 
        E no conseguia deixar de imaginar o que Edward teria achado de seu desaparecimento. 
        Perguntou-se se, a essa altura, ele teria se dado conta, ou se Margarete lhe teria contado para onde ela fora, ou se teria cumprido sua promessa. Mas no 
havia nada que ela pudesse fazer agora. Ele no tinha como for-la a voltar. No podia fazer nada. S podia odi-la, e j a odiava antes, mesmo, por isso ela no 
via praticamente qualquer diferena. Certa manh, um outro passageiro corajoso juntou-se a ela, um dos mercadores, Abraham Levitt. 
        - Tem parentes em Boston? - perguntou-lhe. 
        Era um homem prspero, que se sara muito bem no comrcio. Era exatamente o tipo de homem que nunca teria conhecido antes, e estava fascinada por poder ser 
capaz de conversar com ele e ficar sabendo de todas as suas viagens e negcios, bem como jornadas pelo Oriente e pelas ndias Ocidentais. E ele ficou impressionado 
com as perguntas que ela lhe fez. Sarah era um tipo de mulher incomum. E ela tentou continuar a perguntar a todo mundo tudo que podia a respeito de Boston e das 
colnias ao norte e oeste. Queria saber tudo sobre os ndios, os fortes e as pessoas em Connecticute e Massachusetts. Tinha lido a respeito de um lugar pitoresco 
chamado Deerfield, onde havia cachoeiras e uma paliada bastante elaborada, assim como ndios, lugar que muito a intrigou. 
        - Vai estar visitando algum por l? - perguntou, ao ficar sabendo que ela no tinha nenhum tipo de relacionamento em Boston. 
        - Acho que talvez um dia eu queira comprar uma fazenda por l - disse ela pensativa, correndo o olhar pelo mar, como se estivesse tentando se decidir, e 
ele a fitou, consternado. 
        - No pode fazer isso. No pode simplesmente comprar uma fazenda. Ora, uma mulher sozinha s ir arranjar problemas. Como ia gerir a fazenda? E os ndios 
iriam carreg-la da primeira vez que a vissem. - Era o que ele gostaria de fazer, mas o capito MacCormack comandava um navio de extrema compostura, ao contrrio 
de alguns, e ficava paternalmente de olho em Sarah. 
        Todos eles se haviam decepcionado. Ela era to bela que s vezes s queriam poder olh-la e ficar perto dela. s vezes esbarravam nela s para poderem estender 
o brao e toc-la. Todos os homens estavam conscientes disso e Sarah nem de longe suspeitava. 
        - No creio que os ndios vo me carregar - disse ela, rindo para ele. 
        Era um homem agradvel. Ela sabia que tinha esposa em Connecticut, e que estava no incio da casa dos trinta anos. E era bvio, pelo empreendimento que dirigia, 
que iria ganhar um monte de dinheiro. Admirou-o por isso, embora soubesse que no devia. Sabia que as coisas eram diferentes na Amrica, e esperava que um dia, num 
lugar assim, ele fosse respeitado por tudo que havia realizado, o que disse a ele, parados junto  murada, conversando at o jantar. 
        -  uma mulher notvel, Sra. Ferguson. A senhora realmente me agrada - disse ousadamente. 
        E ento o primeiro-imediato anunciou que o jantar estava servido. Abraham Levitte acompanhou-a at o salo. Seth e Hannah Jordan j haviam chegado, fazia 
semanas que Martha no vinha jantar. Nunca mais deixara a cabine, e todas as vezes em que Sarah a viu achou que ela parecia muito doente e muito frgil. Era assustador 
v-la. Mas nem mesmo o farmacutico parecia ter alguma idia de como seria possvel ajud-la. Ele havia exaurido todos os seus remdios. E Sarah tambm. Sarah teve 
um jantar animado com todos eles, como sempre acontecia, todos trocando histrias, lendas e narrativas, e at mesmo histrias de fantasmas. Concordaram em que Sarah 
contava as melhores. E contava tambm as melhores histrias infantis. Naquela noite contou uma para Hannah e ajudou-a a ir para a cama, de forma a que o pai pde 
ficar no dique acordado, com os outros homens. E, na sua cabine, Martha estava dormindo. Estava vomitando h semanas, e parecia estar-se desmilingindo diante de 
seus olhos, mas ningum tinha como ajud-la. Mas Sarah imaginou que outras mulheres haviam passado por isso antes. Pelo menos foi o que disse o capito. Ningum 
jamais havia morrido de enjo martimo. Mas a tempestade que os atingiu naquela noite a fez duvidar disso. 
        O capito MacCormack disse mais tarde que havia sido uma das piores que j havia enfrentado. Durou trs dias, e todos os marinheiros no dique tiveram que 
ser amarrados aos mastros, os passageiros presos nos beliches das cabines, sendo que dois homens foram varridos da amurada, tentando salvar as velas. Um deles havia 
sido dilacerado ao meio, e em torno deles havia equipamento flutuando por toda a parte. E desta vez, quando o navio desceu na crista de um vagalho, deu a impresso 
de que iria se arrebentar nas rochas. O Concord sacudiu-se to fortemente ao atingir a gua que deu a impresso de que cada um de seus pedaos de madeira iria se 
lascar. Desta vez, at mesmo Sarah ficou atemorizada, e ela chorou em seu beliche, imaginando se no iria pagar pela lngua e morrer afogada no mar, em vez de ficar 
com Edward. Mas, ainda que isso acontecesse, ela no o lamentava. No quarto dia, o sol saiu e o mar se acalmou um pouquinho, embora no completamente. E quando os 
passageiros saram de suas cabines depois disso, todos pareciam mais do que um pouco abalados. Todos, exceto Abraham Levitt. 
        Ele disse que j havia passado por tempestades bem piores, a caminho do Oriente, e contou histrias que deixaram a todos horrorizados. Todos pareciam um 
pouco fracos e plidos. Mas, quando Seth e Hannah subiram, pareciam terrivelmente preocupados, e ele veio encontrar Sarah.
        -  a Martha - disse ele, com ar frentico. 
        - Ela no est bem. Acho que ela est delirante... H dias que no toma sequer um gole de gua, e parece que no consigo convenc-la.
        - Precisa tentar - disse Sarah, com um olhar preocupado. 
Sabia que mulheres haviam morrido de desidratao. Mas o farmacutico sacudiu a cabea. 
        - Ela devia ser sangrada.  uma lstima no termos um mdico a bordo para faz-lo. 
        - Vamos nos virar sem isso - disse Sarah com firmeza, descendo para verificar o estado da nica outra mulher a bordo. 
        Mas Sarah ficou ainda mais chocada ao v-la. A pobre mulher estava acinzentada, os olhos afundados no crnio, e sussurrava baixinho. 
        - Martha. - Sarah falou-lhe suavemente, mas a outra no deu sinal de t-la ouvido. - Martha. voc precisa melhorar agora. Vamos, tentemos tomar um pouquinho 
d'gua. - Levou uma colher com gua aos lbios de Martha e tentou for-la a beber, mas a gua apenas correu-lhe pelas bochechas e pelo peito, ela no quis beber. 
        Sarah ficou sentada com ela quatro horas naquela noite, tentando forar-lhe um pouco d'gua pela garganta, mas Martha sequer a reconheceu, nem falou com 
coerncia, e em momento algum tomou um nico gole, apesar de todos os esforos de Sarah. 
        J era tarde quando o marido finalmente voltou para baixo, trazendo Hannah quase adormecida em seus braos. Pousou-a no beliche que dividia com ela, e Hannah 
adormeceu instantaneamente, enquanto Sarah e Seth se esforavam freneticamente com Martha. Mas, pela manh, era bvio que o inevitvel iria acontecer. Tinham feito 
tudo que fora possvel, mas no havia jeito de fazer voltar a mar. Martha, a essa altura, estava no quarto ms de gravidez, e to lamentavelmente frgil que Sarah 
teve certeza de que se ainda restasse energia em seu corpo para lutar por si mesma, energia para se defender, ela seguramente teria perdido o beb. Talvez ele j 
estivesse at morto. No havia meio de saber. E, exatamente quando o sol se ergueu, ela abriu os olhos e sorriu pacificamente para o marido. 
        - Obrigada, Seth - disse com doura e deu o ltimo suspiro, e quando ele a segurou, j estava morta. 
        Foi a coisa mais triste que Sarah j tinha visto, a no ser quando seus prprios bebs haviam morrido. Mas este acontecimento tinha um travo de tristeza 
que a comoveu profundamente. Quando Hannah acordou, pouco depois disso, virou-se e olhou para a me. Sarah a essa altura j lhe havia penteado os cabelos, tendo 
amarrado um leno de gaze em torno do pescoo da mulher, que de fato parecia quase bela. 
        - Ela melhorou? - perguntou a menina, esperanosa. 
        Martha tinha o ar de quem estava dormindo. 
        - No, minha querida - disse Sarah com lgrimas nos olhos. 
        No tinha vontade de se meter na vida deles, mas Seth no lhe permitira deix-los. 
        - Ela no. - Ela esperou que Seth dissesse algo, mas ele no disse. 
        Lanou-lhe um olhar suplicante atravs das lgrimas e seus olhos pediam a Sarah que contasse a ela. 
        - Ela agora est l em cima, no cu. Veja como sorri. Ela est com os anjos. - Exatamente como seus prprios bebezinhos. 
        - Lamento tanto - disse ela, com os olhos cheios de lgrimas por essa mulher que ela mal havia conhecido, mas por quem se sentia to triste. Ela jamais veria 
a filha crescer e se tornar mulher. Jamais voltaria a Ohio. Ela os havia deixado. 
        - Ela morreu? - perguntou Hannah, com os olhos arregalados, passando de Sarah para o pai, e ambos assentiram com a cabea. E ento ela comeou a chorar pela 
me. 
        Finalmente, fizeram-na subir para o convs, aps Sarah t-la vestido, e Seth teve de conversar com o capito sobre o que iriam fazer com Martha. O capito 
sugeriu que ela fosse deixada em sua prpria cabine at ao meio-dia, e eles ento providenciaram um funeral no mar. Era a nica coisa que poderiam fazer, e Seth 
detestava simplesmente pensar nisso. Ele sabia o quanto ela sempre desejou ser enterrada em sua fazenda ou com sua prpria famlia, na Inglaterra. 
        - No temos escolha, nesse caso - explicou-lhe o capito com toda a franqueza. - No podemos guard-la at chegarmos a Boston. No podemos fazer isso. Vai 
precisar enterr-la aqui. 
Era raro para eles terem uma viagem sem um funeral. Ou de um passageiro, ou de um membro da tripulao. Algum sempre adoecia, ou sofria um acidente, ou caa da 
amurada. Era de se esperar quando se viajava a uma grande distncia, e todos sabiam disso. Mas, ainda assim, foi um choque quando aconteceu. 
        Dois marinheiros subiram o corpo de Martha at a cabine do capito e envolveram-na num lenol que levaram para esse fim. Puseram pesos no que se tornou sua 
mortalha e, ao meio-dia, ela foi trazida e colocada numa prancha, enquanto o capito dizia uma prece por ela, e o ministro assumia. Ele leu uma passagem dos Salmos, 
e falou sobre a mulher decente que ela tinha sido, embora nenhum deles a conhecesse de verdade. Ento os homens inclinaram lentamente a prancha por uma das pontas, 
e o corpo escorregou para o mar, enquanto o navio passava veloz pelo ponto onde a haviam despejado. E, pesado como o corpo estava, ela desapareceu antes que eles 
houvessem sequer sado de l, com a pobre pequena Hannah gritando pela me. Ela soluou durante horas nos braos de Sarah, e Seth parecia ter feito o mesmo, quando 
voltou  cabine de Sarah para agradecer-lhe. Tinha sido um dia difcil para todos eles, e ela estava deitada em seu beliche, com dor de cabea. Mas voltou a levantar-se 
para conversar com Seth Jordan. Lamentava por ele e, por causa de Seth e de Hannah, esperava que chegassem a Boston bem depressa. J era tempo. Estavam a bordo h 
cinco semanas e meia, e ela tinha esperana de que na prxima semana ou nos prximos dez dias veriam Boston no horizonte. 
        - Pode ir para o Ohio connosco, se quiser - disse ele meio sem jeito, e ela sentiu-se comovida pelo convite. 
        Nas ltimas semanas se acostumara a gostar deles, particularmente de Hannah. - Vou ter muitas dificuldades em tomar conta dela, agora - disse ele, numa tentativa, 
e Sarah perguntou-se se ele iria voltar  Inglaterra, para os parentes de Martha, de forma que estes pudessem ajud-lo. Mas tinha certeza de que dificilmente estariam 
ansiosos para empreender uma nova jornada atravs do Atlntico. 
        - Acho que vou ficar em Massachusetts - disse ela, sorrindo para ele. 
        - Voc pode me visitar na minha fazenda, quando eu a tiver. - No disse que primeiro tinha que vender mais algumas jias, e esperava que algum em Boston 
quisesse compr-las por um bom dinheiro. 
        - Existem mais terras a melhores preos no Ohio. - Mas Sarah sabia que era uma vida mais dura e os ndios menos pacficos. 
- Talvez voc v para o Oeste nos ver. - disse ele esperanoso, e ela assentiu com a cabea, e ofereceu-se para tomar conta de Hannah para ele naquela noite, mas 
Seth disse que ele e a filha queriam ficar juntos. 
        Mas, durante a semana seguinte, a garotinha agarrou-se a ela, e Sarah, ao envolv-la com os braos, sentia-se como se seu corao estivesse partido. Ela 
estava ansiosa pela me, e Seth parecia desolado  medida que cada dia se passava. E finalmente, certa noite, ele conversou com Sarah. Tinham passado sete semanas 
no navio. Ele batera em sua porta, aps deixar Hannah adormecida em sua prpria cabine. Ela estava inconsolvel desde a morte da me, e a nica pessoa com quem queria 
estar agora era Sarah. 
        - No sei como voc vai se sentir a respeito disto - disse ele, parecendo ansioso, girando o olhar pela pequena cabine. Ela estava usando um quimono de seda 
azul sobre a camisola. - Talvez lhe parea estranho, mas andei pensando um bocado sobre isto desde que Martha morreu. - Ele estava comeando a tropear nas prprias 
palavras, e Sarah comeava a se preocupar, pressentindo o que viria em seguida. Gostaria de poder t-lo detido, mas no sabia como faz-lo. - Estamos ambos mais 
ou menos na mesma situao, isto , com Martha, seu marido e tudo isso, isto , voc sabe como . s que no sabe, porque eu tenho a Hannah, no posso continuar 
a fazer isto sozinho - disse ele, lgrimas enchendo seus olhos. - No sei o que vou fazer sem ela. Sei que esta no  a maneira certa de dizer. e tenho certeza de 
que h meios melhores de pedir. Mas Sarah, gostaria de se casar comigo e vir conosco para o Ohio?
        Martha morrera h dez dias, e Sarah ficou momentaneamente sem palavras ao ouvi-lo. 
Lamentava desesperadamente por ele, mas no o suficiente para querer despos-lo, ainda que pudesse. Ele precisava era de uma moa que trabalhasse para ele, ou uma 
mulher que quisesse despos-lo, talvez uma de suas amigas, quando voltasse para casa, ou uma viva como ela fingia ser. Mas, para Sarah, isso estava fora de questo, 
e ela sacudiu gentilmente a cabea enquanto o fitava consternada. 
        - Seth, eu no posso - disse ela com firmeza. 
        - Sim, pode. Hannah a ama, ainda mais do que a mim. E vamos nos habituar um ao outro, no devido tempo. Eu no esperaria demais, no a princpio, sei que 
isto  apressado, mas, chegaremos logo a Boston, e eu tinha de lhe pedir. 
        Suas mos tremiam quando ele a tocou, mas ela estava muito segura. No queria confundi-lo. No havia a possibilidade de ela se casar com Seth Jordan. 
        -  impossvel. Por muitos motivos. Fico muito lisonjeada, mas no posso. 
        Alguma coisa em seus olhos disse a ele que falava srio. Essa era a ltima coisa que ela queria, ainda que ele fosse um homem gentil e Hannah uma doura 
de criana. Ela agora queria sua prpria vida. Viera para isso, e nada iria faz-la mudar de objetivo.Alm do mais, ainda tinha marido, que estava bastante vivo, 
infelizmente, na Inglaterra. 
        - Desculpe-me. Talvez eu no devesse ter pedido. S achei, que sendo voc viva e tudo mais. - Ele corava furiosamente e tentava recuar da cabine dela enquanto 
Sarah o reconfortava. 
        - Est tudo bem, Seth. Eu compreendo. - Ela sorriu-lhe e fechou a porta e sentou-se em seu beliche com um suspiro. 
        J era tempo de chegarem a Boston. J tinham passado no navio tempo suficiente. Na verdade, tempo demais.

CAPTULO 10

        NO FINAL, A TRAVESSIA levou exatamente sete semanas e quatro dias. O capito disse que poderia ter levado menos tempo, mas haviam enfrentado vrias tempestades, 
e ele quis seguir viagem com cautela. Mas todos os desconfortos da jornada foram rapidamente esquecidos quando avistaram terra e todo mundo comeou a gritar e a 
correr pelo convs. Fazia quase dois meses que haviam partido da Inglaterra. Era o dia 28 de outubro, 1789. E o tempo em Boston estava fresco e ensolarado. Os passageiros 
desembarcaram na calada comprida do ancoradouro, parecendo um pouco inseguros ao pisarem em cho firme, e todos riam e falavam animadamente. O porto era um verdadeiro 
torvelinho de empolgao. Havia colonos, homens uniformizados e soldados da guarnio. Havia centenas de pessoas vendendo coisas e animais sendo levados e retirados 
dos navios. Carroas eram carregadas, e carruagens transportavam passageiros de e para os barcos a toda a volta. 
        E o capito MacCormack foi muito solcito para com ela, ajudando-a a organizar seus pertences e a alugar uma carruagem para lev-la  penso que ele havia 
recomendado. Outros seguiam para procurar diligncias, ou alugar cavalos, para poderem chegar em casa ou s penses prximas. Abraham Levitte fez questo de se despedir 
dela, e o farmacutico, o ministro que seguia para o Oeste e vrios dos marinheiros vieram dar-lhe um aperto de mos. E ento a pobre pequena Hannah lanou os braos 
em torno das pernas de Sarah e pediu-lhe que no a deixasse. Mas Sarah explicou que precisava e prometeu escrever-lhe, embora uma carta pudesse levar muito tempo 
para alcan-la, mas ela iria tentar. Beijou-a e ficou abraada com ela por um longo momento, e ento ergueu-se e trocou um aperto de mos com Seth. Ele ainda estava 
levemente constrangido com ela. Gostaria que tivesse concordado em despos-lo, e fosse para o Ohio a fim de viver com eles em sua fazenda. Era uma mulher de uma 
beleza fantstica, que alm de tudo havia sido muito gentil com sua filhinha, e ele iria sonhar com ela por um longo tempo. 
        - Cuide-se - disse Sarah baixinho, com a voz a que ele se afeioara tanto.
        - Voc tambm, Sarah. No v fazer bobagem. Tenha cuidado, se for comprar uma fazenda. No escolha nada muito longe da cidade. 
        - No vou - disse ela, sabendo que estava mentindo. 
        Era exatamente isso que ela queria, saborear a embriaguez e a independncia dessa nova terra. De que serviria a ela comprar uma casa em algum ponto da cidade, 
ou estabelecer-se na paliada, ou bem vizinha  guarnio? Queria um lugar onde pudesse se movimentar e usufruir a liberdade. Subiu na carruagem que o capito MacCormack 
havia encontrado para ela e ele orientou-a para que fosse at a casa da viva Ingersoll, na esquina de Courte e Tremont. Ela no tinha reserva, no conhecia ningum, 
no tinha planos. Mas sequer sentiu-se amedrontada ao despedir-se de todos eles com um aceno e seguir lentamente do porto pela State Streete acima, entrando em Boston. 
Alguma coisa lhe dizia que, ali, tudo iria correr bem.

        E, quando leu a ltima linha da anotao daquele dia em particular, Charlie reclinou-se no assento, pensou em como ela era corajosa e quase chorou. No houvera 
nada que a tivesse amedrontado. Havia passado por tantas dores, e ainda estava disposta a enfrentar mais. Nunca teve medo de tentar. S em pensar na viagem dela 
no Concord o aterrorizou. Tinha certeza de que ele prprio jamais teria sobrevivido. Ela era absolutamente impressionante, e ficou imaginando onde ela iria comprar 
sua fazenda. Era como ler o melhor romance de sua vida, mas a melhor parte era que os personagens eram todos reais, e tudo havia acontecido. Ele ergueu-se, espreguiou-se 
e pousou o dirio. 
        A essa altura, j conhecia a caligrafia to bem que podia l-la to facilmente quanto a sua prpria. E ao olhar para o relgio ficou surpreso ao ver como 
o dia havia voado. Ainda queria passar pela casa de Gladys Palmer, e tinha de ir  sociedade histrica para devolver os livros que pegara na semana anterior. Ficou 
imaginando se Francesca estaria l. Tomou uma xcara de ch com Gladys quando foi pegar o livro, morrendo de vontade de contar-lhe o que havia encontrado no sto. 
Mas queria l-los todos e pensar a respeito deles, antes de partilh-los com qualquer pessoa, at mesmo com Gladys. Era como se, por enquanto, Sarah lhe pertencesse. 
Era mais do que um pouco estranho dar-se conta de que estava fascinado por uma mulher que morrera h tanto tempo. Mas a leitura de suas palavras, suas aventuras 
e seus sentimentos trouxe-a at ele, mais real do que qualquer mulher viva. Bateram papo a respeito de algumas novidades da cidade. Gladys sempre tinha montes de 
coisas para contar-lhe. 
        Uma de suas amigas tivera um ataque cardaco na tarde anterior, e uma velha conhecida, de tempos passados, escrevera-lhe de Paris. E ouvi-la falar da Frana 
o fez lembrar-se de perguntar-lhe sobre Francesca. Ela disse t-la visto uma ou duas vezes e que, quando ela chegou, todo mundo na cidade havia comentado como ela 
era bonita. Mas tinha fama de ser muito fechada, e ningum parecia conhec-la de verdade. Gladys no fazia idia de por que ela fora para l. 
        -  uma bela mulher, no entanto - disse, com admirao cautelosa. 
        Ele concordava com isso, mas gostaria de ter sabido mais sobre ela. Francesca o intrigava, e ele estava encantado com sua filha. 
        Deixou Gladys logo depois das quatro e meia, mas quando chegou  sociedade histrica, j estava fechada, e ele ficou parado do lado de fora com os livros 
na mo, sem ter onde deix-los. 
        Pensou em larg-los na escada da frente, mas receou que pudessem ser roubados ou ficar estragados, caso nevasse. Portanto, colocou-os de volta no carro, 
e parou no armazm e no shopping center, a caminho de casa, prometendo-se voltar no dia seguinte, ou no dia imediatamente posterior. 
Estava comprando seus cereais, quando ergueu os olhos e viu Francesca. Isto o fez lembrar-se de sua conversa com Gladys sobre ela. 
Ela pareceu hesitar antes de sorrir, e ento, parecendo cautelosa e um pouco amedrontada, disse al a Charlie com um breve e cuidadoso aceno de cabea. 
- Perdi voc por pouco - disse ele, muito descontrado, colocando na cesta o cereal que queria, e notou que ela estava sozinha. No havia sinal da filha. - Tentei 
devolver os livros. Volto daqui a um ou dois dias. 
Ela assentiu com a cabea, parecendo novamente sria, e no entanto havia algo em seus olhos que era mais caloroso do que da ltima vez em que haviam se encontrado. 
Ele no tinha certeza do que era, mas neles no viu o terror que percebera em seus olhos quando convidou-a para uma bebida na vspera do Ano-Novo, e ficou imaginando 
o que havia mudado, se  que algo mudara. 
    O que aconteceu  que ela havia pensado um bocado a esse respeito e percebido que tinha sido de fato grosseira com ele. No queria firmar amizade com ele, mas, 
teve de admitir, ele foi incrivelmente legal com Monique, e no havia motivo para esnob-lo por completo. E, uma vez que ele no parecia ser de alguma forma desagradvel, 
obviamente havia sido legal com a criana por ter bom corao. Havia concludo tudo isso depois da ltima vez que se encontraram. 
-        Como foi a vspera de Ano Novo? - perguntou ela, esforando-se para que a voz no sasse nervosa. 
    - tima - disse ele, com o sorriso que a maioria das mulheres adorava e ele fingia no perceber. - Fui dormir. E voltei para a casa no dia seguinte. Andei muito 
ocupado nos dois ltimos dias, ajeitando-me na casa. - E lendo tudo a respeito de Sarah, mas no lhe disse nada a esse respeito. Ainda era o seu segredo. 
    - Encontrou mais alguma coisa sobre Sarah e Franois? - Foi s uma pergunta casual, mas ela surpreendeu-se por v-lo quase pular ao ouvi-la. 
 Charlie agarrou-se imediatamente  primeira coisa que lhe ocorreu, para tentar alterar o rumo da conversa, fazendo-o voltar a ela. - Monique disse que voc escreve. 
- Sabia que a mera pergunta provavelmente a deixaria constrangida e a manteria afastada por um pouco de tempo, mas desta vez ele se surpreendeu. 
        Uma expresso mais calorosa passou pelo olhar dela, em resposta  sua pergunta. 
        -  s um pequeno material sobre as tribos indgenas locais. Estou escrevendo a minha tese. Mas pensei em depois, se eu conseguir bastante coisa, transform-la 
num livro. 
        Est um bocado seca. Ao contrrio dos dirios de Sarah, que o haviam derrubado. No conseguia evitar imaginar o que Francesca acharia se soubesse deles. 
        - Como est Monique? - perguntou ele, fugindo de uma conversa. 
        Podia senti-la observando-o com interesse e tentando descobrir se ele era amigo ou inimigo. Parecia uma coisa to triste, ter medo de tudo que surgisse em 
sua vida. Era to diferente do que ele lera de Sarah em seus dirios. Nada conseguira amedront-la ou det-la, nem mesmo Edward com toda a sua crueldade brutal, 
embora devesse admitir que at mesmo ela levara algum tempo para fugir dele. No sara porta afora da primeira vez em que ele a espancara. Levara oito anos para 
abandon-lo, mas graas a Deus o fizera. Charlie estava louco para ler sobre o encontro dela com Franois. 
        - Monique est tima - respondeu Francesca. - Ela quer voltar a esquiar. - Seu primeiro instinto foi oferecer-se para lev-la, mas ele sabia que no podia 
fazer isso. Francesca teria fugido na mesma hora. 
        Ele precisava contorn-la com extrema cautela, e parecer no estar dando a mnima importncia para como reagiria. No estava certo sequer de por que esforava-se 
tanto para no espant-la, dizia a si mesmo que era porque gostava muito da menininha. Mas at ele sabia que era mais do que isso. Perguntou-se se no estaria se 
sentindo atrado pelo desafio. Mas detestava sequer admitir algo to bvio. 
        - Ela  uma esquiadora to boa - disse ele, com admirao. 
        Era uma garotinha maravilhosa e, desta vez, quando Francesca sorriu-lhe, seus olhos foram mais calorosos. Ela comeou a dizer algo enquanto seguiam juntos 
para o caixa, e ento ela refletiu melhor e parou. 
        - O que voc ia dizer, agora mesmo? - Ele resolveu pegar o touro  unha e ver se conseguia for-la a retroceder e a ser mais aberta. 
        - Eu. eu ia dizer que lamento ter sido to desagradvel, naquele dia em que nos conhecemos em Charlemont... no almoo... s que no a quero saindo com estranhos, 
ou deixando as pessoas pagarem por coisas que possam faz-la sentir-se devedora de formas que ela ainda no compreende. 
        - Eu sei - disse ele baixinho, fitando-a direto nos olhos, e percebeu que ela comeava a recuar, mas desta vez Francesca se manteve firme. 
        Era como se ele a houvesse atrado para fora de seu esconderijo na floresta, e ela era uma jovem cora adorvel, parada muito quieta, prestando uma ateno 
cuidadosa a cada rudo. 
        - Compreendo. 
        Ele sorriu e, quando ela desviou o olhar, viu dor em seus olhos. Que coisa to horrvel tinha lhe acontecido? Quo pior pode ter sido do que aquilo a que 
Sarah sobrevivera? Seria pior do que o que Carole fizera a ele com Simon? Por que o corao dela seria to especial? Por que seria to mais frgil? 
        -  muita responsabilidade ter uma filha - disse ele, enquanto esperavam na fila. 
        Era um modo de ele lhe dizer que respeitava o que ela estava fazendo. Havia outras coisas que gostaria tambm de ter dito, mas duvidava que viesse a ter 
a oportunidade. Mas era a nica mulher de idade prxima da sua que conhecia ali. As outras tinham ou oito ou 87 anos, como Monique e Gladys, ou Sarah, que j tinha 
morrido. Francesca era a nica mulher viva, real e adequada, e ele calculou que, se no tentasse pelo menos conversar com ela de vez em quando, perderia por completo 
o jeito. Era um motivo engraado para fazer amizade com ela, mas  medida que se aproximavam da caixa na ponta do balco, Charlie disse a si mesmo que isso fazia 
sentido. Melhor ainda teria sido se duas pessoas magoadas, prejudicadas, pudessem fazer amizade ali. Mas seria pedir muito de Francesca. 
        Nenhum dos dois fazia a menor idia do que havia acontecido na vida um do outro. Ele s sabia do que entrevira, graas a Monique, sobre quando ela vivia 
em Paris. Sem dizer mais nada, ele a ajudou a botar suas compras sobre o balco. Ela havia escolhido hambrgueres, bifes e frango, pizza congelada, sorvete, marshmallows, 
trs tipos de biscoitos, montes de frutas e legumes e um enorme engradado de leite. Ele suspeitou que fosse tudo de que Monique gostava. Ele s tinha gua gasosa, 
comida congelada, sorvete e o cereal que estava comprando quando a conhecera. Era obviamente comida de solteiro, e ele sorriu quando ela deu uma olhada na cesta. 
        - No se pode chamar exatamente de comida saudvel, Sr. Waterston. - Ele espantou-se ao ver que ela se lembrava do seu sobrenome. 
        No achava que houvesse prestado tanta ateno. 
        - Eu como fora com freqncia. - Ou pelo menos comia, em Londres e Nova York, mas talvez, ali, ela estivesse certa de parecer to surpresa quando ele disse 
isso. 
        - Eu adoraria saber onde - disse ela, com uma risadinha, embora ambos soubessem que havia muitos restaurantes bem legais em Deerfield, mas muitos estavam 
fechados, especialmente nos meses de inverno, e a maioria dos habitantes ficava em casa, exceto pelas ocasies especiais. Na maior parte do tempo, fazia frio demais 
para estar saindo e Francesca fitou-o divertida. 
        - Acho que vou ter de comear a cozinhar de novo - disse ele, pensativo. - Volto amanh para comprar mais coisas. - Ele pareceu um rapazinho quando ela lhe 
deu um sorriso a que ele retribuiu e ficou esperando para ajud-la a carregar as compras para o carro. 
        Ela estava com trs sacolas pesadas e, embora parecesse natural, assumiu um ar constrangido, de qualquer forma, ao receber a ajuda dele. Ele a ajudou a pr 
as bolsas no banco traseiro, fechando ento a porta e baixando os olhos para Francesca. 
        -Diga ol a Monique por mim - disse ele, mas no lhe contou que voltaria ainda, nem prometeu passar em sua casa, sequer se ofereceu para telefonar-lhe. Ela 
entrou no carro com um sorriso cauteloso, mas desta vez sem parecer to aterrorizada. E ele no conseguiu deixar de imaginar, ao caminhar de volta a seu carro, o 
que seria preciso para derreter aquele gelo.

CAPTULO 11

    QUANDO OLHOU PELA janela, Charlie viu que era mais um dia de neve pesada. E hoje no havia sequer o pretexto de trabalhos para fazer. O que ele queria era voltar 
para os dirios de Sarah e descobrir o que lhe acontecera quando ela desembarcou do navio, em Boston. Mas ficou parado  janela por um momento, com o pequeno volume 
de couro nas mos, pensando em Francesca. No conseguia evitar ficar imaginando que tipo de mulher ela era, ou exatamente o que a trouxera de volta da Frana, e 
por que estava em Shelburne. Parecia um lugar estranho para uma mulher que obviamente um dia tivera um estilo de vida sofisticado. Tambm se perguntava se um dia 
a conheceria o suficiente para perguntar. E ento, voltando a tir-la da mente, sentou-se em sua nica poltrona confortvel e deixou-se novamente absorver pela letra 
bem-feita e floreada de Sarah. Em menos de um minuto, tinha se esquecido de tudo, menos de Sarah. 

Quando chegou a Boston, Sarah ficou na Penso Ingersoll, esquina das ruas Courte e Tremont. Era confortvel, bastante grande, com quatro andares, e o capito MacCormack 
sugerira que ela ficasse l. Na verdade, George Washingtom se hospedara l apenas uma semana antes e a achara muito agradvel. Mas a Sra. Ingersoll e sua governanta 
ficaram surpresas quando Sarah se registrou com apenas duas malas e nenhuma acompanhante. Sarah explicou que era viva, tinha acabado de chegar da Inglaterra e, 
no ltimo momento, sua sobrinha adoecera muito, ficando impossibilitada de fazer a viagem. A mulher que dirigia o hotel solidarizou-se imediatamente com sua histria 
e pediu  governanta que a levasse a seus aposentos. Recebeu uma bela e ampla sute de dois quartos, com uma sala de estar decorada com pesados brocados vermelhos 
e um quarto de dormir adjacente a esta, todo em cetim cinza plido. Era um quarto ensolarado, com vista para a Scollay Square, e, ao longe, podia-se ver o porto. 
L era na poca uma cidade movimentada e ela adorava passear por toda parte, olhar as lojas e ficar ouvindo as pessoas. 
        Escutava muito sotaques irlandeses e ingleses, como o dela prpria. A maioria dessas pessoas compunha-se de soldados, comerciantes e trabalhadores que tinham 
vindo da Europa. Havia muito poucas pessoas como ela pelas ruas e, mesmo com roupas simples, ficava mais do que bvio que se tratava de uma mulher aristocrtica 
e bem-nascida. Ainda estava usando os vestidos simples que trouxera para vestir no navio, a touca a essa altura j estava bem castigada e, aps os primeiros dias 
dando espiadas aqui e ali, pediu  Sra. Ingersoll que lhe recomendasse algumas lojas. Precisava mandar fazer algumas roupas quentes, pois l era bem frio, e alm 
do casaco onde havia escondido as jias, no havia nada apropriado para usar em Boston. Encontrou uma pequena costureira na Uniom Street e examinou alguns desenhos 
que uma das clientes trouxera da Frana no ano anterior. Era uma grande dama, que comprava a maioria de suas roupas na Europa, mas tinha tambm cinco filhas, a costureira 
havia copiado modelos para elas e Sarah ficou bastante satisfeita com as imitaes. Encomendou meia dzia de vestidos e a costureira sugeriu uma chapeleira que poderia 
fazer os chapus que combinassem com eles. Os vestidos que Sarah via em Boston eram, na maioria, mais simples do que os que costumava usar na Inglaterra. E eram 
muito, muito mais simples do que os que as mulheres usavam na Frana. As francesas que conhecia sempre tiveram vestidos maravilhosos. 
        Mas agora que a revoluo havia comeado l, quatro meses antes, ningum estava mais preocupado com roupas, as questes imediatas eram mais importantes. 
Mas Sarah agora no precisava de alta moda para a vida que levava em Boston. Precisava de roupas srias, teis, que fossem prticas e parecessem dignas e adequadas 
 sua nova condio de vida como viva. 
        Na verdade, a fim de convencer todo mundo disso, a maior parte do que encomendou da costureira era em preto e um pouco sombrio. Mas no conseguiu resistir 
a um vestido de veludo realmente lindo, e pediu para faz-lo em azul-escuro, quase que exatamente da cor de seus olhos. No conseguiu imaginar onde o usaria. No 
conhecia ningum l, por enquanto, mas achou que poderia acabar conhecendo algumas pessoas, tendo de comparecer a um baile ou a algumas reunies, e no queria parecer 
uma desmazelada total, por isso permitiu-se um vestido de veludo azul. A costureira prometeu aprontar a maioria das peas em uma ou duas semanas. S o vestido de 
veludo azul, mais complicado,  que no ficaria pronto antes do fim do ms. Mas ela receberia o resto bem depressa e, depois da costureira, foi ao banco. L, tambm 
explicou sua situao, sua viuvez, sua chegada recente da Inglaterra, sua falta de ligaes na cidade e admitiu discretamente que no devido tempo gostaria de comprar 
uma fazenda fora de Boston. 
        - E como  que iria dirigi-la, Sra. Ferguson? - perguntou Angus Blake, o gerente do banco, com um olhar de preocupao. - Administrar uma fazenda no  pouca 
coisa, especialmente para uma mulher sozinha. 
        - Estou bastante consciente disso, meu caro senhor- disse ela, sempre discretamente. - Teria de contratar gente para me ajudar, mas tenho certeza que conseguirei 
achar as pessoas necessrias, uma vez achada a terra. 
        Mas ele a olhou por cima dos culos, com intensa desaprovao, e disse-lhe que ela estaria bem melhor na cidade. L havia casas maravilhosas, em bairros 
muito bonitos - tinha absoluta certeza de que, em pouco tempo, ela j teria feito muitos amigos. Era uma mulher jovem e muito bonita, e ele no lhe disse isso, mas 
tinha certeza de que em muito pouco tempo ela estaria casada de novo. No fazia sentido para ela comprar uma fazenda. E parecia uma tolice de sua parte sequer desejar 
isso. - Eu no faria nada com pressa, Sra. Ferguson. Precisa primeiro se familiarizar com Boston, antes de se decidir. 
        E ele resolveu faz-la sentir-se em casa em Boston, como se fosse uma cruzada pessoal, e apresent-la a vrios clientes do banco. Ela era obviamente distinta 
e bem-educada. Na verdade, sua esposa ficou convencida de que havia muito mais coisas a respeito de Sarah Ferguson do que se podia observar  primeira vista. 
        - Ela tem algo de muito pouco comum - comentou ela, quando seu marido a apresentou. 
        A Sra. Blake tinha filhos quase da idade de Sarah, e nunca havia conhecido ningum, nenhuma mulher, to inteligente, to capaz e to forte. S de pensar 
na viagem que ela fizera a bordo do Concord, Belinda Blake estremeceu e concordou inteiramente com o marido em que era uma idia absurda para ela sequer imaginar 
a compra de uma fazenda. 
        - Voc deve ficar aqui, na cidade. - Somou sua voz  do marido, mas quando disse isso, Sarah limitou-se a sorrir. 
        Os Blake se encarregaram de apresent-la a seus muitos amigos e, em muito pouco tempo, Sarah estava recebendo inmeros convites para jantar e tomar ch. 
Era cautelosa com os lugares aonde ia, e mostrava se hesitante em fazer amizades. Sempre temeu que algum da Inglaterra a pudesse reconhecer. Ela e Edward no tinham 
ido muito a Londres, nem sado muito, mas era possvel que a histria de sua fuga tivesse se tornado conhecida, at publicada. No tinha meios de descobrir isso, 
agora que estava l. Pensou em escrever a Haversham para perguntar, mas no ousava correr esse risco. Por isso, saiu para jantar uma ou duas vezes, e comeou a fazer 
amigos lentamente. Angus tambm tivera a gentileza de apresent-la a um joalheiro discreto, e este ficou bastante chocado diante das peas que ela desembrulhou e 
espalhou sobre sua mesa, para que ele as pudesse examinar. 
        Havia uma meia dzia de peas realmente importantes, e algumas menores que ela ainda no havia resolvido vender. Mas estava ansiosa para vender as maiores, 
em particular um belo colar de diamantes que Edward de alguma forma havia negligenciado quando vendera as jias de sua me. S com aquele colar ela poderia comprar 
vrias fazendas, ou uma casa realmente esplndida em Boston. J tinha visto vrias manses de tijolos, muito bonitas, e Belinda Blake estava sempre insistindo com 
ela para que fosse v-las, na esperana de que ela comprasse uma. Mas continuava decidida por uma fazenda nas cercanias da cidade. O joalheiro comprou-lhe o colar 
rapidamente. Tinha um cliente para ele, e sabia que se no o vendesse em Boston, de imediato, poderia vend-lo em Nova York. E o dinheiro que Sarah recebeu foi diretamente 
para sua conta no banco. 
        Perto do final de novembro, tinha uma bela soma depositada l e estava surpresa ao ver quanta gente j a conhecia na cidade. Todo mundo tinha sido maravilhoso 
com ela, convidando-a para almoos e, apesar de sua cautela em no provocar essa situao, havia causado uma bela comoo entre as pessoas mais distintas da cidade 
nas poucas vezes em que se aventurou a sair. Era impossvel no ver como ela era aristocrtica, no perceber como era pouco comum, e sua beleza estava se tornando 
rapidamente um tpico de conversao constante entre todos os homens prsperos e principalmente os bons partidos de Boston, muitos dos quais se reuniam numa taverna, 
a Royal Exchange, onde a maioria mencionava Sarah. 
        Quase que da noite para o dia, Sarah Ferguson havia se tornado o objeto da ateno de todos e, mais do que nunca, isso a deixava ansiosa para ir embora e 
viver sossegadamente, antes que as narrativas de seu paradeiro atravessassem o Atlntico e chegassem a Edward. Mesmo quela imensa distncia, ela temia o longo alcance 
do seu brao. 
        Passou a comemorao do dia de Ao de Graas com os Blake e, dois dias depois, foi convidada pelos ilustres Bowdoim para um jantar festivo, que era um sinal 
de sua aceitao nos crculos principais de Boston. A princpio, no ia nem aceitar o convite, pois no tinha nenhum interesse real em entrar para os crculos sociais 
da elite e tornar-se conspcua para todos ali envolvidos. 
Mas Belinda ficou to aborrecida quando ela disse que no iria que, no final, aps arengas considerveis dos Blake, concordou em faz-lo. 
        - Assim, como  que voc vai voltar a se casar? - censurou-a Belinda depois, pois tratava Sarah como se fosse uma de suas filhas. E Sarah limitava-se a sacudir 
a cabea, com um sorriso melanclico. Havia muita coisa que ela nunca poderia contar-lhe. 
        - No pretendo me casar de novo - disse ela firmemente, e passou-lhe algo pelos olhos que disse a Belinda como era irreversvel essa deciso. 
        - Sei que agora voc se sente assim - confortou-a Belinda, com uma mo gentil sobre seu brao - e tenho certeza de que o Sr. Ferguson era um homem gentil, 
adorvel. - O estmago de Sarah quase que se revirou quando pensou em Edward. 
        Nunca houvera nada de gentil ou de adorvel nele, nem mesmo no comeo. Na melhor das hipteses, tinha sido um casamento de convenincia, nada mais do que 
isso. E, no meio-tempo, ele se tornara um monstro. 
        - Mas tenho certeza de que um dia voc vai encontrar algum to bom quanto ele foi. Precisa se casar de novo, minha querida Sarah. Voc  jovem demais. No 
pode ficar sozinha para sempre e, quem sabe, desta vez tenha a sorte de conseguir vrios filhos. 
        Mas, ao ouvir isso, algo morreu nos olhos de Sarah, e Belinda percebeu. 
        - No posso ter filhos - disse ela, rgida, e Belinda jamais ousaria perguntar-lhe como ela sabia que era esse o caso. 
        - Isso pode muito bem no ser verdade - disse Belinda gentilmente, tomando a mo de Sarah. - Eu tinha uma prima que foi estril durante muitos anos e, aos 
quarenta e um, descobriu que estava esperando. Teve gmeos. - Belinda abriu-lhe um sorriso radiante. - E ambos viveram. 
        Ela ficou se sentindo a mulher mais feliz deste mundo, e voc  muito mais jovem do que ela era. Aqui, vai poder ter uma vida totalmente nova. Era para isso 
que ela viera para a Amrica, por uma vida totalmente nova, mas com certeza no um casamento, nem filhos. Para sua extrema tristeza, ela j passara por uma unio 
aterrorizante. E jamais levaria algum ao equvoco de se sentir incentivado pelo fato de ser ela supostamente solteira. Cuidava para no flertar com os homens, de 
no dar corda a ningum. Nos jantares a que comparecia conversava principalmente com as mulheres. Mas, de qualquer maneira, os homens falavam dela constantemente 
e, at Sarah teve de admitir, com freqncia os achava pessoas mais inteligentes com quem conversar. Mas o seu interesse neles era somente de aprender um pouco mais 
sobre negcios, discutir com eles sobre suas terras ou tentar aprender mais sobre o trabalho de uma fazenda. Isso s a tornava mais fascinante para eles. As demais 
mulheres s falavam das roupas umas das outras e de seus prprios filhos. Sua recusa ao permitir que os homens se aproximassem s a tornava mais atraente. Para eles, 
ela era um desafio constante. Na verdade, vrios homens foram visit-la na casa da Sra. Ingersoll. s vezes deixavam flores e cartes, cestas enormes de frutas, 
quando podiam ser encontradas, e at um livrinho de poesias chegou s suas mos. Era presente de um jovem tenente que ela conhecera na casa dos Arbucks. 
        Mas ela se recusou a v-los, todos, no importa quo generosos fossem os presentes ou quo exuberantes as flores que lhe enviavam. Ela no tinha nenhum interesse 
em cortej-los, ou deixar-se cortejar por eles, embora o tenente Parker se mostrasse particularmente insistente, e ela, por acaso, topasse com ele vrias vezes, 
esperando por ela no salo de entrada. Ele esperava oferecer-lhe sua proteo da forma que fosse possvel, carregar seus pacotes para ela, estivesse ela saindo ou 
entrando, ou acompanh-la a qualquer lugar pblico que ela estivesse planejando visitar. Tinha 25 anos de idade, fora para Boston vindo da Virgnia, no ano anterior, 
e estava completamente cado por Sarah. 
        E, apesar de sua infinita gentileza para com ela, Sarah o achava exasperante, cada vez que o via. Estava sempre vindo para cima dela feito um cachorro enorme 
e arfante, doido para brincar, e s conseguindo tornar-se de uma chatice intolervel. Ela rezava a Deus para que ele fixasse suas atenes em outra pessoa e encontrasse 
uma jovem mais disponvel com quem brincar. Ela j lhe dissera que estava de luto pelo falecido marido e no tinha a menor inteno de voltar a se casar algum dia, 
mas era evidente que ele no acreditava, como tampouco ligava para sua idade. 
        - Voc no faz a menor idia de como vai se sentir a respeito disso daqui a seis meses ou um ano - disse ele com firmeza, mas ela sempre sacudia a cabea 
e tentava fazer-se perfeitamente clara, ao rejeit-lo. 
        - Sim, sei como vou me sentir daqui a um ano, ou dois, ou dez. - A no ser que Edward morresse, ela estaria se sentindo bastante casada. 
        E, mesmo que ele morresse, ela no tinha qualquer desejo de casar de novo. Seus anos ao lado de Edward a haviam amargurado com relao a essa experincia, 
para sempre. Sabia, sem a menor dvida, que jamais voltaria a se expor a ser o objeto da violncia de um homem, ou a ser um bem que pudesse ser usado e maltratado. 
No podia sequer imaginar como outras pessoas suportavam isso. E sabia que muitos maridos eram homens gentis, mas no tinha a menor vontade de arriscar uma outra 
jogada. Ficaria perfeitamente contente em permanecer sozinha para sempre, embora o jovem tenente Parker ainda precisasse ser convencido disso, tal como os outros 
homens que ela havia conhecido em Boston.
        - Voc devia dar graas a Deus por ter tantos pretendentes, em vez de ficar se queixando deles! - censurava-a Belinda Blake, sempre que Sarah se mostrava 
aborrecida com eles. 
        - Eu no quero pretendentes. Sou uma mulher casada! - disse ela, certo dia, sem pensar, dando-se conta ento do que dissera quase que no momento mesmo em 
que as palavras saram. Ou era. - O problema  s que no sou tola de cair nessas bobagens - completou, pudicamente. 
        - Tenho certeza que sim. Mas o casamento  uma bno to grande, ele faz com que uma mera corte se parea com migalhas em um banquete. Ainda assim, no 
se pode ter uma coisa sem a outra. 
        Era intil tentar explicar a ela, e Sarah acabou desistindo. No havia sentido. Foi no incio de dezembro que ela conheceu Amlia Stockbridge e, subseqentemente, 
o marido dela. 
        O coronel Stockbridge era o comandante da guarnio de Deerfield e da seqncia de fortes ao longo do rio Connecticut, e Sarah achou-o uma pessoa fascinante 
para conversar. Perguntava-lhe longamente sobre a regio e ele gostava de passar para ela o que sabia a respeito. Mostrava-se particularmente curiosa a respeito 
das tribos indgenas, e ficou surpresa quando ele lhe disse que a maioria era bastante pacfica. 
        - L, agora, s temos uns poucos nonotucks e wampanoags, e h muito tempo eles no causam problemas. Existe um ou outro problema ocasional,  claro, aguardente 
demais, ou uma discusso sobre algum pedao de terra, mas a maioria no causa aborrecimentos. 
        Na verdade, ele falava como se gostasse deles, e Sarah comentou que todo mundo a havia prevenido que as reas perifricas eram perigosas demais, devido aos 
ndios e outros problemas. 
        - Isso  verdade, claro - disse ele, lanando-lhe um sorriso, surpreso por ela manifestar algum interesse sobre o assunto. - Vemos alguns iroqueses, na primavera, 
quando os salmes sobem o rio. E existe sempre o perigo de um bando de renegados, ou um grupo de guerreiros mohawk vindos do norte. H notcias de problemas causados 
por eles aos colonizadores. - Uma famlia inteira havia sido massacrada no ano anterior, marido, mulher e sete filhos, logo ao norte de Deerfield, mas ele no lhe 
contou, e isso agora era bastante raro. - Mas, no todo, os realmente perigosos esto no oeste. A preocupao maior, claro,  que os problemas com os shawnees e os 
miamis se estendam at o leste, mas no consigo v-los chegando to a leste quanto o Massachusetts. Mas eles poderiam. Com toda certeza, j vm causando problemas 
suficientes por l. O presidente est muito aborrecido com isso, acha que j gastamos muito dinheiro na guerra com os ndios, e tem um sentimento de solidariedade 
para com a questo das terras que eles perderam. S que eles no podem continuar por a, matando colonizadores constantemente porque esto zangados. No momento, 
esto tornando a vida da nossa gente um inferno. 
        Ela tinha ouvido falar disso, mas era muito mais empolgante saber em primeira mo, e seus olhos brilhavam enquanto escutava. O coronel estava em Boston para 
as festas do Natal. Os Stockbridge tinham uma casa na cidade, onde a esposa do coronel ficava a maior parte do tempo. Ela detestava morar na guarnio em Deerfield, 
e o coronel a visitava sempre que podia se afastar. Mas isso no era muito freqente, pois Deerfield ficava a quatro dias de distncia. 
        Alguns dias depois, convidaram-na para uma pequena festa de Natal que estavam dando para seus amigos e alguns dos homens do coronel que estavam em Boston 
de licena, e ela aceitou satisfeita. Era um grupo alegre e socivel, e todos cantaram, enquanto Amlia Stockbridge tocava piano. Sarah adorou a noite e a nica 
dificuldade para ela foi que tambm haviam convidado o tenente Parker. 
        Este ficou em torno dela feito um cachorrinho a maior parte do tempo, e Sarah fez tudo que podia para evit-lo. Estava muito mais interessada em conversar 
com o coronel e teve a sorte de dispor de alguns minutos sozinha com ele, perto do fim da noite, mas este mostrou-se um tanto chocado pelo que ela lhe perguntou. 
        - Suponho que seja possvel - disse ele, franzindo o cenho ao encar-la. -  uma viagem e tanto, particularmente na neve, nesta poca do ano. No poderia 
ir sozinha, teria de contratar um ou dois guias, pois  uma jornada de uns bons quatro ou cinco dias. - E ento ele sorriu com tristeza. - Nem mesmo minha mulher 
se mostra disposta a faz-la. Vrios dos homens mais jovens tm mulher na rea, ou na guarnio, e os colonizadores esto por toda a volta. Somos bastante civilizados, 
mas no  muito confortvel. Duvido seriamente que voc gostaria de estar l, mesmo como visita. - Ele sentia-se realmente na obrigao de desestimul-la, mas ficou 
bvio para o coronel, pelas perguntas que Sarah lhe fez, que ela estava determinada a ir at Deerfield, conhecer o local. - Voc tem amigos por l? - Ele no conseguia 
pensar em nenhum outro motivo para que ela deixasse os confortos de Boston. 
        Na cidade era tudo to agradvel, e ela parecia delicada e elegante demais para empreender semelhante viagem. E, no entanto, ele sabia que ela tinha chegado 
 Amrica num navio pequeno, constrangedoramente desconfortvel, sem sequer uma amiga para acompanh-la. Sarah Ferguson era obviamente muito mais forte do que parecia, 
e ele no podia evitar um sentimento de respeito por isso. 
        - Gostaria de escolher os seus guias, se voc se decidir a ir. No ia querer v-la nas mos de alguns rufies que poderiam se perder no caminho, ou se embebedar. 
Trate de me informar sobre quando gostaria de ir, que encontro alguns homens para voc. Deveria trazer dois guias e um cocheiro. Vai precisar de todos eles, bem 
como de uma carruagem boa e resistente. Duvido que v gostar da viagem, mas pelo menos pode chegar l em segurana. 
        - Obrigada, coronel - disse ela, com um brilho nos olhos que ele nunca vira antes, e ficou bvio para ele que nada que ele pudesse ter dito a impediria. 
        Tentou explicar isso  esposa, quando lhe contou a respeito dessa conversa e ela o censurou sonoramente. 
        - Como  que pode sequer pensar em permitir que uma moa dessas v para Deerfield?  um lugar rude demais. Ela no faz idia de como  aquilo. Ela poderia 
se machucar, ou se perder, ou adoecer por causa dessa viagem enorme. 
        Ela achava que a permisso do marido para que Sarah viajasse, e at mesmo seu oferecimento de encontrar guias para ela, era uma afronta. 
        - Ela veio para c, l da Inglaterra, num pequeno navio, sozinha. No acredito que Sarah Ferguson seja a florzinha de salo que voc acha que ela , minha 
cara. Na verdade, depois de conversar com ela esta noite, estou absolutamente seguro de que no . Acho que existem muito mais coisas com relao a essa moa do 
que qualquer um de ns possa ter percebido, ou ela nos tenha contado. - Ele era um homem sensato e pde ver nos olhos de Sarah que ela havia percorrido um caminho 
muito longo e difcil, e enquanto ela prpria pudesse fazer alguma coisa a esse respeito, nada iria impedi-la. Tinha o tipo de determinao que ele j vira nas pessoas 
que iam para o Oeste tirar seu sustento da terra, enfrentar o desconhecido e at combater os ndios. Os que haviam sobrevivido injustamente como Sarah. 
        - Ela vai estar bem. Tenho certeza disso, ou no teria dito que  iria ajud-la. 
        - Voc  um velho tolo - rosnou Amlia para ele, mas pouco depois foi se deitar e beijou-o. 
        Porm ainda achava que ele estava errado a respeito de Sarah, e que o plano dela de ir para Deerfield era uma perfeita loucura. S esperava que Sarah viesse 
a conhecer algum na cidade e se esquecesse dessa histria. 
        Mas Sarah voltou no dia seguinte para ver o coronel. Havia passado a noite inteira pensando no que ele dissera. Na verdade, ficara to excitada que no conseguira 
dormir. E queria aceitar sua oferta gentil, pedindo-lhe ento para ajud-la a encontrar guias que a levassem at Deerfield. Perguntou quando ele prprio ia voltar, 
e ele disse que dali a mais uma semana. Ele ia logo aps o Ano-Novo e, desta vez, planejava ficar at  primavera. 
        Amlia estaria suficientemente ocupada sem ele, uma vez que a filha mais velha do casal estava esperando um beb para qualquer momento. 
        - Eu iria com voc - disse o coronel Stockbridge, pensativo. - Mas estou viajando com alguns dos meus homens, vamos cavalgar depressa e cobrir a distncia 
com um pouco mais de rapidez. Estar mais confortvel se viajar no seu prprio ritmo. - E ento sorriu para ela e fez uma sugesto. - Eu poderia deixar o tenente 
Parker para seguir com voc, se quiser. 
        Mas Sarah rapidamente rejeitou a sugesto. 
        - Eu preferia que o senhor no o fizesse - disse ela suavemente. - Preferiria me limitar a contratar guias, como o senhor sugeriu na noite passada. Ser 
que conseguiria encontrar alguns? - perguntou cautelosamente e ele assentiu. 
        -  claro. Gostaria de ir no ms que vem? - indagou ele, enquanto repassava mentalmente uma lista de homens em quem confiava, para que fossem com ela. 
        - Eu adoraria - disse ela, e eles trocaram um sorriso longo e caloroso. 
        Nenhuma de suas filhas jamais se oferecera para ir at l visit-lo. Iam uma vez de anos em anos, com suas famlias, debaixo de forte coao, e achavam aquilo 
uma aventura inacreditvel. Esta moa, pelo contrrio, agia como se aquilo fosse a maior oportunidade de sua vida. E, para Sarah, era. Era tudo que ela queria. O 
coronel prometeu manter contato com ela nos prximos dias, e ambos concordaram em no passar  esposa dele nenhum detalhe. 
        Sabiam os dois que ela iria ficar furiosa com o que Sarah estava fazendo e principalmente com o fato de que seu marido iria ajud-la a faz-lo. Mas tinha 
certeza de que ela iria estar em perfeita segurana, seno no a iria ajudar em seu plano de ir para Deerfield. Sarah agradeceu-lhe profusamente e voltou a p at 
 sua penso, embora fosse uma longa distncia. Mas estava to empolgada que queria tomar um pouco de ar e, enquanto o vento lhe picava as faces e lhe ardia nos 
olhos, Sarah apenas sorria e fechava mais o casaco em torno do rosto.

CAPTULO 12

        SARAH PARTIU NO dia 4 de janeiro de 1790, numa carruagem alugada, bastante antiga, mas muito slida. O cocheiro que havia contratado junto com a carruagem 
era jovem, mas j viajava por aquela regio h muito tempo. Na verdade, havia crescido numa rea que ficava a uma hora de Deerfield. Conhecia todas as trilhas num 
raio de quilmetros, seu irmo morava na guarnio de Deerfield e o coronel Stockbridge ficou bastante satisfeito com ele, quando o descobriu. Seu nome era Johnny 
Drum e ele era apenas um pouco mais velho do que Sarah. Os dois outros homens viajavam a cavalo, ao lado deles. Um era um velho caador de peles, George Hendersom, 
que passara anos viajando at ao Canad para vender peles e na juventude havia passado dois anos prisioneiro dos hurons. Acabou por casar-se com uma ndia, mas isso 
fora h muito tempo. Ele agora estava velho, mas as pessoas diziam que era um dos melhores guias de Massachusetts, e o outro guia era um ndio wampanoag. Seu nome 
era Tom Vento que Canta e seu pai era o chefe da tribo, um lder e curandeiro. Tom trabalhava como guia na guarnio, mas viera a Boston a fim de tratar da compra 
de equipamento agrcola para sua tribo, e o coronel Stockbridge lhe pedira para fazer-lhe um favor, viajando com Sarah. Era um jovem de aspecto srio, com cabelos 
pretos compridos e os traos nitidamente cinzelados. Usava calas de couro de gamo e um casaco de pele de bfalo, e falava s com os homens, sempre que possvel, 
mas nunca com Sarah. 
        Era uma forma de mostrar respeito por ela, mas Sarah no conseguia tirar os olhos dele, que cavalgava ao lado da carruagem, quando comearam a viagem. Era 
o primeiro ndio que vira na vida. E parecia to nobre, severo e sinistro quanto havia esperado. No entanto, no a amedrontava, e ela sabia, por tudo que o coronel 
lhe havia explicado, que os wampanoags eram uma tribo pacfica de agricultores. Nevava quando saram lentamente da cidade, rumo ao oeste, e Boston j estava despertando, 
aos primeiros raios da manh. Levavam consigo todos os seus suprimentos, peles, cobertores, comida, utenslios, gua. 
        Os dois guias deveriam cozinhar para eles, e o velho caador de peles tinha fama de ser um timo cozinheiro, mas Sarah estava mais do que disposta a ajud-lo. 
Saram de Boston quando a luz comeava a subir, e Sarah, sentada na carruagem, olhando a neve cair l fora, nunca se sentira to empolgada na vida, nem mesmo quando 
zarparam de Falmouth, a bordo do Concord. Era como se ela soubesse que aquela era uma das jornadas mais importantes de sua vida. No estava bem certa do motivo, 
mas sabia sem dvida que o destino reservara para ela aquele dia, naquele lugar. 
        Deixaram a cidade pela Scollay Square e viajaram durante cinco horas antes de parar para dar descanso aos cavalos. Sarah saltou e caminhou um pouco, maravilhada 
com a beleza do campo. J tinham passado de Concord e, aps meia hora, retomaram a viagem. A essa altura havia parado de nevar, mas tudo estava coberto de neve muito 
branca e espessa, ao chegarem  trilha mohawk e tomarem o rumo oeste. Sarah gostaria de poder estar a cavalo com eles, mas o coronel insistira em que ela fosse na 
carruagem. O terreno teria sido difcil para ela, mas Sarah sabia que estava  altura e mostrava-se impaciente para seguir depressa, a fim de logo alcanar seu destino. 
        Naquela noite comeram coelho assado no espeto, preparado por Hendersom. Haviam embrulhado a caa em neve ao sarem de Boston, e aps um longo dia de jornada, 
o gosto era delicioso. E, como sempre, Vento que Canta disse-lhes muito pouco, mas parecia satisfeito e bem-humorado. Ele cozinhou um pouco de abbora seca que havia 
trazido e ofereceu a todos. Sarah achou que nunca havia provado nada to delicado, to doce. Para ela, pareceu um banquete e, aps comerem e terem cuidado de suas 
diversas necessidades, ela encolheu-se na carruagem, debaixo das peles pesadas de Hendersom, e dormiu como um beb. 
        Acordou  primeira luz, quando ouviu os outros se movimentando, e os cavalos comeando a se comunicar uns com os outros. Havia parado de nevar, e a aurora 
inflamou o dia, feito fogo nos cus. E, ao comearem a rodar, Johnny Drum e Hendersom comearam a cantar. E Sarah, sacolejando a carruagem ao lado deles, cantou 
junto, baixinho. Entoavam canes que ela havia aprendido h muito tempo, na Inglaterra. 
        E naquela noite, quando pararam para comer, Vento que Canta mais uma vez ofereceu-lhes todos os tipos de legumes secos, que ele era mestre em cozinhar de 
formas que agradavam ao paladar dos colonizadores. 
        Enquanto Johnny cuidava dos cavalos, Hendersom abateu trs pequenas aves, que comeram tambm, e foi mais uma vez uma refeio que Sarah sabia que nunca iria 
esquecer. 
        Ali tudo era muito simples, muito mais real, muito honesto e infinitamente precioso. 
        E, no terceiro dia, enquanto seguiam viagem, Hendersom contou-lhes histrias de quando havia vivido com os hurons. 
        Esses ndios estavam todos no Canad agora, mas quando fizeram aliana com os franceses contra os ingleses tinham se espalhado por toda aquela parte do mundo 
e representado uma real ameaa. 
        Na verdade, ele dizia que o haviam seqestrado no muito longe de Deerfield, mas Sarah sabia que j tinham sumido h muito tempo e no ficou assustada ao 
ouvir a narrativa. 
        Falaram a respeito dos problemas que Jaqueta Azul, dos shawnees, estava causando no Oeste, e as histrias que Vento que Canta contou a respeito dele foram 
bastante atemorizantes. Sarah comeou ento a falar com ele e a fazer-lhe perguntas sobre sua tribo e achou ter percebido o vislumbre de um sorriso em seus olhos, 
enquanto lhe perguntava todas as coisas que queria saber sobre seus costumes. 
        Ele contou-lhe que todos de sua famlia eram agricultores, que seu pai era o chefe, mas que seu av tinha sido um powwaw, ou seja, um xam, um lder espiritual 
ainda mais importante do que chefe. 
        Explicou que sua tribo tinha uma ligao muito especial com todas as coisas do universo e tudo em torno deles tinha seu prprio esprito, e todas as coisas 
eram,  sua prpria maneira, sagradas. 
        Contou-lhe como Kiehtan, que parecia ser a palavra deles para Deus, tinha controle sobre todas as coisas do universo, todas as criaturas, todos os seres, 
e devia-se dar sempre graas a ele pela comida, pela vida, por tudo que Kiehtam lhes proporcionava. Explicou-lhe o Festival do Milho Verde, que era a celebrao 
deles para a primeira colheita, e ela o ficou ouvindo falar de olhos arregalados, num xtase de ateno. Ele explicou que todos os seres deviam ser corretos uns 
com os outros, guiados por Kiehtan, e que, em sua tribo, se um homem maltratava a esposa, a mulher podia deix-lo. E, olhando para ele, to orgulhoso, to forte, 
montado em seu cavalo, ficou se perguntando por que teria dito aquilo, se sabia ou pressentia que ela havia sido maltratada. Parecia surpreendentemente sbio para 
um jovem, e os valores que lhe descreveu pareciam mais do que razoveis. Na verdade, a seus ouvidos soaram muito civilizados, bastante modernos e, em certo sentido, 
quase perfeito. 
        Era difcil imaginar que era essa a gente que os primeiros aventureiros nesta parte do mundo haviam chamado de "selvagens", conforme alguns continuavam chamando 
mesmo agora, particularmente no Oeste. Obviamente no havia nada de selvagem nele. E ficou fascinada tambm por saber que um dia esse homem seria o chefe de sua 
tribo, e como seria conhecedor dos nossos costumes, aps passar tanto tempo com os colonizadores. Seu pai tinha sido sbio ao mand-lo viver entre eles, como uma 
espcie de embaixador. E, vendo-o cavalgar, percebeu que durante todo o resto de sua vida iria se lembrar desse momento. O quarto dia pareceu mais longo, quando 
chegaram a Millers Falls e continuaram a jornada. 
        Viram diversos fortes, mas s pararam uma vez, quando receberam um pouco de comida e gua fresca. Sabiam que agora no estavam longe, mas ao cair da noite, 
ainda no haviam chegado  guarnio e a questo era se continuavam pela noite adentro ou esperavam o amanhecer. Estavam todos ansiosos para chegar a seu destino. 
Sozinhos, teriam continuado, mas, levando uma mulher com eles, nenhum ousava apress-la. Mas foi a prpria Sarah quem disse achar que deviam prosseguir, na medida 
em que no houvesse perigo. 
        - Sempre existe algum - disse honestamente Johnny, o jovem cocheiro. 
        - Sempre podemos topar com um grupo de guerreiros, ou perder uma roda. A estrada era muito sulcada, e escorregadia de gelo  noite. 
        Ele se sentia responsvel por ela e no estava inclinado a correr riscos, o que era a sua fama. 
        - Isso poderia acontecer tambm  luz do dia - lembrou-lhe Sarah, e no final todos concordaram em continuar por algumas horas e ver se conseguiriam chegar 
a bom tempo. 
        Os dois guias calcularam que, se seguissem a bom tempo, poderiam alcanar o forte por volta da meia-noite. Seguiram com firmeza naquela noite, e Sarah no 
fez um som enquanto a velha carruagem sacolejava. Era quase to agitado quanto uma boa onda no Concord, s vezes, mas ela em momento algum se queixou. Tudo que queria 
era chegar l. E logo depois das onze horas viram as luzes da guarnio  distncia. Os quatro deram vivas e foraram mais os cavalos, e desta vez Sarah teve certeza 
de que iriam perder uma roda logo no ltimo trecho, mas acabaram chegando vivos e inteiros aos portes principais, enquanto Johnny gritava para a sentinela. 
        Mas Vento que Canta havia cavalgado  frente, e o reconheceram de imediato. Os portes se abriram devagar, e a carruagem os atravessou lentamente, parando 
assim que chegou ao interior. Com as pernas trmulas, Sarah saltou e olhou em torno. Havia cerca de uma dzia de homens caminhando no escuro, falando baixinho, alguns 
fumando, e cavalos amarrados s estacas, usando cobertores. A guarnio abrigava vrias construes compridas e muito simples, em que os homens ficavam aquartelados. 
Havia umas poucas cabanas para as famlias que l moravam e lojas onde obtinham seus suprimentos. Havia tambm uma praa principal; na verdade, tudo parecia muito 
com uma aldeia, tudo auto-suficiente, tudo cercado e guardado com bastante segurana, com os colonizadores vivendo nas reas externas em torno da guarnio. Tinham 
ido at l em busca de ajuda e contavam com as guarnies e os fortes para proteg-los. 
        Mesmo tarde da noite, sem ningum por perto, Sarah teve uma sensao de pertencer quele lugar, e lgrimas lhe rolaram dos olhos ao trocar apertos de mos 
com os homens e lhes agradecer. No que lhe dizia respeito, tinha sido uma jornada inesquecvel e inteiramente agradvel, desde Boston. E, olhando tudo em retrospecto, 
os quatro dias haviam virtualmente voado. E quando disse isso, todos riram, at mesmo Vento que Canta, que havia achado a viagem lenta, por causa da mulher. Johnny 
foi guardar a carruagem no celeiro principal e dar gua aos cavalos, enquanto os dois guias sumiam, procurando amigos. Sarah foi deixada com um dos soldados que 
os haviam recebido. 
        Este havia sido instrudo pelo coronel, quando chegou dois dias antes, aps uma intensa viagem, para lev-la at uma das mulheres. Vrias famlias moravam 
l e Sarah deveria ficar com elas. Tinha certeza de que ela estaria mais confortvel com as mulheres e as crianas. E quando o jovem soldado bateu  porta, uma mulher 
usando vestido de algodo, uma velha manta de flanela e um gorro veio  porta, um cobertor passado sobre os ombros. Parecia sonolenta e jovem, e Sarah viu dois beros 
de madeira rsticos no aposento, logo atrs dela. Todos moravam em um ou dois quartos, e aquela jovem ali chegara dois anos antes, assim que se casou. 
        O jovem soldado explicou quem era Sarah, ao que a moa sorriu e disse chamar-se Rebecca. Convidou Sarah a entrar, a sair do vento, e Sarah aceitou satisfeita, 
entrando com sua nica mala. Trouxera muito pouco e olhou em torno,  luz da vela de Rebecca. Era um aposento pequeno, rstico, no que parecia ser uma cabana de 
madeira, e quando Sarah voltou a encar-la, viu que Rebecca estava grvida. E, por um instante, quase sentiu inveja de sua vida simples, naquele lugar perfeito, 
com seus bebs todos em volta. Como teria sido maravilhoso viver assim, em vez de estar sempre apanhando, num castelo, com um homem que odiava. Mas tudo isso tinha 
ficado para trs, a agonia, bem como a esperana perdida de misericrdia ou de gratificao. Mas ela efetivamente tinha aquilo que Tom Vento que Canta descrevera 
como uma espcie de comunho com o universo. 
        Ela estava, como ele dissera, nas mos de Kiehtan. E Kiehtan, segundo Vento que Canta, era justo com todos os seres, tal como havia sido com ela, quando 
lhe permitiu encontrar sua liberdade. Agora, no queria nada mais. 
        Enquanto Sarah tinha esses pensamentos, Rebecca levou-a ao nico quarto de dormir. Era um aposento minsculo, pouco maior do que sua cabine no Concord, e 
exibia uma pequena cama feita de troncos, que mal dava para duas pessoas. Era a cama que ela partilhava com o marido, e Sarah percebeu que a moa acabara de se levantar 
dela, com sua barriga grande e redonda. Mas ela agora a oferecia a Sarah, dizendo que poderia dormir num cobertor no outro aposento, perto dos filhos, se Sarah assim 
preferisse. Seu marido estava fora, com um grupo de caa, e s voltaria para casa dali a vrios dias. E quanto a Rebecca, no se importava de dar o seu quarto para 
sua hspede, se Sarah preferisse. 
         mo at da prpria cama para uma desconhecida. - Posso dormir no cho, se for preciso. No me incomodo, em absoluto. Passei quatro dias dormindo numa carruagem, 
e tampouco me incomodei com isso. 
        - Oh, no! - Rebecca enrubesceu fortemente e ento, por fim, as duas concordaram em dormir juntas na nica cama. 
        Sarah despiu-se rapidamente no escuro para no incomod-la mais do que o necessrio e, cinco minutos depois, as duas mulheres que mal haviam acabado de se 
conhecer estavam deitadas lado a lado, como irms. Ali a vida era inteiramente nova. E deitada, pensando a esse respeito, Sarah sussurrou timidamente no escuro, 
como se fossem duas crianas tentando no acordar os pais. 
        - Por que veio para c? - perguntou-lhe Rebecca. 
        No conseguiu resistir em fazer-lhe essa pergunta. Talvez houvesse um homem por quem estivesse apaixonada. Rebecca a achara muito bonita e no acreditava 
que fosse muito velha. A prpria Rebecca tinha acabado de fazer vinte anos. 
        - Eu queria ver tudo isso aqui - disse Sarah com honestidade. 
        - Cheguei da Inglaterra dois meses atrs, para iniciar vida nova. - Achou que era melhor difundir a mesma mentira que vinha contando desde o incio. - Sou 
viva. 
        - Isso  muito triste - disse Rebecca, com real sentimento. Seu prprio marido, Andrew, tinha 21 anos e se conheciam e se amavam desde crianas. No conseguia 
sequer imaginar um casal partilhando menos do que isso, quanto mais uma vida como aquela que havia forado Sarah a fugir da Inglaterra. - Lamento muito. 
        - Est tudo bem. - Ento decidiu ser pelo menos um pouco honesta com ela, pois lhe parecia injusto no ser. - Eu nunca o amei. 
        - Que coisa terrvel - disse Rebecca, com um olhar de espanto. 
        Estavam trocando confidncias de uma forma como nunca teriam feito numa sala de visitas, mas ali dividiam a mesma cama, naquele lugar mgico que parecia 
to prximo de Deus, e de Kiehtan. 
        Sarah sorriu, ao se lembrar das lendas que Vento que Canta lhe havia contado. 
        - Vai ficar muito tempo na guarnio? - perguntou Rebecca com interesse, e ento bocejou. 
        Sentia o beb se mexendo dentro de seu corpo e sabia que em breve os outros dois iriam acord-la. Os dias para ela eram longos, particularmente com Andrew 
ausente, caando. No havia mais ningum para ajud-la. Sua famlia estava na Carolina do Norte. 
        - No sei por quanto tempo vou ficar - disse Sarah, bocejando tambm; aquilo era contagioso. 
        - Gostaria de ficar para sempre. 
Rebecca sorriu em resposta e ento mergulhou no sono, o que pouco depois aconteceu tambm com Sarah, que no conseguia acreditar na sorte que era simplesmente estar 
ali. 
        Rebecca estava de p e fora da cama bem antes da alvorada no dia seguinte, quando ouviu seu caula se mexer. Sabia pelo peso dos seios que j estava na hora 
de amament-lo. s vezes, sentia dores ao fazer isso, e temia que o beb em seu ventre pudesse nascer prematuramente, mas sua bebezinha era to nova que lhe parecia 
errado no amament-la. Ela tinha s oito meses de idade, e nascera um pouco fraca. 
        No sabia com quanto tempo de gravidez estava, mas acreditava que talvez fossem uns sete meses. Estava muito maior do que da ltima vez. O primeiro beb 
tinha sido uma menina, que estava agora com dezoito meses. 
        E, uma vez acordada, Rebecca j estava preocupadssima. Tentou evitar que acordassem sua hspede e ocupou-os com uma tigela de mingau e um pedao de po 
para cada um. Era mais fcil para ela estar na guarnio do que numa fazenda em algum lugar. Ela no teria meios de trabalhar a terra, e ali estavam mais seguros 
e dispunham de mais comida. Dessa forma, Andrew no precisava se preocupar com ela, sempre que tivesse que sair. 
        E quando Sarah acordou, s nove horas, Rebecca j dera banho e vestira as duas crianas, lavado a roupa e havia po assando no forno. Tivera uma manh bastante 
ocupada. Ao ver sua anfitri atrapalhada pelo aposento minsculo e alegre, com o fogo aceso na estufa, Sarah sentiu-se constrangida por ter dormido at to tarde, 
de ser to preguiosa. Devia estar mais cansada do que havia imaginado. Dormira feito uma pedra, at que o som de cavalos e carroas l fora finalmente a despertou. 
        Sabia que, ao acordar naquele dia, sua carruagem j teria voltado para Boston. E os dois guias tinham dito que iriam sair cedo naquela manh. Vento que Canta 
tinha de voltar ao encontro de seu pai e inform-lo sobre os utenslios e equipamentos de lavoura que comprara para eles, e George, o caador de peles, estava se 
dirigindo ao norte para comercializar com os colonos na fronteira canadense. L era mais perigoso, ele sabia, mas no se importava. Conhecia a maioria das tribos 
e s umas poucas no eram amigveis. 
        - Gostaria de comer alguma coisa? - perguntou-lhe gentilmente Rebecca, segurando o beb num dos braos e tentando, com a outra mo, manter a criana mais 
velha longe da cesta de costura. 
        - Eu cuido de mim. Voc parece estar muito ocupada. 
        - Estou mesmo - disse Rebecca, com um sorriso largo. Era baixinha e usava o cabelo em tranas, e  luz brilhante do sol parecia mais ter doze anos do que 
vinte. - Andrew me ajuda com elas, quando ele pode, mas ele sai muito, inspecionando os colonos e visitando os outros fortes. Ele tem muita coisa para fazer aqui. 
- Mas ela tambm, e agora Sarah achou sua barriga enorme. 
        - Quando  que o beb chega? - perguntou Sarah, com um olhar preocupado, enquanto se servia de uma xcara de caf. Parecia para qualquer minuto.
        - No antes de um ms ou dois, creio. provavelmente dois, no tenho certeza. 
    Ela enrubesceu. Cada um de seus bebs viera logo em seguida ao outro, mas ela parecia saudvel e feliz. S que at mesmo Sarah conseguia perceber que a vida 
ali no era fcil. Era simples, austera e sem quaisquer das convenincias a que as pessoas estavam acostumadas. Parecia decorrer num outro mundo que no Boston, 
e era isso mesmo. 
    Ali a vida era inteiramente diferente, e ela entendeu, s por estar presente e farejar as coisas, que era exatamente aquilo que queria. Sarah fez a cama e perguntou 
se poderia ajudar Rebecca em alguma coisa, mas ela disse que estava tima e planejando visitar uma amiga de uma fazenda vizinha, que acabara de ter beb. E quando 
Sarah sentiu com segurana que no a estaria abandonando, saiu para procurar o coronel. 
Encontrou com facilidade o seu gabinete, mas ele no estava e ela ficou dando voltas pela guarnio durante algum tempo, observando tudo o que se passava, o ferreiro 
ferrando os cavalos, os homens rindo e contando histrias uns para os outros, os ndios indo e vindo, parecendo muito diferentes de Vento que Canta, ao que ela suspeitou 
que fossem os nonotucks de que tinha ouvido falar. Era uma tribo pacfica, tal como os wampanoags. Por ali no ficavam ndios ferozes, ou assim ela pensava, at 
que viu um grupo de homens atravessar os portes em cavalgada, e achou que nunca tinha visto nada to feroz. Era um grupo de cerca de doze homens, na maioria ndios, 
e davam a impresso de ter feito uma longa cavalgada. Quatro cavalos extras vinham galopando atrs e os homens que os conduziam pararam como que de repente. Os ndios 
no se pareciam nada com Vento que Canta nem com os nonotucks que vira de manh. Havia uma espcie de aspereza selvagem em seu aspecto, e at no modo como conduziam 
os cavalos. Seus cabelos eram pretos e compridos, usavam contas e penas e um deles portava um enfeite peitoral espetacular. 
        Mas at o modo como falavam uns com os outros deixou Sarah um pouco atemorizada. Ningum na guarnio, porm, parecia dar-lhes qualquer ateno. E ao saltarem 
dos cavalos, no muito longe de onde ela estava, Sarah sentiu-se tremer. E ficou aborrecida consigo mesma por essa reao. Mas eles eram to possantes, intimidantes, 
que pareciam uma tempestade que passava roncando. 
        Ento ouviu um dos homens gritar alguma coisa para os outros, e todos riram. Havia um forte senso de camaradagem entre eles, que parecia at incluir os brancos. 
E, com seus cavalos ainda empinando nervosamente, desmontaram. Viu vrios soldados olhando para eles, mas no dizendo nada, e os ndios falavam baixinho entre si. 
Aquilo obviamente no era um ataque, parecia mais um tipo de delegao, e havia um inegvel senso de fora e unidade entre eles. Ela ficou observando em silncio, 
sem ser vista, imaginado quem e o que seriam, e de repente descobriu-se com o olhar fixo no lder. Era o mais hipnotizante de todos, tinha um cabelo escuro, longo 
e brilhante, que voava s suas costas quando caminhava, e estava usando belas calas e botas de couro. Parecia quase europeu, mas no exatamente, tinha a postura 
nobre e o rosto asperamente entalhado dos ndios com quem cavalgava, e falava num dialeto indgena com os homens  sua volta. 
        Era bvio, s pelo modo como se movimentava e pelo modo como os outros lhe respondiam, como era respeitado. Era um lder natural. Parecia quase algum tipo 
de prncipe em sua dignidade guerreira, e era fcil acreditar que era o chefe, ou talvez o filho de um chefe. A Sarah parecia estar bem avanado na casa dos trinta 
anos. Virou-se subitamente ento, enquanto ela o observava, carregando um mosquete enorme, com um arco pendurado de vis nas costas, e inesperadamente ela se viu 
face a face com ele, e praticamente pulou quando ele a viu. No estava de forma alguma preparada para encarar aquele homem, por mais espetacular que o achasse. Ele 
era como uma pintura que queria observar, um tipo desconhecido e especial, de alguma espcie, e s observ-lo andar, falar e se voltar era como ouvir msica. Era 
o homem mais gracioso e possante que j vira, e ao mesmo tempo muito calado. Mas era ao mesmo tempo aterrorizante e ela no conseguiu se mexer de onde estava, enquanto 
ele a observava. 
        Ele parou instantaneamente, olhando para ela, parecendo ainda mais sinistro do que qualquer outra pessoa que j vira, mas no entanto ela no tinha a impresso 
de que poderia machuc-la. Era como o Prncipe do Desconhecido, representava o mundo com o qual ela podia apenas sonhar e, enquanto seus olhos perscrutavam os dela, 
ele virou-se e caminhou at um gabinete. E ela ficou horrorizada ao se dar conta de que tremia violentamente, assim que ele passou. Seus joelhos batiam com tanta 
fora um no outro, que ela mal conseguia ficar de p, e deixou-se cair sentada nos degraus da construo junto  qual ela estava, enquanto olhava os outros desempacotarem 
seus suprimentos e se movimentarem na guarnio. 
        Ainda se perguntava de que tribo viriam, quem seriam e por que haviam entrado to precipitadamente na guarnio, como se fugindo de uma legio de demnios. 
Levou uns dez minutos para parar de tremer, aps ver-se de frente com o lder do grupo. Quando voltou ao gabinete do coronel, por pura curiosidade perguntou ao soldado 
a que tribo pertenciam aqueles ndios que havia observado. Era fcil descrev-los. 
        - So iroqueses - explicou ele, no parecendo nem um pouco impressionado. J os vira muitas vezes antes, mas Sarah no. E sua entrada tinha sido notvel, 
no que lhe dizia respeito. Sabia, como tantas outras coisas que j vira ali, que nunca esqueceria a cena. 
        - Na verdade, so senecas, um ramo da nao iroquesa, e um deles  cayuga. Existem seis tribos iroquesas. - Recitou-as ento para ela, que ouvia, vida: 
- Onondaga, cayuga, oneida, seneca, mohawk e os ltimos a entrar para a confederao, os tuscarora. S entraram para a nao iroquesa h setenta anos e so originalmente 
da Carolina do Norte. Os que voc est vendo aqui, porm, so senecas, e o baixinho  cayuga. 
        - O lder  um tipo bastante impressionante - disse ela, ainda um tanto subjugada pela impresso que ele havia provocado. Sentiu-se como se houvesse visto 
de frente todos os terrores do Novo Mundo encarnados em um nico homem, e no entanto no conseguiu se sentir nem aterrorizada nem amedrontada. 
        Mas, por um minuto ou dois, esteve perto disso. Ele havia sido mais do que um pouco atemorizante. Mas ela sobrevivera. E ali, na guarnio, sabia ser improvvel 
que algum tentasse feri-la. E o que a havia reconfortado, por mais aterrorizante que lhe fosse, era que mais ningum parecia aterrorizado com ele. 
        - Quem foi que entrou com eles? - perguntou o soldado, mas ela s conseguiu descrev-lo. 
        - No estou bem certo de quem era, mas geralmente  um dos filhos do chefe. Talvez ele seja dos mohawks, que tm um aspecto mais assustador do que os senecas. 
Particularmente quando esto usando pintura de guerra - o que obviamente no estavam. 
        De qualquer maneira, era um alvio. Provavelmente, se estivessem, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, ela estava certa de que teria desmaiado. Ela ento 
agradeceu ao homem pela informao e foi tentar encontrar o coronel. 
        Este, a essa altura, j havia voltado da cavalgada da manh e parecia satisfeito com o que vira. Seu territrio estava em ordem. E pareceu particularmente 
feliz ao ver Sarah. Dava a impresso de que fazia anos em que a vira pela ltima vez em Boston. E ficou extremamente aliviado ao saber que a longa viagem tinha corrido 
bem e que ela chegara em segurana. 
        Era impossvel no notar tambm como ela parecia bonita. At mesmo usando um vestido simples de l marrom, com uma touca comum para proteg-la do frio, era 
uma beleza rara. O creme de sua pele parecia quase neve, seus olhos eram da cor do cu de vero e os lbios, sem qualquer trao de pintura, teriam inspirado um homem 
mais jovem a beij-los. 
        No entanto, ela era perfeitamente recatada, de um comportamento adequado de todas as formas possveis, e a luz que ele via em seus olhos era apenas a empolgao 
de estar ali. Havia nela uma sensualidade subtil, mas Sarah a guardava to bem escondida, que s o que se sentia a respeito dela, se no se procurasse muito, era 
calor e amizade. E ela agradeceu-lhe muito por permitir-lhe estar l, o que o fez dar um muxoxo, ao ouvir. 
        - Amlia sempre encarou suas visitas a mim como pura tortura e como algo pelo que eu devia me desculpar desde o momento em que ela chegava at o momento 
de partir. Nos ltimos cinco anos, ela no viera com freqncia. 
        Aos 49 anos de idade achava que estava velha demais a essa altura para enfrentar durezas. E era mais fcil para ele v-la em Boston. Mas Sarah era uma outra 
histria. Ela tinha a terra em suas veias. E ele a provocou, dizendo que ela nascera para ser colona, mas Sarah tinha certeza de que ele no estava falando srio. 
Era s um elogio que estava lhe fazendo. 
        O coronel organizou um pequeno jantar para ela naquela noite e manifestou a esperana de que ela estivesse suficientemente confortvel onde havia sido alojada. 
No havia aposentos para hspedes, e tinham de recorrer s esposas dos soldados para acomodar as pessoas, quando elas vinham. Sua prpria esposa tinha de dividir 
com ele o seu alojamento, o que era uma das coisas que ela detestava. Sarah disse que estava timo e que j se havia afeioado a Rebecca. 
        Porm mais tarde, no jantar, descobriu que o coronel havia convidado o tenente Parker. E ele ainda estava to caidinho por ela quanto em Boston. Sarah fez 
tudo que pde para desestimul-lo, at chegar ao ponto de ser rude com ele, mas o tenente no parecia se importar. Na verdade, ela quase temia que ele gostasse. 
Parker interpretava suas respostas cortantes como uma forma de interesse. Ela ficou ainda mais chateada ao descobrir que alguns dos outros convidados achavam que 
ela viera at Deerfield para v-lo. 
        - De forma alguma - disse ela muito solidamente  esposa de um major. - Conforme a senhora sabe, sou viva - frisou com severidade, sentindo-se como sua 
prpria av ao diz-lo, mas tentando ser extremamente ameaadora. 
        Se ela prpria tivesse se visto, teria cado na risada. Mas a mulher a quem ela dissera isto no ficou nem um pouco impressionada como Sarah esperava. 
        - No pode continuar sozinha para sempre, Sra. Ferguson - disse ela, com doura, lanando um olhar de apreciao ao jovem tenente. 
        -  o que pretendo - replicou Sarah asperamente e o coronel riu ao ouvir. 
        Ento ele baixou a voz, quando Sarah se preparava para sair. O tenente estava se demorando, na esperana de acompanh-la at a casa de Rebecca. 
        - Devo oferecer-lhe minha proteo? - perguntou o coronel com gentileza, e ela assentiu com a cabea. 
        Ele havia compreendido sua situao e no queria que ela se sentisse mal. Afinal, ela era sua hspede e claramente no retribua aos sentimentos ternos do 
tenente. 
        - Eu gostaria muito - murmurou ela, ao que o coronel sorriu-lhe e informou ao tenente Parker que ele tinha sido muito gentil por esperar pela Sra. Ferguson, 
mas que ele prprio pretendia lev-la at sua casa. Voltou a agradecer-lhe e disse que o veria pela manh. 
        Sarah disse que sabia que eles tinham um encontro marcado com uma importante delegao do Oeste, que vinha discutir a paz com os criadores de problemas, 
liderados por Pequena Tartaruga. Mas, aps as palavras do coronel, o tenente pareceu extremamente decepcionado, quando se afastou. 
        - Sinto muito, minha cara, se ele a aborreceu.  jovem, e est muito enlevado por voc, acho. No posso culp-lo. Se eu fosse trinta anos mais moo, tambm 
me sentiria tentado a fazer papel de tolo. Voc tem muita sorte por eu ter a Amlia para me manter na linha. 
        Ela riu diante desse elogio e enrubesceu ao agradecer-lhe. 
        - Ele se recusa a compreender que estou determinada a no voltar a me casar. J lhe disse isso com a maior clareza. Ele no acha que eu esteja falando srio. 
        - Eu no pensaria assim - replicou ele com firmeza ao ajud-la a colocar o casaco. O ltimo convidado acabara de se despedir. - Se pensa, est muito enganada. 
Voc  jovem demais para fechar uma porta na sua vida. Ainda conta com pelo menos metade da sua vida pela frente, ou mais, se tiver sorte.  cedo demais para acabar 
a festa. 
        Ele voltou a sorrir, ofereceu-lhe o brao e ela no discutiu com ele, mas sabia o que queria. E, para mudar de assunto, perguntou-lhe sobre a reunio do 
dia seguinte e a inquietao causada pelos shawnees e os miamis, e ele imediatamente deixou-se levar pelas suas perguntas. E quase que lamentou deix-la na casa 
de Rebecca. Gostaria que seus prprios filhos manifestassem tanto interesse no que ele fazia quanto ela. Mas estavam todos muito mais envolvidos com suas famlias 
e a vida social de Boston. 
        Sarah sentia-se muito mais curiosa com o mundo em boto  volta deles, e era bvio que estava empolgada por ter vindo para Deerfield. Ela agradeceu-lhe pela 
reunio e pelo excelente jantar. Haviam comido carne de veado, delicadamente preparada por seu cozinheiro nonotuck com legumes das fazendas prximas. E ela prometera 
visit-lo no dia seguinte, aps a reunio, no fim da tarde. Estava planejando percorrer a cavalo o campo em torno, se conseguisse encontrar algum para ir com ela 
que no fosse o tenente Parker. E o coronel disse que arranjaria isso, insistindo para que ela tomasse cuidado. Quando entrou na pequena cabana de madeira que Rebecca 
to generosamente dividia com ela, descobriu que esta j havia se deitado, que os bebs estavam dormindo, que o fogo estava apagado, que o quarto estava frio, e 
que ela estava ainda desperta demais para despir-se e deitar-se ao lado de Rebecca. 
        Ficou do lado de fora durante algum tempo, pensando em sua cavalgada no dia seguinte, bem como nas coisas que lhe haviam dito naquela noite,  mesa de jantar, 
e tambm nos ndios de aspecto feroz que vira naquela tarde. Tremeu s de pensar no aspecto que um grupo efetivo de guerreiros realmente teria, e agradeceu a Deus 
por nunca ter visto nenhum. Fascinada como estava com esta parte do mundo, no tinha o menor desejo de ir para o Oeste e tornar-se pioneira. Essa era uma vida rude 
demais, at para ela, e sabia que estaria perfeitamente contente de ficar ali mesmo, em Deerfield. Enquanto pensava a esse respeito, afastou-se um pouco da casa 
e decidiu tomar ar.  sua volta estava tudo silencioso e ela sabia que ali se encontrava segura. A maioria dos homens j se recolhera. 
        As sentinelas guarneciam o porto e a maior parte das pessoas no forte j dormia. Estar ali dava uma sensao maravilhosa, ao caminhar com a neve sob os 
ps, erguendo os olhos para as estrelas que brilhavam no firmamento. Isso lhe recordava o que Vento que Canta lhe dissera a respeito de fazer parte do universo, 
todas as pessoas, seres, todos os animais, eram um s com o universo, ele dissera, e quando voltou a olhar para a terra. Tomou um susto tremendo. 
        Havia um homem, a menos de um metro dela, observando, as sobrancelhas franzidas, o rosto tenso, todo o seu ser parado, ou como se fosse fugir, ou como se 
fosse atacar, e ela no conseguiu conter o engasgo. Era o lder da delegao iroquesa que ela vira entrar na guarnio naquela tarde, e que j a havia aterrorizado 
uma vez, conseguindo faz-lo agora pela segunda vez. Estava parado de p, observando em silncio total, sentindo seu corao bater forte. No estava absolutamente 
certa se iria atac-la ou no, mas isso pareceu-lhe uma clara possibilidade, pois ele a fitava srio, com o que lhe pareceu um olhar de fria. Houve um longo e aterrorizante 
momento de silncio, quando nenhum dos dois se mexeu, e ela considerou a hiptese de virar-se e voltar para a casa de Rebecca o mais rpido que pudesse, mas entendeu, 
s de olhar para ele, que ele a venceria na corrida, e no queria atrair perigo para Rebecca e seus filhos. E se gritasse ele poderia mat-la, mesmo antes de algum 
ouvir. No havia nada que pudesse fazer, a no ser manter-se firme e recusar-se a ficar aterrorizada, mas no era pouca coisa fazer isso, vendo os cabelos negros 
esvoaando ao vento e uma longa pena de guia adejando atrs de sua cabea. Ele tinha o rosto quase de um falco e, no entanto, mesmo em sua assustadora severidade, 
Sarah tinha conscincia de sua beleza. Ento, ele a assustou ainda mais. 
        - O que est fazendo aqui? - perguntou ele, baixinho, num ingls perfeitamente claro, embora ela percebesse algum tipo de sotaque. 
Estava tensa e empertigada ao responder, no tirando nem um momento seus olhos dos olhos dele, seu corpo inteiro retesado de terror. 
        - Estou visitando o coronel - disse muito claramente, esperando que a meno do nome do comandante o levasse a hesitar antes de mat-la. Ela tremia violentamente, 
mas esperava que, no escuro, ele no percebesse. 
        - Por que veio para c? - perguntou, como se zangado por ela ter vindo. Ela seria mais uma intrusa. Notou que seu sotaque parecia quase francs, e ficou 
se perguntando se ele no teria aprendido ingls com os soldados franceses, anos antes. Talvez no fosse iroqus, e sim huron. 
        - Vim da Inglaterra - disse ela, com voz curta mas forte. - Vim encontrar uma vida nova - completou com coragem, como se ele pudesse compreender, embora 
estivesse certa de que no poderia. 
        Mas no tinha vindo para ser morta por um ndio solitrio, sob um cu estrelado, no lugar mais lindo que j vira. Jamais permitiria que ele fizesse isto. 
Tal como no permitiu que Edward a matasse. 
        - Seu lugar no  aqui - disse ele baixinho, e um pouco da tenso em seu rosto se aplacou, mas s levemente. Era a conversa mais estranha que ela j tivera, 
sozinha na escurido, falando com aquele guerreiro, que estava zangado por ela ter vindo at Deerfield. - Deveria voltar para o lugar de onde veio. J h muitos 
homens brancos aqui. - Ele com certeza vira com bastante clareza, durante muitos anos, o mal que esses homens brancos haviam feito, mas muito poucas pessoas entendiam 
isso. - Aqui  perigoso para voc, mas parece que no compreende - disse ele e seus joelhos pararam de tremer s um pouquinho. 
        Por que ele estaria lhe dizendo aquilo? Por que a estaria prevenindo? O que ele tinha com isso? Mas era preciso considerar que aquela terra era dele, no 
dos brancos, e talvez ele tivesse o direito de diz-lo. 
        - Eu compreendo - respondeu ela em voz baixa. - Mas agora no tenho nenhum outro lugar. No tenho ningum, e no tenho nenhum lugar para ir. Gosto daqui. 
Quero ficar aqui. 
Disse isso com tristeza, no querendo zang-lo mais do que j tinha feito, porm querendo que ele soubesse o quanto ela amava sua terra. No viera apenas para explorar 
a terra, ou tir-la dele. Viera para dar-se quela terra. Era s o que queria. 
E durante um longo tempo ele a fitou com um olhar duro, e no disse nada. Ento, fez-lhe mais uma pergunta. 
        - Quem vai tomar conta de voc? No tem homem ao seu lado... No pode viver aqui sozinha. 
        Como se isso importasse. Importaria ainda menos se ele a matasse, mas agora estava quase certa de que no ia acontecer. Pelo menos esperava que no. O que 
no sabia era que a guarnio inteira estava falando a seu respeito e este homem ouvira coisas sobre ela a tarde toda no aprovando a sua vinda, e disse isso. 
        - Talvez eu possa viver sozinha - disse ela, com suavidade. - Talvez eu encontre uma maneira de faz-lo. 
        Mas ele voltou a sacudir a cabea, sempre surpreendido com a estupidez dos colonizadores. Achavam que simplesmente podiam ir para l, tomar a terra e jamais 
pagar o preo final por isso. Os ndios haviam morrido por sua terra. E os colonizadores tambm, com mais freqncia do que admitiam. 
        Uma mulher sozinha era pura insanidade. Ele ficou se perguntando se ela seria louca, ou apenas muito tola, mas ao olh-la ao luar, com seu rosto plido e 
os cabelos escuros por baixo do casaco, ela parecia quase um esprito. Era isso que estava observando quando ela se deparara com ele. Parecia um fantasma, uma rara 
viso de beleza, e o havia espantado, pois ele vinha caminhando mergulhado em pensamentos sobre a reunio com o coronel pela manh. 
        - Volte agora - avisou ele. -  uma estupidez ficar sozinha aqui. 
        Ela sorriu ento, e o que ele viu em seus olhos o espantou. No estava em absoluto preparado para a paixo que percebeu ali. S havia conhecido uma mulher 
como ela. Era iroquesa. Oneida, chamada Pardal Choroso. O nico nome que conseguia imaginar para esta mulher era Pomba Branca. Mas no disse nada. Limitou-se a observ-la. 
E ento, sem dizer uma palavra, sabendo que ela no ousaria mexer-se enquanto ele no o fizesse, ele girou nos calcanhares e afastou-se dela. Ela soltou um suspiro 
longo quando viu que ele se fora e correu de volta para a casa de Rebecca.

CAPTULO 13

        SARAH NO CONTOU A ningum sobre seu encontro com o guerreiro na noite anterior, por medo que no lhe permitissem voltar a aventurar-se sozinha pela guarnio. 
E ficou empolgada ao descobrir que o coronel havia tomado providncias para que um batedor a acompanhasse numa sada a cavalo pela manh. Era um jovem soldado e 
seu oficial comandante achou que podia ser dispensado um dia, para cavalgar com ela. Era bastante tmido e razoavelmente novo naquela rea e no estava muito certo 
sobre o que ela queria ver. 
        Ningum lhe dissera o que se esperava dele, alm de ser educado com ela, por isso ele lhe perguntou, e ela dissera apenas que queria ver as reas circundantes. 
Disse que uma mulher, no jantar na noite anterior, mencionara um lugar chamado Shelburne, em algum ponto das redondezas, e disse tambm que l havia uma cachoeira 
maravilhosa, embora nesta poca do ano estivesse praticamente congelada. Mas enquanto Will Hutchins cavalgava a seu lado, ele disse que no a conhecia, por isso 
partiram rumo ao norte, na tentativa de encontr-la. 
        Enquanto cavalgavam, Sarah ficou impressionada com o campo cada vez mais belo, com as colinas que iam se desenrolando  distncia, com a imensidade de rvores, 
com os cervos que viam por toda a parte. Era como uma terra de conto de fadas e sentiu-se eufrica, enquanto se afastavam cada vez mais de Deerfield. 
        Na hora do almoo, Will achou que deviam voltar, pois o cu parecia levemente ameaador, mas ainda no tinham visto nenhuma cachoeira, e ela queria ir s 
um pouco mais adiante. Como os cavalos estavam indo muito bem e no pareciam cansados, ele concordou em lev-la. Ainda poderiam voltar ao cair da noite. Por isso, 
continuaram cavalgando. 
        Quando sentiram fome, almoaram comida que tinham levado em seus alforjes e, pouco depois das duas da tarde, viram-na finalmente, uma cachoeira espetacular, 
vinda de muito alto, e, em sua base, rochedos enormes cheios de cavidades gigantes. E, no momento em que a viu, Sarah exclamou, arrebatada, que aquele era precisamente 
o lugar de que a mulher falara. Estava absolutamente segura disso. Era Shelburne Falls. O jovem soldado ficou satisfeito por ela, embora estivesse bem menos interessado. 
        A essa altura, estavam cavalgando h quatro horas, numa trilha acidentada, e ele ansiava por voltar  guarnio ao cair da noite. Sabia que o coronel e seu 
oficial comandante ficariam furiosos com ele se algo de ruim acontecesse com aquela mulher. E estar fora da paliadas da guarnio aps o anoitecer era algo que 
todos deviam evitar. Por mais pacficos que fossem os ndios vizinhos, ainda assim havia o acidente ocasional, alm do que seria bem fcil se perder na escurido. 
E Will conhecia aquela rea pouco melhor do que ela. S estava l desde novembro e, com as neves pesadas, no haviam sado muito. Ao contrrio do coronel, que j 
conhecia o jeito dela, o oficial comandante daquele rapaz tinha sido ingnuo o suficiente para acreditar que ela s queria um pouco de exerccio e um passeio a cavalo 
em torno da guarnio. No fazia a menor idia de como era intenso o seu desejo de explorao, nem de quanto isso os levaria longe. 
        J haviam coberto quase vinte quilmetros e, tal como ela havia calculado, estavam em Shelburne, que era uma comunidade pequena e distante, ao norte de Deerfield. 
Assim que viu a cachoeira, ela insistiu em desmontar e ir puxando o seu cavalo at mais perto, para poder caminhar um pouco. Achou que era o lugar mais bonito do 
mundo e desejou poder ter tempo de esbo-lo em papel. E ento, finalmente, com a mais profunda relutncia, voltou a montar o cavalo e comearam o longo caminho 
de volta a Deerfield, mas quando j estavam a quase dois quilmetros da cachoeira, ela parou subitamente, como se tivesse visto alguma coisa que tivesse perdido, 
e no pudesse prosseguir enquanto no a recuperasse. 
        - O que ? - Will pensou que havia algo errado e parecia ansioso, ao parar e olhar em torno. 
    Ela parecia estar tentando ouvir alguma coisa e o jovem soldado dava a impresso de estar a ponto de chorar. No queria topar com um grupo de guerra junto com 
aquela mulher. Mas ela no ouvira nenhum som humano, e ficou claro para ele que ela vira algo que a fizera parar como se atingida por um relmpago. Tudo que viu, 
ao voltar-se para onde ela estava olhando, uma enorme clareira, algumas rvores velhas e uma vista ao longo do vale. 
        -H algum problema? - perguntou-lhe, com um ar profundamente infeliz. Estava com frio e gostaria enormemente de estar de volta a seu alojamento. Mas ela 
havia visto precisamente o que queria.
        - Quem  o dono desta terra? - perguntou baixinho. 
        Olhava a clareira como se ela fosse assombrada, mas sabia muito bem que a vira em sua mente mil vezes, desde que tomara a deciso de vir para c. Era o lugar 
perfeito. 
        - O governo, acho. A senhora deveria perguntar ao coronel. 
Aquilo tudo um dia havia pertencido aos ndios, mas havia sido tomado deles. Era um lugar mgico e ela podia facilmente imaginar uma casa ali. Havia uma fonte no 
fundo, a cachoeira ficava perto e, se prestassem ateno, ela imaginou, seria possvel ouvi-la. E havia uma famlia de cervos, parados na clareira, olhando para 
ela. Era como uma mensagem do Rei do Universo. Vento que Canta lhe havia falado disso. Kiehtan, ela entendeu com uma certeza profunda que era seu destino ter chegado 
ali. Mas, imvel, no dorso de seu cavalo, com seu acompanhante ao lado, percebeu que estava ficando mais escuro. 
        - Precisamos ir, Sra. Ferguson - disse ele, num tom de urgncia. - Est ficando tarde. 
        No queria dizer a ela, mas estava amedrontado. Tinha dezessete anos, mas no sabia porqu, ela o assustava. 
        - S precisamos descer estas colinas at ao nvel do vale e depois atravess-lo em direo sudoeste - disse ela, calmamente. 
        Tinha excelente senso de direo, mas isso pouco adiantou para acalm-lo. Detestava deixar o lugar onde estavam, mas sabia que voltaria a ach-lo com facilidade. 
S precisava voltar  cachoeira e, de l, poderia ach-lo. O lugar era absolutamente inconfundvel. E, para agradar ao rapaz, ps-se em marcha. 
        Ele tinha razo, estava ficando escuro, mas, ao contrrio dele, ela no estava com medo. Durante duas horas, viajaram sem incidentes, e sem fazer comentrios. 
Era uma cavalgada difcil mas agradvel, e seguiram mais rpido do que o costume, uma vez que corriam contra o cair da noite, mas os cavalos eram fortes e, na maior 
parte do tempo, a trilha estava ntida. 
        Houvera apenas uma ou duas ocasies em que no se sentiram certos sobre que caminho tomar numa bifurcao da estrada, ou numa clareira, mas o senso dela 
de direo era aguado e os conduziu quase que todo o caminho de volta a Deerfield. 
        Ela percebeu que estava de volta ao nvel do vale quando atingiram uma clareira, mas quando a viram pela segunda vez, Sarah percebeu que j tinham estado 
l vinte minutos antes. A essa altura j estava quase escuro e, ao fusco-fusco, ela questionou seu senso de direo, mas no disse nada. Quando voltaram  clareira 
pela terceira vez, ela vacilou. 
        - No podemos estar longe da guarnio - disse ela, olhando em torno, tentando lembrar-se das marcas que havia visto nas rvores antes, expediente que aprendera 
com o pai, quando criana, na ocasio em que ele a ensinou a orientar-se na floresta. Ela sempre achara as coisas que aprendera com ele extremamente teis, mas dessa 
vez seu conhecimento lhe faltou. 
        - Estamos perdidos, no estamos? - perguntou a Will, comeando a entrar em pnico. 
        - Na verdade, no. Vamos encontrar o caminho.  s uma questo de observao. - Mas a luz ambiente e a neve a haviam enganado e Sarah percebeu que ali era 
um terreno desconhecido. 
        Impacientemente, havia se lembrado de vrios detalhes importantes, quando partiram no incio do dia, mas agora tudo parecia diferente, no comeo da escurido. 
E, em todos eles, havia sons estranhos, soturnos. O rapaz s conseguia pensar em grupos de guerreiros, embora no tivesse visto nenhum, naquela regio, nos trs 
meses em que j estava l. 
        - Estou certa de que num instante vamos voltar a encontrar o carrinho - disse Sarah calmamente e ofereceu-lhe um gole d'gua do cantil que levava. 
        Mesmo na escurido, ela via que ele estava plido e assustado. Ela prpria no gostava daquilo tambm, mas sentia-se mais controlada do que ele. Acontece, 
porm, que ela era bem mais velha. Tentaram um outro caminho desta vez, mas acabaram voltando para o mesmo lugar. Parecia um carrossel mgico, ao qual no podiam 
escapar, dando voltas, voltas e voltas, para acabar sempre na mesma clareira. 
        - Muito bem - disse ela finalmente. 
        J haviam tentado trs caminhos a essa altura, e restava apenas mais um, uma quarta trilha. Essa parecia-lhe inteiramente errada, e dava a impresso de ir 
para o norte, ao invs do sul, mas Sarah estava disposta a tentar. 
        - Vamos seguir por este caminho e, se isso no funcionar, vamos em frente. 
        Ainda que no cheguemos  guarnio, chegaremos a um dos fortes do rio, ou a alguma cabana. Sempre podemos passar a noite l.
        Ele no gostou nem um pouco da idia, mas preferiu no discutir. Ela era muito obstinada, dava para sentir, e tinha sido quem os metera nessa confuso, s 
para comear, insistindo para descobrir a cachoeira, e depois parando na clareira como se estivesse procurando ouro ou coisa parecida. Ele comeava a achar que ela 
era meio maluca e no estava gostando nem um pouco daquilo. Mas no tinha nenhuma sugesto melhor. Sarah apontou para o caminho que deveriam seguir e ele foi atrs 
dela, relutante. 
        Agora, Sarah estava claramente na direo, e eles no voltaram novamente  clareira, mas, pelas estrelas, ela percebia que tampouco seguiam na direo certa. 
Mas pelo menos no estavam mais andando em crculos. E se conseguissem achar o rio, ela sabia que iam acabar encontrando alguma civilizao. Mas cavalgaram por longo 
tempo sem encontrar nada, e desta vez ela percebeu que estavam realmente perdidos. 
        A noite j cara h mais de duas horas. Sarah ficou imaginando se o coronel enviaria um grupo de busca atrs deles, e detestava estar-lhe causando todo aquele 
problema. E, no momento exato em que estava nisso, percebeu tambm que a gua que trouxeram havia acabado. Sempre havia a neve,  claro, mas no tinham levado provises 
adequadas para passar a noite, e o ar em torno deles subitamente ficou cortante, glido. Estavam ambos tremendo. Mas no havia nada que pudessem fazer, a no ser 
ir em frente. Cavalgavam com perseverana, lado a lado, a essa altura os cavalos comeando a andar trpegos, quando ela ouviu o som de cascos  distncia. No havia 
como estar equivocada e ela virou-se para o rapaz a seu lado. Ele ouvira tambm e fitou-a com os olhos esbugalhados de medo, pronto para fugir em disparada, em qualquer 
direo. 
        - Fique quieto - disse-lhe ela, asperamente, agarrando as rdeas de seu cavalo com uma das mos e puxando-o bruscamente para as moitas mais cerradas, junto 
com o seu prprio. 
        L estava ainda mais escuro, e ela sabia que seus cavalos os denunciariam, mas talvez se os outros cavalos estivessem longe o suficiente, poderiam no encontr-los. 
No havia nada que ela pudesse fazer alm de rezar, e estava to amedrontada quanto Will, mas sabia que no podia demonstr-lo. Tinha plena conscincia de que era 
por sua culpa que estavam perdidos e lamentava t-lo metido naquela confuso, mas agora no havia grande coisa que pudesse fazer para salv-los. 
        O som de cascos rapidamente tornou-se mais forte e seus cavalos se movimentavam, mas sem fazer rudo, seus olhos quase to assustados quanto os do rapaz, 
quando ento, num assomo de cavalos e homens, ela os viu. Eram ndios, cerca de uma dzia deles, cavalgando rpido pela floresta, como se estivessem em plena luz 
do dia. Deviam conhecer as trilhas como a palma da mo, mas assim que passaram correndo, um dos homens chamou os outros abruptamente e eles pararam a uns vinte metros 
dali, seus cavalos agitando-se desenfreadamente. Ela ainda no estava certa de que eles os haviam visto e gostaria de poder, junto com Will, desmontar e sair correndo, 
mas no ousou, convencida de que aqueles homens os achariam. Eles estavam completamente em casa, na floresta. Levou um dedo aos lbios, olhando para o rapaz na escurido, 
e ele assentiu com a cabea. Os ndios que haviam visto voltavam em direo a eles, cavalgando lentamente, em fila nica, olhando para todos os lados. Estavam quase 
em cima deles e o mpeto de gritar era poderoso, mas com cada grama de determinao que possua, forou-se a no faz-lo. 
        Em vez disso enterrou as unhas no brao do jovem soldado e desejou ousar fechar os olhos, para no v-los mat-la, mas no conseguiu. Ficou apenas olhando, 
os olhos bem abertos, aterrorizada, os ndios vindo em sua direo. Estavam to perto agora que ela podia ver as sapatas para neve amarradas em suas selas. Pararam 
na trilha, a menos de trs metros deles, quando um dos homens falou, os outros imveis, e esse que havia falado cavalgou lentamente em sua direo. Veio direto, 
at estar a menos de um brao de distncia deles, ao que Sarah sentiu os plos macios de seus braos e de sua nuca se arrepiarem, quando seus olhos se encontraram 
na escurido. Ora, ela o conhecia. No havia como fugir desta vez. Sabia que desta vez ele no a deixaria escapar. 
        Era o lder dos iroqueses que vira na guarnio. No sabia seu nome, mas no precisava. Ficou com a mo firme no brao do rapaz, seus olhos jamais se afastando 
dos olhos do guerreiro, mas estes no transmitiam qualquer expresso. Os homens atrs dele ficaram montados, absolutamente imveis, enquanto seus cavalos cavoucavam 
a terra. No estavam bem certos quanto ao que estava acontecendo, e ela no acreditou que ele a protegeria deles. Estava preparada para morrer em suas mos, mas 
no para suplicar. J no lhe fazia diferena. Mas estava preparada para barganhar pela vida do garoto. Ele ainda dispunha de muitos anos pela frente, se tivesse 
sorte. O guerreiro parecia to feroz quanto antes, e quando falou com ela, Sarah tremeu. 
        - Eu lhe disse, seu lugar no  aqui - disse ele, zangado. - Voc no conhece essas paragens. No est segura aqui. 
        - Sei disso - retrucou ela, numa voz que era pouco mais do que um som rouco em sua garganta seca, mas seus olhos no tremeram e ela continuou sentada bem 
ereta em sua sela. Ele viu que o rapaz a seu lado estava chorando, mas no lhe deu a menor ateno. 
        - Peo desculpas por ter vindo at aqui.  sua terra, no minha. Eu s queria v-la - disse ela, tentando soar mais calma do que estava, mas certa de que 
ele no ligava a mnima para suas explicaes. E ento fez o que sabia que tinha de fazer pelo bem do rapaz. - Deixe este menino ir embora - pediu. - Ele no far 
mal algum.  muito jovem. - Sua voz pareceu subitamente mais forte, enquanto os olhos do guerreiro fitavam mais profundamente os dela. Se ela estendesse a mo, poderia 
toc-lo. 
        - E voc? Vai se sacrificar por ele? - Seu ingls era muito sofisticado. 
        Era bvio que havia vivido e estudado com os homens brancos. Mas seu rosto, os cabelos, a roupa, a aura selvagem proclamavam sua herana altiva, enquanto 
lanava-lhe um olhar furibundo, de raiva indisfarada. 
        - Por que eu no salvarei voc e matarei a ele? - perguntou, exigindo dela uma explicao que Sarah no poderia lhe dar. 
        -  minha culpa estarmos aqui. 
        Ela gostaria de saber seu nome, mas talvez para ele isso no importasse. O guerreiro e a mulher ficaram imveis e silenciosos, os olhares presos um ao outro, 
seus olhos em momento algum se afastando, e ento ele recuou lentamente seu cavalo. Ela no sabia bem o que ele ia fazer, mas foi como se ela pudesse respirar um 
pouco melhor no o tendo to perto, e ele no fez qualquer movimento para arranc-los de seus cavalos, embora ela tivesse visto seus dois mosquetes com bastante 
clareza. 
        - O coronel est muito preocupado com voc - disse ele furioso, ainda fitando-a com muita raiva. - Por aqui passaram mohawks, recentemente. Voc poderia 
iniciar uma guerra, com a sua estupidez - continuou, praticamente gritando com ela, enquanto seu cavalo se agitava. - No sabe o que est fazendo. Os ndios precisam 
de paz e no de problemas causados por tolos. J temos o suficiente por aqui. - Ela assentiu com a cabea, silenciosamente, tocada pelo que ele tinha dito, e ento 
o guerreiro gritou algo para os outros, no dialeto que falavam. E ela viu os outros olharem-nos com interesse. Sua voz estava mais calma quando voltou a falar-lhe, 
e ela esperou pelo veredicto. - Vamos gui-los de volta  guarnio. - disse ele, olhando para ambos. - Vocs no esto longe. 
        E, com isso, virou-se e foi liderando os outros,  frente dela,  exceo de um, que seguiu atrs deles, para que no voltassem a se perder. 
        - Vai ficar tudo bem - disse ela baixinho para o rapaz a seu lado, que havia finalmente parado de chorar. - No creio que vo nos machucar. - O rapaz assentiu, 
sem fala diante do que ela tentara fazer por ele e ao mesmo tempo profundamente envergonhado, mas mesmo assim muito grato. 
        Ela teria trocado sua vida pela dele. No conseguia imaginar sequer vir a conhecer uma outra mulher que fizesse isso por ele. Menos de uma hora depois, a 
guarnio surgiu,  sada do bosque, e o grupo de ndios fez uma pausa, observando-os. Aps uma breve conferncia entre si, resolveram seguir cavalgando com ela 
at ao fim do caminho. J haviam perdido horas, e parecia mais fcil agora passar a noite l e sair ao amanhecer. 
        Sarah sentiu-se tomada por uma onda de exausto ao passarem pelos portes, a sentinela anunciando bem alto seus nomes, e Will comeou a sorrir. Mas ela ainda 
se sentia trmula demais para sequer sorrir. Um clarim soou ento em algum lugar e o coronel saiu correndo de seu alojamento, com um olhar frentico, que se transformou 
em alvio ao v-la. 
        - Temos dois grupos de busca procurando por vocs - disse ele, olhando dela para o soldado Hutchins. - Achamos que tinham sofrido um acidente - continuou, 
e ento olhou para o grupo de ndios. 
        Alguns haviam comeado a desmontar e o guerreiro no comando saltou lentamente do cavalo, caminhando em direo a eles. Ela ainda nem ousara sair de sua sela, 
com medo de que suas pernas no a segurassem, mas o coronel ajudou-a gentilmente a desmontar e ela rezou para que o guerreiro que a trouxera de volta no percebesse 
como estava assustada; ou to fraca que suas pernas iriam se dobrar quando parasse em p. Era bem diferente encar-lo aqui do que tinha sido negociar por sua vida 
na floresta. 
        - Onde a encontrou? - perguntou-lhe o coronel, subitamente. 
        Havia um bvio respeito entre os dois, que pareciam conhecer-se muito bem, mas Sarah no tinha certeza se o guerreiro era ou no benevolente. Ele lhe parecera 
bastante belicoso, desde o primeiro momento em que o viu, mas era claramente um homem educado, e ela ficou com a estranha sensao de que o coronel gostava dele. 
- Encontrei-os a menos de uma hora daqui, perdidos na floresta - explicou, aborrecido, e ento olhou direto para Sarah. 
        -  uma mulher muito corajosa - disse a ela, com a primeira marca de respeito que nele percebera em todos os seus encontros. 
        E ento voltou a olhar para o coronel. - Ela pensou que amos mat-la - disse com o mesmo trao de sotaque que j  percebera antes. - Tentou trocar sua vida 
pela do rapaz. 
        Ele nunca conhecera uma mulher que fizesse isso e duvidava que houvesse muitas no mundo. Mas ainda achava que o lugar dela no era ali. 
        - Sarah, por que fez isso? O soldado Hutchins estava l para proteg-la. 
        O que o coronel acabara de ouvir o chocara de verdade e, ao mesmo tempo, o enchera de admirao. Mas podia ver que nos olhos dela agora havia lgrimas. Passara 
por um mau pedao, desde aquela manh. E, afinal de contas, era apenas uma mulher. 
        - Ele ainda  uma criana - disse ela, a voz por um momento soando rouca. - Foi minha culpa nos perdermos. eu me demorei perto da cachoeira e li erradamente 
os sinais no caminho, achei que me lembrava por onde tnhamos vindo, mas no lembrava. 
        Ela agora estava cheia de desculpas e de confuso e ento, lembrando-se de por que haviam se atrasado, olhou para o coronel e falou-lhe da clareira. Mas 
no disse ainda que queria compr-la. Isso teria de ficar para depois. O coronel voltou a agradecer ao jovem ndio e ento, como que lembrando-se de seus bons modos, 
virou-se para Sarah. 
        - Presumo que vocs dois j se conheceram, embora de uma maneira bastante estranha. - E sorriu, como se os estivesse apresentando num salo, e no numa noite 
gelada, aps ela ter pensado que ele ia mat-la. - Franois de Pellerin, ou ser que eu deveria dizer, conde? 
        O homem que ela pensara ser um ndio lanou-lhe um olhar srio e Sarah ficou fitando os dois em profunda confuso. 
        - Mas eu achei... voc ... o que... como... como pde? - ela perguntou, subitamente lvida. - Sabia o que eu estava pensando... poderia ter dito alguma 
coisa, na noite passada, ou pelo menos esta noite, no momento em que nos encontrou. - No conseguia acreditar que ele a deixara pensar que iam mat-los, sequer por 
um momento. A pura crueldade disso quase a fez querer bater nele. 
        - Mas era o que poderia ter acontecido - disse ele, com o mesmo sotaque que ela j ouvira antes, e que agora percebia no ser huron, mas francs. 
        Ele era francs, embora ela no compreendesse como ha via chegado ali. Para ela, parecia o mais feroz de todos os guerreiros, mas, se se esforasse, poderia 
muito bem imagin-lo em culotes elegantes, e tudo mais que vinha junto. Vestido como estava, parecia ser iroqus, mas com outra vestimenta poderia de fato ter sido 
um francs bastante bonito. Porm, a crueldade daquele logro era algo que ela sabia que nunca iria perdoar. 
        - Eu podia ser mohawk - prosseguiu ele, sem desculpas. 
        Ela precisava compreender os perigos da terra que estava visitando. Para eles, aquilo no era nenhum jogo. A essa altura ela poderia estar marchando para 
o Canad, amarrada com cordas, e ser morta na trilha, se no caminhasse depressa. 
        - Podamos ser mohawks, ou pior. - Ele recentemente vira o que os shawnees haviam feito, numa viagem para o Oeste, e no tinha sido uma coisa bonita. 
        Estavam completamente fora de controle e at agora o governo se mostrara incapaz de det-los. 
        - Na noite passada, mesmo, eu poderia ter pulado pela cerca, enquanto as sentinelas no estavam olhando. Voc no est segura aqui. No deveria ter vindo. 
Isto aqui no  a Inglaterra. No tem direito nenhum de estar aqui. 
        - Nesse caso, por que voc est aqui? - replicou ela em tom de desafio, mais corajosa agora, enquanto o coronel observava o dilogo com interesse. Will h 
muito tinha ido para seus alojamentos, e j havia engolido a essa altura dois usques puros. 
        - Vim com meu primo, treze anos atrs, durante a revoluo - disse ele, embora no achasse que lhe devesse qualquer explicao. 
        Tambm lhe contou que seu primo era Lafayette, e que ambos haviam sido formalmente proibidos pelo rei de fazer a viagem, mas vieram mesmo assim. Lafayette 
voltara dez anos antes. Ao contrrio do primo, Franois entendeu que seu destino estava na Amrica e no conseguiu deixar seus amigos ali. 
        - Lutei por este pas, derramei meu sangue por ele. Vivi com os iroqueses, tenho todos os motivos para estar aqui. 
        - O conde vem negociando para ns com as tribos a oeste, durante os dois ltimos meses. 
        - Casaco Vermelho, o chefe dos iroqueses, o encara quase como um filho - explicou o coronel com bvio respeito, mas no lhe contou que Franois um dia havia 
sido genro do chefe, at que Pardal Choroso e seu filho foram mortos pelos hurons. 
        - Ele estava viajando para o norte esta noite, a caminho de visitar o chefe mohawk, em Montreal, e disse que procuraria por voc na trilha. Ficamos muito 
preocupados quando vocs no voltaram, ao cair da noite. 
        - Peo muitas desculpas, senhor - disse ela, bastante arrependida. Mas ainda no se havia feito paz entre ela e o conde francs fantasiado de bravo indgena. 
        No conseguia imaginar a audcia que ele tivera de no dizer-lhe quem e o que era, nem na noite anterior, nem quando o encontrou na trilha. Ele a aterrorizara, 
e sabia disso. 
        - Deveria voltar para Boston - disse o francs, olhando para ela. 
        Ele tampouco parecia feliz, embora algo em seus olhos dissesse que ficara impressionado com ela, algo que admitira ao coronel quando este lhe disse que ela 
estava desaparecida. 
        - Irei exatamente para onde eu quiser, meu caro senhor - disse-lhe ela, asperamente. - E agradeo-lhe por ter me acompanhado de volta esta noite. 
        Ela fez-lhe uma mesura elegante, como se estivesse num salo de baile ingls. Trocou um aperto de mos com o coronel e voltou a desculpar-se pela confuso 
que havia causado. Curvou-se diante dele e caminhou de volta para a cabana onde estava alojada, sem dizer mais uma palavra, nem olhar de novo para nenhum dos dois. 
Suas pernas sustentavam-na sem firmeza ao atravessar a guarnio, e ela abriu a porta silenciosamente, entrando no aposento escuro, voltou a fech-la e deixou-se 
escorregar lentamente para o cho, soluando de alvio e angstia. 
Franois de Pellerim ficou olhando enquanto Sarah batia em retirada. No disse uma palavra, mas o coronel observava seu rosto, curioso em saber o que ele vira ali. 
Aquele era um homem difcil de decifrar. Havia algo bastante selvagem em sua alma e, s vezes, o coronel se perguntava se ele agora j no seria em parte ndio. 
Com certeza sabia como os ndios pensavam e, s vezes, comportava-se como eles. Havia desaparecido com eles por vrios anos, s voltando a surgir quando sua noiva 
ndia morreu, e o coronel entendeu quando ele jamais falou sobre ela. Mas todo mundo naquela regio conhecia a histria. 
        - Ela  absolutamente notvel - disse o coronel com um suspiro, ainda intrigado com uma carta que havia recebido da esposa, naquela manh mesmo. - Diz que 
 viva, mas Amlia soube de uma histria notvel, por uma mulher que conheceu em Boston, recm-chegada da Inglaterra. Parece que  uma fugitiva, o marido est vivo 
em algum lugar, ao que tudo indica no  um sujeito muito agradvel, o conde de Balfour. Isso faz dela uma condessa, no ?  uma espcie de coincidncia, voc conde, 
e ela condessa, s vezes acho que metade da nobreza europia termina por estas bandas. Todos os desajustados e fugitivos, bem como os sujeitos loucos, desregrados. 
        Mas isto ainda no explicava a histria de Sarah. Franois, porm, sorria para ele melanclico, pensando em seu primo anos antes, nos homens que havia conhecido 
e ao lado de quem havia lutado, e agora nesta moa, disposta a trocar sua vida pela de um estranho. Ela havia sido to corajosa e to ousada na floresta, naquela 
noite. Nunca vira nada parecido. 
        - No - disse Franois -, no terminamos todos aqui, coronel. S os melhores. 
        Desejou ento boa noite ao coronel e voltou para a companhia de seus homens. Estes estavam dormindo, como os ndios sempre faziam, do lado de fora, sob o 
abrigo da guarnio. Sem fazer um rudo, sem dizer a eles uma palavra, Franois juntou-se ao grupo. 
        Sarah a essa altura estava na cama, pensando no homem que, estivera to certa, a mataria. S conseguia concentrar o pensamento em seus olhos escuros ardentes, 
olhando-a na floresta, seu cavalo movimentando-se e o prprio movimento possante de seus braos, enquanto ele o controlava, suas armas reluzindo ao luar... Ela se 
perguntou se seus caminhos voltariam novamente a se cruzar e, ao fechar os olhos e tentar tir-lo da mente, teve a esperana de que isso no acontecesse.

CAPTULO 14

        CHARLIE PASSARA UM DIA inteiro lendo o dirio de Sarah, da manh at quase meia-noite, e, quando o pousou, sorriu ao lembrar do encontro dela com Franois. 
Ela no fazia a menor idia do que estava para acontecer. Mas, tal como acontecera com Franois, Charlie ficara fascinado com sua coragem, durante aquele encontro 
na floresta de Deerfield. Charlie achava que jamais conheceria uma mulher assim e pensar nela o fez sentir-se mais sozinho do que nunca. Percebeu que no telefonava 
a Carole h muito, desde aquele fiasco do dia de Natal, em que lhe telefonara quando ela estava recebendo amigos com Simon. Pensar nela o fez sentir-se s novamente, 
e resolveu sair para tomar um pouco de ar. Estava uma noite fria, lmpida, com o cu cheio de estrelas. Mas tudo o que fazia parecia torn-lo ainda mais solitrio. 
No havia mais ningum com quem partilhar as coisas, ningum com quem conversar, agora, sobre Sarah. No tinha nem vontade de voltar a ver seu fantasma, se  que 
existia, queria algo muito mais real e, ao voltar a entrar, quase pde sentir o flego fugindo de seu peito ao pensar em tudo que havia perdido na Inglaterra. Havia 
ocasies em que achava que iria prantear para sempre a sua vida perdida. No conseguia se imaginar a voltar a amar algum, a dividir sua vida com outra pessoa. E 
era impossvel desejar que ela no se cansasse de Simon. Sabia que a conseguiria de volta num segundo. 
        Mas tudo isso era irrelevante, e ele subiu lentamente para o quarto, pensando primeiro em Carole, depois em Sarah e Franois. Que sorte eles tiveram. Que 
felicidade quando seus caminhos se cruzaram. Ou talvez tivessem sido pessoas especiais, cada um deles merecendo esse privilgio. Ainda estava pensando neles naquela 
noite, deitado na cama, desejando poder ouvir algum som, ou acreditar que eles ainda estavam perto. Mas no houve nem som, nem brisa, nem a sensao de espritos 
no quarto. Talvez fosse o suficiente contar com as palavras dela, suficiente ter encontrado os dirios. Mergulhou no sono, voltando a sonhar com eles, estavam rindo 
e correndo um atrs do outro numa floresta, ficou ouvindo sons estranhos no meio da noite e achou que fosse uma cachoeira, ele havia encontrado, o local onde ela 
estivera no dia em que se perdeu. Ento, ao acordar pela manh, percebeu que estava chovendo. Pensou em levantar-se e nas coisas que poderia fazer naquele dia, mas 
percebeu que no queria. Preparou em vez disso uma xcara de caf e voltou para a cama com os dirios de Sarah. Estava levemente preocupado consigo prprio. Ler 
os dirios de Sarah comeava a se tornar uma obsesso. Mas agora no podia parar. Precisava saber tudo que havia acontecido. Abriu o dirio no lugar que havia marcado 
na noite anterior e voltou a perder-se nele, sem parar um s instante. 

        A viagem de volta a Boston correu absolutamente tranqila para Sarah. E, para puni-la por t-los preocupado tanto, o coronel Stockbridge mandou o ainda apaixonado 
tenente Parker com ela. Mas ele se comportou impecavelmente e ela foi muito mais tolerante com ele do que at ento. Antes de deixar a guarnio, teve uma longa 
conversa com o coronel e, embora ele desaprovasse, ela conseguiu dele exatamente o que queria. 
        Voltou para a casa da Sra. Ingersoll muito animada e levou vrios dias para saber que algum, que chegara recentemente, andara espalhando boatos sobre ela. 
Estes iam do vago ao absurdo e um desses boatos a relacionavam diretamente com o rei Jorge III da Inglaterra. Mas ficou claro que algum chegara  cidade e sabia 
que ela era casada com o conde de Balfour. Alguns diziam que ele tinha morrido, outros que estava vivo. 
Alguns falavam de uma terrvel tragdia na qual ele havia sido assassinado por bandoleiros de estrada, outros diziam que ele enlouquecera e tentara mat-la, por 
isso ela havia fugido. A maioria das histrias eram bastante romnticas, e a cidade parecia estar fervilhando com elas, mas isso s tinha o efeito de torn-la mais 
desejvel do que j era, e Sarah nunca admitiu nada a ningum. Ela simplesmente continuou se apresentando como Sra. Ferguson, e deixou o resto para a imaginao 
das pessoas. Porm, uma coisa ela sabia: se a notcia de com quem era casada havia vazado, era s questo de tempo at Edward saber que estava em Boston. E esse 
conhecimento a tornou ainda mais decidida com relao a seu plano. O coronel a havia apresentado a alguns homens bons e eficientes, e eles haviam prometido comear 
o seu trabalho ao chegar a primavera. Ela havia sado para cavalgar com vrios homens antes de deixar Deerfield e encontrou a clareira rapidamente. Desta vez, a 
viagem de volta foi muito mais curta e bem menos empolgante. Ela ainda no havia perdoado Franois de Pellerim por t-la enganado. 
        Os homens que havia contratado em Shelburne lhe disseram que Sarah poderia ter sua casa pronta no final da primavera, especialmente considerando que ela 
pedira algo muito simples. Ela queria uma casa simples e comprida, de madeira, com uma sala principal, uma pequena rea de jantar, um nico quarto e uma cozinha. 
Precisava de um telheiro e outras construes do lado de fora, mas isso poderia vir depois, alm de uma cabana para os dois ou trs homens de que necessitaria para 
ajud-la. Nada mais. Os homens que contratou disseram que teriam tudo pronto em pouco tempo. Possivelmente em junho, talvez at antes. Tudo seria feito no local. 
Iriam usar todas as peas e ferramentas que tinham  mo e somente as janelas seriam feitas em Boston e mandadas para Shelburne em carroa de boi. Na verdade, havia 
algumas casas bonitinhas ali perto tambm, mas estas eram ainda mais elaboradas do que ela queria. 
        Sarah s desejava a morada mais simples. Ela no tinha necessidade, nem desejo, de nada elegante. Durante aquela primavera, ela s conseguia pensar na casa 
que estava construindo em Shelburne. Havia passado o inverno pacificamente em Boston, lendo, escrevendo seu dirio, sendo convidada por amigos. Ficou sabendo que 
Rebecca dera  luz uma menininha e tricotou uma touquinha e um suter para ela. E ento finalmente, em maio, no conseguiu mais agentar. Voltou a fazer a longa 
viagem a Deerfield, seguindo a cavalo para Shelburne, sempre que podia, para v-los construir a casa, tronco por tronco, pea por pea, pedao por pedao, tudo se 
encaixando como que por mgica. E eles haviam honrado sua palavra. Em 10 de junho, ela estava pronta para se mudar. Detestava a idia de ter de voltar a Boston para 
empacotar seus pertences, mas ainda havia algumas coisas de que precisava. 
        Levou duas semanas para encontrar tudo e, em meados de junho, voltou a partir numa carruagem, alm de uma carroa com uma pilha alta de todas as suas coisas, 
alm de dois guias e um cocheiro. E no houve incidentes. Chegou em segurana, primeiro a Deerfield, depois, por fim, a Shelburne. E, ao desempacotar suas coisas, 
ficou fascinada ao ver como aquela regio era bonita no vero. A clareira onde tinha ido morar era luxuriante, verde, as rvores erguendo-se muito altas, sombreando 
a casa que haviam construdo para ela, exatamente segundo suas especificaes. Ela tinha meia dzia de cavalos, algumas ovelhas, uma cabra, duas vacas. E contratara 
dois rapazes para ajud-la. Por enquanto, no haviam plantado muita coisa. 
        Ela queria tempo para estudar a terra, ficar aprendendo coisas a respeito dela, embora eles houvessem plantado milho. Isso era fcil. Um dos rapazes que 
contratara falara com uns iroqueses da vizinhana sobre o que plantar, j que eles eram profundos conhecedores de tudo que crescia na regio. Em julho, o coronel 
certa vez saiu para visit-la, e ela preparou-lhe um belo jantar. Cozinhava para seus dois empregados todas as noites e os tratava como filhos. 
        O coronel ficou no apenas comovido pela beleza simples de sua casa e as poucas coisas lindas que ela escolhera para trazer, como descobriu que no conseguia 
entender por que ela desistira do que devia ter sido uma vida nobre e privilegiada na Inglaterra. Mas isso teria sido quase impossvel de explicar a ele. O horror 
de sua vida com Edward ainda lhe provocava pesadelos. Ela dava graas a Deus a todos os momentos, a todas as horas, todos os dias, por sua liberdade. Ela caminhava 
quase diariamente at Shelburne Falls, quando tinha tempo, e  medida que o vero foi se passando, sentia-se amando aquele lugar cada vez mais. Ficava sentada nas 
pedras durante horas, s vezes desenhando, escrevendo, pensando, com os ps na gua glida. Adorava pular de uma pedra para outra e ficava tentando imaginar como 
haviam sido feitas as enormes depresses nas pedras do rio. Sabia que os ndios tinham lendas maravilhosas a esse respeito, e imaginava seres celestiais usando-as 
como brinquedos, atirando-as atravs do cu. Talvez um dia, muito tempo atrs, tivessem sido cometas. 
        Mas, durante o tempo que passava na cachoeira, encontrou uma paz que jamais sentira antes e comeou a sentir as velhas feridas finalmente sarando. Havia 
sido preciso esse tempo todo. Ela parecia mais saudvel do que nunca, e mais livre. Por fim, deixara todos os demnios e tristezas para trs. A vida na Inglaterra, 
agora, parecia um sonho. Estava voltando para casa da cachoeira cantando sozinha, ao sol do final de certa tarde de julho, quando escutou um som nas proximidades. 
        Ento o viu. Se a esta altura no conhecesse sua histria, ele a teria assustado novamente, to bravio era o seu aspecto, observando-a, de peito nu e calas 
de couro, montado em plo. Era o francs. Ela ergueu os olhos para ele e nenhum dos dois falou. Sarah imaginou que deveria estar a caminho da guarnio. 
        Na verdade, ele j estivera l, quando conversara com o coronel sobre ela. O coronel ainda a considerava notvel, e sua esposa ainda lamentava o fato de 
no ter conseguido convenc-la a ficar em Boston. 
        - Mas ela parece querer viver aqui, neste lugar ermo, no me pergunte por que, uma moa daquelas. Pelo certo, ela deveria voltar para a Inglaterra. Seu lugar 
no  aqui. 
        E Franois concordou plenamente com ele, embora por motivos diferentes. Achava que a vida que Sarah escolhera era perigosa para ela, porm sua coragem indmita, 
quando se encontraram seis meses antes, deixara-lhe uma impresso indelvel. Havia pensado nela mais de uma vez, desde aquela ocasio e, enquanto cavalgava para 
o norte, sozinho, vindo de Deerfield, e a caminho de visitar os iroqueses, decidiu dar uma parada e ir v-la, um tanto impulsivamente. 
        Um dos rapazes que trabalhara para ela contara a Franois onde Sarah se encontrava, embora o moo a princpio tivesse ficado com medo dele, pensando que 
podia ser um mohawk. Mas Franois mostrara-se extremamente educado com o rapaz e tentou ter cuidado para no assust-lo. Disse-lhe que ele e a Sra. Ferguson eram 
velhos amigos, embora esse no fosse exatamente o caso, e ela ficaria surpresa se ouvisse isso. E quando ela o percebeu observando-a, no pareceu nem um pouco satisfeita 
em v-lo. 
        - Boa tarde - disse ele finalmente, desmontando, consciente de seu estado de seminudez, no estilo nativo, e perguntando-se se ela se incomodaria. 
        Mas Sarah parecia nem notar. Ao que ela se opunha era ele estar espionando-a. Vira-o montado em seu cavalo, observando-a, enquanto seguia para casa pela 
trilha. No pde deixar de ficar imaginando por que ele fora at l. 
        - O coronel manda-lhe seus cumprimentos - continuou ele, acertando o passo com o dela, que lhe lanou um olhar, ainda surpresa por v-lo. 
        - Por que veio at aqui? - perguntou-lhe abruptamente, ainda zangada por causa do terror que ele lhe causara na floresta, naquele inverno. 
        Pensara que nunca mais se encontrariam e no conseguiu disfarar seu espanto. Ele encarou-a por um momento e em seguida curvou a cabea, puxando seu cavalo 
 retaguarda. Pensara nisso por um longo tempo e agora lamentava no ter vindo antes. Ouviu alguns de seus amigos senecas comentarem que ela estava em Shelburne, 
em uma clareira na floresta. Havia poucos segredos naquela parte do mundo e o universo indgena era cheio de boatos. 
        - Vim pedir desculpas - disse ele, olhando direto  frente, e finalmente voltando a encar-la. 
        Ela ainda parecia surpresa enquanto andava a seu lado. Estava usando um vestido simples de algodo azul, com blusa branca e avental, e nada diferente das 
roupas que as criadas usavam na casa de seu pai quando era criana, na Inglaterra. Levava agora uma vida simples, em nada diferente daquelas criadas. Mas Franois 
a via de outra forma. Ela parecia um esprito de um outro mundo, o tipo de mulher que ele nunca conhecera, e com o qual apenas sonhara. 
        - Sei que a assustei muito no inverno passado. No deveria ter feito aquilo, mas achava que era errado voc estar aqui. Este no  um bom lugar para a maior 
parte das mulheres. A vida  dura, os invernos so longos, h muitos perigos. - Ela voltou a ouvir seu sotaque e, ainda a contragosto, descobriu que gostava. Era 
principalmente francs e tinha um toque ndio, por ficar falando os dialetos deles boa parte do tempo, ao longo dos anos. Ele aprendera ingls quando garoto, e o 
falava bem, e no tinha mais oportunidade de falar francs com freqncia. - Os cemitrios esto cheios de gente que nunca deveria ter vindo para c. Mas. - admitiu 
com um pequeno sorriso que iluminou seu rosto de uma forma que ela nunca vira antes e que era como ver a luz do sol sobre as montanhas - talvez voc, minha corajosa 
amiga, tenha sido feita para ficar aqui. - Ele passara a pensar de forma diversa a respeito dela, desde aquela noite na floresta, e durante meses gostaria de ter-lhe 
dito isto. Estava feliz por ter a oportunidade de faz-lo agora, e mais feliz ainda por ver que ela estava disposta a ouvi-lo. 
        Havia ficado to zangada com ele naquela noite que temeu que Sarah nunca mais lhe permitisse aproximar-se. 
        - Existe uma lenda indgena sobre uma mulher que trocou sua vida pela do filho. Ela morreu por sua honra, e viveu para sempre em meio s estrelas, um guia 
para todos os guerreiros que precisavam encontrar o caminho na escurido. - Ele ergueu os olhos para o cu como se l houvesse estrelas, mesmo sendo ainda dia, e 
ento voltou a olhar para ela. - Os ndios acreditam que todas as nossas almas sobem para os cus e vivem l, quando morremos. Acho isso reconfortante, s vezes, 
quando penso nas pessoas que conheci e me deixaram. 
        Ela no quis perguntar-lhe quem tinham sido essas pessoas, mas o que ele acabara de dizer a fez pensar em seus filhos. 
        - Tambm gostei - disse ela baixinho, lanando-lhe um olhar de esguelha, com um sorriso tmido. 
        Talvez ele no fosse to ruim quanto ela um dia pensara, embora ainda no confiasse nele por completo. 
        - O coronel me contou que temos algo em comum - disse ele, caminhando lentamente ao lado de Sarah. - Ambos deixamos vidas para trs, na Europa. - Isso era 
bvio por seus respectivos sotaques, e ela ficou se perguntando subitamente se o coronel no lhe teria dito mais do que isso, embora no conseguisse imaginar que 
ele soubesse algo mais que os boatos que ela prpria ouvira em Boston. - Deve ter sido necessrio algo muito forte para traz-la at aqui, sozinha. Voc ainda  
jovem. Desistir de sua vida por l deve ter-lhe custado muito. 
        Ele ainda tentava descobrir por que ela viera. Apesar do que o coronel lhe contara seis meses antes, pressentira que seria preciso mais do que o marido ser 
"um tipo desagradvel" para faz-la percorrer toda aquela distncia at Deerfield. Ele ficou imaginando se ela seria feliz em sua vida retirada e simples, entocada 
perto de Shelburne. 
        Mas dava para perceber, s de olh-la, que, no mnimo, ela ali estava em paz. Caminhou ao lado dela at chegarem de volta  cabana, ao que ento ele pareceu 
relutante em se despedir e continuar cavalgando. Ela hesitou, enquanto olhava para ele. Apesar do que ele dissera, parecia que muito pouco tinham em comum. Ele vivia 
entre os ndios e ela ali, sozinha. Mas, em certo sentido, ele poderia ser um amigo interessante. Ela estava curiosa a respeito das lendas e dos folclores indgenas 
de que ouvira falar e sempre ansiosa em saber mais a respeito deles. 
        Assim que chegaram, ele a ficou observando e ela sorriu, lembrando como um dia lhe parecera feroz. Mas agora, com suas calas de pele e seus mocassins, com 
o cabelo solto ao vento, ele parecia extico, mas inofensivo. 
        - Gostaria de ficar para o jantar? No  nada especial. Apenas ensopado. Os rapazes e eu comemos coisas muito simples. 
        Ela deixara um panelo de ensopado em fogo muito baixo a tarde inteira. Tanto Patrick quanto John, seus empregados, eram de famlias irlandesas e tinham 
vindo de Boston. S se importavam que a comida fosse farta, e ela os mantinha bem abrigados e alimentados, dando graas aos cus por sua ajuda. Os dois rapazes tinham 
quinze anos e eram bons amigos. 
        Ao baixar o olhar para ela, Franois assentiu com a cabea. 
        - Se esta fosse uma famlia indgena, seria de se esperar que eu trouxesse um presente. Mas vim com as mos vazias - disse ele, voltando a se desculpar. 
        Porm no tinha sido sua inteno ir alm de dar uma espiada nela, transmitir-lhe as saudaes do coronel e depois continuar. Porm, algo nela - sua voz 
suave, suas maneiras gentis, as coisas inteligentes a respeito do que conversara - deu-lhe vontade de ficar. 
        Ele estava usando uma camisa de pele quando chegou  cabana naquela noite. Tinha dado comida e gua a seu cavalo, e lavado o rosto e as mos. O cabelo estava 
amarrado na nuca, com uma tira de couro, uma pena e um pequeno n de contas verdes brilhantes, e alm disso usava um colar de unhas de urso. Sentaram-se juntos  
mesa, como se estivessem em Boston e se conhecessem desde sempre. Os rapazes haviam comido antes e ela preparara a mesa para Franois com uma toalha de renda e a 
porcelana que comprara de uma mulher em Deerfield. 
Era de Gloucester e tinha sido trazida da Inglaterra anos atrs. As velas nos castiais de peltre tremeluziam uma luz clida sobre seus rostos e lanavam sombras 
contra a parede, enquanto conversavam. 
        Conversaram sobre as guerras ndias de anos antes e ele explicou-lhe sobre algumas das tribos, principalmente os iroqueses, mas falou-lhe tambm dos algonquinos 
e das tribos locais. Contou-lhe como as coisas eram diferentes quando ele chegara naquela terra, como havia muito mais ndios antes de o governo t-los forado a 
ir para o norte e para o oeste. 
        Muitos deles estavam agora no Canad, diversos haviam morrido durante a longa marcha para o norte. Ficava mais fcil compreender por que as tribos do oeste 
lutavam to ferozmente por sua terra contra o Exrcito e os colonizadores. Em certo sentido, ele sentia-se solidrio com os ndios, embora detestasse o que estavam 
fazendo com os colonizadores. Gostaria de ver algum tipo de tratado de paz ser assinado para que as coisas pudessem se acalmar. Mas, at agora, no haviam conseguido 
nada. 
        - Ningum vence nessas guerras. No  uma resposta para o problema. Todo mundo sai prejudicado com elas. E os ndios sempre perdem no final. 
        Isso o deixava muito triste, pois tinha um grande respeito pelos ndios, e Sarah adorava ouvir falar deles. Mais do que isso, adorava olh-lo, enquanto ele 
contava as suas muitas histrias. Era um homem de muitas vidas, muitos interesses, muitas paixes. Dera muito de si ao Novo Mundo e ela sabia que ele h muito havia 
conquistado o respeito tanto dos colonizadores quanto dos ndios. E, sentados conversando, os olhos dele estavam cheios de curiosidade sobre ela. 
        - Sarah, por que realmente veio para c? - perguntou finalmente. 
        Ela permitira que o chamasse pelo nome de batismo quase to logo se sentaram para jantar. 
        - Se eu tivesse ficado l, isso teria me matado - disse ela, com tristeza. - Eu era uma prisioneira em minha prpria casa... ou na casa dele, na verdade, 
de meu marido. Fui negociada aos dezesseis anos de idade por um bom pedao de terra. Algo assim como um contrato. - Ela sorriu para ele, e ento seus olhos voltaram 
a ficar tristes. - Durante os oito anos que se seguiram ele me tratou de forma abominvel. Um dia, sofreu um acidente e deu a impresso que ia morrer. Pela primeira 
vez em todo esse tempo pensei em como seria voltar a ser livre, no ser espancada... no sofrer nenhum mal, mas ento ele se recuperou, e tudo ficou exatamente igual 
ao que sempre fora. Fugi certa noite para Falmouth, comprei uma passagem num pequeno navio que iria zarpar em breve e vim para Boston. Tive de esperar trs semanas 
pela sada do navio, depois que comprei a passagem, e cada dia parecia ser um ano inteiro. - Ela sorriu ao se lembrar, e ento voltou a franzir o cenho. - Ele voltou 
a me bater. De forma terrvel... e... fez coisas horrveis comigo... imediatamente antes de minha partida, e ento entendi que, mesmo com receio do mar, precisava 
faz-lo. No podia ter ficado nem mais uma hora e, para falar a verdade, acho que se tivesse ficado, ele teria acabado comigo. 
        Se ele no a houvesse matado de pancadas, ou arrasado seu nimo, ela quase com toda certeza teria morrido dando  luz o prximo beb. Mas ela no disse nada 
disso a Franois e perguntou-lhe, em vez disso, por que nunca voltara  Frana. Tambm estava curiosa sobre ele e dava graas pela companhia que ele lhe proporcionava. 
Ela lia tanto e passava tanto tempo sozinha que era um prazer ter outro ser humano inteligente com quem conversar. 
        Os rapazes que trabalhavam para ela eram duas douras, mas eram pessoas simples e pouco cultas, e conversar com eles era como conversar com crianas. Mas, 
com Franois, no era assim. Ele era sofisticado e ajuizado, e realmente brilhante. 
        - Fiquei aqui porque adorei o lugar, e aqui sou til - disse ele baixinho, enquanto ela o ouvia. - No teria servido para nada se tivesse voltado  Frana. 
E agora que a Revoluo chegou, eu estaria morto a esta altura, se tivesse retornado a Paris. Minha vida  aqui - disse com simplicidade. - J o  h muito tempo. 
- Estava claro que ele no queria falar sobre si mesmo. Mas ela assentiu com a cabea. Era fcil compreender por que ele havia ficado. Ela no imaginava voltar  
Inglaterra. Era parte de uma outra vida. - E voc, minha amiga? - perguntou ele. Agora, era fcil esquecer como haviam se conhecido, sentados  mesa dela, comendo 
o jantar que ela havia preparado. - O que far, agora? No pode viver para sempre neste seu posto avanado.  uma vida esquisita para uma moa. - Ele era catorze 
anos mais velho do que ela, mas Sarah riu do que ele acabara de dizer a seu respeito. 
        - Tenho vinte e cinco anos.  difcil classificar isso ainda como jovem. E, sim, posso viver aqui sozinha para sempre,  exatamente essa a minha inteno. 
Quero ampliar a casa no ano que vem. E ainda h algumas coisas que preciso que sejam feitas antes do inverno. Vou levar aqui uma vida boa - disse ela com firmeza, 
mas, ouvindo-a, ele franziu o cenho. 
        - E se aparecer um grupo de guerreiros? O que vai fazer? Trocar sua vida pelas daqueles dois rapazes l fora, como fez no ano passado? - Ele ainda estava 
impressionado com isso, e nunca iria esquecer a expresso dos olhos dela quando lhe ofereceu a prpria vida pela do jovem soldado. 
        - No somos ameaa para eles. Voc prprio disse que os ndios aqui so pacficos. No lhes desejo mal. Eles sabero disso. 
        - Os nonotucks e os wampanoags, talvez. Mas, e se vierem shawnees do oeste, ou hurons do norte, ou at mesmo mohawks, o que vai fazer ento, Sarah? 
        - Rezar, ou encontrar meu Criador - disse ela, com um sorriso. 
No ia se preocupar com isso. Sentia-se segura onde estava, e os outros colonizadores disseram que raramente havia problemas. J haviam prometido inform-la se grupos 
guerreiros fossem vistos nas vizinhanas. 
        - Sabe atirar? - perguntou ele, ainda parecendo preocupado com ela, e ela sorriu diante de seu interesse. Ela j no o achava mais um ser feroz, agora era 
seu amigo. 
        - Ia  caa com papai quando menina, mas j no atiro h muitos anos. - Ele assentiu com a cabea, sabia que ia precisar ensinar-lhe. 
        E havia coisas sobre os ndios que ele ainda achava que ela devia aprender. Ele tambm ia espalhar entre seus amigos das tribos vizinhas que havia ali uma 
mulher sozinha, desarmada, e que era sua protegida. A notcia logo correria entre eles. Iam ficar curiosos sobre ela, alguns iriam dar uma espiada, ou para observ-la 
 distncia. 
        Podiam at visit-la ou tentar fazer comrcio com ela. Mas, quando soubessem que estava ligada a ele, no lhe fariam mal. Ele era Urso Branco dos iroqueses. 
Estivera com eles nos campos de trabalho, e danara com eles aps suas guerras. Participara com eles de suas cerimnias. E Casaco Vermelho dos iroqueses o recebera 
como seu prprio filho muitos anos antes. E quando sua mulher e seu filhinho morreram pelas mos do hurons, eles os haviam enterrado com seus ancestrais, tendo sido 
levados pelos deuses enquanto Franois os pranteava. 
        Sarah ficou observando-o enquanto terminavam o jantar, e, depois que tirou a mesa, voltaram a caminhar l fora. A noite estava morna e Franois sentiu-se 
estranho, parado ao lado dela. Fazia muito tempo que ele no visitava assim uma mulher branca. No houvera nenhuma mulher significativa em sua vida desde Pardal 
Choroso, e agora, observando Sarah, em p ao seu lado, temeu por ela. Era to inocente em seu admirvel mundo novo. 
        Gostaria de tomar conta dela, ensinar-lhe muitas coisas, deslizar com ela nas canoas compridas, lev-la para descer outros rios, cavalgar com ela muitos 
dias, mas no havia como explicar a ela o que sentia, ou as preocupaes que tinha por ela. Era uma inocente num mundo potencialmente complicado, e ele sabia que 
ela no entendia nada sobre os perigos. 
        Nessa noite ele dormiu do lado de fora, perto dos cavalos e sob as estrelas. E ficou um longo tempo deitado pensando nela. Ela fora longe, desde onde partira, 
tal como ele, muitos anos antes. Mas para ela era to mais difcil, e ela era to corajosa. Sarah parecia no se dar conta de nada disso, ao sair da cozinha no dia 
seguinte, ele sentindo o cheiro do bacom fritando l dentro. Ela assara po de milho para ele e havia caf quente, fumegante. H muito tempo ele no fazia um desjejum 
assim, preparado por uma mulher. 
        - Voc vai me deixar preguioso. - Depois do caf levou-a para sair, com seu mosquete e suas espingardas. 
        Ficou surpreso ao descobrir que ela atirava bem. Ambos riram com prazer quando ela abateu vrios pssaros numa rpida sucesso, e ele lhe disse que ia deixar 
seu mosquete com munio e que ela devia comprar armas para os dois rapazes que havia contratado, para que pudessem proteg-la. 
        - Acho que no vamos precisar disso - disse ela com firmeza, e perguntou-lhe se no gostaria de caminhar com ela at  cachoeira, antes de ir embora. 
        Durante um bom tempo, caminharam lado a lado, em silncio, cada qual perdido em seus prprios pensamentos e, quando chegaram, ficaram ambos parados em silncio, 
admirando a espetacular queda-d'gua. Ela sempre se sentia com a alma lavada quando a via e ouvia os sons. 
        Algo na precipitao da gua sempre a emocionava profundamente. Ele sorriu quando voltou a baixar os olhos sobre ela, mas agora Franois parecia mais distante, 
e Sarah no sabia no que ele estava pensando. Como com seus amigos indgenas, era sempre difcil dizer o que lhe ia pela cabea. Havia adquirido muitos dos hbitos 
deles. 
        - Mande avisar na guarnio, Sarah, se em algum momento precisar de mim. Sabero onde me encontrar, ou podem mandar um batedor ndio me procurar. - Ele no 
fizera at hoje essa oferta a ningum, mas no caso dela, falava sinceramente, com o que ela agradeceu e sacudiu a cabea. 
        - Estaremos timos - disse ela firmemente, acreditando no que dizia. 
        - E se no estiverem? 
        - Seus amigos lhe diro - ela sorriu. - Entre os soldados e os ndios parece haver poucos segredos nesta parte do mundo. - Isso era mais verdico do que 
ela pensava, e ele riu diante do que ela estava dizendo. 
        Considerando como estavam longe, todo mundo parecia saber o que todo mundo fazia. No era muito diferente de Boston, em certo sentido, embora demorasse mais 
para as novidades se espalharem. 
        - No ms que vem, volto para c - disse ele, sem esperar convite. - Para ver como est e se precisa de ajuda com a casa. 
        - Onde estar at l? - A vida dele a intrigava. 
        Podia facilmente imagin-lo morando nas casas compridas dos iroqueses, entre os amigos, ou viajando com eles em suas canoas, cobrindo longas distncias nos 
rios. 
        - Vou subir para o norte - disse simplesmente. 
        E ento disse a ela algo muito estranho, em resposta ao que ela dissera na noite anterior. 
        - No vai ficar aqui sozinha para sempre, Sarah. - Era algo em que ele acreditava, tanto quanto pressentia. 
        Mas ela o surpreendeu com o que retrucou e com o olhar sereno que deu, como que confirmando-o. 
        - No tenho medo de ficar sozinha, Franois - disse claramente, falando srio. Aceitara h muito tempo esse fato de sua vida, que era melhor do que viver 
acorrentada a um homem como Edward ou outro como ele. At os ndios davam a suas mulheres o direito de abandonar um bravo que as maltratasse. Seu mundo supostamente 
civilizado no fazia nem isso. - Aqui, no sinto medo nenhum - continuou com um sorriso descontrado, equilibrando-se sobre suas amadas pedras, enquanto ele a observava. 
        s vezes, ela parecia quase uma criana. E por mais velha que ela se achasse, para ele era pouco mais que uma menina, e era o que parecia. Em seus olhos 
ainda havia algo jovial e confiante, enquanto o fitava. 
        - Do que tem medo ento? - perguntou ele, como que hipnotizado por ela, que se sentara numa pedra lisa e morna que aquecera a manh inteira. 
        - Tinha medo de voc - ela riu. - Verdadeiro terror, foi uma perversidade sua. - Ela agora o censurava,  vontade para dizer-lhe como ficara desesperadamente 
assustada. - Esperava sinceramente que voc fosse me matar. 
        - Eu estava to zangado com voc, que queria sacudi-la - confessou ele, agora envergonhado do terror que lhe havia provocado. - Eu s conseguia pensar no 
que um grupo de guerreiros mohawks teria feito e queria espant-la de volta a Boston, para salv-la. Mas vejo agora que voc  teimosa demais para ser influenciada 
pelos argumentos sensatos de um homem honesto. 
        - Sensatos! Honesto! - disse ela com escrnio. - Muito honesto, no foi, fantasiado de guerreiro ndio e me matando de medo? Isso dificilmente se pode chamar 
de "argumento sensato", se quer saber, ou ser que ? - A essa altura, estava rindo dele, que se sentou a seu lado, espadanando os ps descalos junto aos dela; 
seus braos estavam dolorosamente prximos, mas no exatamente se tocando. No teria custado nada passar um brao em torno dela, pux-la para perto e segur-la. 
Mas, mesmo conhecendo-a to pouco, ele sentia o muro alto em torno dela e no teria ousado abord-la. 
        - Um dia vou lhe retribuir - disse ela calmamente. - Vou botar uma mscara aterrorizante e assust-lo em sua tenda. 
        - Acho que eu ia gostar - disse ele, recostando-se na pedra e olhando para ela, enquanto tomavam banho de sol juntos. - Ora, nesse caso vou ter de pensar 
em algo bem pior para fazer com voc. - Mas, para falar a verdade, no conseguia. Tendo perdido a mulher e o filho, o pior j tinha sido feito. 
        A ele no importava que seu casamento no pudesse ter sido legalmente reconhecido, em sua Frana natal, ou mesmo pelos colonizadores. Para ele, o lao iroqus 
que os havia unido era sagrado o bastante para durar a vida inteira. 
        - Voc no tinha filhos na Inglaterra, tinha? - perguntou ele casualmente, quase certo de que ela no tinha, e achando que o assunto era seguro. 
    Mas se enganara. Viu imediatamente nos olhos dela a dor enorme que havia causado e, observando-a, gostaria de poder arrancar a prpria lngua. 
-Desculpe, Sarah. No tive a inteno. Achei.
        -Tudo bem - disse ela com gentileza, olhando para ele, com mundos de sabedoria e pesar nos olhos. - Todos os meus filhos morreram ao nascer, ou foram natimortos. 
Talvez por isso meu marido me odiasse tanto. No consegui dar-lhe um herdeiro. Ele tem muitos filhos bastardos, por toda a Inglaterra, creio, mas nunca lhe dei um 
filho legtimo. Dos seis que morreram - disse ela num tom angustiado, lanando o olhar sobre a gua -, trs eram meninos. 
        - Sinto muitssimo - disse ele, baixinho, mal capaz de imaginar a dor que ela devia ter passado. 
        - Eu tambm senti muitssimo - disse ela e sorriu com tristeza. - Ele foi implacvel. Queria um herdeiro a qualquer custo e acho que teria me deixado desmaiada 
de pancadas, at eu conseguir fazer um. Ele me engravidava sem parar, e mesmo ento me batia, no a ponto de machucar a criana, s o bastante para me lembrar que 
eu era poeira e terra sob a sola de seu sapato. Eu costumava pensar, s vezes, que ele era totalmente maluco, e a pensei que eu  que era... eu costumava sentar 
na igreja e rezar para que ele morresse. - Franois retraiu-se s de pensar nisso e ento, como se para participar da dor dela, contou-lhe sobre Pardal Choroso e 
seu beb, e sobre o quanto ele os amava. 
        Disse que achava que ia morrer de dor quando ambos foram mortos num ataque ndio  sua aldeia. Pensou que nunca mais voltaria a gostar de algum, mas agora 
no tinha tanta certeza, embora Sarah fosse muito diferente de qualquer pessoa que ele j conhecera. Mas ele prprio estava surpreso com o quanto gostava de Sarah 
apesar de pouco saber dela. No disse a ela tudo isso, mas cada um tivera seus sofrimentos pessoais, cada qual carregava no corao um fardo pesado. 
        Para ele j fazia muito tempo, mas podia ver nos olhos de Sarah que a mgoa dela ainda no tinha sarado. Seu ltimo filho morrera pouco mais de um ano antes, 
mas a dor agora no era to aguda quanto tinha sido. Desde que chegara ali, ela vinha levando uma vida feliz e descontrada. 
        Ficaram sentados um pouquinho  luz do sol, pensando nas confidncias que haviam trocado e na dor que isso aliviava, e ela maravilhava-se com o fato de que 
o homem que a havia assustado tanto, uns meses antes, havia se tornado seu primeiro amigo de verdade desde que chegara. Quase lamentava ele estar de partida, e quando 
voltaram para casa caminhando, no final da tarde, ela perguntou-lhe se ele no gostaria de ficar para mais uma refeio, mas ele disse que era melhor no se deter, 
pois ainda tinha muito que viajar. 
        Disse que havia prometido se encontrar com seus companheiros mais  noite, porm o verdadeiro motivo era que no confiava em si mesmo com ela, se ficassem 
juntos por muito tempo. E ele entendera, conversando com ela, que Sarah no estava pronta para receber ningum em sua vida nova. Se queria estar perto dela, s poderia 
esperar por sua amizade. Ela deu-lhe montes de po de milho, de presunto e bacon para ele levar quando partisse, e ele lembrou-a de comprar arma e munio. 
        Sarah ainda tinha o seu mosquete, e ele acenou ao distanciar-se, cavalgando, novamente de peito nu, os cabelos voando ao vento. A nica coisa que o destacava 
de seus irmos adotivos era que se recusava a usar a tanga que lhes era caracterstica, mas em vez disso usava calas de couro e mocassins e pisava sem fazer qualquer 
rudo, silenciosamente, tal como eles. 
        Ela esperou at ele ter sado da clareira e, quando voltou para a casa, algo brilhante captou sua viso sobre a mesa onde haviam jantado na noite anterior. 
E, quando ela foi olhar, eram o colar de garras de urso e o cordo de contas verdes brilhantes, que ele estava usando durante o jantar, na noite anterior. 

        E, quando Charlie voltou a pousar o dirio, o telefone tocava e ele percebeu, pela luz ambiente, que j era o final da tarde. Sentia-se desorientado, tendo 
acabado de voltar num momento no tempo, a duzentos anos de distncia. Presumiu que era provavelmente Gladys. 
Quando o telefone fora instalado ele informou a Gladys e ao escritrio de Nova York seu nmero novo e, de casa, passou um fax para Carole, que na verdade no tinha 
qualquer motivo para telefonar-lhe. Mas teve um sobressalto quando atendeu. Ela no o chamara desde que ele sara de Londres. E ele prprio no telefonava para ela 
h quase duas semanas. 
        Era Carole. E ele no pde deixar de ficar imaginando se ela tinha voltado ao bom senso. Talvez Simon tivesse feito algo terrvel a ela, ou ela finalmente 
estivesse sentindo falta dele. Mas, qualquer que fosse o motivo do telefonema, s ouvir a voz dela pareceu delicioso a Charlie. 
        - Oi - disse ele, ainda deitado na cama, como estava desde o amanhecer. Havia acabado de pousar o dirio, e ainda conseguia visualizar as contas verdes que 
Franois deixara para Sarah sobre a mesa. - Como vai voc? - A voz e o sorriso dele eram clidos, deitado na cama, pensando em Carole. 
        - Sua voz est soando engraada. Voc est bem? - Ela se preocupava com ele, mais do que suspeitara. 
        - Estou timo - explicou. - Estou na cama. - Tinha a cabea pousada no travesseiro e sua voz soava relaxada. 
        No pde deixar de pensar que ela adoraria a casa. Queria contar-lhe a esse respeito. Teve vontade disso desde a primeira vez que a vira. Mas primeiro queria 
saber por que ela havia telefonado. 
        - Voc no faz mais qualquer tipo de trabalho? - Ela parecia nervosa, e ainda no compreendia inteiramente o que havia acontecido em Nova York. 
        Ainda imaginava se ele no teria tido algum tipo de colapso nervoso. No era caracterstico dele simplesmente largar um emprego e tirar seis meses de folga, 
e agora estava falando em ficar deitado na cama s quatro horas da tarde. Para Carole, isso parecia horrvel e altamente suspeito. 
        - Eu estava lendo - disse ele, a voz soando magoada, mas no disse a ela o qu. - Estou s tirando um pouco de tempo para mim prprio, s isso. No fao 
isso h anos. - E aps tudo que fizera no ano passado, ela tinha de entender isso, mas em seu ocupado mundo jurdico, no era o tipo de coisa que pessoas normais 
e saudveis faziam. Simplesmente no se abandona um emprego importante e se passa os seis meses seguintes lendo, deitado na cama. 
    - No estou muito certa se entendo o que est acontecendo, Charlie - disse ela com tristeza, e ele riu quando lhe respondeu. Ele estava muito animado, agora 
que ela lhe havia telefonado. 
-        Nem eu. Portanto, o que  que h, para voc me telefonar?
-        Em Londres eram nove horas da noite. 
    Era fcil acreditar que ela havia acabado de sair do escritrio, ou assim pensava. Na verdade, ela ainda estava  sua escrivaninha, mas havia contado a Simon 
que ia telefonar-lhe. Iam se encontrar na casa de Annabel s dez horas e ela sabia que ele lhe perguntaria a esse respeito. 
- Voc est bem? - Ela detestou ficar sabendo como ele estava
animado, no queria estragar isso, mas queria que ele soubesse antes de contar a qualquer outra pessoa, e antes que algum de seus velhos amigos lhe contasse. Em 
Londres as notcias sempre se espalhavam muito depressa.
- Estou tima. Charlie, no h como lhe contar isto, a no ser
diretamente. Simon e eu vamos nos casar, em junho, e o divrcio  definitivo. 
        Houve um silncio infinito, e ela fechou os olhos e mordeu o lbio. Durante uma eternidade, Charlie no disse nada. Sentia-se como se tivesse acabado de 
levar um soco no estmago com uma pedra grande. A essa altura, j era uma sensao familiar. 
        - O que espera que eu diga? - disse ele, seu tom de voz soando subitamente enjoado. - Que lhe suplique para no faz-lo? Foi por isso que telefonou? Podia 
apenas ter me mandado uma carta. 
        - Eu no faria isso com voc e no queria que soubesse por alguma outra pessoa. - Ela estava chorando, pois contar-lhe estava sendo bem pior do que imaginara. 
Embora no pudesse ouvir Charlie, ele chorava tambm, e gostaria que ela no tivesse lhe telefonado. 
        - Que diferena faz por quem eu fico sabendo? E por que diabos est se casando com ele? Ele tem idade para ser seu pai, pelo amor de Deus, e vai simplesmente 
jogar voc para escanteio, como fez com todas as suas outras esposas - disse Charlie, agora lutando pela vida. 
No podia deix-la fazer aquilo. Sentia-se como se eles estivessem voando por uma colina abaixo, fora de controle, e ele no conseguia parar, enquanto tentava preveni-la 
sobre Simon. 
        - Duas delas o deixaram. - Carole o corrigiu e Charlie produziu um som amargo em sua extremidade da linha. - Ele s deixou a terceira. 
        - Grande recomendao. E isso faz de voc o qu? A Nmero Quatro? Encantador. 
 isso que quer? Por que no ter apenas um caso com ele? Voc j fez isso - disse ele, comeando a ficar maldoso. 
        - E da, o qu? - Ela agora passava a bola de volta para ele. Ele a fizera sentir-se pssima, e ela no tinha de telefonar-lhe. S o fizera para ser legal. 
- O que espera de mim, Charlie? Que eu volte e recomecemos tudo, de onde paramos? Como voc sequer ia saber que eu estava de volta? Nenhum de ns dois jamais estava 
presente, ramos apenas dois executivos dividindo uma casa e um aparelho de fax. Meu Deus, aquilo no era um casamento. Voc sabe como eu era solitria? - disse 
ela com voz angustiada, e ouvindo-a, ele sentiu-se enjoado. Nunca havia sequer notado. 
        - Por que voc no me disse? Por que no disse alguma coisa em vez de simplesmente sair e trepar com outra pessoa, que inferno! Como  que eu ia saber o 
que se passava pela sua cabea se nunca disse nada a esse respeito? Ela agora soluava, e lgrimas escorriam pelo rosto dele. 
        - No estou certa de que eu prpria sabia - disse ela, honestamente -, at estar acabado. Acho que estvamos to ocupados evitando um ao outro o tempo todo 
que, aps um tempo, parei de sentir. Eu era s um rob, uma mquina, uma advogada, e de vez em quando, quando um de ns tinha tempo, eu era sua mulher. 
        - E agora? - Ele no estava s se torturando, ele queria saber por si mesmo. -  mais feliz com ele? 
        - Sim, sou - admitiu. -  diferente. Jantamos juntos todas as noites, ele me telefona trs ou quatro vezes por dia, se estamos distantes. Quer saber o que 
estou fazendo. No sei o que , mas ele cria mais tempo. Ele faz com que eu crie mais tempo. Se ele viaja, me leva com ele, ou viaja comigo, se puder, ainda que 
isso seja apenas um vo para Paris, ou Bruxelas ou Roma, ou para onde quer que eu tenha ido, para passar a noite. Ele era infinitamente mais atencioso. 
        - Isso no  justo - disse Charlie, parecendo infeliz. - Vocs dois trabalham para a mesma firma. Eu estava mais distante que Paris, pelo amor de Deus, a 
maior parte do tempo. Metade do tempo eu estava em Hong Kong, ou Taip. - Era verdade, mas no s isso, ambos sabiam. 
Eles haviam deixado que algo entre eles morresse, havia simplesmente escorregado por entre seus dedos quando no estavam olhando. 
        - No eram s as viagens, Charlie, sabe disso. Era tudo. Paramos de falar um com o outro... nunca tnhamos tempo para fazer amor. Eu estava sempre trabalhando, 
e voc sempre com defasagem dos fusos horrios. 
        - Isso era mais real do que estava pronto a admitir, e a referncia feita por ela  sua abstinncia sexual s piorou as coisas. 
Ele no estava apreciando aquela conversa. 
        - E um homem de sessenta e um anos vai fazer amor com voc todas as noites? O que ele fez? Uma prtese? Ora, Carole, me poupe. 
        - Charlie, pelo amor de Deus, por favor. 
        - No, por favor voc! - Ele ergueu o tronco abruptamente, sentando-se reclinado na cama, pronto para lutar. - Voc teve um caso com ele. Nunca me falou 
como era infeliz. Limitou-se a sair e contratar outra pessoa para o emprego, sem nem ao menos me comunicar que eu estava despedido. Voc no me deu sequer a chance 
de consertar as coisas, e agora est toda envolvida com essa babaquice romntica que ele est empilhando sobre voc, porque ele , oh, to suave e elegante, e voc 
est me dizendo que vo se casar. E exatamente quanto isso vai durar? Voc est se enganando, Carole. Voc tem trinta e nove anos, e ele sessenta e um. Dou a vocs 
um ano, no mximo. 
        - Obrigada pelo voto de confiana e pelos bons votos to elegantes - disse ela, num tom realmente zangado. - Sabia que voc no ia conseguir encarar essa. 
Simon achou que eu devia lhe telefonar, disse que era a coisa correta a fazer. E eu falei que voc ia reagir como um absoluto cretino. Parece que eu tinha razo. 
- Ela agora estava bancando a megera, e sabia disso, e ele odiava o modo como sua voz soava, odiava ver que ainda estava to magoado. 
        E se ele nunca se recuperasse e tudo ficasse sendo culpa dela para sempre? Mas nem esse pensamento a fez ter vontade de voltar para ele. Ela s queria se 
casar com Simon. 
        - Por que no mandou o Simon telefonar? - perguntou ele, maldoso. - Teria sido mais simples. 
        Nada desta confuso, s aquele monte de merda sobre ser um bom perdedor, Deus salve a Rainha, e tudo isso. - Ele estava chorando de novo, ela ouvia muito 
bem, e houve um silncio infinito. 
        Ele fungou e, quando voltou a falar, sua voz saiu horrvel. 
        - No acredito que voc vai se casar em junho. A tinta do divrcio nem estar seca ainda. 
        - Sinto muito, Charlie - disse ela, baixinho. - No h nada que eu possa fazer. Isso  o que quero. - Ele ficou calado de novo, pensando nela, lembrando 
o quanto a havia amado, querendo que ela lhe tivesse dado uma chance. 
        Mas no tinha. E agora era a vez de Simon. Ela jogou fora tudo que tivera com Charlie. Ele ainda no conseguia acreditar. 
        - Sinto muito, benzinho - disse ele, e a gentileza em suas palavras despedaaram-lhe o corao. Isso foi bem mais eficaz que sua raiva, mas ela no lhe disse. 
-Acho que s me resta desejar-lhe boa sorte. 
        - Obrigada. - Ela ficou sentada, chorando em silncio. 
        Queria dizer a ele que ainda o amava, mas sabia que no seria justo. Mas, num certo sentido, sabia que sempre o amaria. Era tudo to confuso e to doloroso, 
mas pelo menos, telefonando-lhe, ela achava ter feito o que era certo. 
        - Agora,  melhor eu desligar. - J passava das nove e meia e ela tinha de encontrar Simon dali a meia hora, no clube. 
        - Cuide-se - disse Charlie, rouco, mas no momento seguinte ambos desligaram. 
        Ele estava reclinado na cama e apoiou a cabea contra a cabeceira e fechou os olhos. 
        No conseguia acreditar no que ela dissera. E por um minuto louco, adorou achar que Carole lhe telefonara para dizer que tinha acabado com Simon. Como pde 
ter sido to imbecil? Mas agora no conseguia evitar a dor que ela lhe havia infligido. Levantou-se, enxugou os olhos e olhou pela janela. Era uma tarde ensolarada 
e, de repente, nem mesmo os dirios de Sarah pareciam to importantes. Ele s queria era cair fora de casa e gritar. 
        No sabia o que ia fazer, mas saiu da cama e enfiou as roupas. Escovou o cabelo e colocou um suter pesado com as calas jeans. Calou meias quentes e botinas, 
vestiu um casaco, trancou a casa e entrou no carro. No sabia sequer aonde estava indo, s sabia que, pelo menos, por um pouco de tempo, tinha de sair. Talvez ela 
estivesse certa, talvez houvesse alguma coisa de errado em ele tirar simplesmente algum tempo livre para si mesmo. Mas as coisas tinham sido to confusas em Nova 
York que ele no achava que tinha tido outras opes. 
        Dirigiu sem rumo para a cidade e viu pelo espelho retrovisor que parecia um bagao. No se barbeava desde o dia anterior, e seus olhos de repente pareciam 
afundados na cabea. Era como se ela o tivesse acertado com um tijolo. Mas sabia que tinha de superar isso em algum ponto. No podia continuar chorando por ela o 
resto da vida. Ou podia? E se era assim que ele se sentia agora, como seria em junho, quando se casassem? Passou dirigindo pela sociedade histrica, enquanto se 
fazia mil perguntas, e ento, sem saber o que estava fazendo, parou. Francesca era a pessoa errada com quem conversar. A seu prprio jeito, ela estava ainda mais 
magoada do que ele. Mas ele tinha de falar com algum. No podia mais se limitar a ficar sentado olhando os dirios, e de alguma forma que ele no sabia qual era, 
neste caso falar com Gladys Palmer no o ajudaria. Pensou em apenas ir a um bar e tomar uma bebida. 
        Precisava ouvir barulho, ver pessoas, precisava fazer algo com a dor pungente do que acabara de ouvir de Carole. Ainda estava sentado no carro, imaginando 
se deveria entrar, quando a viu. Francesca acabara de trancar a porta e j estava na metade da escada quando, como se tivesse pressentido algum observando-a, Francesca 
virou-se e o avistou. Ela hesitou por um momento, perguntando-se se era coincidncia ou intencional. E ento virou-se e comeou a se afastar. 
        Sem pensar, ele saiu do carro e correu atrs dela e, enquanto o fazia, s conseguia pensar em Sarah e Franois. Em algum ponto Franois precisou de toda 
a coragem para estar presente. Ele havia voltado, mesmo depois de t-la atemorizado, a fim de lhe dar as contas verdes e as garras de urso. Charlie no havia sequer 
aterrorizado Francesca, lembrou a si prprio. Mas tudo que ela tinha feito desde que o conhecera fora fugir dele. Vivia perpetuamente assustada, com a vida, com 
os homens, com as pessoas. 
        - Espere! - disse ao ficar a apenas dois passos dela, e ela ento se virou, com uma expresso preocupada nos olhos. O que ele queria? Por que estava correndo 
atrs dela? No tinha nada para lhe dar, sabia muito bem disso. No tinha mais nada a dar a ningum, e certamente no a Charlie. 
        - Desculpe-me - disse ele, parecendo subitamente constrangido. Ela notou imediatamente que ele estava com um aspecto horrvel. 
        - Voc pode devolver os livros amanh. - replicou ela, como se ele fosse sair correndo dois quarteires por dois livros que esquecera de devolver. No era 
provvel. 
        - Danem-se os livros - disse ele ousadamente. - Preciso falar com voc. preciso falar com algum. - Ergueu os braos e girou-os em desespero, como se estivesse 
rodopiando, e ela percebeu imediatamente que ele estava  beira das lgrimas. 
        - O que houve? Aconteceu alguma coisa? - Apesar de si mesma, sentiu pena dele. Era fcil ver que estava sofrendo muito. Ele sentou-se nos degraus que levavam 
a uma casa s escuras, e ela baixou os olhos sobre ele do modo como teria feito com sua garotinha. - O que foi? - perguntou, desta vez com gentileza, sentando-se 
no degrau prximo a ele. - Conte-me o que aconteceu. - Sentou-se bem perto dele, e ele ficou com o olhar fixo no espao. Gostaria de ter a coragem de pegar-lhe a 
mo enquanto lhe contava. 
        - Eu no devia incomod-la com isto, mas precisava falar com algum. Acabo de receber um telefonema de minha ex-mulher. eu sei, estou maluco... ela anda 
saindo com um sujeito h mais de um ano, na verdade dezessete meses. Ela teve um caso com ele,  um scio snior da empresa de advocacia onde ela trabalha, tem sessenta 
e um anos de idade e foi casado trs vezes, portanto, ela me abandonou por ele, h dez meses atrs, para ser exato. No outono passado estvamos com um processo de 
divrcio, e  uma longa histria, mas fui transferido para Nova York e no deu certo. Por isso tirei uma licena... e agora ela me telefona... ela telefonou e achei 
que devia ter voltado ao bom senso. - Ele deu um riso vazio e Francesca o ficou observando. J podia adivinhar o que viria. 
        - Em vez disso, ela lhe telefonou para dizer que vai se casar - disse ela tristemente, e ele pareceu assustado. 
        - Ela telefonou para voc, tambm? - Arreganhou um sorriso triste, e ambos riram. 
    - No precisava. Tambm recebi um telefonema desses, h bastante tempo atrs - disse ela, com um ar de tristeza. 
- Do seu marido? Ela assentiu com a cabea.
- O dele foi um pouco mais extico. Ele teve um caso anunciado na TV
Nacional Francesa durante as Olimpadas. Ele  um locutor esportivo e envolveu-se com uma jovem, a campe francesa de esqui. Tornaram-se os queridinhos de todo o 
mundo. No importa que ele fosse casado e tivesse uma filha. Isso foi completamente sem importncia. Todo mundo se apaixonou por Pierre e Marie-Louise, ela  a coisinha 
mais linda do mundo. Tinha dezoito anos, e ele, trinta e trs. Posaram para fotos, saram na capa da Paris-Match. Deram at entrevistas juntos, e ele disse que no 
era nada importante. Era boa publicidade para a equipe de esqui. Qualquer coisa por Deus e pela ptria. Mas fiquei um pouco perturbada, tambm, quando ela engravidou. 
Fizeram um carnaval a respeito disso na TV As pessoas no paravam de mandar roupinhas de beb que haviam feito para ela, s que ficavam mandando isso para mim. Ele 
no parava de dizer que me amava e, claro,  louco por Monique, e  um bom pai, por isso, fiquei.
        - E chorou o tempo todo - completou por ela. 
        - Quem lhe disse? - Por um minuto, ela pareceu surpresa e ele sorriu-lhe gentilmente. 
        - Monique. Mas ela no disse mais nada. - No queria arrumar confuso para a menininha, e Francesca sorriu sensatamente e deu de ombros. 
        - De qualquer forma, eu fiquei, e a barriga dela foi crescendo cada vez mais. Mais entrevistas, mais reportagens de capa, mais coberturas na TV, locutor 
desportivo nacional e adolescente medalha de ouro em esqui. Era perfeito. Mais cabealhos. Especial do noticirio: ela vai ter gmeos. Mais sapatinhos chegando l 
em casa. Monique achou que eu ia ter um beb, tente explicar isto a uma criana de cinco anos. De qualquer forma Pierre ficava me dizendo que eu estava sendo neurtica 
e antiquada. De acordo com ele, sou uma norte-americana constipada, enquanto aquilo tudo era muito francs e eu me recusava a entender. O problema  que, para mim, 
aquilo era dele. Meu pai  italiano, e fez quase a mesma coisa com minha me quando eu tinha seis anos. No foi muito divertido naquela poca, mas, para falar a 
verdade, isto foi pior. Ela fazia com que parecesse quase engraado, mas no foi preciso muita coisa para calcular que devia ter sido um pesadelo. 
        Ser enganada pelo marido na frente das cmeras de TV tinha de ser pior ainda do que Carole lhe fizera. At Charlie achava isso. 
        - De qualquer maneira, os bebs finalmente nasceram. E, claro, eram adorveis, um menino e uma menina. Jean-Pierre e Marie-Louise. Duas rplicas deliciosas 
deles. Agentei isso cerca de duas semanas depois do nascimento e ento me enchi. Arrumei Monique e disse a ele para me informar se tivesse mais filhos, mas no meio 
tempo ele podia me encontrar em Nova York, na casa da minha me. Depois que cheguei l, pensei a esse respeito algum tempo, e mame me levou  loucura, berrando 
a respeito dele. Para ela, foi como reviver o prprio divrcio. Aps algum tempo eu no queria mais ouvir falar. Entrei com uma ao de divrcio. A imprensa francesa 
disse que eu no era boa desportista. Acho que estava certa. O divrcio foi concludo um ano atrs, logo antes do Natal passado. Recebi o mesmo telefonema que voc, 
bem na vspera do Natal. Queriam dividir as boas novas comigo. Haviam acabado de se casar em Courchevelles, nas colinas, com os bebs nas costas, e sabiam que eu 
ia querer participar da alegria deles. Monique me contou que Marie-Louise est grvida de novo, quer ter mais um antes de comear a treinar para a prxima Olimpada. 
 tudo muito bonitinho. Mas aquilo em que no consigo parar de pensar : por que ele se incomodou comigo? Ele poderia simplesmente ter esperado por ela e pulado 
todo o episdio que me inclua. Nunca servi muito bem mesmo para a TV Conforme a imprensa francesa disse, eu era muito americana e muito chata. 
        Ela ainda soava zangada e amarga, e ouvindo o que ela acabara de dizer, no lhe parecia nenhum mistrio. Ela ficara obviamente magoada com a perda e a humilhao, 
e com seu pai tendo feito a mesma coisa quando ela era criana, no deve ter ajudado muito. Ficou imaginando o que tudo isso significaria agora para Monique. Seria 
ela agora uma fracassada de terceira gerao, com certeza de falhar no casamento? Era difcil saber como essas coisas afetavam as pessoas. Seus pais tinham sido 
um casal feliz, e tambm os de Carole. Ainda assim, havia acontecido com eles. Isso significaria que todo mundo fracassaria no casamento? Ou s alguns? O que isso 
tudo significava? 
        -H quanto tempo vocs estavam casados? - perguntou a ela. 
        - Seis anos - disse ela, encostando-se suavemente nele. 
        Ela nem tomou conscincia de que o estava fazendo, mas contar sua histria a ele a fez se sentir bem. Ouvindo a dele, ela agora no se sentia to sozinha, 
nem tampouco Charlie. 
        - E quanto a voc? - perguntou com interesse. 
        De repente, eles tinham um bocado de coisas em comum. Haviam sido chutados por especialistas. 
        - Ficamos casados nove anos, quase dez. Ruim de observao que sou, eu achava que ramos estaticamente felizes. S vim a sequer perceber que havia um problema 
quando ela j estava praticamente vivendo com outra pessoa. No sei como deixei passar isso. Ela disse que ramos ocupados demais, viajados demais, no dvamos ateno 
suficiente um ao outro. Agora s vezes acho que devamos ter tido filhos. 
        - Por que no tiveram? 
        - No sei. Acho que ela est certa - confessou ele, era mais fcil admitir isso para Francesca do que para Carole. - Talvez estivssemos ocupados demais. 
S no pareceu ser algo que precisssemos fazer, mas agora eu lamento, especialmente depois de ter conhecido uma criana como a sua. No tenho nada para apresentar 
como resultado de nove anos de casamento. 
        Francesca sorriu para ele, que gostou do que viu. Ficou contente por t-la parado na rua. Precisava falar com algum, e talvez fosse melhor com ela do que 
com qualquer outra pessoa. Pelo menos ela o compreendia, e quilo que havia acontecido. 
        - Pierre disse que isso nos aconteceu porque eu estava muito envolvida com Monique. Parei de trabalhar quando dei  luz. Eu era modelo em Paris quando nos 
conhecemos, e quando nos casamos desisti da carreira, estudei histria da arte na Sorbonne e me formei. Mas quando dei  luz, simplesmente me apaixonei pela condio 
de me. Queria estar com ela o tempo todo. Queria tomar conta dela pessoalmente, achei que era isso que ele queria. No sei, Charlie, talvez s vezes no se possa 
ganhar. Talvez alguns casamentos estejam fadados ao desastre, desde o princpio. - Ou assim ela achava. 
        -  o que andei pensando ultimamente. - Charlie assentiu com a cabea, concordando. - Eu achava que tnhamos um casamento sensacional, e agora vejo que eu 
estava era biruta, e voc achava que estava casada com a edio francesa do Prncipe Encantado. Como vocs diziam isso, "Prince Charmant"? - Ela assentiu com a cabea 
e arreganhou um sorriso. 
        - E no final estvamos ambos malucos. E agora Carole vai se casar com um velhote babaca que coleciona mulheres, e o seu ex-marido est casado com uma garota 
de dezenove anos com gmeos, imagine s, Como  que voc vai saber que entendeu direito? Talvez voc no tenha como saber. Talvez tenha de correr o risco e ir percebendo 
as coisas enquanto segue em frente. Vou lhe dizer uma coisa. Da prxima vez, se houver uma, vou prestar uma ateno maluca. Vou fazer perguntas o tempo todo. voc, 
como est? E eu, como estou? Ns, como  que estamos?.. voc est feliz? isto  bom? j est me traindo? - Ela riu para ele, mas ele no estava falando totalmente 
de brincadeira, ele aprendera algo com o que acontecera, mas Francesca parecia triste, sacudindo a cabea. 
        - Voc  mais corajoso do que eu. No vai haver uma prxima vez para mim, Charlie. Eu j me decidi. - Mas ela dizia isso agora porque estava querendo ser 
sua amiga. Mas nada mais. Romance no estava no seu cardpio. 
        - A pessoa no pode se decidir a respeito de uma coisa dessas - disse ele, gentilmente. 
        - Sim, pode sim. - Discordou ela. - Eu decidi. No quero nunca mais ter o meu corao e minha barriga atropelados dessa maneira. 
        - E que tal, da prxima vez, sem cobertura de TV? - disse ele, provocando-a. - Ou talvez s direitos para o exterior e uma percentagem na venda dos tablides. 
Que tal uma participao na bilheteira? - comentou ele, e ela sorriu a contragosto. 
        Ela estava muito, muito magoada e guardava cicatrizes feias de tudo que lhe acontecera. 
        - Voc no sabe como foi - disse ela com sentimento. 
        Mas, fitando-a nos olhos, ele percebeu um reflexo da coisa. Tudo que a ela restava agora era a dor, e ele recordou o bocadinho do que Monique dissera, sobre 
ela chorando. Era por isso que ela se mostrava to fechada para com todo mundo, por isso tinha sido to desagradvel com ele a princpio. Mas agora ele s conseguia 
pensar em como tinha sido solitrio para ela, e ainda era, e, sem pensar, passou o brao em torno dela e puxou-a mais para perto. Mas no havia ameaa nesse gesto, 
ele s queria ser amigo dela, e ela pressentiu isso e no o repeliu. 
- Vou lhe dizer uma coisa, garota - disse ele gentilmente -, se 
algum dia acontecer de novo e voc resolver pular de olho fechado no casamento, vou ser o seu agente. - Mas ela riu a isso e sacudiu a cabea. - No espere por esse 
cargo, Charlie, nunca vai acontecer. No comigo. No de novo. - E ele sabia como ela estava falando enfaticamente srio. 
        - Vamos ento fazer um pacto? Nenhum de ns volta a fazer o papel de tolo, e se um de ns o fizer, o outro tem de fazer tambm.  uma espcie de pacto conjunto 
de suicdio. Casamento, camicase. - Ele estava provocando-a, mas ela no se incomodou. 
        Era a primeira vez na vida que ria da sua situao e ficou surpresa de achar que isso a fazia se sentir melhor, embora achasse que no tivesse feito muita 
coisa por ele, mas quando disse isso ele negou. 
- Eu precisava falar com algum, Francesca. E fico feliz que tenha sido voc. - Eles ento se levantaram, e ela olhou para o relgio com ar de quem pede
desculpas, lembrando que precisava pegar a filha. 
        - Sinto muito ter que deix-lo. Voc vai ficar bem? - perguntou e ele viu nela uma pessoa que no vira no pequeno tempo em que a conhecia, mas ficou aliviado 
em ver isso agora. Ela parecia muito mais gentil, muito mais aberta. 
        - Vou estar timo - mentiu ele. 
        Ele queria ir para casa e pensar a esse respeito, meditar sobre Carole e Simon, e tentar se ajustar mentalmente ao casamento deles.  sua prpria maneira, 
ele precisava de mais tempo para chorar por ela. Mas teve uma idia enquanto olhava para Francesca. 
        - E quanto a ns trs irmos jantar amanh  noite? - No queria amedront-la, convidando-a para sair num encontro. - E devolverei os dois livros, prometo 
- acrescentou como um incentivo, enquanto ela o acompanhava de volta ao carro dele. O dela estava no fim da rua, logo  frente. - E que tal? S pizza, ou espaguete, 
ou alguma coisa? Talvez fizesse bem a todos ns sairmos. - Ela hesitou e ele teve a sensao de que ela ia recusar a oferta, mas ao encar-lo, ela entendeu que ele 
no a magoaria. 
        Ela contara para ele em que p as coisas estavam. E ele sabia que ela s poderia oferecer-lhe a sua amizade e, se ele estivesse disposto a aceitar isso, 
ela estava disposta a jantar com ele - Tudo bem. - Ela parecia determinada e ele sorriu. 
        - Talvez a gente realmente se divirta. Jantar em Deerfield. Voc sabe, talvez at em black-tie. - Ele estava bancando o bobalho e a fez rir, e ento levou-a 
at ao carro dela. - Pego voc s seis - disse, voltando a sentir-se quase humano. Ento olhou para ela gentilmente, enquanto ela entrava no carro. - Francesca, 
obrigado. 
        Ela acenou um adeus, ao sair dirigindo, e ele pensou nas coisas que ela lhe contara. Deve ter sido duro para ela, pior do que isso, de partir o corao... 
e humilhante. As pessoas eram to ruins umas com as outras s vezes, era difcil de entender. Carole no tinha sido ruim com ele, pensou consigo mesmo, enquanto 
dirigia para a casa. Ela s lhe partiu o corao. S isso. Nada mais srio do que isso, por enquanto. 
        E enquanto destrancava novamente a porta da casa, pensou em Sarah e na dor por que ela passara, e na alegria que deve ter encontrado junto a Franois. Ficou 
se perguntando como  que uma pessoa, ligada a duas vidas, os dois momentos, como  que uma pessoa passava de uma coisa intolervel, de no confiar mais em ningum. 
para voltar a ser inteira, para perdoar, e recomear a vida? Ele ainda no tinha as respostas, sabia, enquanto acendia as luzes. 
        Mesmo depois de conversar com Francesca, s em que conseguia pensar agora era em Carole.E naquela noite, deitado na cama, pensou nela, em vez de pensar em 
Sarah e Franois. E, enquanto meditava sobre os mistrios da vida, resolveu no voltar a ler os dirios durante alguns dias. Ele precisava elaborar essa ltima notcia, 
voltar ao mundo real, e lidar com sua vida agora.

CAPTULO 15
        CHARLIE PEGOU-AS S SEIS HORAS e levou-as de carro para jantar no Di Maio, em Deerfield. Charlie e Francesca estavam se sentindo um pouco tmidos, mas Monique 
conversou animadamente em todo o caminho at Deerfeld. Falou sobre seus amigos na escola, sobre o cachorro que gostaria de ter, sobre o porquinho-da-ndia que sua 
me lhe havia prometido, falou que queria ir patinar no dia seguinte e queixou-se dos deveres de casa. 
        - Eu tinha muito mais deveres de casa para fazer na Frana - concordou ela em dizer, fazendo finalmente uma referncia oblqua  vida deles em Paris, e Charlie 
lanou um olhar para Francesca. Ela estava olhando pela janela. 
        - Talvez devssemos comear a ensinar-lhe alemo, ou chins, ou algo, s para mant-la ocupada - ele a provocou e Monique fez uma cara feia, duas lnguas 
j eram um problema suficiente, no que lhe dizia respeito, embora ela fosse completamente fluente em ambas. 
E ento ela o olhou, cheia de animao. 
        - Minha me fala italiano. Meu av era de Veneza. 
        - E, segundo ela, um pilantra tal como o marido, - Charlie lembrou. 
        Estavam tocando em todos os seus assuntos favoritos. Ia ser uma grande noite. Mas ela no disse nada. 
        - Eles tm muitos barcos l - disse-lhe Monique e ele diplomaticamente mudou de assunto e perguntou que tipo de cachorro ela queria. 
        - Alguma coisa pequena e bonitinha - respondeu ela imediatamente. 
        Ela obviamente tinha pensado muito a esse respeito. 
        - Como um chihuahua. 
        - Um chihuahua? - Ele riu  sugesto. - Esse  to pequeno que voc vai se atrapalhar toda com seu porquinho-da-ndia. - Ela deu uma gargalhada quando ele 
disse isso. 
        - No, eu no. - Ele ento contou-lhe sobre o cachorro de Gladys, a enorme e amistosa setter irlandesa, e ofereceu-se para lev-la para conhec-la. 
        Ela gostou disso e Francesca quase sorriu, ento. Ela estava to sria e Monique feliz. Isso dizia algo a respeito da habilidade de me de Francesca e do 
fato de que devia am-la. E tivera um razovel sucesso em proteg-la dos horrores que lhes haviam acontecido em Paris. E, alguns minutos depois, chegaram a Deerfield. 
O restaurante estava cheio e animado. Monique pediu espaguete e almndegas quase no momento em que se sentaram  mesa. Os adultos levaram um pouco mais de tempo 
e finalmente pediram capellini com manjerico e tomate. Ele pediu o vinho e notou que Francesca falou com o garom em italiano. Ele pareceu encantado e Charlie ficou 
ouvindo com prazer. 
        - Adoro ouvir isso. - Sorriu para ela. 
        - Voc j morou l? 
        - At aos nove anos. Mas sempre falei italiano com meu pai, enquanto ele foi vivo. Gostaria que Monique aprendesse.  sempre til saber uma outra lngua. 
- Embora agora estivessem morando de novo nos Estados Unidos, isso parecia menos importante. - Talvez ela queira voltar  Europa um dia para viver - reconheceu Francesca, 
embora, no ntimo de seu corao, esperasse que no. 
        Ento virou-se para ele com os olhos cheios de perguntas. Ficara sabendo um bocado a respeito dele na vspera, mas s sobre o seu casamento. 
        - E quanto a voc? O que vai fazer? Voltar a Londres? 
- No sei. S parei aqui a caminho de Vermont para ir fazer esqui.
 Ento conheci Gladys Palmer, vi a casa e me apaixonei por ela. Aluguei-a por um ano, mas mesmo que eu volte  Europa, posso vir aqui para as frias. Mas, por enquanto, 
sinto-me feliz aqui, embora esteja sentindo um pouco de culpa por no estar trabalhando.  a primeira vez na minha vida que fao isso. Mas, finalmente, terei que 
voltar a ser arquiteto, esperemos que em Londres. 
        - Por qu? - Ela parecia intrigada, depois de tudo que ele lhe contara. 
        Seria para perseguir a esposa, ou teria outro motivo? Os olhos dela lanavam uma mirade de perguntas. 
        - Tenho uma vida l - disse ele com firmeza e ento reconsiderou, enquanto Monique caa em cima das almndegas. - Pelo menos costumava ter. Vendi minha casa 
logo antes de partir. - E agora no tinha certeza sequer de ter um emprego l. - E alm, disso, adoro Londres - continuou, teimoso. Mas tambm amava Carole. Talvez 
a amasse para sempre. Mesmo depois de ela ter se casado com Simon, mas ele no disse isso a Francesca. S de pensar a respeito deixou-o deprimido. 
        - Eu amava Paris tambm - disse Francesca baixinho. - Mas no consegui ficar, depois. Eu tentei. Mas era simplesmente difcil demais. Teria me levado  loucura, 
esperando v-lo todas as vezes em que eu virava uma esquina, esperando topar com ele, detestando quando o fizesse. Chorava todas as vezes em que ligava o noticirio 
e o via, mas no conseguia me forar a parar de assistir. Era uma coisa doentia. Por isso, fui embora. No consigo me imaginar indo morar l agora. - Ela suspirou 
e sorriu para ele por sobre os capellini. 
        - Vai ficar aqui? - Ele gostava de conversar com ela. 
        Era um imenso alvio falar com algum e dar vazo s coisas que quase o haviam matado. Falar a esse respeito fazia tudo parecer menor. 
        - Talvez - respondeu ela. Ainda no havia se decidido. - Minha me acha que eu devia levar Monique de volta para Nova York para receber uma educao "decente". 
Mas somos felizes aqui. A escola  tima. Ela adora esquiar. Gosto de nossa casinha na beira da cidade. Ela  to pacfica. Quero terminar minha tese enquanto estou 
aqui. Posso decidir depois disso. Este seria um bom lugar para escrever um pouco. Voltar a ler. - Ele pensou nos dirios de Sarah e no disse nada. 
        - Seria - concordou ele. - Eu gostaria de pintar um pouco. 
        Seu destino tem de ser um pouco como o de Wyeth, e particularmente com a neve, a paisagem em torno de Shelburne Falls era perfeita. 
        - Um homem de muitos talentos - disse ela, dando uma piscadinha de olho, e ele de repente sorriu para ela. Gostava quando o provocava. 
        E por fim trouxeram Monique de volta  conversa, mas ela ficou feliz, ouvindo-os e comendo seu espaguete. Monique falou sobre sua vida em Paris, do apartamento 
que amava, de ir ao Bois de Bologne todos os dias aps a escola e das viagens que fizera com os pais, indo com eles para esquiar, uma vez que era a paixo de seu 
pai. E ouvi-la fez com que Francesca parecesse nostlgica, o que deixou Charlie preocupado. No queria que ela voltasse a se fechar para ele. Isto era bom para ambos 
e ela voltou a relaxar quando Charlie mudou de assunto. Ento ele teve uma idia e resolveu perguntar:. 
        - Que tal irmos esquiar neste sbado? Podamos simplesmente passar o dia em Charlemont. - Ele sabia por Gladys que muitos dos habitantes locais faziam isso 
com freqncia. E Monique ficou imediatamente entusiasmada. 
- Vamos l, mame. por favooooor. - Ela arrancou a palavra como se fosse uma bala puxa-puxa, e Francesca sorriu ao convite. 
        - Voc provavelmente est ocupado e eu devia realmente aprontar algum trabalho. No acho. 
        - Vamos l - disse ele gentilmente. - Seria bom para todos ns. - Estava pensando na sacudida que levara na vspera, quando Carole telefonou, e nas coisas 
que Francesca lhe dissera. Todos estavam precisando de um pouco de diverso em suas vidas, e um dia esquiando parecia perfeito. 
        - Voc pode dispor de um dia. Ambos podemos. - Ele no tinha nada mais para fazer, a no ser ler os dirios de Sarah. - Vamos fazer isso. - Ele parecia to 
doce e falou de uma forma to persuasiva que ela acabou cedendo, embora ainda se sentisse um pouco hesitante em ficar sendo sua devedora. No queria isso. Ele poderia 
esperar algo que ela no poderia lhe dar. 
        - Est bem, s para passar o dia, ento. - O nimo de Monique melhorou notavelmente depois que Francesca disse isso. 
        Ela bateu papo,riu e falou sobre as pistas de l, comparando-as com as de Courchevelle e Val d'lserre, e Francesca riu a isso, tal como Charlie. O esqui 
no era exatamente comparvel, mas seria divertido de qualquer forma. E estavam todos a fim de faz-lo, quando ele as levou de carro de volta a Shelburne Falls, 
aps o jantar. Ele parou em frente  casa delas e saltou. Era uma casa pequena e arrumada, de madeira pintada de branco, com janelas verdes e uma cerca de tabuinhas 
em volta. E, quando saltaram do carro, Francesca agradeceu-lhe pelo jantar. 
        - Eu gostei de verdade - disse ela cautelosa, e Monique rapidamente entrou na conversa. 
        - Eu tambm. Obrigada, Charlie. 
        - De nada. Vejo vocs duas no sbado. A que horas devo busc-las? - No fez qualquer gesto sugestivo de entrar na casa com elas. Entendeu instintivamente 
que isso poderia assustar Francesca. Ela ainda exibia os olhos de uma jovem cora, pronta para disparar de volta  floresta, particularmente agora que estava em 
seu territrio. Era bvio que no o queria perto demais, por mais agradveis que fossem as conversas. 
        - Que tal oito horas? - sugeriu ela, em resposta  pergunta dele. - Nesse caso, poderemos estar nas colinas por volta das nove. 
        - Parece timo. Vejo vocs, ento - disse ele e observou-as entrar na casa e fechar a porta. 
        Viu todas as luzes se acenderem e a casa pareceu acolhedora e clida, vista assim, do lado de fora. E ele surpreendeu-se em ver como se sentia solitrio, 
dirigindo de volta  sua casa. Ele agora parecia estar sempre do lado de fora, olhando Francesca e Monique, ouvindo falar de Carole e Simon. lendo sobre Sarah e 
Franois. J no pertencia a mais ningum e percebeu novamente que falta isso lhe fazia. E enquanto pensava a esse respeito, dirigiu lentamente e resolveu parar, 
no caminho de casa, na casa de Gladys Palmer. Ela estava de bom humor, parecia bem, e ficou encantada com a visita de surpresa. Preparou para ele um pouco de ch 
de camomila e ofereceu-lhe um prato de biscoitos de gengibre fresquinhos. 
        - Como vo as coisas na casa? - perguntou ela  vontade, e ele sorriu em resposta. 
        Estava pensando em Sarah e nos dirios que ainda mantinha em segredo, at da Sra. Palmer. Queria termin-los, antes de contar-lhe a esse respeito. 
        - timo - disse ele sem assumir nada e ento contou-lhe sobre a noite que acabara de passar com Francesca e sua filha. 
        - Isso me parece promissor - comentou ela, parecendo satisfeita por ele. 
        - Vamos ver - replicou ele enquanto terminava uma segunda xcara de ch e, finalmente, deixou-a a fim de voltar para casa. E, quando voltou, sentiu-se surpreendentemente 
menos solitrio. V-la parecia sempre exercer um notvel poder restaurador sobre ele. Ela era quase como uma me para ele. 
        E, ao deixar-se entrar na casa, julgou ouvir um som no andar de cima, antes de acender a luz. Ficou parado muito quieto, prestando ateno, querendo que 
fosse ela, convencido de ter ouvido um passo. Mas ficou ali parado, no silncio, por um longo tempo. No era nada, e ele finalmente acendeu a luz. Depois que subiu, 
pensou em voltar a ler os dirios, mas deu-se conta de que precisava de um pouco de espao para respirar. Estava agora envolvido demais com ela e Franois. Estavam 
ambos virando reais demais para ele. E s queria ficar com eles. Isso no era nada saudvel. Escolheu um romance aquela noite e forou-se a l-lo. Mas era to chato 
comparado com as palavras de Sarah que, por volta das dez horas, dormia profundamente e mexeu-se quando ouviu um som no quarto. 
        Abriu os olhos e olhou em torno por um minuto, mas estava semiadormecido e no a viu. No havia tocado nos dirios a semana inteira, desde que havia sado 
de casa para pegar Francesca e Monique, no sbado. No caminho deu uma parada para ver Gladys e deu-lhe um livro que vinha guardando para ela. Tomaram uma rpida 
xcara de ch e ento voltaram a falar sobre Francesca. Gladys ficou satisfeita por ele estar voltando a v-la. Ficava feliz em saber que ele tinha uma amiga. Esperava 
conhec-la um dia, se Charlie continuasse a v-la. 

        Quando chegou  casa delas, Monique vestia um macaco vermelho brilhante e Francesca parecia extremamente elegante num colete preto. Era fcil ver por que 
ela tinha sido modelo. Era uma mulher que impressionava. E ambas pareciam em excelente estado de esprito. Puseram os esquis no carro e, quinze minutos depois, estavam 
em Charlemonte e Francesca ameaava botar Monique na escola de esqui. No queria que ela ficasse atravessando a montanha toda, sozinha, misturando-se com estranhos. 
Charlie conseguia entend-la muito bem, mas Monique ficou amargamente decepcionada. 
        - Eles so todos horrveis nas aulas de esqui - ela se queixou. - Ningum sabe fazer nada divertido. No quero - disse, fazendo beicinho. 
        E Charlie lamentou tanto por ela que se ofereceu para esquiarem juntos. Ele havia gostado dela de verdade. Afinal, tinha sido como se conheceram, e o que 
havia iniciado a amizade deles. Mas Francesca no queria impor sobre ele mais do que ela estava carregando. 
        - No quer esquiar sozinho? - perguntou-lhe honestamente. 
        E ele no pde deixar de notar como os olhos dela eram verdes, embora estivesse tentando no notar. 
        - Ela esquia melhor que eu - disse ele, abrindo um sorriso. - Quase no consigo acompanh-la. 
        - Isso no  verdade - replicou Monique com um sorriso, fazendo-lhe justia. - Voc  um bocado bom. Tem um bom estilo, at nas protuberncias do terreno. 
- Ela o cumprimentou e ele riu diante dessa afirmativa. Ela decididamente tinha os genes do pai, pelo menos quanto ao esqui. 
        E Charlie achou isso engraado. 
        - Obrigado, senhorita.
        E ento, vai esquiar comigo? - Ento, virou-se para a me dela. - Gostaria de vir conosco? Ou ser que  boa demais para isso? - Ele nunca havia efetivamente 
visto Francesca esquiar, s a filha dela. - Ela  boa - admitiu Monique. 
        Ao que Francesca riu para ela e os trs resolveram esquiar juntos aquela manh. Mas Charlie ficou devidamente impressionado quando viu Francesca descer a 
montanha. No sabia se seu ex-marido campeo olmpico lhe ensinara alguns recursos, ou se ela j esquiava assim antes dele, mas ela era bem melhor do que lhe contara. 
Era uma esquiadora quase to boa quanto a filha, embora no to confiante, e era muito humilde a esse respeito. Ela esquiava com tal elegncia e graa que chamou 
a ateno de vrias pessoas, e ele pde s admir-la quando voltaram a parar na base da montanha. 
        - Voc  muito boa - disse ele, com admirao. 
        - Eu gosto - admitiu ela. - Costumvamos ir a Cortina, quando eu era criana. Meu pai esquiava muitssimo bem, mas sempre fui um pouco cautelosa demais - 
disse e Monique assentiu com a cabea, veementemente. Ela gostava de ir bem mais depressa. 
        Francesca era uma mulher de muitos encantos, muitos talentos, a maior parte deles no devidamente decantados ou ocultos. Tinha tantos pontos positivos e 
muito pouca disposio para dividi-los com os outros. A Charlie parecia um terrvel desperdcio. Mas descobriu, na medida que o dia foi se passando, que gostava 
de estar com ela. A aspereza que o havia irritado tanto antes no se mostrou uma vez sequer. Ela parecia apenas feliz e relaxada. E era fcil ver como adorava esquiar. 
E ela gostava de estar com ele, tambm. Quando pegaram a ltima pista, sentiam-se como velhos amigos. E pareciam uma famlia, com Monique esquiando  frente deles. 
Francesca estava sempre de olho nela, mas a maior parte do tempo esquiou com Charlie. E quando tiraram seus esquis no fim do dia, pararam no restaurante na base 
da montanha para comer brownies e tomar chocolate quente. Monique a essa altura parecia cansada e Francesca parecia brilhar de animao. Sua pele cremosa se aquecera 
at adquirir um tom rosado. E seus olhos estavam brilhantes. 
        - Eu me diverti muito - disse ela, enquanto lhe agradecia. - Eu costumava me queixar de que esquiar aqui no era to bom quanto na Europa. Mas j no ligo 
mais. Gosto de qualquer maneira. Obrigada por nos trazer - concluiu, tomando um gole de chocolate e fitando-o calorosamente. 
        - Devamos experimentar algumas das outras estaes perto daqui. Ou subir at Vermont. Em Sugarbush o esqui  bastante bonzinho - sugeriu ele calmamente. 
        - Isso me agradaria - disse ela, antes de voltar a fechar-se em si mesma. 
        Mas agora parecia bastante  vontade com ele e ficou sentada  pequena mesa, bem perto dele. Ele sentia as pernas longas e graciosas junto s suas, e um 
pequeno arrepio percorreu-lhe o corpo. No se sentia assim com ningum, desde que Carole o deixara. Havia sido convidado para um ou dois encontros ainda em Londres, 
mas no lhe pareceram bons. E ele nunca sequer tentou. Sabia que ainda no estava pronto. Mas esta mulher, com sua tima cabea, sua intensa timidez e sua grande 
dor, estava comeando a aquec-lo. Na verdade, estava detestando ter de voltar a Shelburne Falls. E sugeriu uma parada para jantar no caminho, que Monique aceitou 
em favor da me. 
        Pararam na Charlemounte Inn, onde comeram deliciosos sanduches quentes de peru com pur de batatas, e conversaram animadamente sobre vrios assuntos, incluindo 
arquitetura, e descobriram que, tal como ele, ela adorava castelos medievais. Monique a essa altura estava quase dormindo, e quando voltaram ao carro, ela bocejava 
e quase tropeou e caiu, mas Charlie segurou-a.
        Tinha sido um dia longo e feliz para todos eles e, desta vez, quando chegaram  casa delas, Francesca perguntou-lhe se ele no gostaria de entrar para tomar 
uma bebida e uma xcara de caf. Sentia-se como se tivesse de fazer algo para agradecer-lhe. 
        - Tenho de botar Monique na cama - sussurrou ela sobre a cabea da menina, e ento levou-a pelos fundos da casa, para o seu quarto de dormir, pequeno e acolhedor. 
Enquanto ele esperava na sala e olhava a parede cheia de livros que ela trouxera da Europa, havia alguns volumes maravilhosos que ela colecionara ao longo dos anos, 
a maior parte sobre a histria da Europa, e vrios sobre arte, e ela tinha at vrias primeiras edies. 
        - D para ver que sou doidinha por livros? - disse ela, quando voltou  sala e notou que ele havia acendido o fogo na lareira. 
        Era uma sala pequena e confortvel, cheia de coisas bem usadas, que significavam algo para ela. Ver aquilo era conseguir espiar um pouco dentro dela. Ela 
a princpio lhe parecera to fria, to distante, mas esta sala contava uma histria diferente, tal como os olhos de Francesca, quando ele se virou para olh-la. 
Ele no estava seguro quanto ao que fazer agora. Havia algo muito estranho, muito forte, acontecendo entre eles. E Charlie sabia que se dissesse isso poderia no 
voltar a v-la nunca mais, portanto resolveu ignorar o assunto. E, para confirmar isso, ela deixou a sala e foi fazer caf. E ele a reencontrou na cozinha. Foi ento 
muito cauteloso em sua conversa e concluiu que Sarah Ferguson devia ser um assunto seguro. 
        - Estou lendo sobre Sarah Ferguson - explicou ele. - Foi uma mulher notvel, de uma coragem incrvel. Ela veio para c no navio mais minsculo sobre o qual 
j li. Era um brigue de oito toneladas, partindo de Falmouth, trazendo doze passageiros, e levou mais de sete semanas para chegar aqui. No consigo sequer imaginar 
uma experincia assim. Fico enjoado s de pensar. Mas ela fez tudo. Sobreviveu e comeou uma vida toda nova aqui. - Parou antes de dizer mais, no queria contar 
a ela sobre os dirios, mas Francesca parecia muito intrigada. 
        - Onde foi que leu isso? Nunca achei nada assim sobre ela, e olhe que dei uma busca completa em nossa biblioteca da sociedade histrica. Encontrou algo sobre 
ela em Deerfield? 
        - Eu, hen..., sim, de fato, encontrei. E Gladys Palmer deu-me alguns artigos. - Ele adoraria contar a ela sobre o que havia achado, mas no ousaria ainda. 
Ficava satisfeito em apenas falar disso com ela e, por algum tempo, conversaram sobre a coragem de Sarah, e sobre os paralelos em suas prprias vidas. - Ela teve 
aqui uma vida nova. Aparentemente deixou um homem horrvel na Inglaterra. - Trocaram um olhar, Francesca assentindo com a cabea, pensativa. 
        Ela havia deixado um homem horrvel em Paris. Ou talvez ele, afinal de contas, no fosse nem sequer horrvel, apenas um imbecil como Carole. Ou talvez o 
que seus companheiros tivessem encontrado fora do lar fosse do que eles realmente precisassem para completar suas prprias vidas. Charlie ficou pensativo, refletindo 
sobre Carole e Simon. 
        - Voc ainda sente horrivelmente a falta dela? - perguntou Francesca gentilmente. 
        Pde ver, na expresso dos olhos dele, em que estava pensando. 
        - s vezes - respondeu ele, honestamente -, acho que sinto a falta do que eu achava que tnhamos, em vez do que tnhamos de verdade. - Isso era algo que 
Francesca entendia perfeitamente. Depois, com Pierre, s o que ela conseguia pensar era na felicidade do princpio e no horror do final, nunca na realidade comum 
do meio, que havia sido a maior parte de tudo mas que parecia ter sido esquecida. 
        - Acho que todos fazemos isso - concordou ela. - Lembramo-nos da fantasia que criamos, antes da realidade com que vivemos, fosse uma fantasia bela ou feia. 
Acho que nem me lembro mais de quem Pierre era, apenas o homem que, no final, passei a odiar, fosse ele quem fosse. 
        - Suponho que vou acabar me sentindo assim com relao a Carole. Mesmo agora, um pouco da histria me parece nebulosa. - Tudo parecia melhor ou pior do que 
tinha sido, e s vezes ele conseguia ver isso. E, ento, voltou a pensar em Sarah. 
        - Sabe? O notvel nela foi que voltou a se apaixonar, pelo francs. Por tudo que fiquei sabendo, a parte mais importante de sua vida foi com ele. Mesmo depois 
de tudo que lhe aconteceu, ela no teve medo de recomear. Admiro isso - concluiu com um pequeno suspiro -, mas no tenho idia de como fazer. 
        - Eu no conseguiria - disse Francesca firmemente, como que numa confirmao de tudo que j dissera. - Eu me conheo suficientemente bem para saber disso. 
        - Voc  jovem demais para tomar uma deciso dessas - replicou Charlie, tristonho. 
        - Tenho trinta e um anos.  idade suficiente para voc saber que no quer mais voltar a brincar, nunca - disse ela firmemente. - E eu no quero. No sobreviveria 
 mgoa de uma prxima vez. - E, embora Charlie achasse que uma atrao entre eles no podia ser negada, sabia que ela estava lhe dizendo que nem tentasse. 
E, se ele tentasse, estava realmente preparada para desaparecer da vida dele para sempre. Charlie tinha entendido claramente o aviso. 
    - Acho que voc precisa pensar sobre isso, Francesca. - Isso o fez sentir vontade de dar a ela os dirios para ler, mas Charlie ainda no estava preparado para 
contar a ela. E deu-se conta de que talvez nunca estivesse ou viesse a estar. Ainda sentia-se muito reservado quanto a eles, e precisaria ser muito chegado a Francesca 
para dividi-los com ela. 
        -Acredite, se eu lhe disser que no penso em outra coisa nos ltimos dois anos - disse ela gravemente e ento, fez-lhe uma pergunta estranha, que ele ficou 
sem saber como responder. - Tem certeza de que nunca a viu. Sarah, isto , com todas as histrias de fantasmas que a gente escuta. e espritos vivendo nas casas, 
nesta parte do mundo?  difcil acreditar que no a tenha visto. Viu? - insistiu com um sorriso. - Viu o fantasma dela. ? - Quando ele negou, ela o fitava bem no 
rosto, e ele ficou imaginando se ela teria acreditado nele.
-        No, no vi, - ele... - Odiava mentir para ela, mas tinha medo de contar-lhe tudo que tinha visto, com medo de que ela o achasse maluco. - Eu... ouvi alguns 
rudos, umas duas vezes. Mas acho que no  nada, acho que  tudo resultado das lendas locais. - Os olhos dela perscrutavam os dele, e ela deu um risinho engraado 
que o fez ter vontade de inclinar-se e beij-la, mas ele sabia que no podia. 
        - No sei se acredito em voc, e no sei por qu. Voc parece surpreendentemente bem-informado sobre ela, por que ser que acho que existe algo que voc 
est me escondendo? - perguntou ela incisivamente, numa voz sensual. 
        Ele deu um riso nervoso e perguntou-se se ela saberia que ele estava mentindo. 
        - Seja l o que for que eu no estiver lhe contando, no tem nada a ver com Sarah - disse ele com voz rouca, e ambos riram. Mas ele voltou a garantir-lhe, 
depois disso, que no tinha visto nada. - Mas, caso eu veja, no deixarei de lhe contar. Voc sabe, os Observadores de Fantasmas. - Estava brincando com ela, e Francesca 
riu e nunca antes ele a vira to bonita quanto naquele momento. 
        Quando ela relaxou um pouco, estava to bela quanto calorosa e atraente, mas a porta sempre se fechava com fora antes que conseguisse alcan-la. Isso o 
estava deixando maluco. 
        - Estou falando srio - insistiu ela. - Sabe, eu acredito nisso... Acho que h espritos perto de ns s vezes, e no os percebemos. Mas poderamos, se prestssemos 
ateno. - Estava fascinado pelo entusiasmo com que ela afirmou isso. 
        - Tenho de ir para casa e me concentrar nela. Alguma sugesto sobre como devo faz-lo? Num mesa Ouija, talvez, ou s meditao? 
- Voc  impossvel - disse ela. - Espero que ela o acorde de um sono profundo e lhe d um baita susto. 
        - Ora, eis uma idia atraente. Vou ter de dormir esta noite na sua sala, se me deixar nervoso demais. - Mas, de alguma forma, ela no acreditava que ele 
fosse suscetvel a esse tipo de terror, embora ele tivesse adorado ouvir um convite. 
        E quando finalmente foi embora, no sabia o que dizer a ela. Pde sentir novamente a atrao entre eles. Era poderosa, mas tcita. E ento ele resolveu tomar 
coragem, e convidou-a a passar o dia seguinte com ele, ela e a filha. Era domingo. Mas ela foi rpida na recusa. Estavam ficando amigos demais. 
        - No posso. Tenho de trabalhar na minha tese - disse ela, desviando os olhos para no ter de encar-lo. 
        - Isso no parece muito divertido - retrucou ele, solidariamente, parecendo decepcionado. 
        - No  divertido - admitiu ela e poderia t-lo despachado. Mas no quis fazer isso. Ele agora estava se tornando uma ameaa. Ela ficou  vontade demais 
com ele. - Mas eu realmente tenho de fazer o trabalho. 
        - Poderia ir l para casa para uma sesso de caa-fantasmas - brincou ele e ela riu. 
          um convite difcil de resistir, mas  melhor eu ficar com meus livros. No progredi muito ultimamente. Talvez uma outra ocasio, mas, obrigada. 
        Ficou em p no portal, olhando-o ir embora, e ele pensou nela at chegar em casa, lamentando no t-la simplesmente tomado nos braos e beijado. Mas sabia 
muito bem como isso teria sido perigoso. E, no entanto, comeou a sentir uma tenso incrvel entre eles. E quando chegou e andou por sua casa vazia, pensando nela 
e, ao menos uma vez, no pensando em Sarah, estava realmente chateado por ela no ter aceitado o convite para o domingo. Tinham se divertido tanto juntos que ela 
no tinha o direito de deix-lo de fora. E, alm disso, ele tambm gostava da filha dela, e era bvio o quanto Monique gostava dele. 
        No conseguiu se conter. Pegou o telefone e ligou para ela. Era meia-noite e no sabia dizer se estava incomodado por acord-la, embora tivesse certeza de 
que no faria isso. Havia acabado de se despedir dela!
        - Al? - Ela atendeu o telefone com voz preocupada. Ningum jamais lhe telefonara quela hora. Na verdade, com raras excees, ningum lhe telefonava, segundo 
Monique. 
        - Acabo de ver um fantasma e estou aterrorizado. Tinha trs metros de altura, chifres e olhos muito vermelhos, e acho que estava usando minhas camisas. Quer 
vir aqui ver? - Falou como um garoto travesso, e ela no pde conter o riso ao ouvir. 
        - Voc  terrvel. Eu falei srio. As pessoas de fato vem fantasmas. Ouo essas histrias o tempo todo, na sociedade histrica, e alguns podem ser identificados. 
Eu prpria andei pesquisando. - Ela tentava ser sria com ele, mas ainda ria do que ele dissera ao telefonar. 
        - timo! Ento venha identificar este. Estou trancado no banheiro. 
        - Voc  um caso perdido! - disse ela, sorrindo. 
        - Tem razo. Esse  o problema. Na verdade, vou escrever a Anm Landers e assinar a carta "Caso perdido". Conheci uma mulher e quero ser amigo dela. e acho 
que talvez estejamos atrados mutuamente, mas se eu falar disso com ela, ela vai me odiar. - Houve um grande silncio enquanto ela ouvia o que ele estava dizendo, 
e Charlie ficou se perguntando se isso no o indisporia com ela para sempre. Esperava que no. 
        - Ela no vai odi-lo - disse ela, finalmente, numa voz suave. - Ela simplesmente no tem o que fazer a esse respeito, ela  uma pessoa muito assustada pelo 
que j lhe aconteceu. - A voz dela era muito terna e Charlie gostaria de poder envolv-la nos braos, mas ela provavelmente no teria deixado, e ele sabia disso. 
        - No sei se acredito nisso, sei que  assim - disse ele, gentilmente. - Tambm estou todo arrebentado. Hoje em dia no fao uma figura muito bonita de se 
ver e nem sei que diabos ando fazendo. A dez anos que no ando assim pelo mundo a fora, mais do que isso, onze. - Fazia dez meses que Carole o havia deixado. - 
E andei dizendo por a exatamente as mesmas coisas que voc, mas, num momento, estou chorando por Carole e logo em seguida estou, estou conversando com voc e sentindo 
algo que no sinto h muito, muito tempo, isso me deixa confuso. Talvez nunca venhamos a ser mais do que amigos. Talvez isso seja tudo a que eu tenha direito. Eu 
s... s queria que voc soubesse. - Sentia-se novamente como um garoto e estava corando, mas ela tambm foi ficando ruborizada, no final. - Eu s queria que voc 
soubesse o quanto gosto de voc - disse, muito sem jeito. Era mais do que isso, mas no conseguiu forar-se a revelar. 
        - Gosto de voc tambm. - replicou ela, honestamente - e no quero mago-lo. 
        - Mas no vai. Isso j foi feito por especialistas. Tenho certeza de que, em comparao, voc seria considerada amadora. 
        Ela sorriu ao responder. 
        - Voc tambm, Charlie, estou realmente muito grata por ter sido to legal conosco. Voc  uma boa pessoa. - E Pierre no era.
        Fantasia ou no, ela sabia disso. Ele a usara desavergonhadamente e tirara um proveito horrvel de toda a decncia e bondade dela e de seus sentimentos para 
com ele. 
E mais ningum voltaria a fazer-lhe isso, no se ela pudesse impedir. 
        - No podemos ser s amigos? - perguntou com tristeza, pois no queria perd-lo. 
        - Claro que podemos - disse ele, com gentileza. E ento ocorreu-lhe outra idia. - Que tal deixar seu amigo levar voc e Monique para jantar na segunda-feira? 
Voc j me recusou para amanh. No pode negar de novo. No vou permitir. Um jantar rpido depois do expediente, na noite de segunda. Podemos comer pizza em Shelbume 
Falls. - No havia muito a que ela pudesse objetar, e Charlie estava aceitando aquela amizade nos termos dela. 
        - Est bem - concedeu ela. Ele era duro na queda. 
        - Pego vocs s seis horas de novo. Est bem? 
        - Est bem. - Ela estava sorrindo. Haviam sobrevivido  primeira rusga, ao primeiro confronto. - A gente se v, ento. 
        - Telefono para voc, caso veja mais um fantasma. - Estava contente por ter-lhe telefonado. Valera a pena. 
        E logo antes de desligarem, ele a chamou. 
        - Sim? - a voz de Francesca soou um pouco ofegante, e ele adorou. 
        - Obrigado. - disse baixinho. Ela entendeu a inteno dele, e quando desligaram, ela ainda estava sorrindo. Eles eram s amigos, ela disse a si mesma. Mais 
nada. Ele entendera perfeitamente. Ser? E, do outro lado do fio, Charlie recostou-se na poltrona com um sorriso. Gostava dela realmente. Ela no era fcil. Mas, 
definitivamente, valia o esforo. 
        E ele estava to satisfeito consigo mesmo, e com o fato de ela ter concordado em voltar a sair com ele, que pegou um dos dirios de Sarah, para se recompensar. 
H dias no os lia. E sentia saudades dela de verdade. E queria saber o que acontecera com ela. Mas agora, quando abriu o livrinho e viu a caligrafia familiar, tudo 
pareceu festa.

CAPTULO 16

        FIEL  SUA PALAVRA, Franois de Pellerim retornou pelo caminho de Shelbume mais uma vez em agosto e, quando o fez, foi ver Sarah. Ela estava trabalhando 
em sua horta quando ele chegou, e no o viu ou ouviu aproximar-se. Ele chegou a passos silenciosos, como era seu hbito, e de repente estava parado ao lado dela. 
Sarah virou-se assustada e ergueu os olhos para ele, a princpio com surpresa, e em seguida com bvio prazer. 
        - Vou ter de prender-lhe um sininho no pescoo, se continuar a fazer isso. - E ela ficou levemente ruborizada e esfregou o avental no rosto, enquanto se 
lembrava de agradecer-lhe pelas garras de urso. 
        - Voc passou bem? - perguntou, e ele baixou os olhos sobre ela com um sorriso. 
        O rosto dela estava bronzeado e os cabelos negros de Sarah caam-lhe numa longa trana pelas costas, o que a fazia parecer quase uma pele-vermelha. E ele 
notou, enquanto caminhava lentamente de volta  casa, que ela possua o mesmo porte rgio de Pardal Choroso. 
        - Por onde andou, desde a ltima vez que nos vimos? - Ela perguntou-lhe com interesse, quando pararam junto ao poo para pegar um pouco d'gua. 
        - Com meus irmos - disse ele simplesmente. - No Canad, fazendo comrcio com os hurones. - No disse a ela que estivera na capital, para voltar a se reunir 
com Washington, a fim de continuar a discusso sobre os problemas com os ndios miami no Ohio. 
        Estava muito mais interessado nela e no que andara fazendo. Sarah parecia estar florescendo em Shelburne. 
        - Esteve na guarnio, para ver o coronel Stockbridge? - perguntou ele,  guisa de conversa, enquanto ela servia a ele uma xcara de gua fresca. 
        - Andei ocupada demais para estar indo  guarnio - respondeu. - Passamos as trs ltimas semanas plantando tomates, abboras e abobrinhas em grandes quantidades, 
e eles tinham esperana de uma safra de bom tamanho antes do inverno. 
        A essa altura tivera notcias pela Sra. Stockbridge, que lhe suplicava que deixasse Shelburne e voltasse  civilizao, e recebera tambm uma carta dos Blake, 
contando-lhe todas as novidades de Boston. 
        Mas ali ela era bem mais feliz e Franois viu isso claramente. 
        - Para onde vai agora? - perguntou ela quando entraram na sala de estar, que era um pouco mais fresca do que l fora, j que aquela parte da casa era coberta 
pela sombra de olmos enormes. Os homens que a haviam construdo tinham-na planejado bem, e a casa lhe servia  perfeio. 
        - Tenho uma reunio com o coronel Stockbridge. - O coronel ainda estava preocupado com os voluntrios do Kentucky, que haviam saqueado e incendiado vrias 
aldeias dos shawnees no ano anterior, e com o forte construdo em Forte Washington, em franca violao de vrios tratados. 
        O coronel tinha certeza de que haveria retaliao. Casaco Azul j havia se vingado, entrando no Kentucky atravessando o rio Ohio, e houve inmeros ataques 
aos colonos locais. Mas o coronel tinha medo de uma guerra mais ampla, tal como Franois. Dissera exatamente isso a Washingtom quando esteve com ele. E Sarah ficou 
ouvindo com interesse, enquanto Franois explicava. 
        - H algo que voc possa fazer para impedir? - perguntou calmamente. 
        - Agora, muito pouco. Casaco Azul ainda acha que no houve resposta adequada.  um homem duro de lidar. Tentei vrias vezes, mas ele no gosta dos iroqueses 
mais do que dos brancos. - Sabia por experincia prpria, em uma reunio sobre a qual apresentara um relatrio a Stockbridge, logo que conheceu Sarah. - Nossa nica 
esperana  que ele se canse disso, e ache que j juntou escalpos suficientes para compensar pelos homens que perdeu. No vejo como poderemos det-lo, a no ser 
que tudo isto vire uma guerra envolvendo vrias naes. E nenhum de ns quer isso - continuou calmamente. 
        Ele parecia ter uma viso geral sensata das coisas, e um senso de compreenso por ambos os lados, embora o mais freqente fosse a compreenso pender mais 
para o lado dos ndios que dos brancos. Os ndios haviam sofrido mais e, do ponto de vista de Franois, costumavam ser mais honestos. 
        - No  perigoso para voc andar negociando com Casaco Azul? - perguntou ela com uma preocupao bastante bvia e ele sorriu-lhe. - Ele deve v-lo como um 
branco, mais do que iroqus. 
        - Acho que para ele isso no importa. Eu no sou shawnee. Isso basta para irrit-lo.  um guerreiro corajoso, cheio de fogo e de fria - disse a ela, com 
bvio respeito e uma certa poro de medo, que no era infundado. Casaco Azul no teria medo de trazer ao seu povo o nus de toda uma nova guerra ndia. 
        Falaram disso por um longo tempo e, quando voltaram a sair, estava mais fresco. Como era seu costume, perguntou-lhe se no gostaria de caminhar com ela at 
 cachoeira. Era um ritual dirio que Sarah nunca deixava de cumprir. E pouco diziam um ao outro enquanto davam a fcil caminhada de quase dois quilmetros at ao 
ponto onde a gua se precipitava em toda a sua beleza e glria. E, quando Sarah sentava-se sobre sua pedra preferida e olhava para a gua que tombava to jubilosamente, 
Franois baixava os olhos sobre ela, cheio de prazer. Gostaria de dizer-lhe que andara pensando muito nela e nas coisas que lhe dissera da ltima vez, e o que ele 
prprio recolhera durante o jantar. Queria dizer que tinha se preocupado com ela e estava ansioso para voltar a v-la, mas no disse. Limitou-se a ficar olhando-a, 
sem nada falar. Ficaram uma hora sentados assim, perdidos em seus prprios pensamentos, em silenciosa comunho, no que ela virou-se e encarou-o, e sorriu quando 
seus olhos se encontraram. Era bom v-lo. Ele parecia bronzeado e saudvel, aps o tempo passado com os iroqueses, e era difcil acreditar que no tivesse nascido 
entre eles, e, enquanto caminhavam lentamente de volta  pequena fazenda de Sarah, esta sentiu o brao nu de Franois roando no seu. 
        - Vai ficar na guarnio desta vez? - perguntou ela baixinho, quando chegaram  casa. 
        - Vou - disse ele, baixando os olhos sobre ela. - Vou encontrar-me l com alguns dos meus homens. - E ela ento, convidou-o para jantar, o que ele aceitou. 
        Ele sabia que podia passar a noite no bosque, ou no celeiro dela, e sair rumo  guarnio antes do raiar da manh seguinte. No tinha marcado hora nenhuma 
com o coronel. Caou vrios coelhos para ela e Sarah os cozinhou para ele e os rapazes, e fez ensopado de coelho com legumes da horta. Foi uma refeio deliciosa, 
que os rapazes lhe agradeceram com entusiasmo antes de sarem para o servio da noite, enquanto ela e Franois ficaram sentados em silncio na confortvel cozinha. 
Falaram baixinho por muito tempo, e depois foram passear ao luar e em poucos minutos viram um cometa. 
        - Os ndios dizem que isso  bom sinal - comentou ele, olhando-a, cauteloso. -  um bom pressgio. Voc ser feliz aqui. 
        - J fui - disse ela, olhando em torno. Sarah no queria nada mais do que isso. 
        Isso era tudo com que sempre sonhara. 
        - Isto  s o comeo da sua vida aqui - disse ele, judiciosamente. - Voc deve continuar, fazer muitas coisas e levar sabedoria a muitos. - Ele falava muito 
ao jeito dos iroqueses quando conversava com ela e Sarah sorriu-lhe, no muito certa do que quisera dizer. 
        - No tenho sabedoria para dar a ningum, Franois. Aqui levo uma vidinha muito acanhada. - Ela fora para l apenas para sarar e no para ensinar nada a 
ningum. Mas parecia que Franois no entendia. 
        - Voc atravessou um grande oceano para chegar aqui.  uma mulher de coragem, Sarah. No deve se entocar por aqui - disse ele, com firmeza. 
        Mas o que ele esperava dela? Ela no sabia negociar com os indgenas, nem ir falar com o presidente. No tinha nada de importante para dizer a ningum. No 
conseguia imaginar em que ele estava pensando. E ento ele lhe disse que um dia gostaria de apresent-la aos iroqueses, o que a surpreendeu. 
        - Casaco Vermelho  um grande homem. Acho que gostaria de conhec-lo. 
        Isso a assustava um pouco, mas ela teve de admitir, a deixava curiosa tambm, sabia que l estaria segura, enquanto Franois estivesse com ela. 
        - A medicina deles  muito sbia - disse ele, enigmtico -, tal como voc. - Ele falou de um jeito que soou muito mstico e ela sentiu uma ligao estranha 
e tcita com ele, os dois parados ao luar, to perto que ficou nervosa. 
Era como se, sem uma palavra, sem um som, sem nunca sequer toc-la, ele a estivesse puxando lentamente para si. E ela sabia que devia resistir, mas no conseguia. 
No sabia sequer de onde vinha a paixo que estava sentindo. 
        Era quase como estar sendo sempre puxada lentamente por foras msticas que a estivessem apertando cada vez mais como uma corda em torno de seu corpo. E, 
enquanto falavam, ela o acompanhou numa lenta caminhada at ao celeiro. Quando l chegaram, ele suavemente pegou a mo dela e beijou-a. Foi inteiramente um gesto 
de uma outra vida, e algo que ele teria feito se tivessem se conhecido na Frana, em suas outras existncias. Ele era uma estranhssima mistura de iroqus e francs, 
de guerreiro e homem pacfico. De mstico e humano. Ela o observou entrar silenciosamente no celeiro e ento virou-se e voltou caminhando para sua cozinha. 
        E, pela manh, ele j tinha ido embora de novo, e quando ela chegou de volta  cozinha achou uma estreita pulseira ndia, feita de conchas de um colorido 
brilhante. 
        Era bonita e ela a ps no brao, e, ao olh-la, entendeu que era uma sensao estranha saber que ele estivera em sua cozinha enquanto ela estava dormindo. 
        Ele era to silencioso e to forte, to belo, com seus cabelos pretos lustrosos, e ela se acostumara s calas de couro e aos mocassins que ele usava. Nele, 
pareciam completamente naturais. E descobriu, ao voltar para trabalhar em seu milharal, naquele dia, que sentia saudades dele. No fazia idia de quando iria voltar 
e no tinha qualquer motivo para quer-lo ali. Afinal, eles eram apenas amigos. De fato, lembrou a si mesma, mal o conhecia. 
        Mas era to interessante conversar com ele e sua presena parecia to tranqilizadora que podiam passar horas caminhando lado a lado, sem falar, pensando. 
Ele parecia quase ter poderes msticos, era to sbio, e ela pensava em algumas das coisas mais espirituais que ele lhe dissera, enquanto ela caminhava de volta 
 cachoeira, aquela tarde. Ela no conseguia tir-lo da cabea o dia inteiro, e o passeio  cachoeira no foi diferente. 
        Ela balanava os ps sobre a gua glida, pensando nele, quando algo passou em frente ao sol e ela ergueu os olhos para ver o que havia causado aquela sombra. 
Levou um pequeno susto quando viu que era Franois, parado a poucos centmetros dela, bloqueando a luz solar. 
        - Acho que voc vai sempre me surpreender - disse ela, erguendo para ele um sorriso, cobrindo os olhos com a mo, incapaz de esconder o prazer que sentia 
ao v-lo. - Pensei que estivesse na guarnio. 
        - Estive com o coronel - disse ele, e ela pressentiu que havia mais; porm, por um longo momento, ele no disse nada. 
Ele parecia estar s voltas com algo muito forte e muito perturbador, e ela sentiu isso. 
        - Houve algo errado? Ou melhor: houve algum problema? - perguntou ela gentilmente, pronta a escutar qualquer problema, mas ele j sabia disso. 
        - Talvez - disse ele, sem saber se devia continuar. No sabia como ela reagiria. Mas ele sabia que teria de contar. Seus prprios pensamentos o haviam atormentado 
a manh inteira. - No consigo parar de pensar em voc, Sarah. - Ela assentiu com a cabea e no falou nada. 
        - Suspeito que ser muito perigoso para mim dizer-lhe. - Mas ela no estava certa do motivo por que ele disse isso. 
        - Porqu, perigoso? - perguntou gentilmente. Ele parecia to perturbado e preocupado que isso a comoveu. E ela tinha andado to atormentada quanto ele. - 
Talvez voc no me deixe mais voltar. Sei o quanto sofreu no passado... quanta tristeza... sei como voc tem medo de voltar a ser magoada... mas eu lhe prometo. 
- lanou-lhe um olhar angustiado. - No vou mago-la. - Ela sabia disso tambm. Mas sabia igualmente que ela prpria no lhe permitiria mago-la. - S quero ser 
seu amigo. - Ele queria muito mais do que isso tambm, mas tambm sabia que no podia dizer-lhe. 
De qualquer forma, ainda no. Primeiro ele precisava saber como ela se sentia. Mas ela no parecia nem de perto to assustada quanto ele temera que ela ficaria. 
Sarah parecia estar pensando. 
        - Pensei muito sobre voc tambm - confessou ela. - Mesmo antes de voltar desta vez - disse, ruborizando-se, e ento ergueu os olhos para ele, com a inocncia 
de uma criana. - No tenho mais ningum com quem conversar. 
        - Foi esse o nico motivo pelo qual pensou em mim? - perguntou ele com um sorriso, enquanto a fitava nos olhos e sentava-se a seu lado, cautelosamente. 
        Mas ela sentia o calor do corpo dele ao lado do dela, via sua carne e sentia o toque da camura que ele vestia. Era difcil no perceber a fora da atrao 
dele. 
        - Gosto de falar com voc. Gosto de muitas coisas - disse ela timidamente, ao que ele pegou-lhe a mo e, mais uma vez, ficaram sentados em silncio por longo 
tempo. E ento, finalmente, caminharam de volta para casa. 
        Desta vez, foi ele quem serviu a ela uma xcara de gua fresca do poo e perguntou-lhe se gostaria de dar uma cavalgada pelo vale no cavalo dele. Ela sorriu 
diante dessa perspectiva. 
        - Gosto de cavalgar s vezes, quando preciso clarear a mente - disse ele, tirando a gua sarapintada do celeiro, equipada apenas com as rdeas. Raramente 
ele usava sela. Preferia cavalgar em plo e ajudou-a a subir para a garupa. 
        Ela passou os braos em torno da sua cintura e cavalgou sentada como um homem, com sua longa saia de algodo toda em torno deles, enquanto penetrava cavalgando 
pelo vale, e depois, por algum tempo, arrastando-se pelo cho do vale. Tudo parecia to luxuriante e verde, e ele tinha razo, ela achava que sua cabea ia ficando 
mais leve  medida que galopavam ao longo do rio. 
        Estavam de volta  hora do jantar, e ela preparou uma refeio para todos eles, como sempre fazia. E, depois, ele anunciou que estava de sada. Ela no lhe 
perguntou se ele queria ficar. Ambos sabiam que ele no podia. Algo mudara entre eles durante sua ltima visita. 
        - Quando voc vai voltar? - perguntou ela, tristonha, enquanto ele se preparava para partir. - Daqui a um ms, talvez, se eu puder. - E ento ele baixou 
sobre ela um olhar severo, e ela lembrou-se de quando o conhecera, aquela noite, na floresta, quando sentira tanto medo dele. 
Mas agora ele no a amedrontava. E ela conseguia somente imaginar o quanto iria sentir sua falta. Mas o que mais a perturbava era que no queria sentir-se atrada 
por ele do modo como estava, e ele sabia disso. Mas nenhum dos dois parecia capaz de fazer aquilo parar. 
        - Cuide-se bem - disse ele ento. - No faa nenhuma besteira. 
        - E toda aquela sabedoria que voc diz que eu tenho? - brincou ela, e ele riu. 
        - Voc parece us-la com todo mundo, menos consigo mesma. Cuide-se bem, Sarah - disse ele ento, mais gentilmente, voltando a beijar-lhe a mo, como fizera 
na noite anterior, aps o que montou em seu cavalo, despediu-se com um aceno de mo e saiu trotando da clareira. 
        Ela ficou olhando, mas, em questo de minutos, ele j havia sumido. Ele s voltou depois de um ms, no incio de setembro. Tinha negcios na guarnio e 
chegou para ficar l uma semana, para reunies com o coronel Stockbridge e vrios outros oficiais que tinham vindo para juntar-se a ele. A reunio, como de costume, 
foi sobre os shawnees e os miamis. Esses pareciam ser a constante preocupao do exrcito. Franois no ficou em Shelburne desta vez, mas foi muitas vezes visitar 
Sarah em segredo e, quando perguntou educadamente ao coronel como ela estava, isso lembrou ao veterano comandante da guarnio que fazia meses que no a via. 
        E imediatamente convidou-a para jantar. 
Ela e Franois fingiram surpresa quando se viram, assim como fingiram muito pouco interesse um pelo outro. Mas Stockbridge achou ter visto algo nos olhos do francs 
e, por um breve momento, ficou curioso. Mas tinha em mente coisas bem mais graves e, ao final da noite, j os havia esquecido. 
        Eles riram disso depois, quando Franois foi  fazenda, para voltar a jantar com ela. Ele ficou no celeiro dessa vez, e se divertiram muito, curtindo o final 
do vero. Foram  cachoeira, como sempre. E cavalgaram juntos, dessa vez em montarias separadas. Ela era excelente amazona e no recuava diante de nada, embora, 
ao contrrio de Franois, precisasse montar com sela. Receava que, com sua saia ampla, pudesse cair do cavalo, se no tivesse sela. E ambos riram da imagem mental 
que ela criou ao descrever a possvel cena para ele. Mas no ocorreu nenhum infortnio e passaram juntos vrios dias felizes. Sua amizade estava se tornando agora 
um elo ainda mais forte, e Franois nunca ousou ultrapassar a fronteira que ela cuidadosamente traou entre eles. 
        Um dia, no entanto, enquanto caminhavam juntos, voltando da cachoeira, ele perguntou se ela nunca receara que Edward pudesse vir  Amrica para tentar encontr-la. 
Era uma preocupao que sentia h algum tempo, desde que ela lhe contara sobre o marido. Mas, ao responder, ela pareceu despreocupada. 
        - No consigo imagin-lo fazendo isso. No acho que ele algum dia tenha gostado tanto assim de mim, para ser franca. E isso implicaria fazer uma viagem tremendamente 
desconfortvel para chegar aqui. - Isso ela sabia muito bem, pelos seus dois meses a bordo do Concord. 
        - Mas talvez para reclamar o que era sua propriedade, e, eu acrescentaria, uma propriedade bastante valiosa - disse Franois, endereando a ela um pequeno 
sorriso -, ele podia achar que valesse a pena. - Franois ainda parecia preocupado, mas Sarah, no. 
        - Duvido. Acho que sabe que, se vim to longe, jamais voltaria  Inglaterra com ele. Teria de me amarrar e amordaar e me bater at eu perder os sentidos, 
para conseguir tirar-me daqui. E acho que eu seria uma prisioneira problemtica demais. Tenho certeza de que ele est muito bem sem mim. - Franois achou isso difcil 
de imaginar. Como no conseguiu imaginar homem algum permitindo que ela se afastasse. 
        Era bvio que aquele marido era um ser estranho, bem como uma criatura embrutecida. Por um brevssimo e acrimonioso momento, entreteve a idia de que gostaria 
de conhec-lo. Mas, fosse como fosse, estava feliz por ela ser livre agora. 
E, quando a deixou, sentiu-se perturbado, como sempre. Estava ficando cada vez mais difcil deix-la. 
        - Vou voltar a v-lo? - perguntou, recatada, enquanto ele se preparava para ir embora e ela enchia seu cantil. Era feito de pele de veado e ele o possua 
h anos. Era intrincadamente rebordado de contas. Pardal Choroso o fizera para ele. 
        - No, nunca - disse ele, em resposta  pergunta. - No vou voltar, nunca, para v-la - disse ele, com voz surpreendentemente firme, e Sarah ficou com uma 
expresso bastante preocupada. 
        - Por que no? - perguntou ela, com um ar de criana decepcionada, que ele ficou feliz em perceber. Ela se perguntou se ele estaria rumando para oeste. 
        - Porque  difcil demais deixar voc e, depois de estar aqui, acho que todos os outros so intoleravelmente chatos - ela riu dessa resposta, pois sofria 
praticamente do mesmo problema. 
        - Fico muito feliz em saber - disse ela, e ento ele virou-se e fitou-a com uma expresso sria. Isso a fez estremecer um pouco. 
        - Fica? Isso no a deixa preocupada? - perguntou ele direto. Sabia como ela temia voltar a se envolver com algum, e ele sabia que ela no podia se casar. 
Mas, em sua cabea, no havia motivo para que ficasse sozinha para sempre. Esse exlio era auto-imposto, mas a solido, desnecessria e burra. Mas ainda assim ele 
sabia que era o que ela queria, ou ao menos assim pensava. - No quero amedront-la - disse. - No quero nunca mais voltar a fazer isso. 
        Ela assentiu e no disse nada. No tinha respostas para ele, que se afastou cavalgando, porm perturbado. Dissera-lhe que voltaria logo, mas desta vez no 
sabia quando. Dirigia-se novamente para o norte, e essas viagens costumavam demorar mais do que ele gostaria. Mas, desta vez, ela tambm ficou perturbada. Entendera 
como estavam se tornando prximos e unidos, e parecia haver entre eles uma espcie de intimidade tcita. Pareciam poder dizer um ao outro qualquer coisa e achar 
as mesmas coisas interessantes ou divertidas. Era assustador pensar nas implicaes. E, mais de uma vez, ela resolveu dizer-lhe para no voltar, da prxima vez em 
que viesse v-la. 
        Mas, no final, ausentava-se por tanto tempo que ela ficava preocupada de verdade com ele. No voltaria a v-lo antes de outubro. E, quando isso aconteceu, 
as folhas haviam mudado de cor, e o vale inteiro parecia estar em chamas, todo pintado de vermelho e amarelo. Ela no o via h seis semanas, e dessa vez o viu dirigindo-se 
 cascata. Ele chegou montado a cavalo e ela estava de p no meio da clareira. Ele usava uma blusa de pele de veado e culotes de camura com franjas. E parecia incrivelmente 
belo entrando na clareira a galope. Trazia os cabelos soltos, mas usava em torno da cabea uma faixa de onde pendiam penas de guia e, no momento em que a viu, comeou 
a sorrir. Puxou as rdeas e deslizou da montaria para o cho, graciosamente, a fim de abra-la. 
        - Onde  que voc andava? - perguntou ela com um olhar de preocupao que ele ficou imensamente satisfeito em ver. 
        Alguma coisa ficou lhe dizendo, durante semanas, que ele a havia assustado da ltima vez em que estiveram juntos, com o que ele estava justamente preocupado. 
No queria que ela chegasse a uma concluso errada. Mas ele no estava muito enganado. Ela passara o ltimo ms se atormentando. E tinha toda a inteno de dizer-lhe 
que no queria voltar a v-lo, mas no momento em que o viu, esqueceu todas as suas boas e firmes intenes. 
        - Andei lamentavelmente ocupado, temo - disse ele, desculpando-se sobriamente por sua ausncia, e ento contou a ela as notcias. - No posso ficar. Vou 
me reunir com meus homens na guarnio e partimos esta noite para o Ohio. 
        Ela pareceu profundamente preocupada quando ele disse isso. 
        - Casaco Azul, de novo? - perguntou, como se fossem velhos amigos, e ele sorriu para ela. Sentira tantas saudades dela, estava to feliz por v-la, ainda 
que por apenas alguns minutos. 
        - Eles comearam a lutar, h uma semana atrs. Stockbridge me pediu para ir at l com um peloto dos seus homens e uma delegao dos meus. No sei bem o 
que poderemos fazer a no ser apoiar o exercito. Faremos o melhor possvel - disse ele calmamente, absorvendo-a com os olhos, mas sem ousar toc-la. 
        -  perigoso para voc - replicou, infeliz, querendo agora que ele ficasse, lamentando ter tido um dia a inteno de dizer-lhe para no voltar. Ela imaginou 
se ele no o teria pressentido e, portanto, demorara tanto a voltar. Ela estava cheia de arrependimento agora, e de terror com a possibilidade de que fosse ferido. 
- Pode ficar para jantar? - perguntou ela, parecendo ansiosa, nervosa e temerosa de que ele lhe dissesse que precisava ir embora antes disso. 
Mas ele assentiu com a cabea. 
        - No posso me demorar. Preciso de um pouco de tempo para me reunir com o coronel. 
        - Serei rpida - disse ela, correndo para a cozinha. 
Havia sobrado um pouco de galinha frita do dia anterior, que ela guardara na caixa de resfriamento junto ao rio, e mandara os rapazes ir correndo busc-la. Preparou 
algumas trutas que eles haviam pescado ainda naquela manh. Havia tambm um pouco de abobrinha fresca e carnuda que ela colhera na horta, bem como abbora e uma 
montanha de pes de milho. E, dessa vez, ela pediu aos rapazes para comerem do lado de fora, de forma a poder jantar sozinha com Franois. E este, enquanto comia 
a refeio deliciosa que ela lhe havia preparado, olhou-a com mais prazer:. 
        -Vou levar muito tempo para voltar a comer assim to bem - disse ele, e ela sorriu. Olhando para ele, ningum jamais diria que ela no estava recebendo um 
ndio. No havia nada nele que efetivamente sugerisse tratar-se de um homem branco. Mas ela no ligava para o que pudessem dizer a seu respeito. Que falem. - Voc 
agora deve tomar muito cuidado - ele a preveniu. - Podem chegar aqui grupos guerreiros vindos do Ohio. - Parecia improvvel, mas tudo era possvel, e isso poderia 
trazer um pouco de inquietao s outras tribos. No queria que nada acontecesse a ela enquanto estivesse cavalgando com o exrcito. 
        - Estarei muito bem. - Havia comprado as armas, conforme prometera, e sentia-se segura ali. 
        - Se souber de qualquer coisa pelos colonizadores daqui, quero que v para a guarnio e fique l. - Falou-lhe como se ela fosse sua esposa, e como se o 
que ele queria que ela fizesse realmente contasse. Mas para Sarah, contava, e ela ficou ouvindo calmamente as ordens dele. E enquanto trocavam idias, medos e preocupaes, 
ela tentou se lembrar de tudo que havia esquecido na ausncia dele. 
        O tempo passava depressa demais. J estava escuro quando ele voltou a parar junto ao seu cavalo e baixou os olhos diante dela. Sem dizerem uma palavra, tomou-a 
nos braos e a segurou firme. Bastava a ele sentir-lhe a presena, nem precisava dizer-lhe nada, nem ele disse uma s palavra. 
        Ela limitou-se a corresponder ao abrao, perguntando-se por que tinha sido to tola. 
        Por que quisera fugir dele, s para comear. Que importncia tinha sua vida passada ter sido to cheia de dor? Que diferena fazia ainda ser casada com Edward? 
Nunca mais voltaria a v-lo. Para ela, era como se ele estivesse praticamente morto, e ela estava se apaixonando por este homem bonito e selvagem que parecia um 
ndio, e ele agora ia lutar junto com o exrcito. E se nunca voltasse a v-lo? Quanto teriam desperdiado! E ela estava com os olhos cheios de lgrimas, ao afastar-se 
dele para fit-lo. Nenhum dos dois falou, mas com os olhos disseram tudo que era necessrio. 
        - Tenha cuidado - sussurrou ela, e ele assentiu com a cabea ao pular para cima do cavalo, com a facilidade de qualquer jovem e bravo indgena, e ela sentiu 
vontade de dizer-lhe que o amava, mas calou-se. 
E ele sabia que, se algo lhe acontecesse, ela sempre o lamentaria. Desta vez, ao afastar-se a trote, no olhou para trs. No pde. No queria que ela visse que 
ele estava chorando.

CAPTULO 17

        FOI UM TEMPO INTERMINVEL, esperando pelo seu retorno, e por volta do dia de Ao de Graas Sarah ainda no soubera de nada. Ela agora visitava a guarnio 
freqentemente, na esperana de conseguir notcias dele. Era uma cavalgada longa para ela e a viagem de ida e volta tomava-lhe quase o dia inteiro, mas valia a pena. 
De tempos em tempos, chegavam fragmentos de notcias de combates entre os ndios e os batalhes do exrcito. Os shawnees e os miamis tinham feito grandes estragos, 
atacando lares e fazendas, matando famlias e fazendo prisioneiros. Passaram at a atacar as chatas que cruzavam os rios. E os chickasaws se haviam juntado a eles. 
O general-de-brigada Josiah Harmer estava no comando, mas at agora tinha sido um desastre. Seus soldados haviam sofrido emboscadas duas vezes, com quase duzentos 
homens mortos. Mas, por tudo que Sarah pde saber, pelo menos por volta da Ao de Graas, Franois no estava entre as baixas. E ao sentar-se para jantar com o 
coronel Stockbridge e vrias das famlias de Deerfield que ele convidara para passar o feriado na guarnio, Sarah estava profundamente preocupada. Mas no podia 
abrir-se com ningum. E foi muito perturbada que tentou puxar conversa com todo mundo, perguntando por seus parentes e filhos. 
        E quando voltou  fazenda, no dia seguinte, deu graas a Deus por no ter de falar com ningum. Havia levado consigo um guia wainpanoag. Ela nem precisava 
mais lidar com o tenente Parker, que felizmente tinha sido transferido. Estava perdida nos prprios pensamentos, quando finalmente chegaram a Shelburne. Agradeceu 
ao ndio que lhe servira de guia e deu-lhe uma mochila cheia de comida para levar. E, ao despedir-se dele, puxou sua capa mais apertada junto do corpo, devido ao 
frio, e ouviu um farfalhar no bosque logo alm da clareira. Por um momento, pareceu preocupada e dirigiu-se o mais depressa que pde para a cozinha, onde guardava 
o mosquete que Franois lhe deixara. 
        Mas, antes que conseguisse chegar  casa, ele entrou galopando na clareira, todo trajado para a guerra, com os cabelos ao vento e uma faixa em torno da cabea 
com penas de guia, flutuando ao vento atrs dele. Era um distintivo de honra que lhe fora dado pelos iroqueses anos antes e, enquanto o olhava espantada, percebeu 
que era Franois. Ele ostentava um sorriso vitorioso e emitiu uma alta exclamao de entusiasmo ao saltar do cavalo e correr para ela. Desta vez, ela no hesitou 
quando ele a estreitou nos braos e a beijou. 
        - Oh, Deus, senti tanto a sua falta. - disse ela, esbaforida, quando ele finalmente voltou a solt-la. No conseguia se lembrar de mais um nico motivo para 
suas reservas quanto a ele. - Estava to preocupada, tantos homens morreram. 
        - Demais - disse ele, ainda carregando-a nos braos, e ento olhou para ela, tristonho: - Ainda no acabou. Os bravos agora esto festejando. Nosso exrcito 
vai voltar, mais forte e com mais homens. Pequena Tartaruga e Casaco Azul no vo ganhar esta guerra para sempre. Eles foram muito tolos. - Ele sabia que haveria 
mais mortes, mais famlias massacradas, mais escravos, mais destruio, mais fria e, no final, os ndios iam perder tudo mesmo. Ele odiava ficar testemunhando tudo 
isso, mas no conseguia sequer pensar nisso agora, segurando-a nos braos. - Nunca saber como senti a sua falta - disse ele, e voltou a beij-la suavemente. 
        E ento levantou-a nos braos facilmente e levou-a para dentro. Estava frio na cozinha. Ela se ausentara por dois dias, e o fogo se apagara, pois os rapazes 
tinham ido passar a Ao de Graas com uma famlia vizinha. Tinham sete filhas e os rapazes ficaram muito felizes de poder ir visit-las. E, assim que Franois a 
pousou no cho, comeou a acender o fogo para ela, enquanto Sarah retirava a capa. Estava usando o vestido de veludo azul que comprara em Boston. Tinha-o escolhido 
para a Ao de Graas. 
        E, olhando agora para ela, ele viu que era da mesma cor dos olhos dela, e entendeu que nunca tinha conhecido uma mulher to bonita, nem em Paris, nem em 
Boston, nem em Deerfield, nem mesmo entre os iroqueses, nem sequer Pardal Choroso, por mais que ele a tivesse amado. Agora, existia para ele apenas uma mulher, essa 
garota franzina que tinha sido to corajosa todas as vezes em que ele a vira, a mulher por quem se apaixonara to perdidamente. Nunca esperara, na sua idade, que 
isso lhe acontecesse. J tinha visto quase quarenta veres, como dizem os ndios, e no entanto, amava-a como se sua vida estivesse s comeando. 
        Voltou ento a ergu-la nos braos e, enquanto a beijava, pde senti-la abandonando-se ao amplexo dele. Ela h muito entregara-lhe seu corao e, junto com 
ele, a sua alma. E havia rezado todos os dias para que ele voltasse em segurana, e se odiara por no ter se entregado a ele antes de ele partir, nem sequer revelado 
o quanto o amava. E agora dizia-lhe isso sem parar, enquanto ele a carregava para o quarto. Ela nunca amara homem algum a no ser Franois, e enquanto ele a pousava 
gentilmente na cama e a fitava, ela ergueu os braos para ele e tremeu quando ele a abraou. 
        Nunca havia experimentado o toque gentil de homem algum, e ningum jamais foi to gentil com ela quanto ele agora, tirando-lhe delicadamente o vestido de 
veludo e arrumando-a, como um recm-nascido, sob as cobertas. Virando-se de costas para ela, deixou cair depressa ao cho suas calas de camura e deslizou para 
dentro da cama, ao lado dela. 
        - Amo voc, Sarah - sussurrou-lhe e, para ela, j no parecia mais um ndio, mas apenas um homem, o homem que ela amava e que no tinha nada de assustador. 
Ele foi todo gentileza e cortesia ao estender os braos lentamente para ela e explorar-lhe o corpo com a magia invisvel de seus dedos. E ela deixou-se ficar em 
seus braos, gemendo baixinho. E ento, finalmente, sempre com a mesma gentileza, ele tomou-a nos braos e apertou-a junto de seu corpo, incapaz de se controlar 
por muito tempo, pois a desejara tanto, praticamente desde o dia em que a conhecera, e ele soube com absoluta certeza, tendo ficado deitados juntos longo tempo noite 
adentro, que aquela era a vida para a qual ambos tinham nascido e durante todo esse tempo ele se sentiu como se seu corpo e sua alma houvessem explodido numa cascata 
de cometas. 
        Depois, ela ficou deitada em silncio nos braos dele, bem junto de seu corpo, sentindo-lhe o corao bater junto ao dela, e sorriu, ao erguer os olhos para 
ele, com o prazer saciado. 
        - Nunca imaginei que isso pudesse ser assim - sussurrou ela. 
        - No pode - disse ele, tambm baixinho. - Isso  um dom dos Deuses do Universo. Nunca foi assim para ningum, antes - retrucou ele e sorriu, fechando os 
olhos e puxando-a ainda mais para perto. 
        Dormiram nos braos um do outro aquela noite, e quando despertaram, pela manh, e ela olhou para ele, ela entendeu que eles agora eram um s e sempre seriam. 
As semanas seguintes foram mgicas para eles. Ele estava livre de suas obrigaes para com qualquer pessoa e podia ficar com ela quanto tempo quisessem. 
        Todos os dias caminhavam at  cachoeira, ele a ensinou a caminhar com sapatos para a neve e contou-lhe lendas mgicas que ela nunca ouvira antes, e eles 
passavam horas na cama, nos braos um do outro, fazendo amor e descobrindo-se um ao outro. 
Nenhum dos dois jamais conhecera uma vida assim. E ele disse a Sarah que, quando a neve derretesse, queria lev-la para conhecer os iroqueses. Para ele, ela agora 
era sua esposa. 
        E, duas semanas depois de sua vida juntos ter comeado, ele levou-a  cachoeira, e ela notou que ele parecia muito solene. Ele ficou em silncio enquanto 
caminhavam, e ela imaginando no que estaria pensando. Talvez em seu filho, ela pensou, ou em Pardal Choroso, mas ele parecia estar preocupado com alguma coisa, ou 
profundamente perturbado. E, quando chegaram  cachoeira, ele contou a Sarah no que estivera pensando. 
        A cachoeira, a essa altura, estava exteriormente congelada, mas ainda um espetculo digno de se ver, e o mundo em torno deles estava coberto por um lenol 
de neve. E ele segurou-lhe a mo e lhe falou bem baixinho. 
        - Estamos casados diante de nossos prprios olhos, minha pequena, e diante dos olhos de Deus, voc no pode ter sido nunca casada com aquele homem terrvel, 
na Inglaterra, no existe nenhum Deus, em cu algum, capaz de querer que voc passasse uma vida inteira de semelhante tortura. E, aos olhos de Deus, voc agora  
livre, mereceu a sua liberdade. No vou voltar a submet-la  servido - continuou ainda segurando-lhe a mo. - Mas vou me apossar do seu corao e lhe dar o meu, 
e voc ter a mim. A partir de hoje, serei seu marido, at morrer. Vou lhe prometer a minha vida, e toda a minha honra - disse ele, fazendo-lhe uma reverncia. 
        Ento, silenciosamente, tirou do bolso uma aliana de ouro, que comprara meses antes, durante o vero, no Canad. E tivera vontade de d-la a Sarah, mas 
receou faz-lo. E ele agora sabia que este era o momento certo. - Se eu pudesse, Sarah, dava-lhe tambm o meu ttulo e minhas terras. No tenho outro herdeiro, mas 
tudo que posso lhe dar agora  quem eu sou, e o que posso lhe dar agora  quem eu sou, e o que tenho aqui. Mas tudo o que sou e tenho  seu agora - disse ele, deslizando 
o anel no dedo. 
        Coube-lhe  perfeio, e era uma tira estreita de ouro, cravejada de minsculos diamantes. Era de fato uma aliana matrimonial, e ela s teve a esperana, 
olhando-a, de que a mulher que a usara antes tivesse sido feliz. Mas entendeu, quando olhou para Franois, que ele era tudo que dissera ser e que, em seu corao, 
desse dia em diante, ele seria seu marido. 
        - Amo-o mais do que jamais poderei lhe dizer - sussurrou ela, com lgrimas rebrilhando-lhe nos olhos, querendo ter um anel para poder dar a ele. 
Mas no tinha nada, alm dela prpria, seu corao, sua vida, sua confiana, que era algo que no dera a ningum antes de Franois. E ela confiava nele completamente. 
Trocaram suas promessas na cachoeira e voltaram para casa caminhando lentamente, e ento fizeram amor outra vez. E, quando acordou, nos braos dele, olhou toda feliz 
para o belo anel em seu dedo. 
        - Voc me fez to feliz - disse ela, rolando brincalhona na cama, para cima dele, e Franois no lhe conseguia resistir. 
        E, mais tarde, sentados na cama, tomando ch e comendo po de milho, ele lhe perguntou se ela ia ligar para o que as pessoas iriam pensar agora, caso soubessem 
que eles estavam vivendo juntos. 
        - Na verdade, no - admitiu para ele. - Se eu ligasse, jamais teria deixado a Inglaterra. - Mas ele ainda achava que deviam tomar cuidado. No havia necessidade 
de atrarem o repdio da parquia inteira. 
        Se acabassem sendo descobertos, teriam de se conformar com isso. Mas no era necessrio ficarem se gabando do que acontecera, embora no achassem que fossem 
muito bons para guardar segredo. 
        Tiveram sua primeira oportunidade de pr tudo isso  prova no jantar de Natal, na guarnio, aonde chegaram separadamente e fingiram surpresa quando se viram. 
Mas ambos fingiram inocncia demais e trocaram olhares furtivos com excessiva freqncia. Se a esperta Sra. Stockbridge estivesse l, teria percebido imediatamente. 
Mas, por sorte deles, no estava. Conseguiram se sair bem dessa vez, mas Sarah sabia que as pessoas no poderiam ser enganadas para sempre. Algum os veria, ou falaria, 
e inevitavelmente a reputao dela sairia manchada. 
        Mas, como disse a Franois, no final isso no importava de verdade, desde que tivessem um ao outro. 
        Mas a vida deles seguiu bastante pacfica at o Ano Novo e ento, certa tarde, enquanto ela estava tentando romper o gelo e pegar gua no poo, um homem 
com roupas da cidade entrou a cavalo na clareira. Trazia com ele um guia nonotuck, um ndio muito velho, e o branco parecia estar gelado at os ossos e olhava intensamente 
para Sarah. E, ela no sabia porqu, teve um mau pressentimento com relao a ele. Olhou em torno descontraidamente, buscando ajuda, e lembrou-se de que Franois 
fora a um dos pequenos fortes do rio, buscar munio nova, e os rapazes tinham ido com ele. O homem com roupas da cidade cavalgou direto em sua direo, e baixou 
os olhos sobre ela com determinao. 
        - A senhora  a condessa de Balfour? - Era uma pergunta estranha de lhe fazer e, embora corressem boatos sobre isso h muito tempo, ningum jamais ousara 
perguntar-lhe to diretamente. A princpio, ela sentiu-se inclinada a negar, mas depois resolveu que no valia a pena. 
        - Sou. E o senhor, quem ? 
        - Chamo-me Walker Johnston e sou advogado, em Boston - disse ele, ao desmontar. 
        Parecia rgido e cansado. Mas no sentia nenhuma vontade de convid-lo a entrar enquanto no soubesse o que ele queria. E o velho guia ndio com ele parecia 
no ter o menor interesse na questo. 
        - Podemos entrar? 
        - Do que veio tratar, meu senhor? - Ela no sabia por que, mas suas mos tremiam. 
        - Trago uma carta para a senhora, de seu marido. - Por um instante ela pensou que ele se referia a Franois, e que algo lhe houvesse acontecido, e s ento 
ela fizera a ligao. Foi com a voz trmula que fez a pergunta seguinte. 
        - Ele est em Boston? 
        - Claro que no. Ele est na Inglaterra. Fui contratado por uma firma de Nova York. Seguiram sua pista at  Amrica h bastante tempo. Demorou um pouquinho, 
no entanto, para ach-la aqui. - Ele falava como se esperasse que ela apresentasse desculpas por dar tanto trabalho. 
        - O que ele quer de mim? - E ela de repente ficou imaginando se esse homem e o velho ndio no iriam atir-la sobre seus cavalos e carreg-la de volta a 
Boston. Mas parecia improvvel, conhecendo Edward. 
        Seria bem mais provvel que o homem tivesse sido contratado para bale-la. Mas talvez no fosse o caso, j que ele era advogado. Ela imaginava. Talvez ele 
estivesse apenas fingindo ser advogado. Teve um medo instintivo dele, mas estava igualmente determinada a no se deixar dominar pelo terror. 
        - Devo ler-lhe a carta de sua senhoria. - Ele insistiu. - Podemos entrar? - perguntou com um ar de glida determinao, e ela pde ver que estava enregelando. 
        - Est bem - cedeu e ofereceu-lhe uma xcara de ch quente, assim que ele chegou  cozinha e tirou o casaco cheio de gelo. 
        Ela deu po de milho ao velho ndio. Mas este estava feliz esperando do lado de fora. Usava peles quentes e no se sentia perturbado pelo tempo. 
        E, com isso, o advogado de Boston inflou a plumagem, feito um passarinho preto, velho e feio. E fuzilou-a com o olhar enquanto desdobrava a carta de Edward. 
Estava obviamente preparado para l-la em voz alta e ela estendeu a mo com um olhar que teria revelado a qualquer um sua posio e seu ttulo. 
        - Posso l-la pessoalmente, senhor? - perguntou, estendendo a mo e, quando ele a entregou, ela rezou para que seu tremor no a trasse. 
        Ela reconheceu de imediato a caligrafia de Edward, e o veneno de suas palavras j no mais a surpreendeu. 
Ele estava claramente furioso por ela ter fugido e chamava-a de todos os nomes imaginveis que lhe ocorreram, na maioria relacionados a ser ela uma vagabunda, a 
lama na sola de seus sapatos, no fazendo falta a ningum no condado. Falou de seu lamentvel fracasso em dar-lhe um herdeiro e, no final da primeira pgina, dizia 
que a repudiava, mas, na segunda pgina, lembrou-lhe de que ela no receberia dele fundos de qualquer espcie, jamais poderia alegar direito a qualquer coisa que 
pudesse ter sido dela, ou que lhe tivesse sido deixada por seu pai, e que nada herdaria dele aps sua morte. Nada disso a surpreendeu. 
        Disse que estava agora refazendo seu testamento. Ele at ameaou process-la por ter roubado as jias de sua me, ou melhor ainda, por traio, por ter roubado 
um par do reino. Mas como os ingleses no mais detinham o poder em Massachusetts, ela sabia que no havia nada que ele pudesse fazer-lhe agora, a no ser censur-la, 
mas poderia process-la na Inglaterra, e avisou-a de que no deveria voltar a pisar em seu solo natal. 
        E ento lembrou-lhe, com bastante crueldade, de que aonde quer que ela fosse, o que quer que fizesse, no poderia voltar para casa, a no ser que quisesse 
enfrentar um processo por bigamia e que, se tivesse filhos e eles vivessem, o que parecia bastante improvvel, dada sua histria pattica, seriam todos bastardos. 
No era uma perspectiva agradvel, mas algo que ela j considerara h muito tempo. Sabia muito bem que no poderia voltar a se casar enquanto Edward vivesse, e igualmente 
Franois, e eles pareciam bastante capazes de conviver com esse fato, por isso as ameaas de Edward soavam vazias. 
        Mas foi na terceira pgina de sua carta que Edward a surpreendeu. Ele falou ento de Haversham e disse que ficou espantado por ela no t-lo levado consigo. 
Chamou o irmo de verme desfibrado e ento referiu-se bastante misteriosamente  sua viva idiota e suas quatro filhas enlutadas, o que s fez sentido para Sarah 
quando ela leu mais um pouco. Ao que tudo indicava, Haversham morrera no que Edward descrevera como um "acidente de caa" seis meses antes, quando os dois irmos 
saram para caar juntos. 
        Mas, sabendo como Edward o detestava, e no teria ido fazer coisa alguma com o irmo, a no ser sob forte imposio, achou bastante bvio o que tinha acontecido. 
Por puro tdio, ou raiva, ou ambio, Edward o havia matado. E sentiu o corao afundar no peito ao ler essa notcia. 
        E ento ele lhe garantiu, no ltimo pargrafo, que um de seus muitos bastardos herdaria no s toda a sua fortuna, mas tambm o seu ttulo. E desejou que 
ela ardesse no inferno, por causa disso, uma eternidade de agonia e pesar. E assinou-se Edward, conde de Balfour, como se ela no o conhecesse. Mas ela o conhecia 
bem demais, a ele e aos horrores de que ele era capaz. Ela ainda o odiava, e agora particularmente pelo que fizera ao irmo. 
        - Seu empregador  um assassino, senhor - disse Sarah baixinho, ao devolver a carta ao advogado. 
        - Jamais estive com ele - retrucou ele de estalo, chateado por ter tido de se arrastar at Shelburne. E, assim que ps a carta de lado, tirou do bolso outro 
papel. - Preciso que a senhora assine isto - disse ele, brandindo uma folha para ela. 
        Sarah no conseguia imaginar o que ele lhe estaria dando agora, mas quando pegou o documento da mo dele, viu que era uma carta que ela deveria assinar, 
concordando em renunciar a qualquer coisa que pudesse tentar tirar de Edward, no importa de que fonte. Ele queria que ela concordasse em desistir de tudo, e ela 
no ligava a mnima para nada disso. Por isso, a questo para ela no tinha importncia. A carta dizia tambm que, a partir daquele dia, ela renunciava ao ttulo 
de condessa, que de certa forma a divertiu. Era como se ela o viesse usando por toda Deerfield. 
        - No vejo nenhum problema nisso - disse ela, e foi at  escrivaninha da sala ao lado, o mais depressa que pde, onde mergulhou sua pena no tinteiro e assinou 
a carta. E, aps despejar sobre ela alguns gros de areia, voltou depressa  cozinha e entregou-a ao Sr. Johnston. - Acho que isso encerra nosso assunto - disse 
ela, parada, na expectativa de que ele fosse embora, no exato momento em que ela viu um claro de movimento e de cor passar voando pela janela. No sabia bem o que 
seria, mas, de certa forma, no era auspicioso e ela fez um gesto rpido para apanhar o mosquete, ao que o advogado pulou de terror. 
        - Ora, no h necessidade disso, no  minha culpa, a senhora sabe, a senhora deve ter feito algo para deix-lo to zangado. - Ele estava plido de medo 
e ela o silenciou com um nico gesto e ficou prestando ateno. 
        Mas, no mesmo instante, Franois irrompeu cozinha adentro e ambos pularam. Ele estava absolutamente assustador, com seu traje indgena de inverno, com uma 
cabea de lince em cada ombro e as peles caindo sobre ambos os braos. Usava um chapu de pele e um peitilho de contas e ossos que ganhara no Ohio. No estava usando 
nada disso quando partiu, e ela de repente entendeu que parte daquilo tudo ele pusera para aterrorizar o estranho. O velho ndio l fora devia ter-lhe contado algo 
sobre a misso de Johnston, caso soubesse alguma coisa. 
        Ou talvez Franois tenha imaginado, pelo que o nonotuck lhe contara. Mas, em qualquer caso, ele estava desempenhando o papel no capricho, e fez um gesto 
para indicar a Sarah que ficasse contra a parede, como se no a conhecesse. E o advogado de Boston, as mos ao alto, tremia violentamente. 
- Atire nele - disse com violncia a Sarah, que parecia paralisada.
Ela estava com medo de comear a rir de repente e estragar a
brincadeira toda. 
    - Tenho medo - sussurrou ela. 
    - Fora! - Franois grunhiu para o homem, apontando-lhe a porta, como se o fosse levar a algum lugar. - Fora! - Apontou to ferozmente, que o sujeito nem pensaria 
em discutir. 
    E, agarrando seu casaco, saiu correndo ao encontro do guia e dos cavalos que esperavam. Mas o velho nonotuck exibia um largo sorriso. Sabia muito bem quem era 
Franois, todos eles o sabiam, e, como a maior parte dos de sua tribo, ele tinha um excelente senso de humor e estava achando tudo muito engraado. Dissera a Franois 
que achava que aquele homem no estava ali para boa coisa. Ele mal dera tempo ao nonotuck para comer e descansar da viagem. 
    - V! - Franois apontou para os cavalos, enquanto o advogado se embaralhava todo, tentando subir na sela. 
        E, com isso, Franois pegou o arco e estendeu a mo para pegar uma flecha. 
        - Pelo amor de Deus, homem, voc no tem um mosquete? - disse Johnston ao nonotuck, mas o velho guia pareceu totalmente indefeso, quando tentou voltar a 
montar em seu cavalo. Sarah viu que ele estava rindo. 
        - No posso atirar, Irmo ndio - explicou o nonotuck, no que Franois saltou sobre seu prprio cavalo, ento, e o fez danar como se fosse persegui-los. 
        Mas, com isso, o advogado deu uma esporada feroz em sua montaria alugada e saiu disparado da clareira, com o velho nonotuck cavalgando atrs dele e rindo 
s gargalhadas, com Franois fingindo que os perseguia. 
        Ele levou cinco minutos completos para voltar junto a ela, e estava com um grande sorriso arreganhado, mas ela ralhou feio com o marido, quando Franois 
desmontou. 
        - Isso foi uma tolice sua. E se ele tivesse uma arma? Teria atirado em voc!. 
        - Eu o teria matado - disse Franois, valentemente. - O guia disse que ele veio para fazer algo ruim, mas no sabia exatamente o qu. Espero que ele no 
tenha tido a oportunidade. - Ele parecia preocupado. - Desculpe-me por no ter chegado antes. 
        - Ainda bem que no chegou - disse ela com um sorriso, ainda um pouco divertida com aquele desempenho, tinha sido bastante convincente. - O pobre idiota 
vai relatar que h um grupo de guerra  solta em Shelburne. 
        - timo. Ento, que fique em Boston. O que ele queria? 
        - Despojar-me do meu ttulo - disse ela, com um largo sorriso. - Sou de novo plebia, ou fui reduzida ao meu ttulo de solteira. Agora sou s lady Sarah, 
voc vai ficar tristemente decepcionado. 
        Mas Franois apenas franziu o cenho para ela e lhe disse: 
        - Um dia, voc ser a minha condessa. Quem era ele? 
        - Um advogado contratado por Edward. Ele chegou com uma carta de Edward ameaando-me e avisando que eu no teria qualquer herana, o que iria acontecer de 
qualquer jeito. Portanto, isso no tem a menor importncia. - A nica coisa importante era que matara o prprio irmo, e ela contou a Franois tudo a esse respeito. 
        - Que canalha - disse ele, emocionado. - No gosto de Edward estar sabendo onde voc se encontra agora. 
        - Ele nunca vir at aqui -garantiu ela. - Ele s queria me humilhar e privar-me de algo que achava ser importante para mim, mas nunca foi, e suponho - disse, 
melanclica. - que ele achou que eu ia ficar arrasada por causa de Haversham. Estou triste por ele, e pela pobre e tola Alice, com suas filhas. Mas, de certa forma, 
isso no me surpreende. Sempre temi que Edward viesse a fazer isso. Acho que o prprio Haversham o pressentiu. 
        - Tem sorte por ele no a ter matado - disse Franois com emoo e ento sorriu mais gentilmente ao encarar a mulher que chamava de sua esposa. - Sorte minha 
ele no a ter matado. - Tomou-a em to nos braos e a abraou. Odiava saber que ela tivesse tido o menor contato com Edward e lamentava no ter estado l, quando 
o sujeito, chegou de Boston. Mas ela no parecia ter ficado excessivamente aborrecida com isso, s com a morte do cunhado. Esse fato a entristecera e ela achara 
imperdovel da parte de Edward. 
        Passaram o ms seguinte em paz, sem qualquer incidente, e em fevereiro, embora ainda houvesse neve no cho, ele a levou em visita aos iroqueses, o que ela 
achou uma experincia extraordinria. Carregaram inmeras coisas para negociar. Franois levou diversos presentes para Casaco Vermelho e Sarah gostou de conhecer 
as mulheres. Pde entender com facilidade por que Franois gostava tanto de viver com elas. Tinham todas uma tal honra e integridade que lhe causaram forte impresso. 
Adoravam rir e estar sempre contando histrias, e ficaram fascinadas com ela. 
        E Sarah amou sua cultura, com suas lendas e sua sabedoria. Uma das mulheres mais sbias da tribo conversou baixinho com ela certa noite, segurando-lhe a 
mo. Franois estivera fumando cachimbo com os homens e, quando voltou, sabia que essa mulher era irm dos powaw e que era, ela prpria, uma mulher muito espiritualizada. 
Mas Sarah no tinha sido capaz de compreend-la. E pediu a Franois que traduzisse. Mas quando ouviu o que ela disse, pareceu profundamente preocupado e lanou um 
olhar de estranheza a Sarah. 
        - O que ela disse? - Pela expresso de Franois, parecia ter sido algo aterrorizante. 
        - Ela disse que voc est muito preocupada, com muito medo - informou ele, baixinho. - Isso  verdade? - Ele imaginava se ela poderia estar com medo de Edward. 
Mas havia pouco que ele pudesse fazer-lhe agora. 
        E ambos sabiam que Sarah jamais voltaria  Inglaterra. 
        - Ela disse que voc veio de longe, e deixou para trs muitas tristezas. - Por certo era verdade, e Sarah, ao ouvir, teve um estremecimento. Estava usando 
uma blusa e um culote de camura. E estava quente e confortvel na casa comprida que usavam no inverno. 
        - Est realmente preocupada, meu amor? - Ele perguntou com gentileza e ela sorriu ao sacudir a cabea, mas a mulher era mais sbia do que ele percebia, enquanto 
Sarah a observava. 
        Estavam sentados perto do fogo, com mais ningum perto deles, e no havia ningum para ouvir, enquanto a mulher continuava. - Ela diz que voc em breve vai 
atravessar um rio, um rio de que sempre teve medo, em vidas passadas voc se afogou nele muitas vezes. Mas, desta vez, no vai morrer. Vai atravess-lo em segurana. 
Ela diz que voc vai entender esta viso, quando pensar a esse respeito, que voc sabe o que ela est vendo. - E ento ela parou, e Franois parecia perturbado ao 
sarem para caminhar do lado de fora, a fim de tomar um pouco de ar puro, e ele perguntou-lhe o que a mulher quisera dizer. Era uma das sbias, uma profetisa da 
tribo, e ele a conhecia. Suas vises eram raramente equivocadas. - De que voc tem medo? - perguntou-lhe Franois, enquanto a puxava mais para perto de si, por sua 
capa de pele. 
        Ela parecia uma bela indgena e eles formavam um casal impressionante, mas ele agora pressentia que ela guardava algum segredo dele, e no gostava disso. 
        - No estou com medo de nada - disse Sarah, de forma pouco convincente, com ele a observando. 
        Franois sabia que ela estava mentindo. 
        -  to bvio que est me escondendo alguma coisa - disse ele, chegando mais perto dela, esperando para sentir-lhe o calor junto a seu corpo. E ela no respondeu. 
- O que , Sarah? Est infeliz, aqui? - Eles deveriam voltar dentro de poucos dias. J estavam l h semanas, e ele achava que ela tinha gostado. Afinal, Sarah parecia 
to feliz. 
        - Estou adorando, e voc sabe disso. 
        - Fiz algo que a aborrecesse? - A vida deles era, com certeza, incomum. Talvez ela estivesse com saudades dos outros mundos que havia conhecido, na Inglaterra 
ou em Boston. Embora no desse a impresso de ser isso o que ela queria, mas era algo bem maior o que a preocupava, e j a vinha preocupando h algum tempo. E ento 
ele a apertou entre os braos, prendendo-a junto a si, o que a fez sorrir de prazer. - No vou solt-la, enquanto no me contar. No a deixarei ter segredos comigo, 
Sarah. 
        - Eu ia mesmo acabar contando-lhe - comeou a dizer, enquanto ele parou para esperar, de repente aterrorizado com a possibilidade de ser algo que pudesse 
afast-los. Ele sabia que ele no poderia agentar. E se ela estivesse querendo ir embora? Mas para onde iria, agora? 
        - Algo aconteceu - continuou ela, com tristeza na voz. 
        Ento, a irm ndia estava certa. 
        - O que , Sarah? - Sua voz era pouco mais que um sussurro. 
        Ele estava cheio de terror. 
        - Eu, no sei o que lhe dizer - retrucou ela com lgrimas saltando-lhe dos olhos, enquanto ele a observava, sentindo grande angstia por essa enorme tristeza 
dela. - No posso... no posso. - Ela no conseguia continuar e ele, segurando-a nos braos, no sabia o que fazer para ajud-la, e ento, finalmente, num murmrio 
de dor, ela lhe contou. - No posso lhe dar filhos, Franois... voc no tem filhos, e deveria ter um, mas no posso lhe dar o que voc merece. - Ela agora soluava 
em seus braos, e ele estava profundamente comovido pelo que ela estava dizendo. 
        - Eu no ligo, meu amor, voc sabe que eu no ligo, isso no tem importncia. Por favor, minha querida. No, voc no deve chorar. - Mas, no importa o que 
ele dissesse, Sarah no conseguia parar de chorar. - No  importante. 
        - Todos os meus bebs morreram - revelou ela, agarrando-se a ele, e ele lhe disse o quanto lamentava toda a angstia por que ela passara, e ento ela o surpreendeu 
por completo - e sei que este tambm vai - sussurrou, e de repente ele entendeu e se afastou um pouco, para poder olh-la com descrena e terror. 
        - Voc est grvida? - perguntou, quase sem conseguir respirar,  mera idia de tal coisa, e ento ela assentiu com um gesto de cabea. - Oh, meu Deus, minha 
pobre Sarah. Oh, no, no vai acontecer desta vez. Eu no vou permitir. - Segurou-a mais junto a si, com os olhos cheios de lgrimas, dando-se conta do que ela devia 
ter andado temendo. 
        E, ento, lembrou-se das palavras da profetisa, que tivera a viso. 
        - Lembra-se do que ela disse? Que, desta vez, voc vai atravessar o rio em segurana. No vai voltar a acontecer, meu amor - sussurrou. 
        - Ela disse que eu ia sobreviver - lembrou-lhe Sarah. - Mas, e o beb? Por que este viveria, e nenhum outro? No consigo acreditar que desta vez ser diferente. 
        - Eu cuidarei de voc, ns lhe daremos ervas e voc ficar gordinha e feliz, e ter um lindo beb - disse ele, sorrindo para ela, que se aninhava contra 
o corpo dele. - Tudo em sua vida  diferente agora, Sarah. Esta , para voc, uma vida nova, para ns dois. e para o nosso beb. - E ento ele lembrou-se de perguntar-lhe. 
-  para quando? 
        - Acho que para o final do vero - disse ela, baixinho -, em setembro. - Ela achava que devia ter acontecido da primeira vez, porque ela percebera os primeiros 
sinais por volta do Natal. 
        J fazia quase trs meses, mas ela no tivera a coragem de contar-lhe. Vinha carregando a preocupao h longo tempo. A mulher visionria soubera disso. 
        Ento, voltaram caminhando lentamente  casa comprida, com todos os demais em torno deles, e ele deitou-se ao lado dela segurando-a e, quando ela dormiu, 
ele baixou os olhos sobre Sarah com o corao cheio de amor por ela e suplicou aos deuses que tivessem piedade dela, e do beb deles.

CAPTULO 18

        A TARDE DE SEGUNDA-FEIRA j ia avanada quando Charlie voltou a pousar os dirios de Sarah. Precisava se vestir, pois ia levar Francesca e Monique para comer 
pizza. Mas estava cheio de amor e ternura quando ps o dirio de lado e pensou no beb que Sarah esperava de Franois. Como sempre, ficou se perguntando o que teria 
acontecido a essa criatura, mas ele ainda no sabia. Era como um mistrio em sua vida, resolvendo-se diariamente. Era estranho pensar como aquilo era to real para 
ele, mais real do que as pessoas que conhecia ali. Estava morrendo de vontade de contar tudo aquilo a Francesca. E quando as pegou, s seis horas, ainda estava pensativo. 
        Monique, como de costume, estava animadssima. E Francesca tambm parecia estar de bom humor. Disse que tinha trabalhado muito em sua tese, no domingo. 
        Os trs passaram uma noite agradvel e confortvel, e Francesca o convidou a ir novamente a sua casa, aps o jantar, para tomar sorvete e caf, o que ele 
aceitou com prazer. E Monique sentiu-se em xtase por estar com ele. Ela parecia ansiar por uma figura paterna em sua vida, e estar com ela levou Charlie a pensar 
em filhos. Quando ela j tinha ido para a cama, ele e Francesca foram se sentar na cozinha, para tomar caf com biscoitos. 
        - Ela  uma criana maravilhosa - disse ele, sendo sincero em cada palavra, e Francesca sorriu agradecida. Ela era louca pela filha. 
        - Voc j pensou em ter mais filhos? - quis ele saber, questionando-se intimamente sobre esses sentimentos e pensando em Sarah. 
        - Acho que sim, h muito tempo atrs. E a tudo caiu por terra. Pierre no estava exatamente interessado em mim, quando o seu docinho estava para ter gmeos. 
E agora  tarde demais, portanto, no faz a menor diferena. - Ela parecia quase deprimida ao dizer isso, o que o intrigou. 
        - Aos trinta e um anos, pensar assim  loucura. - Ele a censurou. - Pare de dizer que  tarde demais para tudo. Sarah Ferguson tinha vinte e quatro anos 
quando veio para este pas, numa poca em que isso significava ser de meia-idade, ou pior, e ela conseguiu ter uma nova vida inteira com um homem que amava, e ficar 
grvida. 
        - Estou impressionada - disse ela, meio sarcasticamente. - Acho que ela est se tornando uma obsesso. - Mas, ouvindo-a, ele se decidiu. 
Esperava estar certo, mas confiava nela, e ela precisava disso mais do que ele. 
        - H algo que quero lhe dar para ler - disse ele, pensativo. 
        E ela riu. 
- Eu sei, eu sei. No primeiro ano, tambm fiz isso. Li todos os livros psicolgicos, todos os livros de auto-ajuda, sobre como se recuperar do divrcio, como se 
libertar do passado. Como no odiar seu ex marido. Mas nesses livros no h receitas para se voltar a ter confiana nos outros, para se achar algum que no v lhe 
fazer tudo isso de novo. Mas h textos para se ganhar coragem. 
        - Acho que tenho um - disse ele, misteriosamente, e ento perguntou-lhe se ela no gostaria de jantar em sua casa na quarta-feira. Era uma noite de escola, 
mas ele planeava dar-lhes comida bem cedo. Ela a princpio pareceu hesitante, mas ele lhe disse que queria mostrar-lhe a casa, e ela disse que queria conhec-la. 
        - Alm disso, a Monique ia adorar. - Ela hesitou, mas ele foi to insistente que ela acabou aceitando e, quando ele foi embora, aquela noite, disse muito 
pouco, mas mal podia esperar para voltar a v-las. 
        E ele passou dois dias limpando e tirando a poeira, passando o aspirador de p, afofando o sof, comprando vinho e provises, e assando biscoitos para Monique. 
No teve tempo nem para ler os dirios. Mas queria que tudo fosse perfeito. 
        Mas quando as pegou na noite de quarta-feira e as levou at sua casa, Francesca ficou obviamente impressionada, no por sua decorao, que at agora no 
existia, mas pela prpria casa, e pelo trabalho que ele se dera. E, como ele, ficou profundamente comovida pelo clima que sentia no ambiente. Era quase como se pudesse 
sentir uma presena amorosa na casa, ainda que no se soubesse nada sobre ela. 
        - De quem  esta casa? - perguntou Monique como se ela tambm sentisse, e olhou em torno com interesse. 
Ele explicou a Monique que a casa pertencia a uma amiga realmente tima que ele tinha conhecido em Shelburne Falls, mas que pertencera a algum muito especial, uma 
mulher chamada Sarah, da Inglaterra, h muito tempo atrs. 
        - Ela agora  um fantasma? - perguntou Monique, impassvel. E Charlie riu, negando. No queria que ela tivesse medo. Havia comprado alguns livros para colorir 
e alguns lpis de cor para ela, e ofereceu-se ligar a TV, caso sua me no se importasse. E Francesca disse que no se importava. Ento, ele e Francesca deram um 
giro pela casa. 
        Charlie mostrou-lhe tudo que havia achado sozinho, exceto os dirios. E, assim que ele acabou, ela parou em frente  janela, lanando o olhar pelo vale. 
E ela parecia uma pintura, ali, de p. 
        -  lindo, no ? - disse ele, feliz porque ela gostava. - D para ver por que voc se apaixonou por isto aqui - comentou ela com admirao e grata pelas 
pequenas coisas que fizera por elas, o livro de colorir para Monique, um bolo que ele havia comprado, o vinho que sabia que ela gostava. 
        E ele estava preparando a massa italiana preferida de Monique. Ela tinha de admitir, contra a prpria vontade, que ele era fantstico. E eles jantaram maravilhosamente 
na sua cozinha naquela noite, enquanto Charlie lhes contou algumas das coisas que sabia sobre Sarah. Porm, aps pouco tempo, Monique perdeu o interesse, mas Francesca, 
no. 
        - Adoraria ver alguns dos livros que voc achou, falando sobre ela - disse ela, muito descontrada. 
        - Na verdade, acho que parte disso se mistura um pouco com parte da minha pesquisa sobre os ndios. Franois de Pellerim foi muito til na negociao de 
alguns tratados concludos por aqui no final do sculo XVIII. Adoraria conhecer suas fontes - disse ela e ele sorriu. Mal podia esperar para contar-lhe. Esperou 
at Monique estar concentrada num programa de televiso e ento subiu at seu estdio, onde guardava os dirios. 
O ba ainda estava l, guardado em segurana, e ele pegou o primeiro volume e o ficou segurando, amorosamente, por um momento. Esses livros haviam se tornado incrivelmente 
preciosos para ele naquelas semanas, desde que chegara quela casa. Eles lhe deram a coragem para seguir em frente e ficar com Francesca e, mesmo enfrentando a perda 
de Carole, sabia que Francesca precisava muito deles, tanto quanto ele; esses livros haviam preenchido seus dias e suas noites, e a sua vida, de sabedoria. Eram 
uma ddiva, vinda no dele, mas de Sarah. Desceu vagarosamente, segurando-o, e ela estava de p no salo formal e vazio, que lembrava tanto uma sala de estar francesa. 
Olhando o soalho de parqu, os tetos graciosos e as janelas compridas, era fcil acreditar que tinha sido condessa. 
        Quando Charlie atravessou o aposento, Francesca sorriu-lhe e ele percebeu que ela tambm sentia a magia da casa cercando-a. Era impossvel no sentir. O 
amor que eles tinham vivido deve ter sido to forte que durou duzentos anos, e ainda estava em toda parte, em torno deles. 
        - Tenho um presente para voc - disse ele, os dois de p ao luar. - Na verdade,  um emprstimo, mas de algo muito especial. Ningum mais est sabendo a 
esse respeito. - Ela parecia intrigada, vendo-o, ali, sorrindo-lhe. 
        E, se ele tivesse a ousadia, t-la-ia tomado nos braos e beijado. Mas ainda era cedo. Primeiro ela teria de ler os dirios. 
        - O que ? - Ela sorriu para ele, com ar de expectativa. 
Sentia-se aquecida e confortvel ali com ele, e tanto que se surpreendeu. No esperava sentir-se assim com relao  casa dele ou a ele, mas era difcil negar a 
atrao. Charlie estendeu a Francesca o livrinho encadernado em couro, que ela pegou e no qual deu uma olhada por fora. No tinha nada escrito na lombada e era, 
obviamente, muito, muito velho. Segurou-o, muito animada, e o seu amor por livros antigos brilhou-lhe nos olhos enquanto o examinava, e logo abriu-o e viu o nome 
de Sarah na folha de guarda. Era o primeiro dirio, o que ela trouxera em mos, da Inglaterra. 
        Charlie j entendera h muito tempo que Sarah deve ter tido outros dirios, que deixou l. Mas este era o que ela havia iniciado, antes da viagem no Concord. 
        - O que  isto, Charlie? - Francesca parecia atnita e ento, ao virar as primeiras pginas, deu-se conta do que tinha em mos. - Meu Deus,  o dirio dela, 
no ? - falou num sussurro. 
        - . - Ele assentiu com a cabea, solenemente. 
        E, ento, lhe explicou como o havia encontrado. 
        - Que coisa incrvel! - Francesca ficou to empolgada quanto ele havia ficado, e ver isso estava deixando Charlie emocionado. - Voc leu todos eles? 
        - Ainda no - confessou. - Estou me esforando para isso. So muitos, e cobrem toda a vida de Sarah, desde que ela veio para a Amrica, at a sua morte, 
acho. So fascinantes, porm. Por algum tempo, achei que estava me apaixonando por ela - ele abriu um sorriso -, mas ela  meio velha para mim e to completamente 
louca por Franois, que acho que eu no teria a menor chance. - Ele sorria e Francesca ainda parecia um pouco atnita, enquanto caminhavam de volta  cozinha. Monique 
ainda estava feliz com os livros de colorir e o programa de TV a que assistia. Francesca e Charlie sentaram-se para conversar sobre Sarah. - Acho que o que mais 
me impressionou nela foi sua coragem, sua determinao de voltar a tentar. Acho que, em certo ponto, ela se sentiu exatamente como ns dois, que tinha se queimado 
to feio que jamais conseguiria voltar a tentar. E esse cara faz com que at o seu marido parea um doce de coco. Ele batia nela, a violentava, forava-a a ter um 
filho depois do outro, e todos morreram, ou pelo menos seis. Mas, ainda assim, ela comeou vida nova e deu uma oportunidade a Franois. Sei que parece maluquice 
falar assim de uma mulher que eu nunca conheci e que j morreu h quase dois sculos. Mas ela me deu esperanas, deu-me coragem. e isso era o que eu queria dividir 
com voc. 
        Francesca estava to comovida que no sabia o que dizer, segurando o dirio e olhando para ele, e ento no pde deixar de fazer-lhe outra pergunta. 
        Mas, desta vez, ela achava que sabia a resposta. 
        - Voc a viu, no foi? - perguntou ela em voz baixa, para que Monique no a escutasse. 
Mas, enquanto olhava para Charlie, podia pressentir alguma coisa. Ele enfrentou-lhe o olhar por longo tempo e ento, lentamente, assentiu com a cabea e ela quase 
soltou um gritinho de entusiasmo. 
        - Oh, Deus! Eu sabia! Quando? - perguntou, com fascas nos olhos verdes, e estava to bonita que ele mal conseguia agentar. 
        - Logo que me mudei. Na vspera de Natal. Na poca, no sabia quase nada sobre ela. Voltei de um jantar com a Sra. Palmer, e l estava ela, no meu quarto. 
Achei que algum estivesse fazendo uma brincadeira comigo, procurei por ela em toda parte, chateado de verdade. Verifiquei a casa inteira, e at a neve l fora. 
Achei que algum estava me gozando, e desde ento venho tendo a esperana de v-la, mas no vi. Foi incrvel, ela era to bonita e parecia to, to real, to humana. 
- Sentiu-se um pouco biruta ao dizer isso, mas Francesca estava sorvendo cada palavra e mal podia esperar para voltar para casa e ler o dirio. 
        Charlie tinha a esperana de que o pequeno livro fizesse por Francesca o mesmo que fizera por ele. Sarah tinha feito tanto por ele. Continuaram por algum 
tempo a falar sobre ela e, s dez horas, levou-as de carro de volta para casa. 
        Tinha sido uma noite excelente. Monique disse haver se divertido muito e os olhos de Francesca rebrilhavam pelo que Charlie lhe contara e pelo que lhe dera. 
Ele esperava que ela sentisse pelo dirio o mesmo que ele sentira. 
        - Quando houver terminado, me telefone - pediu ele e ento provocou-a um pouco. - No lugar de onde esse a veio, tem muito mais. Seria melhor voc agora 
ser legal comigo - preveniu, e ela deu uma risada. 
        - Suspeito que esse negcio vicia - disse ela, seus olhos acesos de empolgao. 
        Estava louca para comear a ler. 
        - L-los  praticamente a nica coisa que fiz desde que vim para c. Eu devia comear a preparar uma tese - disse, s para provoc-la. 
        - Talvez voc devesse escrever um livro sobre ela - disse Francesca, sria. 
        Mas ele sacudiu a cabea em negativa. 
        - Esse  o seu campo. O meu so as casas. - Franois j havia erguido um monumento a ela, e Charlie estava morando nele. 
        - Algum devia escrever algo sobre ela, ou talvez apenas publicar os seus dirios - disse Francesca, sempre sria. 
        - Veremos. Leia-os, primeiro. E, quando houver acabado, preciso d-los  Sra. Palmer. Afinal de contas, tecnicamente, pertencem a ela. - Embora adorasse 
a idia de ficar com eles, mas no ficaria. Bastava apenas t-los lido. Tinham lhe dado mais alegria do que mil livros que ele lera durante toda a vida. E agora 
os estava dividindo com Francesca. 
        - Eu lhe telefono - prometeu ela e ele sabia que era verdade. 
        E, ao sair, ela voltou a agradecer-lhe por uma noite linda, mas, por enquanto, no estava mais perto de deix-lo entrar na fortaleza em que havia se escondido. 
E, enquanto voltava de carro para casa, s conseguia pensar no quanto lhe teria agradado estender os braos para ela, ou ter tido com algum o que Franois tivera 
com Sarah.

CAPTULO 19

        ANTES DE DEIXAREM A aldeia iroquesa, Franois conversou baixinho com algumas das profetisas da tribo para perguntar-lhes o que elas sugeriam que ele fizesse 
por Sarah. Elas lhes deram diversas ervas, em particular uma muito potente, alm de alguns chs doces. E se ofereceram para dar assistncia a ela na hora do parto. 
Sarah ficou muito comovida com a gentileza delas e prometeu levar as ervas quando voltassem para Shelburne. E ento ela e Franois comearam a longa viagem de volta 
para casa. Foram mais devagar do que tinham vindo e,  noite, dormiram sob as estrelas usando como abrigo as peles que ele levava. Ele queria tomar muito cuidado 
com ela, para garantir que no ocorresse nenhum infortnio. Maro j ia adiantado quando chegaram em casa e, ao final de abril, ela j conseguia sentir o beb se 
mexendo. Era uma sensao doce, familiar, mas, apesar das ervas, que tomava religiosamente, e do constante reconforto oferecido por Franois, ainda estava aterrorizada 
quanto ao resultado. A essa altura, as pessoas j haviam comeado a suspeitar de que eles estivessem vivendo juntos. 
        Vrias das mulheres de Shelburne passavam por l de vez em quando, e o mais comum era darem de cara com Franois. Falava-se na guarnio de Deerfield nessa 
ocasio, e ela at recebeu uma carta da Sra. Stockbridge, suplicando-lhe que negasse o boato assustador de que estaria vivendo com um selvagem. E, com um ar de divertimento, 
ela escreveu-lhe rapidamente e garantiu que no estava. Mas, a essa altura, at o coronel Stockbridge j sabia da verdade, e embora nem ela nem Franois jamais tivessem 
dito nada a ningum, as pessoas da regio sabiam que estavam juntos. E, em junho, j sabiam que estava esperando um beb. Alguns dos colonizadores foram muito gentis 
quanto a isso, e algumas mulheres se ofereceram para ajud-la quando chegasse a hora, mas muitas estavam escandalizadas e achavam aquilo vergonhoso. Afinal de contas, 
eles no eram casados. Mas nem Sarah nem Franois estavam ligando a mnima para o que elas andavam dizendo. S ligavam um para o outro e para o beb. Nunca tinham 
sido to felizes, e ela sentia-se surpreendentemente bem. Para ela, os problemas, em geral, comeavam mais tarde. 
        Na verdade, desta vez ela estava bem mais saudvel, e ficava imaginando se isso faria diferena. Mesmo no vero, ainda iam a p, todos os dias, at  cachoeira. 
As mulheres iroquesas tinham lhe dito que era importante que ela caminhasse muito. Que isso deixava as pernas do beb mais fortes, e este viria mais depressa. 
Mas em agosto, mal conseguia ainda cobrir a pequena distncia, e tinha de caminhar muito devagar. O corao de Franois se comovia ao v-la praticamente se arrastando, 
e tinham de parar, a intervalos de minutos, para que ela pudesse descansar, mas Sarah parecia animada. E insistia em dizer que queria faz-lo. Ela se segurava em 
seu brao e seguiam caminhando, at chegar l. Ele lhe contava todas as notcias que recebia quando ia  guarnio, e ela se preocupava quando ficava sabendo que 
as coisas ainda no haviam se pacificado no Ohio. 
        - Qualquer dia desses, vo querer que voc v para l - disse ela, infeliz. 
        Agora, queria estar com ele o tempo todo, e se preocupava at quando ia visitar os fortes, ou a guarnio. Sabia que isso se devia a ela estar grvida. Mas 
ele tambm pensou o que aconteceria quando voltasse a se aventurar para longe de casa, porque ambos sabiam que, mais cedo ou mais tarde, isso iria acontecer. E ele 
preferia deix-la numa casa consideravelmente mais slida em uma rea menos isolada que a fazenda. H muito tempo ele vinha acalentando o sonho de construir um pequeno 
chteau, uma pequena jia, e agora falava muito em constru-lo para ela. Mas Sarah insistia em dizer que a casa que tinham era muito boa. E que ela no precisava 
de um "chteau". J tinha tido um. 
        - Bem, vou lhe construir um de qualquer forma - disse ele gentilmente, e desta vez Sarah no discutiu. Estava cansada demais, e a chegada do beb, cada vez 
mais prxima. Ela sentia. 
        J passara por isso muitas vezes para pensar que ele ainda esperaria muito tempo. E agora, todas as noites, ela se deitava, aterrorizada, rezando para que 
ele no a ouvisse chorando de medo e tristeza. s vezes, ela se levantava e ia dar uma volta l fora, s para tomar um pouco de ar, ver as estrelas, e pensar em 
seus bebs. No conseguia imaginar que este no iria juntar-se a eles. Mas ainda conseguia senti-lo com vida. Na verdade, ele se mexia muito mais do que os outros. 
Mas tambm no havia mais Edward espancando-a, e ela era infinitamente feliz com Franois. Ele tomava conta dela to bem, e s vezes conversava com ela e esfregava-lhe 
ungentos do modo como as mulheres iroquesas lhe haviam ensinado. Franois tinha todos os tipos de poes e patus para Sarah, mas ela no tinha certeza de que mesmo 
isso iria salvar este beb. Nada do que fizera pelos outros os havia salvado. Mas ela tentava no pensar nisso, enquanto o tempo, inevitavelmente, se reduzia cada 
vez mais e agosto se diluiu em setembro. 
Fazia exatamente dois anos que zarpara no Concord. Nem mesmo ela conseguia acreditar. E nenhum dos dois conseguia acreditar em sua boa sorte. Mas ela no deixou 
por um momento sequer de se preparar para a tristeza que temia e aguardava, embora no admitisse seu terror para o homem que chamava de seu marido. E, ao final de 
um longo dia colhendo milho para o inverno, pediu-lhe que ele a levasse  cachoeira. Estava cansada, mas gostava de ir at l e queria v-la. 
        - No acha que  demais para voc, agora? - perguntou ele, gentilmente. 
Se os clculos dela estivessem certos, Sarah teria engravidado numa das primeiras vezes em que fizeram amor. E o beb era esperado para qualquer minuto. 
        - Por que no ficamos aqui, ou apenas damos uma volta pela fazenda, esta tarde? - sugeriu sensatamente, mas ela ficou firme. 
        - Eu ia sentir falta da gua caindo. 
        Ele acabou concordando em ir com ela, pois tinha medo que ela fosse mesmo sem ele, e caminhou ao lado dela, bem lentamente, at chegarem l. Ela parecia 
forte e feliz. 
        E ele no pde deixar de abrir um sorriso. A barriga dela estava absolutamente enorme. Ele nunca tinha visto nada igual. No queria lembrar-lhe de seus horrores 
passados, embora ele pudesse sentir como ela estava temerosa pelo beb, ainda que no o dissesse. Ele no queria conversar com ela sobre os tumultos no Oeste, receando 
deix-la preocupada, e mantiveram suas conversas limitadas o mximo possvel a temas suaves e pacficos. 
        E, naquele dia, voltando  cachoeira, Franois colheu para ela um buqu de flores, que ela carregou de volta para a cozinha. Sarah estava preparando um jantar 
para ele, o que ela ainda fazia todas as noites, quando ele ouviu um gemido baixinho e foi correndo para a cozinha. E entendeu imediatamente. Havia comeado. 
        Ficou surpreso ao ver como se tornou to forte to depressa. Mas ela tivera muitos filhos. Este era o stimo, embora nenhum houvesse sobrevivido. Mas, com 
Pardal Choroso, ele ainda lembrava, a coisa fora bem devagar e bem fcil. A me e as irms dela tinham estado juntas, e ela s gritou uma vez, enquanto ele esperava 
do lado de fora, para comemorar com ela. Mas Franois podia ver agora, pela expresso no rosto de Sarah, que havia se recostado numa poltrona, que ela, agora, mal 
conseguia falar. 
        - Est tudo bem, meu amor. Tudo bem. - disse ele, mansamente, para acalm-la, enquanto a erguia nos braos com facilidade e a carregava para o quarto deles. 
Ela j havia retirado o caldeiro do fogo, e logo o jantar estaria esquecido. 
        Os rapazes teriam de comer frutos e legumes da horta, mas no iriam se importar. 
        - Voc quer que eu chame algum? - Vrias das mulheres tinham se oferecido para isso, mas Sarah sempre dissera que s queria ficar com ele. 
        Nenhuma delas jamais tivera um filho, e ela sempre contou com a presena de um mdico. Mas os mdicos nunca conseguiram salvar seus filhos, e ela foi taxativa 
a respeito de ficar sozinha com Franois. Havia tambm um mdico na guarnio, mas que bebia muito, e Franois sabia que Sarah no queria nada com ele. 
        - Eu s quero voc - disse ela, mas tinha o rosto contorcido de dor e agarrava-se a ele em agonia e terror. Ambos sabiam que o beb era muito grande, e era 
fcil suspeitar que aquilo no ia ser fcil. Seus outros bebs tinham sido bem menores. 
        Mas ela falou muito pouco deitada e toda contrada, tentando no fazer um som, enquanto ele lhe segurava as mos e aplicava sobre sua fronte panos embebidos 
em gua fresca. Foi uma longa noite de trabalho de parto para ela, e por volta da meia-noite ela havia comeado a fazer fora, mas no conseguiam ver qualquer progresso. 
E, duas horas depois, Sarah estava exausta, mas no conseguia parar de fazer fora. Cada vez que sentia dor, no conseguia forar-se a parar aquela necessidade urgente 
de botar o beb para fora. Mas ele no vinha, e Franois a observava. Ele parecia quase to cansado quanto ela. E, agora, perguntava-se o que fazer por ela, pois 
Sarah havia comeado a gritar de dor, e ele no a censurava. 
        - Est tudo bem, pequenina, v em frente. - Ele estava quase chorando, e ela agora no conseguia falar com ele. 
        Sarah parecia estar com dificuldades para respirar. Estava resfolegando, as dores comearam e ele s conseguiu segur-la e fechar-lhe os olhos, rezando, 
tentando se lembrar do que os ndios lhe haviam ensinado. Ento, lembrou-se de algo que Pardal Choroso lhe contara e tentou puxar Sarah suavemente para uma posio 
sentada. Mas ela no compreendeu o que o marido queria. 
        - Tente se levantar. - E ela o olhou como se ele estivesse maluco, mas as ndias diziam que um beb vinha mais depressa se voc estivesse de ccoras. E isso 
fazia sentido para ele tambm. 
        A essa altura, Franois tentaria qualquer coisa. E agora ele no estava nem ligando para o beb. S no queria perder Sarah. Ele literalmente segurou-a nos 
braos, ao carreg-la para o cho. Apoiou as pernas dela contra o prprio corpo, e dava para ver que estava mais fcil agora, ela continuando a fazer fora. Com 
seus braos fortes, ele a impedia de cair. E ela gritava cada vez que fazia fora. 
        Mas agora ela estava dizendo algo a ele, a cada empuxo. ele est vindo. ela sentia. ele queria olhar, mas no conseguia. Continuava a segura-la com seus 
braos possantes, e a dizer-lhe que no parasse de fazer fora, e ento houve um grito longo e sofrido, igual ao que Pardal Choroso soltara quando o beb sara de 
dentro dela. E ento, junto com gritos de Sarah, ele ouviu os do beb e enrolou um cobertor ndio para debaixo dela. E, no momento seguinte, eles baixavam os olhos 
para o beb que, do cho, erguia os seus para eles. Eram grandes olhos azuis, como os dela, e seu rosto era muito plido, mas a ambos o beb pareceu imenso e conseguiram 
ver que era um menino, ao que Sarah soltou um grito de triunfo. 
        E ento, bem quando eles estavam olhando, o menino fechou os olhos e parou de respirar. Sarah deu um grito de angstia, estendeu os braos para peg-lo e 
ergueu-o ainda preso a ela pelo cordo, mas Franois viu que ele estava morrendo. E, com suas mos vigorosas, ele a levantou e a pousou sobre a cama, e gentilmente 
levantou o beb de cima dela. Ele no tinha a menor idia do que fazer, mas no ia deixar que isso acontecesse com ela de novo, no agora, no desta vez, depois 
de todo aquele esforo. Segurou o beb gentilmente, de cabea para baixo, e comeou a dar-lhe tapinhas nas costas, tentando insuflar-lhe vida, com Sarah soluando, 
deitada na cama, feito desatinada, observando tudo. 
- Franois. - ela ficou repetindo o nome dele, suplicando-lhe que fizesse algo, mas ele no sabia o qu. 
        Mas via que o beb tinha morrido, tal como os outros. E, quando Franois chorou, deu no beb uma pancada to forte nas costas que ele tossiu e uma placa 
de muco foi expelida, no que o beb engasgou e comeou a respirar. 
        - Oh, meu Deus. - foi s o que ela conseguiu sussurrar e o beb gritou alto, seus pais olhando-o espantados. 
        Ele era bonito, e Franois nunca tinha tido uma viso to bela quanto quando levou a criancinha ao seio da me e esta lhe sorriu, com alvio e gratido. 
Ele era perfeito. E ento ela ergueu para Franois os olhos cheios de amor por ele. 
        -Voc o salvou... trouxe-o de volta.
        -Acho que os espritos fizeram isso - disse ele, ainda
profundamente comovido pela experincia. Estiveram to perto de perd-lo. Mas ele agora parecia timo. Franois nunca sentira tanto medo em toda a sua vida. Preferia 
ter de encarar mil guerreiros do que perder aquele beb. E no conseguia tirar os olhos de Sarah e do filho. Os dois ali, deitados, isso sim, era um verdadeiro milagre. 
        Ele a ajudou na limpeza, depois de ter cortado o cordo com sua faca de caa e ter-lhe dado um n, e saiu para enterrar a placenta. Os ndios diziam que 
ela era sagrada. E, quando o sol se ergueu, ele agradeceu aos deuses por lhes terem dado aquele beb. E, quando ele voltou a entrar, baixou os olhos sobre eles com 
todo o amor e gratido que estava sentindo e Sarah, deitada, ficou sorrindo para ele e estendeu-lhe as mos e, quando ele se inclinou at ela, ela o beijou. 
        - Eu te amo tanto, obrigada. - Ela parecia enormemente feliz e jovem, com o beb nos braos. A vida, finalmente, tinha sido boa com ela, depois de tanto 
sofrimento. 
        - A irm xam lhe disse que, desta vez, voc atravessaria o rio em segurana - lembrou-lhe, mas nenhum dos dois tivera tanta certeza disso, e tinha tudo 
sido por muito pouco para ele achar que qualquer coisa pudesse ser considerada garantida. - Achei que eu ia me afogar nesse rio antes de voc - disse ele, para provoc-la. 
Tinha sido uma noite longa e difcil. No tinha sido fcil para ela, e ele sabia. 
        Mas ela agora no se queixava. Estava feliz demais. Aps algum tempo, ele trouxe algo para comer e, enquanto ela e o beb dormiam, Franois saiu um pouquinho. 
Tinha de pegar uns papis em Deerfield. 
        Quando ela acordou, ele acabava de voltar, e entrou no quarto com um largo sorriso no rosto. 
        - Onde voc esteve? - perguntou ela, parecendo preocupada. 
        - Tinha de pegar uns papis - disse ele, com uma expresso de vitria nos olhos. 
        - Que papis? - perguntou, tentando endireitar o beb enquanto ele mamava. Aquilo tudo era muito novo para ela e Sarah sentiu-se um pouco sem jeito. Franois 
ajudou-a. Ele era melhor nisso do que ela. 
        E colocou-lhe um travesseiro sob o brao, para que ela pudesse segurar o beb com conforto, o que ela agradeceu. Ele estava to feliz quanto ela. 
        - O que voc foi pegar? - perguntou ela de novo. 
        Ele sorriu-lhe e estendeu-lhe um rolo de pergaminho amarrado com uma tirinha de couro. Ela o abriu cuidadosamente e sorriu-lhe quando viu o contedo. Ele 
tinha comprado. 
        - Voc comprou a terra, ento. - Ela o olhou calidamente. 
        -  um presente para voc, Sarah. Vamos construir uma casa l. 
        - Estou feliz aqui - disse ela, com simplicidade, mas a terra que ele comprara ficava numa localizao esplndida. 
        - Voc merece coisa melhor. - Mas ambos sabiam que ela no precisava de nada alm do que j tinha naquele momento. Ela nunca fora to feliz em toda sua vida 
e tinha certeza de que nunca seria. 
        Aquilo era o paraso.

CAPTULO 20

        O BEB CRESCEU visivelmente nas duas primeiras semanas de vida, e Sarah a essa altura j estava novamente de p, cozinhando para Franois e trabalhando na 
horta. Ela ainda no fizera toda a caminhada at a cachoeira, mas estava se exercitando para isso. Porm, a no ser sentir-se um pouco cansada de tanto amamentar, 
ela de resto parecia completamente saudvel. 
        - Esse foi bem fcil. - Ela lhe disse cortesmente, certo dia, e ele estendeu-lhe um punhado de frutinhas vermelhas silvestres, com um olhar de espanto. 
        - Como pode dizer isso? Voc ficou em trabalho de parto cerca de doze horas, e foi a coisa mais difcil que j vi algum fazer. J vi homens empurrando carroas 
montanha acima, e parecia mais fcil que isso! O que quer dizer com fcil? - disse ele, provocando-a, mas a lembrana daquilo por que ela passara j tinha diminudo, 
que era o modo como as mulheres iroquesas diziam como devia ser. Uma mulher no devia ficar se lembrando do parto de seu beb, ou sentiria medo de ter outro. 
        Mas Franois j estava bastante satisfeito de terem este. No se sentia inclinado  ambio, ou a for-la a outro possvel desastre. Agora, no queria fazer 
nada que pudesse prejudic-la. 
Mas, no final de setembro, descobriu que seria obrigado a isso. O coronel Stockbridge veio cavalgando para v-lo pessoalmente, e na semana seguinte havia uma expedio 
saindo para o Ohio, a fim de ver se podiam finalmente dominar as tribos que estavam combatendo o exrcito. Eram sempre as mesmas: os shawnees, os chicksaws e os 
miamis, liderados por Casaco Azul e Pequena Tartaruga. Fazia j dois anos que isso vinha acontecendo. Todo mundo temia uma guerra indgena generalizada, se nada 
fosse feito para control-los. E j estava mais do que na hora de enfrent-los. 
        Franois no tinha como discordar dele, mas sabia como Sarah ia ficar aborrecida quando ele se fosse. O beb tinha s trs semanas de idade, e era exatamente 
isso que ela temia. E o prprio fato de o coronel Stockbridge ter vindo v-lo em pessoa falava por si mesmo. Estavam precisando demais dele no Ohio. Assim que o 
coronel foi embora, Franois foi procur-la. Ela estava l fora, na horta, com o garotinho firmemente preso s costas, dormindo tranqilamente enquanto ela colhia 
vagens. Ele parecia s acordar no momento exato de jantar. 
        - Voc vai, no vai? - disse ela, com um olhar angustiado. 
        Ela entendeu tudo no momento em que viu Stockbridge. Franois nem precisou dizer-lhe nada. Mas j fazia um longo tempo que ele no estava em casa, exatamente 
dez meses. 
        J fazia um ano da ltima tentativa de dominar Casaco Azul, o que havia custado as vidas de homens, o saldo de um fracasso completo. 
        - Odeio Casaco Azul - disse ela a Franois, que nem criana que faz beicinho, e ele no conseguiu deixar de sorrir-lhe. Ela parecia to charmosa, to jovem 
e to feliz, que ele odiava a idia de deix-la. Mas, pelo menos, ela lhe dera o beb. Eles o chamaram de Alexandre Andr de Pellerin, em homenagem ao pai e ao av 
de Franois. E ele seria o dcimo oitavo conde de Pellerin, Franois dissera a ela. Seu nome indgena era Pnei Veloz. 
        - Em quanto tempo voc parte? - perguntou ela, cheia de tristeza. 
        - Em cinco dias. Primeiro preciso de tempo para me preparar. - Ele ia precisar de mosquetes, munio, roupas quentes e suprimentos. Conhecia muitos dos que 
iriam, tanto ndios quanto soldados. Mas, para Sarah, isso tudo soava como uma sentena de morte. 
        S lhe restavam cinco dias com Franois. Ela parecia estar em estado de choque. E ele, quando a deixou, parecia estar sofrendo muito. Tinha passado a noite 
inteira deitado na cama com ela, ambos acordados, e ela parecia como se no quisesse deix-lo partir. 
        Ele fez amor com ela, embora conhecesse aquela lenda indgena que dizia ser necessrio esperar quarenta dias aps o parto anterior, e agora fazia menos de 
trinta, mas ele detestava tanto deix-la que no conseguiu se segurar. Mas ela pareceu no ligar. Ao contrrio, estava to vida dele quanto ele estava triste por 
deix-la. 
        Quando ele partiu, ela ficou de p do lado de fora da casa, chorando, e ela teve uma sensao horrvel quanto ao que iria acontecer. Era como uma terrvel 
premonio pairando sobre ela. Tinha a ver com Casaco Azul e Pequena Tartaruga, e ela estava completamente convencida de que algo tremendo ia acontecer. E assim 
foi. Mas no com ele. 
        Os shawnees e os miamis invadiram o acampamento do general St. Clair trs semanas depois, deixando 630 mortos e quase trezentos feridos. Foi o pior desastre 
que o exrcito americano havia sofrido. E St. Clair ficou morto de vergonha quando todos o culparam. Tinha sido uma pssima estratgia e pessimamente executada. 
E durante mais de um ms Sarah ficou sem a menor noo de se Franois tinha sobrevivido. Ela estava num estado frentico. 
        E foi depois da Ao de Graas que ela soube que ele estava vivo, voltando do Ohio para casa. Um grupo de homens chegou antes dele  guarnio em Deerfield, 
mas garantiram a ela que ele no estava ferido e que estaria de volta antes do Natal. 
        Ela estava carregando o filhinho nas costas no dia em que ele chegou e parecia uma ndia, saindo do quarto do fumeiro. Ouviu o rudo de cascos de cavalo 
e, antes mesmo de conseguir se virar, ele j havia desmontado e a levantado nos braos. Parecia cansado e mais magro. Mas estava so e salvo e tinha histrias terrveis 
para contar. No sabia o que se poderia fazer para controlar a agitao. E, para complicar as coisas, os ingleses haviam construdo um novo posto, abaixo de Detroit, 
no rio Maumee, numa violao do Tratado de Paris. 
        Mas ele estava to feliz de ver a esposa que j no ligava mais para o que Casaco Azul fez em retaliao. Agora estava de volta ao lar, e ela, empolgada 
de t-lo de volta. E, no Natal, ela lhe contou as novidades, embora ele j suspeitasse. Eles iam ter outro beb. Esperava-se que fosse nascer em julho, mas ele queria 
que sua nova casa j tivesse comeado a ser construda bem antes disso. Ele havia passado horas diante das fogueiras dos acampamentos traando plantas e fazendo 
pequenos desenhos, e comeou a contratar homens em Shelburne, assim que chegou de volta do Ohio. Eles iam comear no momento em que a neve derretesse e esperavam 
poder pr mos  obra antes de o inverno chegar. 
A essa altura, o pequeno Alexandre estava com quase quatro meses de idade e Sarah nunca parecera to feliz. Franois adorava brincar com ele e usava ele prprio, 
s vezes, o pequeno cesto s costas, particularmente quando o levava para sair a cavalo. Estava passando muito tempo em Shelburne, contratando gente para fazer as 
coisas da obra de sua nova casa e escrevendo a marceneiros para encomendar moblia em Connecticut, Delaware e Boston. 
        Levava o projeto muito a srio e, por volta da primavera, j tinha conseguido que Sarah tambm se entusiasmasse por ele. Mal haviam comeado a trabalhar 
o terreno, quando chegou a Shelburne um homem procurando por ela. Estava esperando do lado da casa e no parecia agradvel, lembrando vagamente a Sarah o advogado 
que viera de Boston para v-la. 
        Que era precisamente o que este homem era. Tratava-se do scio de Walker Johnston. Este ainda falava do ataque que sofrera quando foi v-la. E disse que 
mal havia conseguido escapar com o prprio escalpo. S no explicou por que havia fugido, deixando-a para se defender sozinha, e nem perguntou como ela havia sobrevivido. 
S que este homem era ainda mais desagradvel. 
        Chamava-se Sebastiam Mosley, e ela ficou imaginando se sua vinda no teria algo a ver com a epidemia de sarampo que grassava em Boston. No era um bom lugar 
para se estar agora. Mas sua visita no tinha nada a ver com isso e, desta vez, no havia nada para ela assinar. Ele viera simplesmente comunicar que seu marido 
tinha morrido. E, quando disse isso, ela ergueu os olhos para Franois. No tinha nenhum outro marido. 
        Mas o Sr. Mosley viera dizer-lhe que o conde de Balfour tinha morrido num infeliz acidente de caa e, embora ele pretendesse reconhecer um de seus, havia 
filhos ilegtimos, disse o advogado, constrangido, e os papis tivessem comeado a ser preparados para faz-lo, parece que o conde no chegara a assin-los e sua 
morte tinha sido totalmente inesperada. 
        Ao que tudo indicava, agora existia uma situao jurdica complicada. Ela abrira mo do direito  herana, mas, morrendo intestado, ele colocara esse documento 
em questo e no havia mais ningum a quem deixar suas terras e sua fortuna, uma vez que no tinha filhos legtimos. O advogado no lhe disse que ele deixara catorze 
bastardos. Mas o que ele queria era saber se ela pretendia contestar o documento que assinara um ano e meio antes. 
        Mas, para Sarah, isso era muito simples. Ela no tinha muita coisa, mas tinha tudo que queria. 
        - Sugiro que tudo seja entregue  cunhada dele e suas quatro sobrinhas. So agora seus herdeiros mais diretos. - Mas ela no queria ter nada a ver com isso, 
nem um centavo, nem uma pluma, nem mesmo uma lembrana de Edward. 
        E foi precisamente o que disse ao advogado. 
        - Entendo - disse ele, parecendo consternado. 
        Tinha a esperana de um bom servio se ela resolvesse contestar. De acordo com seus associados na Inglaterra, o conde deixara uma fortuna enorme, mas Sarah 
no a queria. E, assim que ela declarou suas intenes, o advogado de Boston bateu em retirada e ela lhe agradeceu. Ficaram olhando-o ir embora a cavalo e Sarah 
ficou parada, pensando por alguns minutos em Edward, mas no conseguia sentir nada. Tinha sido tudo muito demorado, muito difcil e muito feio. E ela es tava feliz 
demais agora para se lamentar por Edward. Finalmente tinha acabado. 
E, no que dizia respeito a Franois, estava s comeando. Pensou assim no momento em que ouviu o advogado. E, quando voltaram a ficar sozinhos, ele virou-se para 
Sarah e perguntou-lhe.
        - Quer se casar comigo, Sarah Ferguson? - No houve um instante de hesitao, s uma cintilao de riso, enquanto ela assentia com a cabea. 
        Eles se casaram em 10 de abril, na igrejinha de toras de madeira de Shelburne, numa cerimnia simples, sem a presena de ningum, a no ser a dos dois rapazes 
que trabalhavam na fazenda, e a de Alexandre, que estava com sete meses. O beb era esperado para dali a apenas trs meses. E, da prxima vez que foram  guarnio 
de Deerfield, Franois fez uma reverncia formal ao coronel e apresentou-lhe Sarah. 
        Este, por um momento, pareceu surpreso. 
        - Posso lhe apresentar, coronel, a condessa de Pellerin? Acho que ainda no se conhecem - disse ele, abrindo um amplo sorriso. 
        - Isso significa o que estou pensando? - perguntou ele, gentilmente. 
        Sempre gostara de ambos, e sentia-se mal com a situao deles, embora sua mulher achasse tudo absolutamente chocante. 
        Ela parara de escrever a Sarah assim que ficou sabendo do primeiro beb. E outras pessoas tiveram a mesma reao. Mas, agora, de repente, todo mundo queria 
conhec-los e eram convidados por algumas das pessoas mais ilustres de Deerfield. Ficaram um pouquinho na guarnio. E Sarah foi visitar Rebecca. 
        Esta j estava com quatro filhos, e esperando o quinto, que tambm deveria chegar naquele vero. Mas Franois, desta vez, estava ansioso por voltar para 
casa, queria ver como a casa nova estava ficando. E, assim que chegaram de volta a Shelburne, ele trabalhou febrilmente na obra da casa, junto aos homens que havia 
contratado e aos ndios que ensinara a fazer o tipo de trabalho que vira, certa vez, em Paris. Todo mundo dizia que ia ficar lindo, e Sarah sorria feliz sempre que 
ia at l. 
        Adorava ficar observando a construo e agora era, para ela, uma paixo, tambm. Sarah j estava planejando seu jardim. Eles esperavam estar com o exterior 
da casa pronto em agosto e poderem se mudar em outubro, antes das primeiras neves. E poderiam trabalhar durante o inverno inteiro em todos os detalhes interiores. 
Sarah estava to empolgada que mal conseguia esperar, e ela trabalhou l todos os dias, at junho, apesar do peso do beb. Mas, desta vez, at ela estava menos preocupada. 
Vinha tomando todas as ervas que sabia que deveria, descansando muito e caminhando como as ndias mandaram fazer. Sabia que tudo estava indo bem, e tinha o pequeno 
Alexandre para provar que milagres aconteciam. 
        Mas, em 10 de julho, nenhum sinal de o novo beb chegara e Sarah estava inquieta. Mal podia esperar pelo nascimento do beb, para poder v-lo e circular 
mais livremente. Sentia-se como se estivesse grvida a vida inteira, e disse isso a Franois. 
        - No seja to impaciente - brincou com ela. - Grandes obras demandam um grande tempo. - E, desta vez, ele estava mais nervoso do que ela. 
        Tinha sido difcil da vez anterior, no que respeitava a ele, e Franois tivera a sorte de salvar o beb. Ele temia outra experincia aterrorizante como aquela, 
embora estivesse to empolgado quanto ela. Mas tinha a esperana de que tudo ia correr tranqilo. 
        Tinha considerado at a possibilidade de chamar o mdico em Shelburne, mas Sarah insistiu em afirmar que no ia precisar dele. E, na primeira semana de julho, 
ela parecia muito vivaz, o que convenceu a ambos de que o beb no estava pronto. Da ltima vez ela se abatera visivelmente  medida que sua hora foi se aproximando, 
e ela prpria conseguia sentir que o beb estava a caminho. 
        Mas, desta vez, por mais cansada que estivesse de viver carregando aquele barrigo, sentia-se capaz de prosseguir para sempre. No estava sequer cansada. 
E ele viu-se obrigado a desestimul-la de ir cavalgando at a casa nova, constantemente, para atender a algum detalhe. 
        - No a quero mais cavalgando por l - censurou-a certa tarde, quando a viu voltando. - Isso  perigoso, voc pode vir a ter o beb na beira da estrada. 
        Mas ela deu uma risada. Da ltima vez que a preveniram muito, ela levara doze horas e, das outras, bem mais tempo. 
        - Eu no faria isso - disse ela, muito cheia de dignidade, uma condessa em cada centmetro. 
        - Cuide para que no! - Ele sacudiu o dedo para ela e Sarah foi fazer o jantar. 
        Mas estavam ambos emocionados com aquela pequena jia que era a casa que construam. E todos na vizinhana falavam a esse respeito. Achavam que era muito 
luxo para Shelburne, para dizer o mnimo, mas ningum parecia se importar. No mnimo, gostavam. Achavam que acrescentava importncia  rea, e era um verdadeiro 
adorno para Shelburne. Sarah fez o jantar para ele nessa noite e Franois foi examinar mais algumas plantas, na sala, enquanto ela arrumava a cozinha. E, depois 
que ela lavou os pratos, como ainda havia luz do dia, tentou convenc-lo a acompanh-la num passeio. 
        - No estivemos na cachoeira toda a semana - disse ela, obviamente de bom humor, enquanto ele a beijava. 
        - Estou cansado - respondeu ele honestamente, e ento sorriu para ela. 
        - Vou ter um beb. 
        - No, no vai - teimou com ele. - Eu  que vou. E quero ir caminhar. Voc ouviu o que as iroquesas disseram. Dar ao beb pernas fortes. - Sarah estava 
rindo para ele e ele grunhiu. 
        - E eu, pernas fracas. Sou um velho. - Ele tinha acabado de fazer 41 anos, mas no parecia. E ela estava com 27. 
        Mas ele saiu atrs dela, para distra-la, e tinham caminhado s cinco minutos, quando ela reduziu o passo sensivelmente e parou de andar. Ele achou que talvez 
ela estivesse com uma pedra no sapato. Ps-se bem ao lado dela e agarrou seu brao, e ento entendeu o que estava acontecendo. Ela estava tendo o beb. Mas ele deu 
graas por no terem se afastado muito de casa e poderem voltar facilmente, mas quando ia sugerir a Sarah que voltassem, ela caiu no cho a seu lado. Ela nunca sentira 
tanta dor em toda a sua vida, e mal pde recobrar o flego, quando ele se ajoelhou ao lado dela. 
        - Sarah, o que aconteceu? - Ele se perguntava se aquilo no seria um mau sinal, os dois deitados na relva  beira do caminho. - Tudo bem com voc? - Ele 
estava aterrorizado, e nem estavam perto de casa o suficiente para chamar os rapazes a fim de que buscassem um mdico. Sentiu-se preso ali. 
        - Franois, no consigo me mexer. - disse ela, com um ar de terror, as dores rasgando-lhe o corpo. Mas isso no era o comeo, era o meio e o fim, era a pior 
dor de que ela conseguia se lembrar. 
        Ento, de repente, Sarah teve uma sensao familiar quando ele a segurou. 
        - Franois,  o beb. est chegando. - Ela parecia em pnico, agarrando-se a ele. 
        - No, no , meu amor. - Quem dera que fosse assim to fcil, ele viu-se pensando, mas ela no caa nessa. 
        De repente, resfolegou desesperada, e Franois percebeu que ela estava a ponto de comear a gritar. 
        - Lembre-se da ltima vez. Do tempo que levou - disse ele, tentando convenc-la. 
        Queria peg-la no colo e carreg-la de volta para casa, mas ela no permitia que a movesse do lugar. 
        - No! - gritou ela, cheia de dor. 
        Ento, retraiu-se em desespero ao lado dele, que se ajoelhara, incapaz de fazer qualquer coisa para ajud-la. 
        - Sarah - disse ele, sentindo-se impotente. - Voc no pode s ficar deitada a. 
        No pode ter o beb to depressa. Quando foi que isso comeou? - perguntou, subitamente desconfiado. 
        - No sei. - Ela comeou a chorar. - Hoje tive dor nas costas o dia inteiro e, quando fui para casa e meu estmago doeu por algum tempo, achei que tinha 
sido de carregar Alexandre. - Este, agora, aos dez meses, estava de um tamanho considervel e ainda gostava de ser carregado. 
- Oh, meu Deus - disse Franois, com uma expresso de pnico. Provavelmente foi o dia inteiro. Como  que voc pde no saber disso? - De repente, ela parecia criana. 
        E ele sentiu pena dela, mas agora queria lev-la de volta para casa, por mais que ela dissesse que ia doer se ele a mudasse de lugar. No ia deix-la ali, 
deitada na relva, para ter seu beb. Tentou levant-la mais uma vez, mas ela gritou e lutou com ele, e ento, de repente, o rosto ficou todo contrado e ela fazia 
fora para o beb sair. Ele nunca tinha visto nada igual. Ela estava tendo o beb e no havia nada que ele pudesse fazer para ajuda-la ou faz-la parar. 
        E, ento, de repente, entendeu o quo profundamente Sarah precisava dele. Segurou-a pelos ombros, na tentativa de dar-lhe assistncia. Ela estava totalmente 
concentrada em sua tarefa, e fazendo pequenos sons enquanto combatia a dor, como se uma fora terrvel a estivesse rasgando por dentro, mas ele se lembrava daquele 
som e reclinou-a gentilmente sobre a relva, ergueu-lhe as saias e rasgou-lhe as roupas de baixo, e ela voltou a gritar quando ele fez isso, e ele viu o beb vindo 
para suas mos, com seu rostinho radiante gritando para ele, furioso. E, dali a um instante, ele estava segurando o beb. Era uma menina, perfeita; respirava e estava 
aprontando o maior esbregue com o pai. 
        - Sarah - disse ele, olhando para a esposa sobre a relva,  luz crepuscular, com um sorriso no rosto. - Voc ainda vai me matar. Nunca mais faa isso comigo! 
Estou velho demais para isso! - mas nenhum dos dois estava. 
        Ele inclinou-se sobre ela e beijou-a, e ela disse o quanto o amava. 
        - Foi bem mais fcil que da ltima vez - disse ela, ao que ele sentou-se ao seu lado e riu, pousando-lhe o beb sobre o peito. Ele voltou a usar sua faca 
de caa e amarrou o cordo bem amarrado. 
        - Como foi possvel voc no saber que ela estava chegando? - Ele ainda estava subjugado pela experincia e surpreendeu-se de ver como ela podia estar to 
apaziguada depois de tanta dor. 
        Ela e o beb pareciam perfeitamente contentes, e ele ainda sentia os joelhos trmulos. 
        - Eu estava ocupada, acho. Tinha tanto o que fazer na nova casa - disse ela, sorrindo para ele, abrindo a blusa, ao que o beb achou facilmente o seio e 
comeou a mamar. 
        - Nunca mais vou confiar em voc. Se algum dia voltarmos a ter um beb, vou acorrent-la na cama durante as ltimas semanas, para no acabar partejando um 
beb na beira de alguma estrada. - Mas, ao dizer isso, voltou a beij-la e deixou-a descansar um pouco, deitada sob as estrelas que tinham acabado de aparecer. Mas 
estava ficando frio. - Agora, posso lev-la para casa, Madame l Comtesse? Ou vai querer dormir aqui? - Ele no queria que o beb pegasse um resfriado ali. Nem Sarah, 
tampouco, queria isso. 
        - Pode me levar para casa, Monsieur le Comte - disse ela toda pomposa, ao que ele levantou-a no colo, cuidadosamente, e carregou-a pelos cinco minutos que 
levava para chegar de volta  casa, ela com o beb nos braos. 
        Para Sarah, no foi a situao mais confortvel do mundo, e ela queria tentar caminhar, mas ele no deixou. 
        -  o tipo de coisa de que as ndias falam - disse ele em voz baixa, quando chegaram  casa da fazenda -, mas que nunca acreditei que acontecesse de verdade. 
        Mas, com isso, os dois rapazes os viram e perguntaram o que havia acontecido a Sarah. Pensaram que ela tivesse cado ou torcido o tornozelo, e no perceberam 
que estava carregando o beb, que estava dormindo, exausto por sua chegada apressada. 
        - Achamos o nenm no campo - explicou Franois, divertido. -  espantoso,  a cara da me. - Ele estava rindo e os rapazes pareciam atnitos. 
        - Ela a teve, assim, sem mais, a caminho da cachoeira? - perguntou um deles, meio incrdulo. 
        - Bem no caminho - ele lhes garantiu. - Nem uma vez ela tropeou. Ela  tima nisso - disse ele, piscando para a esposa, enquanto admirava o beb. 
- Espere s at conhecer a mame - disse o mais moo dos dois. - Ela sempre leva uma eternidade e, na hora em que o beb finalmente chega, papai est to bbado 
que cai no sono. 
        Ento ela fica furiosa com ele, porque ele no v o beb. 
        - Diabo de cara sortudo - disse Franois, carregando Sarah e o beb para dentro. 
        Os rapazes tinham ficado de babs de Alexandre, mas ele adormeceu antes de poder ver a irm. 
         cham-la? - perguntou Sarah, quando Franois deitou-se na cama a seu lado. 
        Parecia mais cansada do que estava disposta a admitir. 
        - Sempre quis ter uma filha chamada Eugnie, mas no  to bonito em ingls - confessou ele. 
        - E que tal Franoise? - perguntou Sarah, dando graas por estar de novo em sua cama e sentindo-se um pouco grudenta. 
Com a rapidez do parto, ela vertera um volume razovel de sangue. 
        - No  muito original - disse ele. 
        Mas estava comovido e finalmente concordou. Chamaram-na de Franoise Eugnie Sarah de Pellerin. E ela foi batizada em agosto, junto ao irmo, na igrejinha 
de Shelburne. A essa altura, a casa j estava quase pronta, e Sarah andava ocupadssima com as crianas. Mas ia at l o mximo que conseguia, para observar o progresso 
da obra. E, em outubro, j estavam nela. A anotao de seu dirio, nesse dia,  jubilosa. Ela descrevendo praticamente cada detalhe da casa. 

        Charlie sorriu, lendo isso. A casa mal tinha mudado, desde que ela e Franois a haviam construdo, pelo que dizia o dirio, e quando o ps de lado, sentiu-se 
melanclico, pensando nos filhos dela. Como Sarah e Franois tiveram sorte. Que vida plena tinham vivido. Gostaria de ter sido to sbio e sortudo quanto eles foram. 
Estava com uma ligeira pena de si mesmo quando o telefone tocou, e quase no atendeu. 
Mas ficou imaginando se no teria sido Francesca, para contar sobre sua primeira leitura do dirio. E, com um sorrisinho, ele pegou o fone e falou:. 
        - Tudo bem, Francesca, que tal? - Mas era Carole, e Charlie ficou chocado quando ouviu sua voz. 
        - Quem  Francesca? - Ela quis saber. 
        - Uma amiga. Por qu? O que h? - Estava completamente confuso por t-la ouvido. O que ela poderia querer dele, agora? J tinha telefonado para contar que 
ela e Simon iam se casar. O divrcio s sairia no final de maio. Portanto, ela no estava tendo de esperar mais do que o necessrio. - Por que est ligando? - perguntou 
ele, ainda sem graa por t-la chamado de Francesca. 
        Isso o fez sentir-se muito tolo, e mais ainda quando se pegou imaginando se isso no faria Carole sentir cimes. Mas essa era uma idia simplesmente idiota. 
        - H algo que quero lhe dizer - declarou ela, pouco  vontade, e ele teve uma forte sensao de idia. 
        - J no tivemos esta conversa? J passamos por isso. - Ele no parecia exultante por escut-la, e Carole percebeu. Mas ela ainda tinha a obsesso de ser 
decente com ele, o que Simon lhe disse ser maluquice. Ele lhe disse que ela no devia mais nada a Charlie, mas Carole no era burra. - Voc j me contou que vai 
se casar - ele lembrou-lhe. - Recorda-se? 
        - Eu sei. Mas agora h uma outra coisa que acho que devia contar-lhe. Ele no conseguia imaginar o que fosse, e no sabia ao menos se estava interessado, 
no queria saber dos detalhes ntimos da vida dela com Simon. 
        - Voc est passando mal? 
- No exatamente - respondeu ela, e de repente ele ficou preocupado. E se algo terrvel estivesse acontecendo com ela? Tinha certeza de que Simon no cuidaria dela 
como ele prprio, Charlie, faria.- Estou grvida - ela continuou, e foi como se lhe tivessem dado um soco no estmago, sem um pingo de ar no corpo. Ele ficou em 
silncio, atnito. - Estou passando mal, enjoada como o diabo. Mas a questo no  essa. Achei que voc devia saber, Charlie. No sabia como ia se sentir a esse 
respeito. E vai dar para se ver, antes do casamento. - Ele no sabia se a amava ou odiava, por ter-lhe contado. Um pouco das duas coisas. 
Mas ele ficara realmente chocado e magoado de verdade. 
        -Porqu Simon? - disse ele, num tom de infelicidade. - Por que no eu? Durante todos aqueles anos? Voc nunca quis filhos, e de repente, pimba, arranja um 
namorado sexagenrio e fica grvida. Talvez eu seja estril - concluiu e ela riu baixinho.
        - Difcil - disse ela. 
        Ela fizera um aborto antes de se casarem. 
        - No sei, Charlie. Acabei de fazer quarenta anos, e tenho medo de nunca mais voltar a ter a oportunidade. No sei o que lhe dizer a no ser que desta vez 
eu quero. Talvez se tivesse acontecido conosco, ia me sentir assim, tambm. Mas nunca aconteceu. S isso. - Mas era mais do que isso, e ela sabia. 
        Nos ltimos poucos anos, Charlie no tinha sido a pessoa certa para ela. No era feliz com ele. Ele era uma recordao de sua juventude, e Simon, no. Este 
era o homem com quem queria se casar e ter filhos. Era tudo o que Charlie no era. 
        - No telefonei para mago-lo, Charlie. S achei que voc devia saber. - Ainda que fosse muito esquisito contar a ele. 
        - Obrigado - disse ele, tentando absorver o que ela lhe dissera, e pensando no futuro. - Talvez, se tivesse acontecido conosco, ainda estivssemos casados. 
- Era impossvel no pensar nisso. 
        - Talvez - replicou ela, honestamente. - Ou talvez, no. Talvez tudo isso tenha acontecido por um motivo. No sei. 
        - Est feliz com isso? - perguntou ele, pensando de repente em Sarah e seus bebs com Franois. 
        Talvez houvesse uma Sarah por a, esperando por ele. Era um belo conto de fadas, mas no qual Charlie no acreditava de verdade. 
        - Sim, acho que estou feliz - disse Carole novamente, sendo honesta com ele. - Gostaria de no me sentir to enjoada. Estou mesmo pssima, mas a idia de 
um beb  meio empolgante. - Algo no modo como ela disse isso o comoveu profundamente. 
        Ele percebera que era importante para ela e, por um momento, sua voz soou como a de uma pessoa diferente. 
        - Cuide-se - disse ele, preocupado com ela. - O que Simon acha disso tudo? Ele deve sentir-se meio idoso para voltar a dobrar fraldas, ou isso o faz sentir-se 
jovial? - Era uma coisa m de se dizer, mas Charlie no conseguiu resistir. Estava com cimes do cara. Ele tinha lhe roubado a mulher e agora iam ter um beb. Era 
difcil de engolir. 
        - Est nas nuvens, como ele mesmo diz - respondeu Carole com um sorriso e se interrompeu, com uma onda de nusea. -  melhor eu desligar agora, mas s queria 
que voc soubesse, caso ficasse sabendo por fofocas. - Em alguns sentidos, Londres era uma cidade pequena e Nova York tambm, mas ele no estava mais em nenhum dos 
dois lugares. 'Tinha sido degredado. 
        - A rede de fofocas no chega a Shelburne Falls. - Ele a informou. - Eu provavelmente s ficaria sabendo quando voltasse a Londres. 
        - E isso, quando ser? 
        - Ainda no sei. - Ele soou vago, mas no tinha nada mais para dizer a ela. - Carole havia atirado suas notcias em cima dele, e ele agora precisava digeri-las. 
- Cuide-se, Carole. Um dia desses eu lhe telefono. - Mas ele no sabia, agora, se iria faz-lo de verdade. No restara nada a ser discutido, ou a dizer. Ela ia se 
casar, ia ter um filho. E ele tinha sua prpria vida para levar em frente. Era a primeira vez que ele sentia isso para valer e, quando desligou, entendeu que isso 
tinha muito a ver com Sarah. De uma forma estranha, e subtil, a leitura dos dirios realmente o havia modificado. E ele ainda estava pensando nisso quando o telefone 
voltou a tocar, e ele calculou que fosse Carole. 
        - Oi, Carole - disse ele. - E agora, o qu? So gmeos? - Ele no atendeu com voz superemocionada, mas a voz no era a que ele esperava. 
        - Sou eu, Francesca. Estou interrompendo alguma coisa? - Ela soou intrigada e ele soltou um grunhido. 
        - Estou errando todas. Minha ex-mulher acaba de me telefonar e, quando atendi, eu disse: Oi, Francesca. Agora, voc ligou e achei que fosse Carole, voltando 
a telefonar. De qualquer modo, ela acaba de me telefonar com mais um flagrante noticioso - ele soou estranhamente no emocional a esse respeito, o que surpreendeu. 
        Era muito diferente de sua reao quando ela lhe ligou para comunicar que ia se casar, e ele havia se sentado e conversado com Francesca. 
        - Ela est largando o namorado? - perguntou-lhe Francesca com interesse. 
        - No, pelo contrrio, eles vo ter um beb. Tudo indica que ela estar com seis meses quando se casarem. Muito moderno. 
        - Como est se sentindo quanto a isso? - perguntou ela, gentilmente, e ele ps-se a pensar a esse respeito. 
        - Acho que deve ser um inferno achar um vestido de noiva num caso assim, e  melhor faz-lo um pouco mais cedo. Talvez antes mesmo de ser derrubada na cama, 
s para ser antiquado. - Ele a estava provocando um pouquinho, e ela no seria capaz de dizer se ele estava histrico ou indiferente ao que Carole lhe contara. E 
ele tampouco sabia. 
        - Estou falando srio, Charlie. Como voc est? 
        - Como estou? - Ele pensou a esse respeito por um longo tempo e ento suspirou. - Meio pau da vida, meio decepcionado, gostaria que tivssemos tido um filho, 
mas no tivemos. Mas, se fssemos ser honestos a respeito, eu teria de dizer que ns no o quisemos. Eu realmente no quis ter filhos com ela, e ela realmente no 
quis t-los comigo. Talvez tenha sido o nosso modo de reconhecer que havia algo errado, antes mesmo de ela conhecer Simon. De um jeito engraado, acho que agora 
me sinto livre. Est definitivamente acabado, sei disso. Ela no vai voltar. Agora, ela  dele. Estou meio magoado, e meio no escuro. E, depois de ler o dirio de 
Sarah, eu agora quero um filho meu prprio. Ou talvez Monique tenha provocado isso. Mas assim  que me sinto. E sabe do que mais? - Ele soava razoavelmente alegrinho, 
e ela gostava do que estava dizendo. 
        - Que mais? - perguntou ela, baixinho. Era tarde e Monique j estava dormindo. 
        - Estou com saudades de voc. Tive esperanas de que fosse voc, quando Carole ligou. Estava morrendo de vontade de saber o que voc achou do dirio de Sarah. 
        - Foi por isso que lhe telefonei. Estive sentada aqui a noite inteira, chorando sem parar, lendo o que Edward fez com ela, e sobre todos aqueles bebs que 
morreram. Como  que a pobrezinha agentou? 
        - Eu lhe disse - falou ele, orgulhoso. - Ela era valentona. E voc tambm. Ns todos passamos por um monte de coisas, mas isso  s o comeo. Senti isso 
prontamente, assim que li os dirios de Sarah. Onde voc est, agora? - quis saber ele, lembrando-se de cada passo do caminho que trilhara. Invejava nela o fato 
de estar apenas comeando a leitura. Mas ele imaginava um dia l-los todos de novo. Um longo tempo depois de ter acabado, e de t-los entregado a Gladys Palmer. 
        - Ela est no navio. 
        - Vai melhorar muito. - Era como se partilhassem de um clube secreto. 
        E ela estava to grata a ele, por permitir que os lesse. Mas ele tinha uma outra idia. Vinha pensando nisso desde que a vira. Mas no sabia se ela estava 
pronta. 
        - Que tal, um dia destes, um encontro de verdade? Um jantar verdadeiro, s ns dois? Eu pago pela bab. 
        - Voc no tem de fazer isso. - Ela sorriu e ele sentira que ela lhe devia algo por ele deix-la ler os dirios de Sarah. - Eu adoraria. 
        -Sbado? - Ele falava, surpreso, como que em xtase. No achara que ela fosse aceitar. 
        - Sbado - disse ela. 
        - Pego voc s oito horas. Boa leitura. - E ento eles desligaram. 
Tinha sido um longo dia, uma longa noite. Sarah tivera dois bebs. Ele tinha vontade de sair saltitando e rindo, quando pensou nisso.

CAPTULO 21

        CHARLIE FOI DE CARRO PEGAR FRANCESCA s oito horas da noite de sbado, e ela estava linda. Usava um vestido preto simples, com um fio de prolas e os cabelos 
caindo soltos sobre os ombros. Caa-lhe muito bem esse estilo, e o corao de Charlie teve um pequeno sobressalto quando Monique lanou-lhe um olhar grave, sentada 
em seu quarto com a bab. No estava nada feliz por no ter sido includa. Mas a me precisou explicar-lhe, com muito jeito, que s vezes os adultos precisavam ficar 
juntos. Monique disse achar essa regra bem idiota e esperava que nunca mais fizessem isso. E, alm do mais, a bab era muito feia. Mas ela parecia dar conta do recado, 
jogando Banco Imobilirio e vendo TV, quando Francesca e Charlie saram para jantar. 
        Ele a levou ao Andiamo, em Bernardstom e, depois do jantar, foram danar. Era um encontro de verdade, decididamente e, pela primeira vez desde que ele conhecera 
Francesca, ela no agiu como se es tivesse pronta para sair correndo porta afora a cada cinco minutos quando estavam sozinhos. E ele no conseguiu deixar de se sentir 
curioso quanto ao que teria acontecido para isso. 
        - No sei, estou crescendo, acho - disse ela, quando ele fez um comentrio a esse respeito. - s vezes eu prpria me canso um pouco de minhas cicatrizes 
de guerra. Us-las, por a, feito jias, fica meio chato e tedioso - disse ela e ele ficou impressionado. 
        Imaginou se no teriam sido os dirios que fizeram isso, ou simplesmente o tempo. Talvez ela estivesse sarando. E ento, ela o surpreendeu dizendo que ia 
a Paris naquela semana. Seu advogado havia telefonado, e ela e Pierre iriam vender a ltima propriedade que lhes restara. E ela tinha de assinar toda a papelada. 
        - No podem mandar a papelada para voc? - disse Charlie, parecendo surpreso. - Parece-me uma distncia muito grande a percorrer s para assinar uns papis. 
        - Eles querem que eu faa isso pessoalmente. Pierre no quer que eu possa alegar que ele me obrigou, ou que houve alguma fraude envolvida na questo, nem 
que eu no entendi o que estava fazendo. No que eu fosse fazer isso. Acho que ele pensa que, se fizer isso frente a frente, no haver mal-entendidos. 
        - Espero que ele esteja pagando a viagem - disse Charlie, muito francamente, mas ela sorriu. 
        - Vou tirar da minha parte nos lucros. No estou muito preocupada com isso. Estou mais preocupada em v-lo e  mamezinha feliz. Antigamente, eu tinha nuseas 
s de v-los; agora, no sei dizer como ser. Talvez seja um bom teste. Talvez eu no ligue tanto quanto costumava achar que ligava. s vezes, fico me perguntando. 
- Ela parecia pensativa, olhando-o. S no pouco tempo que se conheciam, dava para ver que ela estava mudando. 
        - Est com medo de ir a Paris, desta vez? - perguntou ele, honestamente, enquanto estendia a mo para pegar a dela. 
        s vezes, era difcil voltar. De certa forma, por mais que ele quisesse voltar, temia muito a perspectiva de estar de novo em Londres. 
        - Estou um pouco assustada - confessou ela, mansamente. - Mas no vou ficar muito tempo. Parto na segunda-feira e volto na sexta. J que vou, quero rever 
alguns amigos e fazer umas comprinhas. 
        - Vai levar Monique com voc? - perguntou ele, preocupado com as duas. 
        Dava para ver que aquela viagem ia ser um desafio. 
        - Ela tem escola, e  melhor que no esteja presente a isto. No quero que ela se sinta dividida entre ns. Ela vai ficar na casa de uma amiga da escola. 
        Ele assentiu com a cabea. 
        - Telefonarei para ela. 
        - Ela vai gostar disso - disse Francesca, e ento eles danaram um pouquinho, e nenhum dos dois disse nada. Ele gostava de t-la nos braos, mas no ousava 
ir alm disso, embora lhe tivesse agradado. Mas conseguia sentir que ela ainda no estava pronta. Nem sabia dizer se ele prprio estava. 
        Nos ltimos dias, um monte de coisas lhe passara pela cabea. Um monte de idias novas, como querer ter filhos e como no estar assim to zangado com Carole. 
No sabia dizer com certeza se ainda estava zangado com alguma coisa. Queria bem a ela. Gostaria que ela pudesse ter tanto na vida quanto ele. Como Sarah e Franois. 
        Conversaram sobre os dirios a caminho de casa, e ele gostaria de conseguir encontrar as plantas com que Franois havia trabalhado. Para ele, isso sim, teria 
sido empolgante. Mas os dirios eram ainda melhores. Quando chegaram  porta de Francesca, ele a acompanhou at dentro de casa e pagou  bab. Monique, a esta altura, 
dormia um sono profundo, e era agradvel estar a ss com Francesca, no silncio. 
        - Vou sentir muito a sua falta, quando voc viajar - disse ele e falava a srio. - Gosto de conversar com voc. H muito tempo eu no tinha uma pessoa amiga 
- e isso  o que ela vinha sendo, ultimamente. 
        Ele ainda no sabia o que ela viria a ser, mas mesmo ter algum com quem conversar era coisa rara e preciosa. 
        - Vou sentir sua falta, tambm - disse ela, baixinho. - Vou lhe telefonar de Paris. - Esperava que o fizesse, e Francesca lhe contou onde ia ficar hospedada. 
        Era um hotelzinho na Rive Gauche, o que para ele foi uma evocao de antigos sonhos. Gostaria de poder ir l com ela. Poderia ser muito romntico, e ele 
poderia apoi-la quando ela visse o ex-marido, como Franois protegendo Sarah de Edward. 
        Ele lhe disse isso, e ambos riram da imagem. 
        - Voc daria um timo cavaleiro numa armadura brilhante - concluiu ela gentilmente, colocando-se bem perto dele. 
        - Acho que estou um pouco enferrujado - disse ele, louco de vontade de beij-la. Mas, em vez disso, pegou-lhe a mo e beijou-lhe os dedos, lembrando com 
isso o gesto habitual de Franois. - Cuide se - acrescentou. 
        Sabia que era hora de ir, antes que fizesse alguma besteira. E, ao sair com o carro, ela o ficou observando da janela. Ele leu um pouco dos dirios de novo 
naquela noite, mas a maior parte deles era sobre a casa e tudo que fizeram nela naquele inverno. Adormeceu, sonhando com Francesca. 
        No dia seguinte, pensou em passar para ver Francesca e Monique, mas no final, no foi. Em vez disso, levou a Sra. Palmer para almoar, e teve de se esforar 
para no lhe contar sobre os dirios. Mas queria deixar Francesca termin-los, antes de abrir mo deles. E Gladys Palmer ficou feliz com a ateno, e havia muito 
sobre o que conversar. Ele queria contar-lhe sobre Carole e Francesca. 
        Mas, conforme o dia foi seguindo, Charlie s conseguia pensar em Francesca. Telefonou para saber se ela e Monique queriam jantar com ele, mas elas estiveram 
fora a tarde inteira. Tinham ido patinar no gelo e quando ele finalmente as encontrou, elas j tinham comido. Mas Francesca pareceu comovida por ele ter-lhe telefonado. 
        Atualmente, a voz dela andava soando tristonha, e ele suspeitava de que ela estivesse preocupada com sua viagem a Paris pela manh. Ia partir depois de deixar 
Monique na escola, e ele se ofereceu para lev-la ao aeroporto. Mas ela j tomara outras providncias. 
        - Eu lhe telefono de Paris - prometeu ela de novo, e ele novamente sentiu a esperana de que ela falava srio. 
        Sentia-se como um menino sendo abandonado. 
        - Boa sorte - desejou, antes de desligarem. E ela lhe agradeceu e disse-lhe para dizer oi a Sarah. Ele bem que gostaria de poder e aquela noite, como sempre, 
ficou prestando ateno, mas no viu nada. 
        A semana arrastou-se interminavelmente e Charlie sentiu-se desesperado. Tentou realizar algum trabalho, comeou um quadro e leu um pouco mais do dirio de 
Sarah, e leu todas as revistas de arquitetura em que conseguiu botar as mos. Visitou Monique umas duas vezes, mas s na quinta-feira conseguiu ter notcias de Francesca. 
        Ento, finalmente, ela lhe telefonou. 
        - Como foi? 
        - timo. Ele continua a ser um cretino, mas ganhei um bocado de dinheiro. - Ela riu ao telefone e sua voz soou maravilhosa. - E a pequena campe olmpica 
est engordando a olhos vistos. Pierre detesta mulheres gordas. 
        - Bem feito para ele. Espero que na prxima Olimpada ela esteja pesando uns cento e cinqenta quilos. - Ela voltou a rir e agora havia algo mais em sua 
voz, mas ele no conseguia perceber o que era. 
        Para ele, era de manh, e para ela, de tarde. Ela ia tomar o avio para Boston em poucas horas. No estava exatamente cheia de pressa para telefonar-lhe. 
        - Posso peg-la amanh, no aeroporto? - ofereceu e ela hesitou, mas depois, aceitou. 
        -  uma distncia longa para voc dirigir, no ? 
        - Acho que eu consigo. Vou preparar a carroa e contratar uns dois guias indgenas. Estarei l no domingo. 
- Est bem, est bem - disse ela. E ento pareceu cheia de pressa. - Tenho de fazer a mala. - Ela deveria chegar ao meio-dia, hora local, na sexta-feira. 
        - Estarei l - garantiu a ela. 
        No dia seguinte, dirigindo para Boston, sentiu-se como um garoto. E se ela nunca quisesse ser mais do que amiga dele? E se ficasse amedrontada para sempre? 
E se Sarah jamais tivesse dado a volta por cima de Edward? Ele estava comeando a achar que talvez devesse ir receb-la usando camura e penas de guia, e s ter 
esse pensamento o divertiu. Ela passou pela alfndega antes que ele pudesse alcan-la. E j era uma hora da tarde, quando ela atravessou o porto e o viu. Estava 
mais bonita do que nunca. Usava um casaco de um vermelho luminoso, que comprara na Dior, e tinha cortado o cabelo. Parecia muito francesa e muito atraente. Ela impressionava. 
        -  formidvel v-la - disse ele, caminhando gil ao lado dela e carregando suas malas para a garagem. 
        E assim que acharam seu carro, partiram para Deerfield. Era estranho pensar quanto tempo isso tomara a Sarah, duzentos anos antes, quatro dias contra uma 
hora e dez minutos, e mais dez minutos at Shelburne Falls. 
        Bateram papo com facilidade durante o trajeto e ela disse que havia terminado o primeiro dirio. Falaram um pouco sobre isso e ela perguntou-lhe se ele havia 
lido mais durante aquela semana, mas ele lanou-lhe um olhar acanhado e sacudiu a cabea, em negativa. 
        - Eu estava nervoso demais - confessou. 
        - Por qu? - Ela parecia surpresa, e ele, dirigindo, foi honesto na resposta. 
        - No parava de pensar em voc. No queria que ele a magoasse. 
        - Acho que ele no pode mais me magoar-replicou ela, olhando pela janela. 
        - Isso  que  engraado. Fiquei um tempo sem v-lo. Mas, de certa forma, no parei de atribuir-lhe esse poder mgico de arruinar a minha vida. O que ele 
quase fez. Mas no sei o que aconteceu desde a ltima vez em que o vi. Algo mudou isso. Ele  apenas um francs muito autocentrado e no to bonito assim, a quem 
eu amava. E, sim, ele me magoou muito, mas acho que j superei. E isso me surpreendeu de verdade. 
        - Voc agora est livre - disse ele, gentilmente. - Acho que foi o que aconteceu entre mim e Carole. No a vi, mas que envolvimento voc pode ter com uma 
mulher que est se casando com outro cara e tendo um filho dele? E nunca quis ter um filho meu.  uma espcie de proposta destinada ao fracasso. 
        - Essa era a diferena. Eles eram fracassados. 
        Pierre e Carole haviam estragado as coisas, ou talvez s tivessem conseguido o que queriam e no tinham. Mas Francesca e Charlie queriam ser vencedores. 
Sarah, no final, ganhara o grande prmio. Havia encontrado tudo com Franois, quando teve a coragem de deixar Edward. 
        Francesca concordou, assentindo com a cabea, e ambos ficaram em silncio. Ele continuou dirigindo at a casa dela e ajudou-a com a bagagem.  entrada, ele 
baixou os olhos sobre ela com uma pergunta. 
        - Quando vou ver voc? - perguntou ele, com um tom de grande deliberao, e ela fitou-o direto nos olhos, deu um sorrisinho, mas no disse nada. - E quanto 
a jantar com voc e sua filha, amanh? - sugeriu, no querendo ir depressa demais com ela, embora isso lhe houvesse agradado. 
        - Ela vai a uma festa de aniversrio, e ficar para dormir - disse Francesca, sentindo-se levemente nervosa. 
        - Posso lhe preparar um jantar na minha casa? - perguntou, e ela assentiu com a cabea. 
        Era um pouco assustador, para ambos. Mas Sarah estaria presente, pelo menos em esprito. E Charlie, ento, beijou-a no rosto. Ela era agora uma mulher bem 
diferente da que ele havia conhecido. Era cautelosa, magoada, ainda medrosa, s vezes, mas no era mais amarga, zangada, nem destruda pelo que lhe acontecera. E 
tampouco Charlie. 
        - Pego voc s sete - disse ele e virou-se para sair. Ela agradeceu por t-la trazido de Boston. 
        E ele ento voltou para sua casa e, por puro nervosismo, pegou o ltimo dos dirios. 
        Havia-os deixado muito bem instalados em sua nova casa, e Franois h muito tempo no saa em suas cavalgadas com o exrcito. Mas Sarah continuava a dar 
notcias da situao no Oeste, entre os shawnees e os miamis e os colonizadores brancos espremidos no meio. A situao s tinha piorado. E, no vero de 1793, um 
ano depois do nascimento de Franoise, Franois no estava cavalgando com o exrcito, o que no fazia h um tempo enorme. Continuou a aperfeioar a casa, e ela registrou 
todos os detalhes arquitetnicos em seus dirios. 
Isso deu a Charlie a vontade de procurar de novo pela cascata e achar cada ngulo e cada fresta de que ela falou. Ele suspeitava de que a maioria dos detalhes descritos 
por ela ainda poderiam ser encontrados. 
        Ela tambm escreveu que o coronel Stockbridge morrera nesse mesmo ano, sendo pranteado por todos que o conheciam. E o novo comandante era bem mais ambicioso. 
Era um amigo do general Wayne, que era o novo comandante do exrcito do Oeste e j havia passado um ano treinando soldados para perseguirem Pequena Tartaruga. 
        Mas at agora nada havia acontecido, desde que o general St. Clair se reformara, cado em desgraa aps sua esmagadora derrota da ltima vez. Era um tempo 
para sua famlia, e Sarah transmitia estar em paz e ocupada. E escrevia cada vez menos em seus dirios. Era como se estivesse ocupada acima de suas foras, com trs 
crianas, a fazenda e o marido. 
        Mas, no outono de 1793, Sarah mencionou com preocupao que um dos iroqueses, rvore Grande, um amigo de Franois, havia ensaiado conversaes de paz com 
os shawnees outra vez e fora repelido. O problema era que os shawnees haviam anteriormente se aliado aos ingleses. Por isso, quando os ingleses foram derrotados, 
o exrcito americano achou que os shawnees no territrio do Ohio deveriam desaparecer tal como eles, e entregar suas terras aos colonizadores. Mas os shawnees no 
queriam se deixar abater pelas chamas com os ingleses. E agora se recusavam a desistir de suas terras e exigiam uma indenizao de cinqenta mil dlares por elas, 
bem como uma anuidade de dez mil dlares, o que estava fora de questo. Nunca se ouvira falar de uma coisa dessas. E o general Wayne no queria ouvir. Nem por um 
minuto. 
        Ele continuou a treinar seus soldados no Forte Washingtom e nos fortes Recovery e Greenville, no Ohio, durante aquele inverno. Nada iria abal-lo e, a essa 
altura, todo mundo concordava com ele. Casaco Azul e Tartaruga Pequena, os dois guerreiros mais orgulhosos, tinham de ser derrotados. Mas, at agora, ningum conseguiu 
isso. Falou-se de uma campanha organizada pelo general Wayne em maio de 1794, mas esta nunca deslanchou, e Sarah estava imensamente aliviada por isso. 
        Ela esperava um vero pacfico e comeou a provocar Franois, dizendo ser ele um colonizador, e no mais o guerreiro ou valente indgena. Ele agora era um 
"velho", um "fazendeiro". E ele adorava isso. Aos 43 anos, ela escreveu, ele estava mais bonito do que nunca, e ela, contente por ele no andar mais arriscando constantemente 
a vida para ir cavalgar com o exrcito. 
        Na verdade, estavam pensando em ir visitar os iroqueses, naquele vero, com todos os trs filhos, j que, ao menos uma vez, ela parecia no estar grvida. 
Era o primeiro descanso que tinha desde que se casara com Franois, e at mesmo desde antes disso. E ficava bvio, pelo que escrevera, o quanto amava os filhos. 
        Mas ficava igualmente claro que adorava o marido. Franois era mesmo o amor de sua vida e, mais do que qualquer coisa, ela queria envelhecer ao lado dele, 
para curtirem juntos sua famlia. Ela se preocupava por ele se mostrar s vezes inquieto, mas para um homem como ele, isso parecia normal e, na maior parte do tempo, 
ele estava contente de viver com a famlia. 
        Mas, quando Charlie leu sua anotao do incio de julho daquele ano, deu para ver claramente que ela o fizera com a mo trmula. 
        Houvera um ataque a um comboio de carga e sua escolta de 140 homens, no Ohio, dia 30 de julho, comandado por Casaco Azul e Tecumseh, seguido de um ataque 
ao Forte Recovery pelos ottawas, e numa questo de dias, o novo comandante da guarnio de Deerfield enviou uma mensagem a Franois. Dali a um ms, quase quatro 
mil homens do exrcito e milicianos do Kentucky partiriam para o Forte Recovery, numa tentativa de acertar o problema. Era um nmero enorme de homens, e nem mesmo 
Franois jamais ouvira falar de uma coisa assim. E, previsivelmente, o general Wayne queria que Franois fosse com eles. 
        Seu amplo conhecimento das tribos indgenas, sua habilidade para lidar com todos os guerreiros, salvo os mais hostis, eram-lhes valiosssimos. Mas Sarah 
fez tudo que pde para ir contra isso, incluindo suplicar-lhe que no fosse, em nome de seus filhos, e insult-lo dizendo que ele estava velho demais para sobreviver. 
Mas ele se limitou a tentar tranqiliz-la. 
        - Com tantos homens, como pode me acontecer alguma coisa? Eles no vo conseguir nem me encontrar - replicou com gentileza, profundamente cnscio de seu 
senso de obrigao. 
        - Isso no faz sentido, e voc sabe - contraps ela. - Pode ser que haja milhares de homens mortos, e haver. Ningum pode derrotar Casaco Azul, e agora 
Tecumseh juntou-se a ele. - Graas a tudo que Franois lhe havia explicado, ela ficara entendida nessas coisas, e Tecumseh era famoso como o maior de todos os guerreiros. 
Sarah no queria nem pensar em Franois perto dele. Mas, no final de julho, Sarah estava derrotada. 
        Franois prometera-lhe que nunca mais ele iria de novo, se era isso que ela queria, mas ele no podia decepcionar o general Wayne agora, depois que este 
mandara chamar especificamente por ele, e ela sabia que, na verdade, Franois poderia ser muito til. 
        - Seria errado abandonar meus amigos agora, meu amor. - Ele era, acima de tudo, um homem de honra. 
        E, embora ela discutisse constantemente com ele sobre isso, Sarah sabia que no havia agora o que o parasse. Mas ela chorou dolorosamente durante toda a 
noite anterior  partida dele. S o que ele pde fazer foi segur-la bem junto a si e beij-la, enquanto ela soluava. E, logo antes do dia nascer, ele fez amor 
com ela e Sarah viu-se rezando para ter ficado grvida. esta vez, estava com as mais terrveis premonies sobre a partida dele. 
        Mas Franois beijou-a gentilmente e lembrou-a de que ela tinha as mesmas sensaes sempre que ele ia a Deerfield. 
        - Voc me quer amarrado aos cordes do seu avental, tal como seus filhos - disse ele sorrindo. 
        Era verdade, em parte. Mas ela tambm sabia que no seria capaz de suportar se alguma coisa acontecesse a Franois. E, mesmo quando o viu montado em seu 
cavalo, ao amanhecer, sabia bem quem ele era e a quem ela amava. Ele parecia o mesmo guerreiro que a aterrorizara quatro anos e meio atrs, quando ela o conheceu, 
na floresta. Ele era uma guia orgulhosa que planava bem alto nos cus, e at mesmo ela sabia que no poderia for-lo a descer to depressa para a terra. 
        - Cuide de sua segurana - sussurrou, enquanto ele a beijava pela ltima vez. -Volte para mim depressa, vou sentir saudades suas. 
        - Eu te amo, indiazinha corajosa. - Ele sorriu para ela, no alto de sua gua sarapintada, que fora um presente dos iroqueses, muito tempo atrs, numa outra 
vida. - Vou voltar para casa antes do prximo beb. - Ele riu e ento saiu cavalgando para o vale, a galope, enquanto ela o observava. Sarah ficou parada ali por 
um longo tempo, e ainda conseguia ouvir o barulho dos cascos do cavalo dele em seu corao, enquanto voltava para dentro, para seus filhos. 
        Naquele dia, passou horas deitada, pensando nele e desejando ter conseguido faz-lo parar. Mas, no importava o que ela dissesse, sabia que ele teria ido 
de qualquer jeito. Tinha de ir. E, em agosto, ela soube, na guarnio, que eles haviam chegado em segurana ao Forte Recovery. E construdo mais dois fortes, o Defiance 
e o Adams, e seus espies lhes contaram que Tartaruga Pequena estava pronto para negociar a paz. Mas nem Casaco Azul nem Tecumseh estavam dispostos a sequer ouvir 
falar disso. Estavam determinados a derrotar o exrcito. Mas o fato de que pelo menos um dos grandes guerreiros estava disposto a ceder era um bom sinal. E os homens 
da guarnio estavam seguros de que, com quatro mil homens sob seu comando, Wayne rapidamente derrotaria tanto Casaco Azul quanto Tecumseh. 
Mas, durante o ms inteiro, Sarah no conseguiu se sentir bem. 
Agosto zumbiu em torno dela como um enxame de abelhas, picando-a constantemente com seus prprios terrores. E, no final do ms, ela sentia-se ainda mais preocupada. 
No havia notcias e ento, finalmente, a guarnio inteira fervilhou com o que foi considerado por todos como uma derrota fragorosa. O general Wayne desfechou um 
ataque brilhante contra Casaco Azul, dia 20 de agosto, em Fallem Timbers. Quarenta ndios haviam morrido ou sido gravemente feridos, enquanto o mesmo aconteceu a 
muito poucos do exrcito. Tinham usado uma estratgia tima e derrotado os ndios impiedosamente e, em uma questo de dias, Casaco Azul recuou. E o general Wayne 
estava voltando para casa, vitorioso, atravs do Ohio. 
        Havia motivo para comemorao, e no entanto, Sarah sentiu-se quase enjoada, enquanto ouvia. Sabia que no ia voltar a encontrar a paz enquanto Franois no 
voltasse para ela em segurana. Esperou que ele voltasse, ou saber notcias dos que voltavam  rea. Muitos haviam ficado no Oeste, para continuar a batalha. Casaco 
Azul tinha sido vencido, mas ainda no havia admitido a derrota total, tampouco Tecumseh. Talvez Franois tambm tivesse escolhido continuar no Oeste, para seguir 
com a guerra at  sua concluso definitiva. Mas isso parecia improvvel. Poderia levar meses. Ou todo um ano, e Franois no ia ficar para isso. 
        Mas, em meados de setembro, no tendo recebido nenhuma notcia, ela estava quase frentica, e apelou ao coronel Hinkley, o comandante da guarnio de Deerfield, 
para conseguir as notcias que pudesse dos homens que voltavam de Fallem Timbers. E agora, durante quase dois meses, ficou sem saber nada. E ele prometeu ver o que 
poderia fazer para aliviar sua angstia. 
        Naquela tarde, ela voltou para casa a cavalo acompanhada por apenas um de seus dois empregados e, ao chegar, encontrou as crianas rindo e brincando. Quando 
ela se sentou para olh-las em suas brincadeiras, achou ter visto um homem olhando da orla das rvores. Ele usava roupas indgenas. Mas ela pde ver que no era 
ndio. Era um homem branco, mas antes que ela pudesse question-lo, ou mandar mais algum faz-lo, ele desapareceu. Ela ficou de p um longo tempo, aquela noite, 
olhando o pr-do-sol. Tinha uma sensao desagradvel. E, dois dias depois, voltou a ver o tal homem. Mas, dessa vez, ele parecia estar observando-a, e ento desapareceu 
ainda mais depressa. 
        E, na semana aps sua visita  guarnio, o prprio comandante apareceu para v-la. Ele acabara de receber notcias de um batedor que voltara do Ohio. E 
Sarah soube antes mesmo de ele dizer. Franois havia morrido em Fallem Timbers. 
        Somente 33 homens morreram, e Franois tinha sido um deles. E, no entanto, ela soube. Sempre soube que Casaco Azul o mataria. Ela o sentira. E ento entendeu 
quem tinha sido o homem em frente s rvores. O homem que ela vira observando-a e que parecia ter desaparecido em pleno ar, tinha sido Franois, que viera dizer-lhe 
adeus. Ela o vira. 
        Ficou sentada muito quieta, quando o coronel Hinkley deu-lhe a notcia que estilhaou seu mundo, e deixou-a bem depressa. E ela ficou olhando o vale que 
ele tinha amado, o lugar onde haviam se conhecido, e sentiu em seu corao que ele nunca a deixaria. E, ao alvorecer do dia seguinte, ela foi a cavalo, devagarzinho, 
at  cachoeira que eles haviam amado, onde ele a beijara pela primeira vez. 
        Havia tantas recordaes, tanta coisa ainda por dizer a ele, e ela j sabia que no haveria mais bebs. Marie-Ange tinha sido a ltima. Franois fora um 
grande guerreiro, um grande homem, o nico homem que ela havia amado na vida. Urso Branco. Franois de Pellerin, ela sabia que tinha de ir at os iroqueses e contar-lhes. 
E, parada diante da cachoeira, ela sorriu entre as lgrimas, lembrando tudo que ele tinha sido, tudo que ele tinha amado. e entendeu que ela nunca o perderia. 
        E, enquanto Charlie lia aquela pgina, lgrimas enormes rolaram-lhe pelo rosto. Como aquilo podia ter acontecido? Eles s tiveram quatro anos juntos. Como 
aquilo era possvel? Como poderia uma mulher dar tanto e receber to pouco de volta? S quatro anos com o homem que amava. 
        E, no entanto, Sarah no se sentia assim. Sentia-se grata, por cada dia, por cada momento e por seus trs filhos. As anotaes foram se tornando mais curtas 
e mais espaadas com o correr dos anos e, no entanto, deu para ver que ela teve uma vida boa. Ela parecia em paz. 
        Viveu at aos oitenta anos, na casa que ele construra para ela. Ela nunca amou outro homem, nem esqueceu Franois. Ele continuou a viver em seus filhos, 
tal como ela. Sarah nunca voltou a ver o homem na clareira. Tinha sido Franois, para dizer-lhe adeus, e ela sabia disso. E a ltima anotao do dirio era numa 
caligrafia diferente. Tinha sido escrita por sua filha. 
        Dizia que sua me tivera uma vida boa e que vivera at uma idade avanada e, embora nunca tivesse conhecido o pai, soubera que homem timo ele tinha sido. 
Dizia que o amor e a coragem deles e o lao que os unia tinham sido um exemplo para todos que os haviam conhecido. Ela escreveu isso no dia em que Sarah morreu, 
quando achou os dirios no ba no quarto dela, assinou sua anotao na ltima pgina, Franoise de Pellerim Carver, e escreveu em seguida Deus os Abenoe. A data 
era 1845. E a caligrafia era quase a mesma de sua me. Depois disso, no havia outras anotaes. Nenhum meio de saber o que acontecera a seus filhos. 
        - Adeus - disse Charlie num sussurro, as lgrimas ainda rolando-lhe pelo rosto. 
        Por um momento, no conseguiu imaginar o que ia fazer sem eles, que bno Sarah tinha sido em sua vida, que mulher extraordinria. E Franois, o quanto 
tinha lhe dado em to pouco tempo. Era difcil imaginar. 
        Charlie estava profundamente comovido com tudo que havia lido e sabido sobre eles. E, naquela noite, quando foi para seu quarto, pensando nela, ouviu o som 
de uma saia de seda, arrastando-se rpido pelo cho, e ergueu os olhos, quase sem pensar. Viu uma forma movendo-se depressa sobre o assoalho, com um vestido azul, 
e ento ela sumiu e ele no sabia mais dizer se tinha sido real, ou sua imaginao. Ou teria sido como o homem que ela vira na orla da clareira? Teria ela vindo 
dizer-lhe adeus? Poderia ela ao menos saber que ele havia encontrado seus dirios? Parecia impossvel acreditar nisso, e v-la de novo foi como um presente de despedida 
dela, com ele ali, de p, desolado, no silncio. 
        Charlie queria contar a algum que ela tinha morrido. Telefonar a Francesca e falar com ela sobre Sarah e Franois. Mas isso no seria justo. Estragaria 
para ela a leitura do resto dos dirios. No podia fazer isso e, alm do mais, eram trs horas da manh. 
        Em vez disso, ficou deitado em sua cama, ainda vendo-a, tal como a tinha visto, ainda pensando em tudo que tinha lido e pranteando a morte de Franois em 
Fallem Timbers, e a dela, tantos anos depois. No havia o menor som na casa e, em pouco tempo, ele dormia profundamente.

CAPTULO 22

        CHARLIE ACORDOU NO DIA SEGUINTE com o sol filtrando-se por seu quarto e a sensao de um peso sobre o peito, como se algo terrvel houvesse acontecido. Ele 
havia acordado desse jeito durante meses, depois que Carole o deixou, e ficou se perguntando se seria ela de novo. Mas sabia que no era. Era outra coisa, mas no 
conseguia lembrar... e ento entendeu o que era. Era Sarah. Franois tinha morrido. E ela tambm, quase cinqenta anos depois. Era um tempo longo demais para viver 
sem ele. E o pior para Charlie era que agora no havia nada para ler. Ela o deixara. 
        E ela lhe enviara ainda mais uma lio, a de que a vida era muito curta e os momentos muito preciosos. E se ela nunca tivesse aberto a porta de seu corao 
para Franois? Eles s tiveram quatro breves anos, e, no entanto tinha sido a melhor parte da vida dela, e ela lhe deu trs filhos. Isso fez tudo que lhe acontecera 
antes parecer to sem importncia. 
        E enquanto tomava um banho de chuveiro aquela manh, pensando novamente nela, sua mente vagou de volta para Francesca. Ela havia mudado, desde a viagem a 
Paris. Viu isso em seus olhos quando a pegou no aeroporto, e foi ainda mais significativo ela ter deixado que ele a fosse pegar. E, de repente, enquanto se vestia, 
ele mal podia esperar para v-la. Entendeu que uma vida nova inteirinha podia estar esperando por eles dois. O dia ia parecer infinito at s sete horas, quando 
ele devia ir peg-la. E, enquanto pensava nisso, ouviu a aldrava da porta l embaixo. Imaginou quem seria, provavelmente Gladys Palmer. 
        Ningum mais na cidade o conhecia, alm de Francesca, e ele s a veria naquela noite, para jantar. Agora, no conseguia imaginar por que no pedira para 
passar o dia com ela. Pareceu-lhe tremenda burrice. Mas enquanto descia correndo e olhava pela janela, ele a viu. Ela estava l, de p, esperando por ele, e parecia 
preocupada. Era Francesca. 
        - Desculpe - disse ela, nervosamente, o cenho franzido, mas ela ainda parecia linda, quando a convidou a entrar, e ela ficou parada no saguo. Ele estava 
sorrindo. - Eu achei, apenas. deixei Monique na casa da amiga, no era longe daqui e. imaginei. - Havia lgrimas em seus olhos, ela estava muito nervosa, e achava 
que no devia ter vindo, mas viera. - Terminei o dirio ontem  noite. Ela est em Boston, quase vindo para Deerfield. 
        - Voc est s comeando - disse ele, pensativo, baixando os olhos sobre ela. - Talvez todos ns estejamos. Terminei o ltimo deles na noite passada, estava-me 
sentindo como se algum tivesse morrido. - E algum, de fato, tinha, s que muito, muito tempo atrs. Mas ele ainda a pranteava. - Estou contente que voc tenha 
passado aqui. No pude imaginar quem estaria me batendo  porta, tinha de ser ou a polcia, ou a senhoria, estou extremamente feliz que tenha sido voc. - Baixou 
os olhos gentilmente sobre ela e de repente teve uma idia. Talvez isso viesse a lhes dar sorte, ou a ter um significado especial, mais tarde, para eles. - Quer 
dar uma sada de carro comigo? 
        - Claro - disse ela, parecendo aliviada. Tinha precisado reunir tanta coragem para ir visit-lo, que ela ainda estava um pouquinho trmula. - Aonde vamos? 
- Ela perguntou, nervosamente. 
        - Voc ver - disse ele, misteriosamente. 
        Ele agarrou um casaco e voltou l para fora com ela, e levou-a de carro a uma curta distncia que Sarah havia percorrido tantas vezes a p, mesmo quando 
estava grvida. E ento Francesca reconheceu o caminho. Tinha ido at l com Monique uma vez. Tinham adorado, fizeram um piquenique. Mas somente Charlie sabia que 
era a cachoeira sobre a qual Sarah escrevera tantas vezes em seu dirio. 
        -  linda, no ? - disse ele, parado ao lado dela. 
        As quedas estavam geladas, mas ainda pareciam enormes e majestosas. Era um lugar especial para eles. Ele se lembrou porqu, embora Francesca ainda no soubesse. 
E, sem mais uma palavra, puxou Francesca, leve e lentamente, para mais perto dele e beijou-a. 
        Haviam se falado muito desde que se conheceram, sobre o passado, o presente e o futuro, e, sobre o que no queriam fazer, nem iriam agentar as pessoas que 
os haviam trado, e as cicatrizes que levariam para sempre. Talvez estivesse na hora de parar de falar e seguir o exemplo de Sarah e Franois. 
Francesca ainda sentia o corao dele batendo forte contra o peito e sorriu-lhe quando ele por fim afastou-a delicadamente. Ela ps-lhe um dedo sobre os lbios, 
sempre com muita gentileza. 
        - Fico feliz por voc ter feito isso - falou ela, num sussurro. 
        - Eu tambm - disse ele, meio sem flego. 
        - Achei que no ia conseguir ficar longe de voc por muito mais tempo. - Que bom que tenha sido assim, fui to burra - disse Francesca, quando sentaram-se 
numa pedra que tinha uma curvatura familiar para eles, e Charlie no pde deixar de imaginar se no seria o mesmo lugar onde Franois tinha beijado Sarah. Ele esperava 
que fosse. 
        - Quando leio sobre ela, percebo que tudo o que aconteceu foi bastante sem importncia. - Francesca agora parecia muito mais livre. 
        - No  sem importncia. - Ele a corrigiu, e ento beijou-a outra vez. - S ficou para trs, isso  diferente. Voc resolveu o problema. - E ela sabia que 
Sarah tambm havia ajudado. Ela assentiu com a cabea e eles caminharam um pouquinho, e ele passou o brao em torno dela. - Estou to contente por voc ter vindo 
hoje de manh - disse ele, e falava srio. 
        - Eu tambm. - Ela sorriu-lhe e parecia-lhe anos mais moa do que quando ele a conheceu. 
        Ele tinha 42 anos e ela 31, e tinham uma vida inteira pela frente. Tinham aproximadamente as mesmas idades que Franois e Sarah ao final da vida que levaram 
juntos, e a deles estava s comeando. Era uma sensao notvel, particularmente aps terem estado ambos to convictos de que suas vidas estavam acabadas. Agora 
havia tanto em que pensar, tanto com que sonhar, e por que esperar. Acabaram voltando de carro para a casa dele, e Charlie perguntou a ela se ainda poderia preparar-lhe 
o jantar esta noite e ela riu da seriedade da pergunta. 
        - Temia que a essa altura voc j estivesse cansada de mim - explicou ele -, uma vez que voc chegou to cedo. 
        - Se isso fosse verdade, poderia ser um problema srio... mas na verdade, no creio que seja - disse ela, enquanto ele a beijava no carro, e ento novamente, 
quando ela saltou, e de repente ela no conseguia mais tirar as mos dele, e toda a solido e a dor pareceram escorrer deles, bem como a raiva. E no restou nada 
a no ser calor, alvio e felicidade, e amor um pelo outro. 
        Ficaram um longo tempo do lado de fora, no jardim, conversando e se beijando, e ele lhe disse que ia falar com Gladys Palmer sobre comprar a casa e, durante 
os ltimos dias, ele comeara a pensar em abrir um escritrio em Shelburne, para a restaurao de casas antigas. E Francesca ouviu sorrindo. 
        Estavam to entretidos conversando que no viram em momento algum a mulher que sorria para eles de uma das janelas do andar de cima. Ela os observava com 
um olhar de satisfao e desapareceu lentamente por trs de uma cortina, enquanto Charlie abria a porta da frente e entrava em casa com Francesca. Ele estava dizendo 
a ela algo sobre a casa, e Francesca estava assentindo com a cabea. E ento eles subiram, de mos dadas, cada qual tremendo um pouquinho, e nenhum dos dois fez 
um som quando entraram no quarto de Sarah. L no havia ningum. Mas no tinham ido at l para encontr-la. Ela agora j no existia mais. Tinham ido para encontrar 
um ao outro. Para eles, era s o comeo. 

FIM






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1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e 
tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

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